Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor, autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Graduado em Letras/Inglês pela UNEB Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Shy Moon

Shy Moon

quadro de Junior da Hora

(Dedicated to Misses Adelaide)

Salvador; February, 24th 2006 (01h12 AM)

Shy moon that shines in the sky,
You are a lonely luminary of darkness.
You are the singular goodness
That bathes me, a sad traveler
Who walks alone in the nightly ways,
Gloomy, naked and ghostly ways.

Timidly, you follow me
Obscured by gray clouds,
And spills your moonlight on me
(Ethereal and silver tears).
Shy moon, you kiss me,
Caress me, Console me
This dark beast called
Loneliness.

The Werewolf

The Werewolf

(Dedicated to “Aunt” Sonia)

Salvador; February, 23th 2006 (01h38 AM)

The poet is a lonely werewolf
Who roves through desert prairies
In the night of storms and thunderbolts.

His claws devour the land’s guts,
His verses are his canine hunger,
His poetry, the anguish for glory.
He constructs gradually his books,
Step by step, satisfying his guts,
While the glory escapes him, like Tantalus.

He roves, lonely like a coyote,
Through the gray prairies,
Looking for a resting place.
His lacerated body wants to sleep.
Dead, his arms desire the end.
But his soul rules: go on and on!

Poor poet! Poor lonely werewolf
Who keeps walking in the darkness.
His curse, however, is humankind redemption.

(thanks to my dear teacher, Misses Adelaide, in the correction)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Little Poem

Little Poem
Salvador; October, 18th 2005 (at night)

Forget my love.
Forgive my life.
Forbidden are my dreams
Forever all the times.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Textos, Vinhos & Surpresas (Esboço de uma teoria de criação literária - ou um mero depoimento)

Textos, Vinhos & Surpresas
(Esboço de uma teoria de criação literária - ou um mero depoimento)

Salvador, 20 de fevereiro de 2006

Sinceramente, eu sei que estarei falando um chavão, mas aprendi a lidar com meus textos da mesma forma como eu trato os vinhos: deixo decantando-os. Escrevo, e pronto! às vezes sou tomado pela euforia de achar que o texto está uma maravilha, às vezes eu e o texto nos estranhamos. Por isso que deixo os textos descansar algum tempo depois de escritos.

Sei que a minha emoção inicial com os textos é passageira. Quando eu os deixo de lado por um tempo, eu acabo vendo nele, com mais clareza, seus defeitos e qualidades. Emendo, se for o caso ou o abandono nos meus arquivos. Pode ser que tempos mais tarde, eu releia estes textos esquecidos no arquivos e acabe me surpreendendo (como já me aconteceu com um poema, que eu achei mediano e o que foi mais bem aceito em concurso e publicações).

Continuando a comparação, há texto que são um Beaujolois que só interessa quando jovens (depois de um tempo ficam fracos por serem circustanciais), outros são como os Chianti, precisam de poucos anos para amadurecer serenamente e há finalmente os Riesling alsacianos, mais complexos, que precisam de décadas para serem apreciados.

Pois bem, este é o meu depoimento.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Balada para o Progresso de Valença

Balada para o Progresso de Valença
Valença, 09 de fevereiro de 2005 (02h33)

Valença, amo-te como mãe e amante
E em teu seio quero fecundar glórias.
E por amá-la desesperadamente,
Insurjo-me contra tuas mazelas.
Como pode uma cidade rainha
Ver teus filhos imersos no mangue
Da miséria e da ignorância?
Como pode uma cidade pioneira
Na industria e no progresso
Estar assim tão pobre, sem futuro?
Como pode uma natureza tão exuberante
Ser depredada e mal gerida,
Ver seus frutos apodrecerem
Por falta de oportunidade?
Como pode um passado tão singular
Ser olvidado e descartado como lixo?
Como pode uma Níobe de pensadores
Visionários ver nascer agora
Uma geração bastarda incapaz de olhar
Para ti, minha mãe, e nada fazerem
Para que brilhes mais uma vez
Na constelação brasileira?
Por isso que pena se faz de flagelo
E açoita tuas mazelas e descaminhos,
Pois não posso –sem lágrimas nascer–
Ver a cidade em que nasci e sempre amei,
Ver tuas glórias e prosperidade
Esvair na cauda do rio Una
E dissiparem-se no Mar do Esquecimento
E no deserto inclemente da Eternidade.
Valença, meu amor violentado,
Reaja de tua inércia e do teu letargo,
Refloresça tuas flores e veja teus frutos
Romperem a aurora e ganhar o Futuro
Com suas garras e sua astúcia.
Pois uma cidade tão doce e bela,
Formosa como uma Deusa Hindu,
Fecunda como a Esperança,
Não pode nem deve ser mal cuidada…

O Meu Menino de Valença

Meu Menino de Valença
Salvador, 17 de fevereiro de 2005 (22h46)

Meu menino de Valença
Não subiu em árvore,
Porque no cume de seus livros
Tornou-se senhor do Himalaia.
Não fez ginástica,
Não andou de bicicleta,
Não montou em burro bravo,
Não jogou bola pelas ruas
Nem tomou banho de mar.
Contudo conquistou o mundo
(primeiro pela voz de sua Tia Vera,
Depois nos seus olhos pueris de alfabetizado).
Meu menino de Valença,
Quando inocente infante,
Foi companheiro do Capitão Nemo
Em suas viagens no Nautilus;
Conheceu os irmãos Franchi da Córsega;
Conheceu os vulcões da Islândia
Onde residia o palácio encantado
Da valquíria Brunhilda.
Conheceu a Roma da Loba,
Roma das Sete Colinas
E das colunas de Trajano e César.
Conheceu a Tróia de Aquiles e Heitor
E do cavalo maravilha de Odisseu.
Ah, meu querido menino de Valença!
Quão felizes foram seus dias de infância
Que o sol, dentre acerolas e graviolas,
Vinha avistar sobre os ombros
Seus sonhos e fantasias impressos no papel.
Não desejava uma senhora Robinson
Nem conhecia os reality–shows da moda,
Muito menos as cifras e os cifrões vinham-lhe
Roubar o sono e o sossego.
Mas meu menino de Valença
Cresce o corpo e envelheceu
A voz, a barba e a malícia.
Ficou mais triste e carrancudo,
Não viaja mais com Nemo
Nem passeia a cavalo pela Córsega.
Porém continua amando os livros
E em meus versos ele ri,
Escondido como matreiro saci,
A brincar com meus sonhos
E trazer-me uma alegria antiga
E esquecida…

Soneto em Bossa Nova

Soneto em Bossa Nova
(após ouvir Tom Jobim)

Salvador; 03 de maio de 2005 (03h30 – 03h33)

Copacabana é um suave beijo salgado
De um samba novo, macio, desafinado.
É um piano dedilhado por um mestre,
É um copo de uísque, sozinho, à beira-mar.

Copacabana é uma bossa querida de violão
Que calmamente vem encantar um coração,
E massageia Ipanema com teus cantores,
Com teus poetas devotos, boêmios trovadores.

Copacabana tem um sol poente que faz
Rir teu sorriso melancólico e chorar tuas
Lágrimas de amor e tuas belezas nuas.

Copacabana; Ah Copacabana! Eu falo assim,
Sem te conhecer além das canções de Jobim,
Mas com um não sei quê, de u’a tristeza sem fim…

English Absinthe


Natureza Morta - quado de Junior da Hora
(http://www.rrtv.com.br/juniordahora)

Salvador; May, 31th. 2005 (02h12 PM)
[Salvador, 25 de fevereiro de 2002]

Your scent, green emerald rich
Is the invitation to orgy.
Your fascinant lips oof hot breath
Are the fire of the gods,
Are the fatal game of the lust and pleasure,
Are the silence where
The devilish fetish of souls
That burn minds and eyes:
Ilusions weaving a sweet and tragic poetry,
Magic poetry of the green star absinthe…

Ação e Conceito em 07 minutos


Quadro de Junior da Hora
(
http://www.rrtv.com.br/juniordahora)

Salvador; 16 de fevereiro de 2006 (23h24)

Não quero o amor, mas o Amar.
Não quero o amor enquanto ente
Ontológico de ficções e teses.
Quero o amor como ação humana:
Frêmito de virgem e soluços de orgasmos,
O toque de pele e a palavra
Cruzando as nuvens párea encontrar-se
Com a amada distante.
Não quero o amor como ser teológico
Distante da vida e da arte.
Quero o amor que surge do pincel
Massageando uma aquarela
Ou da lira vibrando sonetos eróticos.
O Amar que eu quero é o dos dedos d’amada
Fazendo cafuné depois do prazer.
O Amar que eu quero é do Verbo novamente
Se fazendo em carne, num novo
Ato de Criação…

Da Profissão do Escritor

Anjo Azul - quadro de Junior da Hora
(
http://www.rrtv.com.br/juniordahora)

Salvador; 21 de julho de 2005

Não sei porque ainda escrevo.
Os arautos dos dogmas e das mentiras explodem suas algaravias,
Como que grávidos de um super-homem nietzschiano:
Ora, se queres sonhar, sonhe algo útil como ser pedreiro,
Ou então sonhe calado como os mortos no esquecimento.

Mas meus sonhos de poeta não são covardes nem inúteis.
É com ele que eu trago a luz para os cegos mentais,
Trago a sabedoria para os fariseus e para os jovens,
Trago o verde para o cético e para arcanjos,
Trago coragem para o fraco e o combatente,
Trago vida para o suicida e para os leprosos,
Trago o amor para o descrente.
São meus sonhos que curam minhas feridas e regeneram
Minha força para continuar a batalha do pão-nosso da existência.

Mesmo assim, eu ainda não sei porque escrevo.
Talvez eu escreva para alegrar minha prima distante,
Ou porque eu possa criar um novo mundo,
Ou porque eu passe meu tempo e me divirta.
Se eu escrevo, é porque (talvez) um mistério se realize pelas minhas mãos
E um novo ser brota de minhas entranhas
E expõe as mazelas dos arautos dos dogmas e das moedas,
Denuncia a passagem diária do cortejo do sanatório,
Açoita a mediocridade alheia e o inspire a mudar.
Eu ainda escrevo porque eu não estou fora da realidade onírica
E tenho um mundo de lirismo para contar para meus irmãos.
Escrevo porque o instante exige que eu brade a espada de Mishima
E corte as iniqüidades do não-ser e da não-vida.

Não sei porque ainda escrevo,
Quando os comandantes das desilusões atacam com suas naus de invejas,
Quando os fazendeiros da insensatez dizem: não vale a pena lutar!
Quando os mercadores da desgraça ficam seu marco de posse na consciência,
Quando os narcotraficantes do medo imperam com seus cajados torpes,
Quando os profetas do ódio galvanizam as massas contra os poetas.
Eu estou sozinho contra este exército do mal absoluto,
Mesmo assim, uma voz na caverna de meu espírito ordena:
Prossiga. Persevere!
Sim, por isso que eu ainda escrevo e teimo em escrever.
Meus sonhos são maiores que o mundo…

Vertigem

Vertigem

Salvador; 16 de fevereiro de 2006 (23h17)

Eu quero a vertigem da falésia
Quando ao lado de minha musa
Meu coração repousar. Quero
O abismo insondável da paixão
Avassaladora, a eterna perdição
D’encontrar n’amada meus devaneios.
Quero a féerica tempestade
Da música espanhola, que coloca-me
A um passo, no limiar do salto.
Não quero o pulo, prefiro a vertigem
Dos apaixonados frente à eternidade.
Quero as estrelas debaixo de meus pés
Quando minha musa levar-me ao parapeito
E, ao cruzarmos nossos olhares
Diante das tormentas de andares acima
E do paraíso de andares abaixo,
Quero encontrar nos olhos dela
Esta doce vertigem do amar…

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

O Poeta e a sua Musa


Eu e Elisabete P. Barbosa, aquem dediquei meu livro "Estrelas no Lago"

The Uncle Simon’s Folk Tales


The Uncle Simon’s Folk Tales
(Dedicated to “Aunt” Sonia)

Salvador; Jan, 24th .2006



Uncle Simon was a tailor that told folk tales. He liked to tell them stories very much, maybe, because his life had been very adventurous. When he was younger, he had been a painter and made friends with Pablo Picasso, Joan Miró, Tristian Tzara and Salvador Dali. Afterwards, he fought with the Republicans in the Spanish Civil War and with the French Partisans in the World War II. He ended up being imprisoned by the Nazis in the same concentration camp Jean Paul Sartre escaped from. After the wars finished, he lived in a Benedictine Monastery in West Germany, where he read some interesting books of History, philosophy and Arts in the library and learned his job. Because he was accused of being a communist, he was exiled. Then he went to the Isle of Man, where he has been living so far.


Every afternoon, Uncle Simon was visited by his young friends Anthony, Barbara, Charles, Christian, Edison and Richard. The “Six Fabs” – as Simon used to call then – went to his workshop to shoot the breeze a lot until the night came on. Sometimes, they helped the tailor; buying a thrade rolls or handing out clothes at the counter. At twilight, the tailor ended his work and began to tell his amazing stories. They were stories of Asian kings, Greek monsters, Muslin sailors, Africans sirens and Russian fairies; or, he told Jewish legends, Hindi fables or Chinese short stories. The Six Fabs’ favorite story was “The Fable of the Angry Lion”. Let the Uncle Simon tell us the story.


“— Once upon time there was a Lion. He was the jungle’s king and all the animals respected him. The Lion was a violent but fair ruler. However, one day, he woke up angry because he had a lot of nightmares at night. All the animals were scared and go together at clearing. Who could calm down the King? Then, the Camel remembered that his king liked to hear amazing fables and legends. “Who is courageous enough to tell an excellent story to ours king?” asked the Elephant. A dreading silence involved the meeting, until the Fox shoulded proudly: “I know three hundred amazing fables, legends and fairytales of world wide. I believe that our king is going to love one of then”. All the animals were satisfied with the fox’s confidence and they walked to the King Lion’s Den. In the middle of journey, the Fox stopped frightened. “Dear friends! Unfortunately I forgot a hundred of my fables”. “No problem” said the Raven “One of two hundred fairytales and legends left may appease the angry lion”. The animals continued the journey. The Fox was a little worried. Well, a quarter of a league up the King Lion’s Den, the Fox stopped again the committee and said, bursting into tears: “My, oh my. I forgot another a hundred of my legends. I can only remember my fairytales”. “No problems, valiant Fox”, the Raven consoled hers “You still have a hundred of fairytales that may make our king happy”. The Fox continued the journey. He was very sad and scared. When the animals arrived at the King Lion’s Den, the Fox fainted. Preoccupied, the animals awaked the Fox. When he woke up two hours later he told that he had forgotten the last hundred stories that he still remembered. The Lion was too impatient and the rest of animals did not know the solution for the question, until the Jackal said to the Camel: “You know that I am not as so smart as the Fox. But, I heard a little story when I was a cub. I could tell it to ours king, the Lion”. All the animals agreed on the new plan, though they were skeptical about that the Jackal could be a new impostor like the Fox. The Jackal went into the Den. Again a new dreadful silent involved the Jungle. After half an hour, the Jackal returned to the animals, with the Lion. The Jackal was wearing the medal of the Premier. “What story would the Jackal have told the Lion that made him became the second most important ruler of the Jungle?” The Camel asked to new Premier. “Dear friend” said the Jackal “I only told the Lion the Fox’s trick. The Lion laughed loudly and gave me a wise advice: ‘Only in Danger you can separate Courageous men from the Impostors’”.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Lendas do Amparo

O rio Una seguia plácido dentre Valença enquanto um sol alaranjado do crepúsculo cobria de escarlate e vinho a cumeeira de dois montes no horizonte. Por que cumeeira? Os montes surgiam como dois seios túrgidos e lúbricos de morena sensual cujo rio era o seu ventre lascivo e fecundo. E no alto de uma das colinas o sol era uma casta coroa criselefantina a rodear a santa e veneranda igreja de Nossa Senhora do Amparo.

- Pai, por que igreja foi construída lá no alto? - perguntava o filho caçula enquanto comia um pastel no calçadão da Orla do rio Una.

- Bem, diz minha avó materna, que quando criança ela ouviu de um mascate em Sarapuí, que um rico fazendeiro da região, valente como um bandeirante e arrogante como um coronel, deu para cavalgar furiosamente pela colina, como a desafiar a Deus e o Diabo com sua correria. O cavalo corria como corisco a cortar cataclismos com suas crina de carvão e coragem por força do castigo inclemente da chibata cortante do centauro que o cavalgava. Pulava os arbustos como se brincasse com um fogo, a subir pelas escarpas. Até que, lá no alto, como a vingar dos acoites, deu um coice e derrubou bruscamente seu cavaleiro. Queda feia e seria morte certa se o fazendeiro não tivesse clamado amparo a Nossa Senhora, com toda a humildade do coração (embora já estivesse entregando a alma ao destino). Acordou lá embaixo, horas depois, já às margens do rio, tendo o corpo coberto com alguns arranhões - apesar de ter rolado de uma grande altura. Dizem que depois ele se tornara um homem piedoso repleto de fé, e que construiu com suas mãos uma igreja para sua protetora.

* * * * * * *
- Que nada! - dizia, da janela de um dos casarões na praça da República, uma comadre fofoqueira para seu amigo, Dr. Mustafá Rosenberg - Não teve queda de cavalo. Segundo minha tia freira carmelita, ela ouviu de uma madre superiora cuja família é amiga da família do professor Jorge Aguiar, que a igreja foi construída ali porque, muito antigamente, havia uma imagem de Nossa Senhora que, posta no altar mor da Matriz do Sagrado Coração de Jesus, projetava sua sombra no alto do morro, como a indicar o local de sua moradia. Foi assim que povo daqui construiu seu templo lá em cima.

* * * * * * *
- Foi milagre sim, mas não de sombra no altar! - Replicava o magarefe no Mercado Municipal para seu cliente - a verdade meu amigo, contada pelo meu padrinho, professor Martiniano Costa, que ouviu das bocas dos pescadores do Tento (amigos deles), foi que há muitos anos um barco de pesca daqui da cidade havia se perdido em alto mar durante uma tormenta. A tripulação, vendo o naufrágio iminente, começou a rezar para Nossa Senhora. E estava uma onda enorme a abrir sua boca de demônio e a devorar o barco, quando ela apareceu com seu manto azul e branco. A onda fechou suas mandíbulas e o tempo serenou. Nossa Senhora estava lá no alto do monte como um farol, indicando com seu dedo a foz do rio Una. Chegando são e salvos, eles em gratidão construíram a capela do alto do morro onde ela amparou seus filhos pescadores. Mais tarde o povo a expandiu o castelo da rainha de Valença.

* * * * * * *
- A história dos pescadores que se salvaram no naufrágio realmente aconteceu - contradizia o sacristão dentro do salão da Casa Paroquial, enquanto conversava com as professoras Dinalva Teles, Ana Franco e Rosângela Figueiredo - mas a igreja já existia. O que professora Macária me contou foi que encontraram nos arquivos da arquidiocese de Salvador o relato de um viajante que falava de um grupo de escravos fugidos afilhados de Nossa Senhora. Estes, tentando escapar daquele rico fazendeiro da primeira lenda, teriam se dirigido para a colina, achado a imagem da Santa Mãe de Deus e orado para ela. Foi então que ela apareceu e os amparou, escondendo os escravos em seu manto e ludibriado o dono feroz e o capitão do mato que os perseguiam. Mais tarde, foram pedir refúgio ao bom pároco da Matriz. Este, devoto da Virgem Maria, ao ver a imagem e ouvir contado do milagre da fuga; percebeu que ela era madrinha destes negros e fez que Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana comprasse a liberdade deles, que depois construíram o santuário para sua Benfeitora.

* * * * * * *
Do alto de sua torre de marfim, o doutor professor de História ri baixinho, pensando: pobres ignorantes, tudo lenda, pura lenda, só lenda...

Mesmo que sejam simples lendas, o poeta não deixa de bebê-las em êxtase (junto com seus amigos Cristiano, Flamínio e Pablo e seu primo pintor Junior da Hora) enquanto o sol coroa a Igreja de Nossa Senhora do Amparo e o rio Una de águas negras corre como um ventre fecundo que divide o horizonte em dois seios femininos...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Sabedoria Bagdali

Uma nação sem grandes poetas jamais chegará a ter grandes políticos”

*** Frase pintada em placa de madeira na entrada do Sindicato dos Escritores Iraquianos, bairro de Karada, periferia de Bagdá


Fazendo um comentário marginal a esta citação, dois pontos curiosos devem ser notados:

01} Mesmo num país com problemas de organização política (agravados com a invasão norte-americana) como o Iraque, os escritores estão organizados em um Sindicato. Por que a nossa democracia brasileria ainda não conseguiu um feito desse?

02} Tudo bem, que os escritores tenham o direito de se enclausurarem numa Torre de Marfim. Mas que não se esqueçam que também SOMOS cidadãos e que a poesia TAMBÉM foi feita para revelar e transformar a realidade.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Baile de Máscaras Mortas

. Este encontro poderia ter sido numa recepção de casamento ou num velório – mas aconteceu numa mesa de boteco meio vagabunda. E os nossos personagens poderiam ser os Três Mosqueteiros (ou os Três Patetas) – mas são somente três amigos de infância: Aquiles, Jonas ou Nero. Jonas era professor de geografia, trazia uma pasta com livros, usava calça jeans e camisa pólo. Nero era um obscuro redator de telejornal e usava bermuda e camisa regata, pois estava no seu dia de folga. Aquiles era advogado e acabara de voltar do tribunal de pequenas causas.

. Era um final de tarde de uma sexta-feira estafante e a mesa de bar fora o porto inseguro para afogar as pequenas decepções diárias. Várias garrafas de cerveja no chão e pratos de petiscos refletiam rostos vermelhos e sorrisos alcoólicos de nascimentos fugazes. Recordavam agora os tempos de escolas:

. — Lembra-se do professor Carrasco da Cicatriz?

. — Claro! E os seus bordões? “Enquanto os outros estão perdidos em conta um por um os ângulos, você aplica este macete de colocar menos um em evidência e pronto! Podem dizer que mataram a pau a questão e eliminou concorrente”.

. — Sim, e ele continuando dramaticamente: “Mas é claro que eu não precisava dizer este macete. Vocês já sabiam disso por você são alunos astutos! Alunos… inteligentes. São alunos…”.

. — … do professor Wellington! — concluíram em uníssono e às gargalhadas.

. Era bom relembrar estes tempos tão estranhamente prazerosos! Claro que se perguntassem aos três na época, eles diriam que esta era a pior fase de suas vidas. Mas agora que tinham carreiras sólidas e inúteis, levavam uma vida adulta tão vazia existencialmente, aqueles anos passados era vistos com falsa nostalgia… ou como ponto de partida para ironias.

. — Aquiles, lembra-te do que você queria fazer na vida?

. Aquiles se recordou amargamente dos seus ideais. Frívolo quando jovem e aluno mediano, seguiu a carreira jurídica por imitação ao padrinho, que era desembargador e professor de Direito Romano. Fez um curso regular, mas nada de diferente da maioria de seus colegas arrivistas e pedantes. Mesmo assim fora arrebatado pelo ideal da Justiça e gostaria de ser um grande juiz penal a serviço do bem da comunidade. Sonhava com a glória e a notoriedade de condenar um grande criminoso – mesmo que isso custasse a sua própria vida. Passou a ter a juíza Denise Frossard como musa de seus devaneios. Só que acabou prestando exame para OAB. E seus ideais de servir ao bem comum transformaram-se em modorrento trabalho de ora a defender um bêbado arruaceiro, ora a processar o cachorro de um vizinho. Ficava enfurnado no seu escritório. Os rendimentos são razoáveis que permitem uma vida sossegada. Contudo, há dias em ele se pergunta: de que vale este sossego? Seria melhor uma vida curta e gloriosa do que este longo ocaso da existência?


. — Claro que eu me lembro? Ser vir a Justiça pela bem da comunidade! E é isso que estou fazendo, aceitando as pequenas causas. No mais, gosto de minha vida calma, mesmo longe dos holofotes — E Aquiles bebeu vorazmente seu co-po para afogar a mentira que dissera a pouco.


. — E o seu livro, Dom Nero! Quando ele será lançado e ser aclamado como membro da Academia?

. À medida que Nero alargava seu sorriso amarelo ele se recolhia constrangido no fundo da cadeira. Nero gostava de ler e de escrever. Queria ser escritor – por isso optou em cursar Jornalismo. Mas se decepcionou com a faculdade. Longe de formar novos literatos do porte de um Lima Barreto ou de um Olavo Bilac, o curso formava repórteres e apresentadores de TV. Fez um curso regular e longo por odiar fazer reportagem e trabalhar com meios eletrônicos. Nesses anos penosos tivera algum alento quando publicou alguns contos promissores – O que o levou a prometer a escrever seu grande livro – algo que o projetasse no mundo literário. Assim que se formara, ainda pensou em trabalhar em no caderno cultural de algum jornal impresso. Para sua frustração, ficou pulando de assessoria em assessoria de imprensa até ser contratado como redator de um telejornal sensacionalista. Felizmente não aparecia de frente das câmeras, mas não lhe agradava redigir noticiários policiais ou fofocas de artistas. Nem suportava assistir a programação vulgar e medíocre da empresa onde trabalhava. E o livro ia sendo procrastinado, procrastinado…

. — Minha obra prima? Vai bem obrigado. Ontem redigir algumas páginas. Bem, uma obra prima não é feita assim, de uma hora para outra. Sabem quanto tempo levou Goethe para escrever seu monumental Fausto? Por hora, contente-se em ouvir meus textos sendo lidos na televisão… — Nero acendeu seu cigarro. Tragava-o como um dragão, como a sufocar sua melancolia de não poder se de-dicar unicamente à literatura.

. — Jonas, cadê a gostosa da Rosinha?

. Foi então a vez de Jonas sentir o seu desconforto. Sua ambição era viver um grande amor. Estudioso e tímido, passou a adolescência inteiramente virgem, sem um namorico sequer. Durante os anos na Faculdade de Geociências chegou a freqüentar uns bordéis com os colegas e uns teve uns dois casos rápidos. Em compensação o curso foi espetacular. Seu sonho de valsa só apareceu fugazmente na pessoa de Rosa Bianca. Durante um ano e oito meses ele viveu seu idílio, que terminou melancolicamente com uma briga. Três meses ela se casara com um ex-namorado (o mesmo que anos antes havia traído Rosa com um amigo). Para o sentimental Jonas isso foi um desastre. Vogou dentre prostíbulos até conhecer a enfermeira Maria do Socorro. Ela se afeiçoara com o boêmio romântico. Ele sentia atração e carinho por ela. Depois de namoro morno e de um noivado sem tempero, casaram-se por inércia. Em lugar de uma paixão avassaladora, viviam os dois um casamento sem graça, com filhos a pagar e contas por criar. Como alternativa ao sexo bissemanal e burocrático, Jonas continuava a freqüentar esporadicamente os bordéis. Ele nunca pediu divórcio, pois no final sabia de sua carência afetiva e Maria o socorria perfeitamente quando o vazio resplendia em sua alma.

. — Sei lá! Só não cometem sobre ela para minha amada–idolatrada–salve–salve esposa — E ele correu para o banheiro a fim de enxugar u ma lágrima teimosa que insistia em descer e o envergonhar em frente aos amigos. Voltou com o rosto molhado e os olhos levemente inchados.

. — Amigos, sabem de uma coisa? O único que estava certo era nosso amigo Pierre Truffaut.

.Um silêncio de morte desceu sobre a mesa. Há exatos dez anos, o mais brilhante, o mais talentoso, o mais inteligente, o mais sincero e o mais sedutor dos amigos, não suportando a dor da doença, preferiu adiantar sua entrada no grande mistério da vida.

. Pierre nunca pediram licença para ser feliz e levou sua alegria aos extremos, mesmo que isso chocasse seus amigos. Tinha uma cultura invejável e permitira fazer seus cursos superiores com distinção. Amou as mulheres como o romantismo dos franceses e o ardor dos italianos. Ousou compor uma ópera bem sucedida e deixara alguns volumes de poesia e ensaios. Era sempre solícito e so-lidário com os amigos e sempre respondia um ato mesquinho com um sorriso e uma palavra de confiança. Escondia suas tristezas e dificuldades para levar conforto ao amigo. Tinha suas loucuras, seu opiniões extravagantes em relação à vida. E assim que recebeu o diagnóstico da doença fatal, resignou ao suicídio. Não queria sofrer nem fazer sofrer a quem amava. Antes, deixou um último pedido aos seus amigos queridos: Pedia que eles tivessem uma vida acima da mediocridade e digna de seus talentos e aspirações.

. Com o fantasma da promessa não cumprida ao amigo morto, os três procuravam encher seus vazios existenciais com fumaça de cigarro, porres alcoólicos e altas taxas de colesterol. Não demoraram muito para os três se despedirem deste baile de máscaras; e cada qual levava sua máscara morta de volta para sua mediocridade.

Um Charuto em Paris

Salvador, 11 de dezembro de 2004

. Finalmente Roberto chegara ao seu destino sonhado. Os anos passados na universidade não foram para que ele se tornasse um professor de literatura respeitado; foram para realizar um velho sonho de adolescente de província: flanar pelo centro de Paris. Não como um turista que cronometradamente sai da Torre Effiel para ver a Mona Lisa no Louvre – mas como um boêmio que se delicia com o crepúsculo às margens do rio Sena, sem compromisso com Deus ou com o Estado.

. A tarde estava agradável no final de outono. Depois de se alojar em um hotel confortável e barato nas imediações do Quartier Latin, ele vestiu calça negra, boina negra de veludo, camisa existencialista (modelo clássico de malha negra e gola rulê) e um capote negro a la Matrix. Dentro do capote, além dos passaportes brasileiro e espanhol, trazia um legítimo cognac, charutos Havana (Martinica produz bons charutos? Na dúvida, trouxe os cubanos), a mini antologia bilíngüe da poesia francesa de Cláudio Veiga e um livro de poemas de José Inácio Vieira de Melo. Estava pronto para baldear na Citè Lumierè.

. Saiu pela Rua de Vaugirad até o Jardins de Luxemburgo. Vagou entre a Rua Soufflot (Ah, o Panteão!) e o Boulevard Saint Germain. A Île-de-la-Citè em sua frente, com suas bancas de livros encheram os olhos de gula. Após comprar dois livros, caminhou até a Praça Saint Michel e procurou um banco tranqüilo onde pudesse contemplar o Palais de Justice.

. Sentou-se com gosto, como se fosse o próprio Jean Valjean ou um personagem de Sartre ou Balzac. Devidamente acomodado nos seus devaneios, ritualisticamente acendeu seu charuto. Após àquela letárgica e gaulesa baforada, bebeu uma dose longa de cognac. Que sensações singulares inundavam suas papilas gustativas! Para complementar o seu íntimo orgasmo intelectual, começou a ler os versos do Correspondances de Baudelaire.

. Já lia os primeiros versos quando viu um guarda chegando sua direção. Discretamente, Roberto apalpou o capote, para se certificar de que estava com os passaportes. Um incômodo começou tomar seu corpo com a aproximação do policial. Pensou em ignorá-lo, mas o perfil do guarda se agigantou em sua frente até fincar sua presença ante a Roberto. Na lapela lia-se: Pierre - CRS. O policial disparou a queima roupa:

. — Bonjour, monsieur!

. — Bonjour, monsieur! – respondeu Roberto com os olhos inseguros e se levantado cauteloso de sua extinta placidez.

. — S’il vous plaît,… - continuou o guarda, para o desespero de Roberto. Em seus ouvidos a fala da Pierre tornou-se um zumbido confuso. O que o policial estava falando? Roberto se lembrava de seu aprendizado: brasileiro, aprendera Inglês como segunda língua no ensino fundamental. Estudara Letras com Espanhol na Universidade por influência do avô imigrante. Depois Italiano para o doutorado em Leopardi. E embora gostasse muito da França, só desenvolvera pessimamente um francês de fronteira, para leitura e balbucio cinco ou quatro expressões. Como poderia se comunicar ele com Pierre?

. Roberto ficou calado em infinitos quinze segundos. Seus olhos se arquearam numa dúvida, como a indicar ao guarda seu incômodo. Pierre voltou a perguntar em francês quando Roberto segurou a coragem em seus lábios trêmulos e disse um "Pardon, monsieur, Je ne comprends pas", interrompendo o guarda. Este se calou. Seu rosto continuava simpático embora emanasse autoridade. Pierre olhava para o charuto aceso de Roberto.

.Roberto prosseguiu no seu francês estropiado:

. — Je suis… (Deveria ele dizer que era cidadão brasileiro ou espanhol? Temia o preconceito contra os latino-americanos. Preferiu dizer uma meia verdade) Je suis un brésilien.

. — Touriste brésilien? – Pierre franziu amigavelmente a sobrancelha. Seu olhar continuava fixo e sedento pelo charuto.

. Roberto continuou preocupado. Suas roupas não eram de um turista convencional. Qual seria o problema? Esta era sua primeira viagem ao exterior. Viajava sozinho, sem um roteiro prévio além daquele que traçara na juventude. Não esperava passar por aquilo. Por que não fora para Santiago de Compostella? Não, seu sonho era a Paris de seus romances. Discretamente voltou a passar a mão no bolso do casaco para se certificar dos documentos. Estavam lá. Que alívio! Seu charuto, que vontade de pô-lo na boca para poder aliviar a tensão! Que vontade de beber um gole de cognac! Roberto tomou de novo coragem e perguntou para o guarda se ele falava português. Resposta negativa. Não ousou falar em italiano, pois conhecia as rusgas entre Gauleses e Romanos. Nem arriscaria falar no idioma britânico. Arriscou o castelhano:

. — Parlez-vous Espagnol, monsieur?

. Outra resposta negativa. Pierre olhava ainda para o charuto que jazia esquecido na mão de Roberto, que cada vez mais ficava tenso. Seria proibido fumar em praça pública na França? Eu conhecia várias leis estranhas pelo mundo, mas aquilo lhe parecia um absurdo. Estaria o guarda suspeitando que estivesse com alguma droga ilícita? Estaria ele desconfiando que eu fosse um terrorista? Também, meu rosto moreno era mais levantino que sertanejo. E se o guarda visse meus dois passaportes? Roberto foi sendo tomado por um pavor interno que enrijecia suas cordas vocais. Seu sonho caía das nuvens para de suas cinzas nascer este pesadelo. Por um momento ele deixou de ser um professor universitário para ser um adolescente perplexo, com medo do castigo iminente.

. Finalmente Pierre chamou uma outra policial que passava naquele momento. Roberto se tornara pânico e vergonha. Seria preso agora, na frente de todos? A jovem guarda que se aproximou era simpática. Na lapela, lia-se Jeane D’Arc. Os dois trocaram algumas palavras até que ela virou-se para Roberto perguntou em português se ele era brasileiro. O sotaque levemente lusitano confortou o coração de Roberto. Ao menos alguém estava falando em português. Ele respondeu nervosamente que sim. Será que agora saberei o porquê da prisão? Com um sorriso de santa nos lábios, ela prosseguiu:

. – Meu colega Pierre queria pedir ao senhor um charuto. Ele aprecia os bons Havanas só que aqui eles são muitos caros e os de Martinica não lhe agradam…
Uma lufada de ar tranqüilo expeliu do corpo de Roberto todas as suas preocupações. Rapidamente tirou uns sete charutos de dentro do capote e ofereceu para os dois policiais. Jeane recusou delicadamente. Pierre pegou uns quatros e agradeceu efusivamente. Os dois partiram em sua ronda pelo parque.

. Roberto voltou para seu charuto. Sentou-se com o coração mais calmo. Tomou um gole de cognac e deu outra baforada, suspirosa e caribenha. Trocou de livro – agora desejava os versos pátrios de Zé Inácio. Roberto sentia-se mais do que nunca um personagem de Sartre ou Jean Valjean naquela tarde de Paris.

Retrato de Família

Salvador, 09 de maio de 2003 (20h48)

.O apartamento ficava em um típico conjunto de classe média. Não era grande, nem pequeno – era médio, com seus três quartos e a cozinha ampliada com a demolição da dependência de empregada. Cada quarto tinha um aparelho de televisão (mais um na cozinha) e na sala, uma enciclopédia empilhada no chão fazia a vez de mesa para o telefone. Era um apertamento normal de uma família normal – com direito a contas a pagar e dois automóveis. Lá vivia a família Sousa. Um pai, uma mãe e um casal de filho – o varão era o mais velho e a caçula, a filha.

.O filho primogênito, R, nós o encontramos agora de frente para a janela de seu quarto. A janela estava aberta, a noite era de outono e o vento constante, fino e frio anunciava em assovios sua presença. R Sousa olhou para o chão de andares abaixo e olhou para o céu de andares acima. Olhou para o infinito horizonte de uma cidade grande e horrorosa.

.Seu coração estava triste, chorava sangue muito. Seus olhos estavam banhados de melancolia e desengano.

.Em sua escrivaninha, seus escritos careciam de arrumação e denunciavam seu gosto por literatura e filosofia. Livros e manuscritos subiam em pilhas, alternando paráfrases de Goethe com máximas de Nietzsche, estudos sobre Schopenhauer e Sartre com versos de Dante e Lorde Byron.

.R contemplava o infinito escuro da noite. Em que pensava ele, neste momento? O que ele pretendia fazer neste instante?

.R pensava na sua família, na sua pobre e medíocre família.

.Pensava em seu pai, F, contabilista aposentado. F vivia sua vida de pacato cidadão comum, de quem começou a trabalhar logo que concluiu o segundo grau. Embora fosse esperto e um dos melhores alunos de sua turma, F não fez vestibular. Tentou uns cinco concursos para o serviço público para as áreas das mais díspares (com motorista da SUCAM e restaurador do IPHAN), mas não passou. Empregou-se em uma empresa média de serviços, onde ganhava razoavelmente bem. Podia até para viajar no fim do ano, com seu velho carro, mas nunca tinha dinheiro para comprar livros que não fossem precisar para escola. Aliás, achava um desperdício pagar RS 11,90 por volume de Homero ou Machado de Assis, se com esse dinheiro ele comprava pão para a família durante uma semana ou a santa gasolina do tão importante carro.

.R pensava também em sua mãe, J, dona de casa e ex-normalista. Sua pobre mãe, cujo único divertimento era a televisão. Não se cansou até colocar vários aparelhos pela casa. Mesmo que os olhos estivessem presos nas tarefas domesticas, a TV estava ligada, para que J pudessem saber da última fofoca de Leão Lobo e Márcia Goldsmith, das dicas de casa e cozinha de Ana Maria Braga e Claudete Troiano, dos casos de ADN de Ratinho, as pseudonotícias de Datena. E ela dizia orgulhosa que pela TV, ficava super informada do mundo, muito mais do que tivesse lido. Livro ela não tinha tempo para ler…

.R pensava na sua irmã caçula, S, que já tinha um carro e que nunca pegava em um livro. Queria porque queria entrar no curso de Enfermagem, mas não havia jeito ou maneira que a convencessem de ler algum dos clássicos de literatura que eram pedidos no vestibular. O motivo evocado era singelo e convincente: No cursinho, ela decorava os macetes e os resumos, o que lhe dava mais tempo para se dedicar às matérias específicas. E depois, (SE e) quando passar, de que adiantará os versos e os romances de autores mortos para o exercício de sua profissão?

.R pensava na sua vida. Pensava quando criança ele foi um dos primeiros na classe. Pensava quando era sempre chamado para fazer ajudar nas peças e nos recitais na escola. Pensava nas redações premiadas, que ornavam o ginásio no fim do ano. Pensou nos versos que figuraram na antologia ditada pelo colégio. Pensou nas notas altas que tirou em toda sua vida escolar. Pensou no teste de aptidão que fez e lhe indicou a trilha das Letras. Pensou também na tristeza da família, quando R optou pelo curso de Psicologia, em lugar de um curso mais nobre com Medicina ou Arquitetura (desejo de sua mãe melodramática), ou mais rentável, como Informática ou Economia (vontade de seu pai pragmático). Pensou e penou estes anos em que fazia uma faculdade sem estímulo e era assediado a fazer qualquer concurso público que lhe desse qualquer salário de quatro a cinco dígitos. Pensou nas horas em que ficava sozinho durante a noite, em seu quarto, ouvindo música clássica e escrevendo seus contos queridos, seus poemas maduros e suas peças teatrais inconclusas, como único consolo para sua alma. Pensou nas brigas que teve com seu pai, quando R trocou uma inútil carteira de habilitação por uma importante máquina de datilografia.

.R pensava na contradição que foi sua vida. E com o coração amargurado, olhou para o chão de andares abaixo e para o céu de andares acima. Olhou para o infinito horizonte escuro da cidade. Volveu o pescoço e contemplou seu quarto, cujas quatro paredes era uma única estante repleta de livros, livros, revistas, fascículos e mais livros. Sentiu em sua face o vento frio e constante do outono. Fechou os olhos e refletiu nos passos que iria dar naquele momento.

. com os olhos fechados, viu na miríade dos séculos as estrelas apaixonadas de Olavo Bilac, as quimeras íntimas de Florbela Espanca, o barco ébrio de Arthur Rimbaud. Viu a praga que sua família era para o mercado editorial. Viu várias famílias vivendo pequenos dramas iguais ao seu – de um jovem se recusar a seguir a alienante e alienada mediocridade da vida moderna. Viu uma legião de seres humanos vegetando na ilusão de terem nas mãos o carro do ano. Viu (com carinho e ternura) as mulheres que passaram em sua vida, que aceitavam serem musas mas recusavam a serem amantes.

.E com os olhos fechados, R subiu no parapeito da janela e colocou uma perna para fora. Seu coração batia acelerado. Sentou-se devagar. O vento zunia um réquiem amigo. Um sino funeral alhures replicava baixinho. Respirou fundo, colocou a outra perna para fora e…



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.Termino aqui o meu retrato de família. Sinceramente, não sei o que R fez. Não sei se ele pulou pela janela do décimo andar ou se seu espírito voou para as estrelas na cauda de algum poema. Não me lembro de ter ouvido choro de mãe ou grito de irmã. Não sei se S passou no vestibular ou se leu algum livro. Creio que seus pais continuam seguindo a sua vida normal: J assistindo Ratinho e Datena e F pagando em dias as contas da casa para mais tarde passear de automóvel – mas não tenho certeza de nada disso.

.Em todo caso, se o leitor ou a leitora quiser rezar para que Deus ilumine a alma de R, a ovelha negra queria ser um artista livre-pensador, peço que reze também para que iluminem a família Sousa também – afinal, ninguém merecia uma maldição dessa…

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Conto revisto. Edição original publicada na "Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - vol. 01 - Rio de Janeiro: CBJE, 2004" http://www.camarabrasileira.com/cs14.htm

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

What does Vidal like to do?

I imagine that my favorite activity my classmates “will not discover”: The activity that I love to do is… to write! Yes, I love very much to write a short-story, to write a poem, to write an essay. I have been writing poems since I was 14 years old (now, I am 27!). I have won some prizes with my poems – the last contest that I won a special mention was last month, October 2005. However, how is my process of writing? I teel you now.

I could say that I have a “exotic” preparation, like to drink a Medoc before I begin to write an erotic poem or listen to any music of Tchaikovisky or Villa-Lobos which inspires me. But I will create a myth. I only begin to write any text when I have a insight. And I do not need a special thing to help me, except a paper and a pen (or a computer). Usually I do not have a special place to write my poems or short stories: Everywhere is a good place to write when a I want. But, If you want to know where my favorite place to write a poem is, I will say that is by the shores of Una River, in my hometown. It is wondeful to drink a “warmep-up brandy” and write a poem on the shore of Una River during the winter’s crepuscule.

The time of day that is best for me to write is at night. I like to write at night because I may listen to my soul and my ideas in the silence of darkness. In the afternoon I prefer to “correct my proofs”. I do not know how often I am successful in writing because literary production is a lonely job with subjective result: How will I know that my masterpiece of yesterday will be the trash of tomorrow? And, usually, I do not have a feedback from of my public. Well, saying this, I answer that I prefer to write alone. So, it is hard that anyone writes a text with other people around.

Finally, to see my text printed or a bare praise is sufficient to make me feel good, it is sufficient that I have been successful in my activity. But, If I were to win the Nobel’s Literature Prize, would be also famous and glorious and, naturally, I would make much money with my books, I wouldo feel better!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Ricardo Vidal - Currículo Literário 2005



José Ricardo da Hora Vidal, escritor, nasceu em Valença (Bahia) no dia 20 de abril de 1978. Cursou o ginásio no Colégio Social de Valença e o Científico no Educandário Paulo Freire (sendo um dos alunos destaques ao concluir o 3º ano em 1995). Reside em Salvador desde 1996, onde cursa a Licenciatura em Língua Inglesa e Literaturas pela UNEB, após estudar (sem concluir) o curso de Jornalismo pela Faculdade de Comunicação da UFBA. Além de escrever, também é fotógrafo amador e programador visual.

Iniciou sua carreira literária em 1994, ainda estudante do curso científico, quando publicou a crônica “Saudade” no livro Quase Escritores, editado pelo Educandário Paulo Freire. Em 2002, foi o 3º lugar (menção especial Bahia) no concurso de poesia promovido pela revista literária Iararana (Salvador/BA). Em 2004, os poemas “O Farol e o Mar” e “Cântico dos Lírios” e o conto “Retrato de Família” integraram, respectivamente a Antologia dos Poetas Brasileiros Contemporâneos (08º e 10º volumes) e Antologia de Contos Autores Contemporâneos (01º volume), organizados pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores - CBJE (Rio de Janeiro/RJ). Seu poema “Cântico dos Lírios”, que havia sido uma das premiadas no concurso da Iararana, foi escolhido pela CBJE como uma das 100 poesias publicadas naquele ano, integrando assim o livro Panorama Literário Brasileiro 2004/2005 Poesia – As 100 melhores de 2004. Em 2005, Ricardo Vidal ganhou, com seu poema “Soneto da Solidão”, a menção especial no concurso de poesia promovida pela Academia de Letras do Recôncavo.

Na internet, tem textos publicados nos websites Sonetos.com.br, Nave da Palavra, Usina de Letras e Neocodex. Mantem o blog “Estrelas no Lago” (http://bardocelta.blogspot.com) e uma homepage na CBJE (www.camarabrasileira.com/ricardovidal.htm).

Em 2004 publicou o seu primeiro livro de poemas, Estrelas no Lago, pela Cia Valença Editorial (Salvador/BA). Ricardo Vidal tem ainda inéditos os livros de poesia Flores do Outono; Sombras do Luar; Brumas do Lago; Torre de Quimeras; Quimeras, Esfinges & Centauros e Peregrino en una Noche sin Luna (este último, em espanhol). Em prosa, tem inéditos Prosas Bárbaras (miscelânea de contos, crônicas e artigos) e As Corujas de Frei Ethereld (peça de teatro).

Ricardo Vidal é filho de Antonio José Conceição Vidal e Vilma da Hora Vidal, bisneto do Maestro Barrinha (autor da música do Hino de Valença), sobrinho do poeta Valdo da Hora e primo do pintor Junior da Hora (www.rrtv.com.br/juniordahora).


Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)