Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Encruzilhada - Prologo

ENCRUZILHADA - Romance de amarguras e desencantos

 DEZEMBRO DE 2005 (Prólogo)

A VENEZUELA ENTRA COMO MEMBRO 
PERMANENTE NO MERCADO COMUM DO SUL 


– Quem nasce em Passagem das Antas é o que? Só pode ser um ANTÔnio. – Não havia um encruzilhadense (ou mesmo alguém do Norte de Pindorama) que não iria rir esse chiste com o antigo nome da cidade. Ele ficava engraçado quando era dito por Hector, tetraneto do fundador da cidade, Coronel Antônio Dantas. E o cúmulo do humor era quando Hector a contava no momento que seu primo paterno, Antônio Dantas Porto, servia aos comensais o Filé Alto e os mojitos, no terraço iluminado do Bistrô Port Antoine, tendo o Rio das Antas à frente.

– Vá procurar um jegue viúvo na praia, Barão. – Antônio jocosamente ralhou com seu primo e se virou para Rosinha – Como é que você guenta essa disgrama inútil em casa? Você… (Preste atenção, Rosinha. Muita atenção no vou te dizer) VOCÊ merece o CÉU! PORQUE conviver com Barão todo dia deve ser dose pra LEÃO! Seu caso é de canonização imediata e súbita em vida!…Você será Santa Rosinha da Paciência Infinita! – e ao final, persignou a mesa como se fosse um frade abençoando a gulodice alheia.

A mesa toda explodiu em gargalhada. Artur, filho do casal, quase se engasgou enquanto dava a primeira mordida no filé. Ângelo virou-se timidamente de lado para rir, escondendo malmente o rosto como se tivesse vergonha em se divertir com a chalaça. Aníbal jogou a cabeça para trás esmurrando repetidamente a mesa enquanto gargalhava histrionicamente. Rosinha encarou zombeteiramente o marido e deu-lhe um beijo, dizendo entre risos e carinhos:

– Liga não, meu Aristogato, que sempre estarei em sua vida, aconteça o que acontecer. E se eu te aguentei até agora, posso te aguentar mais alguns anos! Minha paciência é infinita, não é?! – e afagava a cabeça do marido.

Hector olhou cinicamente para seu primo (que já se retirava para atender as outras mesas do Bistrô), mirou para cada um dos comensais na mesa, encarou especialmente o filho (que ainda chorava de rir enquanto tossia ao mesmo tempo) e sem nenhuma outra opção, também soltou sua gargalhada serena. Não haveria nada naquele momento que poderia mudar seu humor naquele jantar de fim de ano. Depois de mais de dez anos a “confraria” voltava a se reunir em Encruzilhada.

Hector de Aragão Dantas e Fonseca fora o último a se restabelecer em Encruzilhada, com o falecimento de pai em julho de 2005. Antes dele, Dr. Aníbal Barcelos de Cartaxo trabalhava na ala psiquiátrica da Santa Casa de Misericórdia de Encruzilhada desde dezembro de 2004, após seu pai, Amílcar Barcelos (atual provedor da Santa Casa) manobrar as contratações de forma satisfazer a vontade do filho que teimava em voltar para lá. Ângelo Mitrani Angelini fora o primeiro a retornar, pois desde 2003 trabalhava como funcionário concursado na terceira Inspetoria Estadual de Educação e Cultura.

A conversa seguia tranquila na mesa. Hector se sentara, na cabeceira, ficando sua esposa Rosinha no flanco direito e seu filho Artur no flanco esquerdo. Comentava animado sobre a consequência da entrada da Venezuela no Mercosul como membro permanente.

Hector emanava uma liderança natural na mesa, com seus 90 Kg distribuídos em corpo levemente roliço de 1,72m. Não negava o sangue – afinal, era o último de várias gerações de políticos e notáveis da história da Encruzilhada, tanto pelo lado materno quanto paterno. Do pai, Dr. Marco Aurélio del Pilar Fonseca, era descendente primogênito (de linha sempre pura e varonil) da família de Pitágoras Pancrácio Barros da Fonseca, o heleníssimo Barão da Fonseca – magistrado e fazendeiro capixaba que se estabelecera na região pelas calendas de 1887. Desse tronco se entroncam os principais intelectuais progressistas da cidade. Da mãe, D. Cleópatra de Aragão Dantas, era cria do venerando Coronel Antônio Santiago Dantas (também conhecido como Antônio “das Antas” pelos seus adversários políticos), militar e fazendeiro baiano que em 1885 comprou a Fazenda da Passagem e fez construir em Rio de Antas uma capela votiva para Santo Antônio – ponto de partida do município de Encruzilhada e do clã que a governou por mais tempo. Era irônico imaginar que, apesar do barão e do coronel serem concunhados, ambos geraram duas greis antagônicas na política local, cuja reconciliação deu-se em 1968, quando o varão dos Fonseca se casou com a princesa dos Dantas (embora continuasse, de forma latente, a velha divisão partidária entre “Gregos” liberais – que seguiam a família Fonseca – e “Antas” conservadores – que seguiam a família Dantas). O próprio Hector, na época de estudante, mostrou suas qualidades no movimento secundarista, como presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas e do Grêmio Estudantil Olga Benário Prestes, do Colégio Batista de Encruzilhada – além de ser presidente da seção local da Juventude Socialista do PDT. No entanto, a despeito dessas paixões atávicas que animavam sua índole, ele é um homem centrado, calculista e cordial, mais voltado a outros desafios que atiçasse sua mente, como é, atualmente, modernizar a velha Fazenda do Barão, que ele e seus meios-irmãos gêmeos Igor e Ivan Oliveira da Fonseca herdaram. Por hora, sentia-se feliz em comandar aquele jantar.

Sentado ao lado de Rosinha estava Ângelo, com um sorriso melancólico e olhar funéreo no canto do rosto taciturno. Mesmo com a risada e estando entre velhos amigos, era o menos descontraído e por isso mesmo era quem mais bebia os mojitos. Mas esse silêncio terminou quando começou a citar de memória várias informações referentes ao Mercosul: Declaração de Foz de Iguaçu; Tratado de Assunção; Protocolos de Brasília, de Olivos e de Ouro Preto; estrutura da organização; índices socioeconômicos, relações com a Comunidade Andina. Também fez análises da relação do Mercosul com a natimorta Área de Livre Comércio das Américas e a Alternativa Bolivariana para as Américas e ponderações ideológicas sobre a entrada de Chávez no grupo. Por essas e outras que Artur chamava Ângelo de Tio Google.

 Ângelo tem sangue italiano por parte de pai e judeu sefardita por parte de mãe, distribuído em um corpo delgado, com traços de um moreno mediterrâneo e rosto levantino. Cresceram sob a égide de uma educação tradicionalista, castradora e rígida, às vezes com uma frieza nas relações interpessoais que deixou cicatrizes em sua alma sensível. Nascera para ser um intelectual e sempre procurou se cercar de livros, mas trazendo o sinal indelével de que viveria em um permanente exílio pessoal. Da mãe, Esther Malka Mitrani, descendente de judeus mortos durante a Segunda Guerra Mundial, trazia a melancolia dos guetos e a resignação de quem nunca foi bem vista pela família do marido. O pai, Dante Borges Angelini, homem honrado e trabalhador, sempre teve a necessidade de se firmar como um chefe da família autocrata, através de atos duros e paternalistas, economia nos elogios e fartura nas críticas. Tentava assim contrabalancear a educação mais refinada que sua esposa, de certa forma, passava para seu filho único – Dante queria moldá-lo a sua imagem e semelhança, nas virtudes, e nos vícios, nem que fosse a marteladas. Diante disso que Ângelo escondia sua tristeza sendo a pessoa prestativa e sempre transmitindo otimismo para seus amigos. Essa generosidade poderia ser vista na forma como compartilhava suas informações na mesa: sem ser pedante, mas preciso nos dados. E humilde em reconhecer algum equívoco cometido.

Sentando em oposição a Ângelo, Aníbal segurava seu copo de mojito como uma pantera sedutora. Discretamente se inclinava para a direita e fazia sutis meneios de cabeça, para observar com mais calma outra mesa atrás de Hector, onde duas onças pintadas no cio também o despiam com desejo – esperando o momento certo do bote. Mas, como bom mestre dos encantos, Aníbal disfarçava a caçada e intervia nas conversas trazendo sempre uma visão diferente, inovadora. Conjecturou sobre uma possível evolução do Mercosul como União da Nações Sul-Americanas, mostrando as possibilidades de, em curto prazo, a Bolívia vim a pedir sua admissão no bloco, em lugar da ALBA do Chávez.

Aníbal era o único dos amigos que não nasceu realmente em Encruzilhada. Era rebento de Nova Lisboa, cidade das Serras Ocidentais de Pindorama, mas viera para lá ainda criança, quando seu pai assumiu um cargo na Secretaria Municipal de Saúde na cidade vizinha de Senador Sena. Sendo um filho de autoridade, sempre teve o comportamento mais rebelde dentro da turma, sinal claro de um espírito livre que propunha as maiores aventuras para a “confraria”, convencendo a todos com seu jeito magnético. Não tendo o senso de liderança de Hector e nem a vastidão intelectual de Ângelo, Aníbal completava a troika com sua criatividade e sua sedução inata. Isso acontecia naquele momento, o mesmo tempo que embebecia a todos na mesa com seu discurso e atraia a atenção das garotas da mesa vizinha.
A conversa seguia animada sobre atualidades quando Antônio Porto voltou para a mesa trazendo uma bomba. Limpou a mão no avental e pegou uma cadeira vazia de uma mesa próxima para se sentar com o grupo. 

– Vocês que sempre se meteram em política e são do partido do governador, acabei de ouvir uma notícia de primeira mão. Olhe só: Tanto o prefeito Adolfo Somoza como seu vice Benito Franco, os dois foram CASSADOS! Já saiu no diário oficial o pé na bunda do Grego! E se acha que falta pimenta no vatapá, preparem a goela: O ministério público acatou as denúncias de crime eleitoral contra o OUTRO candidato, Ananias César Mourão, que corre o risco de, SE assumir, NÃO concluir o MANDATO! Já pensou como deve está fervilhando o Covil das Antas, ao ver que mesmo ganhando, não levarão a prefeitura? – E se aproximou de Hector, falando mais baixo e perguntou seriamente para o primo – E aí, Barão? Caso também o Malvado Ananias seja degolado pela justiça eleitoral, como ficará Encruzilhada nessa história toda? Será que o candidato do seu petezão, que ficou com menos votos que os brancos e nulos, assumirá a prefeitura? Ou será que a eleição será anulada? Dizem que por aí que isso tem dedo de Trajano Nunes com vistas na reeleição do ano que vem…

Nessas horas os olhos dos três amigos brilharam… Nunca imaginaram uma situação dessas na pacata e previsível vida encruzilhadense, em que grego e antas, pela primeira vez na história, estarão fora da prefeitura. O ritmo da conversa foi toda voltada para as análises e implicações daquela notícia. E não era para menos: o ano de 2004 ficou marcado com o da eleição municipal mais tumultuada em Encruzilhada, recheada de denúncias e acusações mútuas e lances rocambolescos que tornava impossível não haver um segundo ou terceiro turno na justiça. E os possíveis cenários que se vislumbravam para 2006, resultantes do desdobramento das ações do Judiciário, abriam um leque sedutor para o xadrez verbal que os amigos sempre cultivaram entre si. Apenas Artur ouvia isso com indisfarçado tédio adolescente de quem está cansado de presenciar as intermináveis conversas sobre política entre pai e seus tios emprestados…

…………………………………………

O terraço continuava iluminando pela lua cheia e pelos holofotes na porta do sobrado colonial onde o Bistrô Port Antoine fora instalado. No primeiro andar funcionava a cozinha, o escritório e o restaurante VIP, enquanto no térreo onde ficavam o lounge, o bar, a pista de dança e o pequeno palco para os músicos e eventuais comediantes de stand up que Antônio contratava, para animar a casa e dar um pequeno ar de sofisticação à cidade. E por não ter concorrentes a altura, o Bistrô Port Antoine era onde desfilava a pequena elite tacanha e provinciana de Encruzilhada. 

Morgana Malaparte Macieira, diretora geral do Hospital da Santa Casa de Misericórdia (motivo pelo qual passou a ser chamada de Doutora Macieira na cidade, não obstante seja apenas Mestra em Saúde Coletiva), entrava no restaurante junto com seus três filhos – Jessé, José e Joana, vindos da missa, para tomar seu imutável caldo verde das noites de sexta-feira. Ao avistar Aníbal no terraço, falsamente o cumprimentou com morna alegria. Porém, ao ver Dr. Segismundo Frota saindo com uma de suas “sobrinhas da capital”, ela largou de mão sua habitual dissimulação, saudando friamente o seu rival. Por isso que Morgana prontamente se apressou a sentar-se numa cadeira no fundo do bistrô e agradeceu a Deus que Dr. Frota já estivesse de saída naquele momento. Para ela, partilhar o ambiente social com ele era como macular sua putativa imagem de santa esposa fiel, cujo marido trabalha na extração de petróleo em alto mar, pela Petrobrás.

Dr. Segismundo Frota, chefe da ala psiquiátrica do Hospital, acabara de sair do restaurante e quase que se persignou (embora fosse um agnóstico convicto) quando vira sua adversária no ambiente de trabalho. Discretamente, tomou a pílula azul e um antiácido – afinal, até a visão dela lhe provocava azia e disfunção erétil. Não, ele não iria se permitir que Morgana estragasse sua noite – afinal, pagara caro pelas acompanhantes. Seus modos sinceros não se coadunavam com a hipocrisia e o arrivismo de Morgana, de quem sabia o quão maquiavélica poderia ser no uso despudorado do corpo para conseguir seus objetivos. Logo ele, que fora contratado a peso de ouro exatamente pelo seu currículo médico, não pelas horas de cama bajulando alguém. No mais, era um dos poucos da cidade que se dava ao luxo de beber boas garrafas de vinho no Bistrô e pedir os pratos mais sofisticados, como um jambalaya ou fricassê de mariscos. Constantemente trazia prostitutas de luxo da capital, que contratava para passar alguns finais de semana com ele. Segismundo não teria motivo nenhum em admitir de que usava esses serviços (afinal, estava divorciado e livre), mas aprendeu rápido como funcionava a hipocrisia da cidade, assumindo então o papel de tio liberal e generoso, a receber as muitas “sobrinhas” para visitas de “aconselhamento”, caso que não quisesse aborrecimento.

Luísa Campos de Oliveira, na condição de nova viúva alegre da cidade, estava sorvendo seu cappuccino em uma mesa solitária no fundo do bistrô – estrategicamente distante do seu enteado Hector. Benito Franco, ainda usufruindo seus últimos instantes como vice-prefeito, a observava de longe. Pouco importava se ela era a viúva de seu padrinho político, (falecido em julho desse ano), ou que ele era casado – ele queria meter as mãos e outras coisas naquele corpo lindo de mulher madura, queria gozar dos prazeres mundanos e secretos com aquela potranca ancuda. Os dois, discretamente, mantinha uma comunicação pelo olhar e planejavam o encontro clandestino a ser realizado mais tarde, em algum rendez-vous.

Acácio Silva dos Santos, chefe da Inspetoria Estadual de Educação e Cultura, se mostrava perdido dentro bistrô. Ele se contentaria em comer pizza de presunto na Firenze’s ou mesmo uma boa moqueca de cação no Restaurante do Quinha. Mas a sua esposa queria porque queria está lá, no meio daquele simulacro de high society e lá se encontrava, sem saber se escolhia o diabo do filé alto ou do fica-não-sei-o-quê de camarão. Sentia falta de sua cerveja Urso Polar de dois contos, que costuma beber no cais, na hora do almoço. E não iria se demorar no Bistrô, pelo jeito que andava o jantar…

Os donos do Colégio Batista de Encruzilhada, professores Maria dela Fiori Angelini Brasil e Francisco Moura Brasil entraram no bistrô e foram falar com os ex-alunos no terraço. No sobrinho Ângelo, o abraço foi mais forte que nos demais e ainda teve direito a apertão na bochecha. Mas Ângelo não se enganou com a rara afetuosidade de seus tios paternos. Menos que os laços de sangue que os donos do colégio pregam, era mais a necessidade de uma certidão na Inspetoria que impelia essa exagerada demonstração pública de apreço. Na outra semana ele trataria o assunto com calma, embora sua ética profissional condenasse o uso desses artifícios. E viu sua tia se sentar longe, já esquecida da presença do sobrinho no ambiente.

Os representantes do Estaleiro Álvaro de Campos, Sr. Reis e Sr. Caeiro, estavam em uma mesa no canto, em um jantar de negócios com Zeca Brito, presidente da Câmara de Vereadores de Encruzilhada, discutindo a instalação do empreendimento na cidade. Eles estavam cientes das mudanças políticas que Encruzilhada passaria, por isso que começavam a procurar outros interlocutores no município, para negociar a instalação do empreendimento e disputas pequenas de poder não poderiam contaminar a transação. A cidade foi uma escolha estratégica: uma boa enseada dos Frades, onde fica a foz do Rio das Antas e, além da cidade ter um porto fluvial de médio porte, a enseada fica próxima ao Terminal Marítimo Norte de Porto Real. Contratempos advindos de mesquinharias políticas de província não poderia atrasar esse empreendimento. Logo, os executivos do Estaleiro tentavam um acordo com a pessoa influente mais estável do poder municipal no momento, caso necessitassem de algum “favor extra”. O jeito simplório e sincero do vereador social-cristão davam esperanças para esses executivos. Afinal, um dos poderes mostrava mais facilmente influenciável em prol da instalação da indústria – principalmente diante das maletas de suborno.

Os pais de Aníbal, Dr. Amílcar Barcelos de Cartaxo e D. Helena Torres Barcelos de Cartaxo, estavam na capital do estado, participando de um evento com o secretário estadual de saúde. Por isso que os colares e brincos de D. Helena não reluziram naquele dia no salão de dança do bistrô, como eles costumam ostentar toda a semana naquele ambiente. Não reafirmarão discretamente e pela enésima vez o fato de que, por serem de outra cidade, já era condição mais do que suficiente para estarem em uma situação diferenciada aos demais matutos daquela província. Mas não era nada que manchasse a carreira de filantropos beneméritos que os Barcelos de Cartaxo consolidaram junto à sociedade encruzilhadense.

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A lua, no seu zênite, indicava que já chegara à meia-noite, hora do feitiço se desfazer e da carruagem voltar a ser abóbora. No bistrô restavam as mesas de Hector, Ângelo e Aníbal e a das duas onças pintadas. Encruzilhada era uma cidade ingrata aos boêmios e os meninos ainda não se acostumaram com essa realidade. Aliás, se deram por achados que Antônio Porto montou um restaurante que está mais próximo ao que frequentavam em Santa Cruz e Porto Real, na época que estudaram nas universidades. Muitos outros hábitos eles ainda se amoldando, alguns com falta de vontade, outros, com tranquilidade.
Com as contas devidamente pagas, Aníbal chamou Ângelo:

– Deixe que eu te leve para casa, Angelini. Entre aqui no meu calhambeque, que é caminho para mim.

– Obrigado, obrigado, mas prefiro seguir pela rua. –Ângelo declinava do convite, ainda envergonhado – Eu preciso caminhar um pouco e essa hora da noite a cidade é mais tranquila… Depois, vi seus olhares… para a outra mesa. Não, não que-quero te atrapalhar.

– Por isso mesmo que eu QUERO que você venha COMIGO – retornou insistente Aníbal – São duas mulheres lindas. Dá para dividirmos muito bem entre nós dois, sem problema…

Uma parte de Ângelo até queria ir com o amigo, mas a timidez era maior e com dificuldade conseguiu dissuadir o amigo em dar-lhe a carona.

– Você é quem sabe, Angelini. Depois não diga que eu não te chamei – e virando para Hector, que já acomodava a família no Hilux – Barão da Bola, se eu não conhecesse bem sua esposa, juro que te chamava agora mesmo para ir ali comigo, para… hããã… con-conversar… hããã… sobre… você… você sabe… – gaguejava enquanto olhava matreiramente para Rosinha, que sacava qual era a entrelinha da conversa marota.

–Doutor Aníbal, você está cansado de saber que eu sou um maníaco sexual assumido – brincou Hector, encostando a Hilux na Pajero do amigo – Há mais de vinte anos que eu pego a mesma mulher todos os dias, hehehehehe…

Ainda se ouviu a tapa recebida por Hector em seu ombro devido ao gracejo. Rosinha intimamente adorava ouvi-lo fazer aquela graça e sabia o quanto tinha de verdade nela, mas não poderia permitir publicamente que seu esposo falasse nesses tons – principalmente na frente do filho. Por sua vez, conhecendo por osmose a velha piada sem graça, Artur nem prestou atenção, mais interessado estava em jogar paciência no celular de seu pai. A Hilux seguiu para a ponte, tomando a direção da Fazenda do Barão, onde o agrônomo Hector se estabelecera.

A Pajero do psiquiatra e psicólogo Aníbal subiu em direção da Praça Tiradentes, para se encontrar com as duas panteras do bistrô e de lá, seguirem para sua casa, fazer um tipo de festinha particular que a elite de Encruzilhada ficaria visivelmente chocada de ouvir e intimamente invejando em praticá-la.

Somente o arqueólogo e historiador Ângelo seguiu a pé pelo cais fluvial. Na sua boemia bem etilicamente particular, jogou a boina na cabeça e ainda ficou contemplando a lua por mais alguns minutos. Tinha no bolso uma garrafa pequena de vinho do Porto. E caminhando pela orla aos ziguezagues, ele observava aquela cidadezinha espremida entre um rio e dois morros. Como estava lá desde 2003, já percebeu que o vento trazia para seus ouvidos o silêncio que escondiam muitas máscaras, muitos teatros sociais e quase nenhum conteúdo moral. Pensou ele nos diversos fios dessa trama e não reprimiu um riso sardônico quando passou em frente à Boate Biskate, no final do cais. Dois vereadores saiam de tonta, carregados por duas prostitutas, em direção a algum beco mais escuro. Uma travesti, com roupas finas e maquiagem pesada, fumava debaixo da luz vermelha da entrada da boate. Outras prostitutas estavam no lado de fora, conversando com o policial militar a paisana. Estariam pagando alguma comissão pela segurança ou ele aproveitava a folga para se divertir um pouco? Ângelo pensou em entrar e pagar uma meretriz para se esquecer do mundo por duas horas. Bebeu mais um gole do vinho do porto e sentiu os pés se afofarem nos sapatos. Ainda viu os gêmeos Igor e Ivan dirigindo o jipe de seu falecido pai e chegarem à porta da boate com duas mulheres, entrando o quarteto no inferninho. Pelo visto, eles já haviam bebido tudo o que tinha de beber e estavam devolvendo as duas putas com quem tinham saído mais cedo. Será que eles chegarão antes que sua mãe Luísa voltasse da noitada com seu novo amante? Como Ângelo não era de fofocas e futricas, ele seguiu em frente, deixando para trás os galantes herdeiros de dívidas, respeitáveis políticos, nobres usurários do comércio e notórios latifundiários torrarem o dinheiro com aquelas messalinas sifilíticas. Parou um pouco e vomitou junto ao poste de luz o excesso de álcool que tinha ingerido na noite. E deixando para trás a poça azeda, observara que uma jovem enfermeira morena passava em passos rápidos para casa, como se tivesse pressa em não ser confundida com uma alguma hetaira de esquina. Ainda tonto e encostado na balaustrada do cais, Ângelo reconheceu a terna figura de Roxana Cruz dos Santos naquele vulto fugidio. Não teve tempo e nem estava em condições de acenar para ela. Numa outra ocasião, falaria com aquela sua amiga inteligente e esforçada. Olhou mais uma vez para o relógio e foi direto para casa na Rua Tomás de Torquemada. Afinal, mesmo morando em andares diferentes, aquela era a casa de seu avô, o velho e querido relojoeiro Salomão ben Mitrani, e não poderia chegar muito tarde e bêbado lá… 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Amizade em Tempos de Radicalismo

Amizade em Tempos de Radicalismo

Salvador, 22 de dezembro de 2016 (23h38)

Querida ex-colega da FACOM

Hoje, enquanto acessava o Foicebook (Fernando Morais é quem está certo!), o mesmo sugeria a ti como possível amiga. Lembrei-me dos tempos em que fomos colegas no curso de Jornalismo da UFBA, de sua inteligência, das conversas que tivemos no pós-aula – nós dois calouros: você atriz e roqueira e eu um bicho do mato recém-chegado a capital e cheio de poemas na sacola. A saudade bateu forte e a vontade era te adicionar. Mas não dava. È uma pena Tive que declinar da ideia. Nesses tempos de Intolerância e Radicalismo político, não dá para ter você como amiga de foicebook.

Desde o Twitter eu sei que você é uma antipetista e antiesquerdista feroz. Na verdade, já na época da faculdade sabia que você não morria de amores pela esquerda e no tempo do Orkut você admirava o cretino do Diogo Mainardi. Nada de errado com isso. É a sua cabeça, suas convicções e eu a respeito por isso. Da mesma forma que na minha cabeça eu prefiro o socialismo e desde meus 17 anos eu sou filiado a um partido de esquerda e não tenho (até agora) pretensões de desfiliar-me dele. Não espero sua aprovação pelas minhas escolhas (afinal, elas foram feitas antes nos conhecermos) nem quero ficar na posição de avaliar as suas escolhas políticas. Contudo, sei que, no clima atual, é complicado. Será que nós iriamos nos suportar na militância digital, cada um postando mensagens políticas contrárias? E considerando que faz muito tempo que não nos vemos pessoalmente, não deu para criar um muro afetivo que evite os atritos ideológicos.

Penso nisso porque estamos em uma época de radicalismo e intolerância política acentuada pela visibilidade do pensamento causado pela internet. As redes sociais, elas parecem que tiraram as antigas travas morais que as pessoas tinham no trato público e tem permitido expor claramente o que as pessoas pensam. E aí, em lugar de pessoas cordatas e com bom senso, o semianonimato e “liberdade” da internet têm mostrados pessoas mesquinhas, preconceituosas, monstros sem máscaras. Vemos as pessoas destilando racismo, sexismo, xenofobia e LGBTQ+fobia sem nenhum freio moral. É como se a internet transformassem Dr. Jekyll em Mr. Hyde sociais, cada vez mais encastelado nos seus radicalismos e na intolerância. E aí que vem a questão da amizade nas redes sociais.

Giorgio Agamben, ao retomar Aristóteles em seu ensaio “O Amigo”, fala da questão da alteridade. Um amigo é o outro com quem se “com-divide” a experiência da vida. E isso tem uma implicação não só existencial (torna a experiência da vida mais doce) como política (no seu sentido filosófico mais elevado). Politicamente, o amigo não é alguém quem pensa parecido, mas o outro com quem dialoga – mesmo tendo pensamentos antagônicos. É sentir conjuntamente a partilha da vida e assim procurar sínteses na pluralidade de ideias para uma existência mais doce e eticamente melhor no mundo.

Por isso, minha querida ex-colega, entramos em um impasse: a amizade precisa de um diálogo na pluralidade. Só que ela sobrevive a erosão causada nas redes sociais? Até que pontos nós queremos manter a amizade, queremos dividir nossa existência com pessoas cujo pensamento e a mensagem pode ser tão contrárias às nossas crenças? Até quando aguentaremos ver repetidas vezes a postagem eterna que destila a falta de diálogo? Como a intolerância pode tornar doce a experiência compartilhada do viver? É uma tarefa difícil em tempos de relacionamentos fluídos, minha querida… Não minto que de vez em quanto tenho feito algumas faxinas nos meus perfis nas redes sociais, para tirar os contactos daqueles que vejo que não há nenhuma possibilidade de diálogo produtivo.

Por isso, minha amiga, em entrei no seu perfil no foicebook e vi algumas de suas fotos – vi poucas atuais, muitos de seus recortes de jornais. E fechei a aba do meu navegador, com o desejo de que esteja tudo bem contigo. Lembrarei com carinhos das nossas conversas. Se quiseres conversar sobre qualquer coisa que não seja política, a casa estará aberta. Até lá, cada um siga gerenciando e postando o que bem entender nos seus perfis.


Abraços

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Ser Estudante

Ser Estudante…

Valença, 17 de julho de 1995

(…) Sei que a Mocidade
É o Moisés no Sinai,
Das mãos do Eterno
Recebe as placas da Lei(…)
O Século - Castro Alves

“Me gustan los estudiantes,
jardin de nuestras alegrias,
Son aves que no se asustan
de animal o policia
y no le asustan las balas
ni el ladrar da la jauria.
(……………………)
Que rugem como los vientos
cuando les meten al oído
sotanas o regimientos
pajarillos libertários
igual que los elementos”
Me Gustam los Estudiantes - Violeta Parra


Ser Estudante é ser Jovem no espírito!
É ter no sangue uma firme indignação
Ante as injustiças, a má-fé e a opressão;
Ter sempre, como tênue limite, o infinito.

Ser Estudante é ter n’alma a revolução.
É não se conformar co’a mediocridade.
É querer um futuro repleto de felicidade
É amar o Estudo do fundo do coração.

Ser Estudante é, em largo e profundo, crescer.
É aprender, numa sociedade,  a melhor viver
E desejar que no futuro, possa vencer.

Ser estudante é ter a Escola por Pátria; 
A Ousadia por eterno e querido guia

E por alma, sempre, sonhos e Poesia.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

10 anos do blog

Tem coisas que simplesmente acontecem e quando se dar conta, estão lá para nosso espanto. Sem me dar conta, já se passaram 10 anos que mantenho esse blogue. Creio que durante esse tempo consegui manter meu propósito de fazer uma blogue de literatura. Comecei como um graduando em Letras que recém deixava de ser calouro. Hoje sou mestrando. Fiz daqui um espaço de reflexões pessoais, literárias, experimentação (como as série de postagem "Reino de Jambom") e até de divulgação de obras de amigos. Publiquei prosa & poesia; conto, crônica, artigo e poema. Tive a possibilidade de conhecer pessoalmente uma leitora de um dos contos. Agora, o que me espera daqui pra frente? Não sei. Só sei que continuarei escrevendo...

terça-feira, 27 de setembro de 2016

E POSSÍVEL SER HOJE UM INTELECTUAL SEM CONHECER A LITERATURA AFRICANA CONTEMPORANEA?

É POSSÍVEL SER HOJE UM INTELECTUAL SEM
CONHECER A LITERATURA AFRICANA CONTEMPORÂNEA?




Salvador, 26 de setembro de 2016 (23h49)

Ricardo Vidal
Escritor, mestrando em Crítica Cultural 
(UNEB campus II). Membro da AVELA

Conversando com uma de minhas professoras no Mestrado em Crítica Cultural, perguntei-la se seria possível passar incólume por autores como Mia Couto, Agualusa ou Pepetela. Ela me respondeu que, se quiser ser levado a sério no meio intelectual, mais cedo ou mais tarde teria que ler algo deles. Mas, na verdade, fiz isso como um comentário maroto, ao observar o nosso zeitgeist, o espírito de nossa época. Da mesma forma que a leitura de Michel Foucault, Giles Deleuze e Giorgio Agámben são indispensáveis para quem quer participar do debate universitário contemporâneo; torna-se importante a leitura da obra dos autores africanos contemporâneos. Mas o que se significa esse novo olhar atlântico?

Por um lado, essa produção literária que vem do continente negro mostra a força das letras cujos povos passaram recentemente por um processo de descolonização. Nomes como o de Leopold Sèdar Sénghor do Senegal (que foi membro da Academia Francesa e correspondente da Academia Brasileira de Letras), Paulina Chiziane de Moçambique e Ondjaki de Angola mostram que a literatura desses países já está dando os primeiros frutos, apresentando beleza e engenho que não fica a de dever às literaturas de outros países. Por isso que estão sendo traduzidos e analisados nas universidades. São textos que possuem musculatura literária e agarram o leitor, trazendo a África real dos povos africanos, com seus mistérios, cruezas e maravilhas.

Por outro lado, mostra que o polo literário mudou sua relação. Já não é mais a relação consumidora Norte-Sul, com os países europeus e da América Anglo-Saxônica vendendo seus produtos culturais para os mercados consumidores da América Latina. No caso do Brasil, a relação Sul-Sul, entre nós brasileiros e os PALOPs (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), é o início de uma relação de interação e troca cultural entre ex-colônias de Portugal. Se para os africanos, o contacto com o Brasil é uma forma de aprender com o irmão-que-deu-certo no processo de descolonização, para o Brasil é uma forma de redescobrir sua própria História e abrir o caminho para o futuro, com novos parceiros, tanto econômicos como culturais.

Esse interesse já se reflete na docência de ensino médio, em que os autores africanos contemporâneos já começam a frequentar as salas de aulas , inclusive como conditio sine qua non para entrar nos cursos superiores, através dos vestibulares e do ENEM, como “Mayombe”, de Pepetela, que recentemente foi selecionado para compor um dos maiores vestibulares do país, o da FUVEST. Da mesma forma que citações de Mia Couto aparecem nas redes sociais; ainda que de forma oblíqua, nossos alunos já estão se familiarizando com esses autores.

Assim, voltando à pergunta que deu origem ao texto, é impossível que alguém que queira se passar por um intelectual no Brasil sem que conheça esse outro literário que é a África Contemporânea. Axé!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Rapsodia Valenciana opus 49

Rapsódia Valenciana opus 49

Salvador; 29 de agosto de 2016 (22h27)

Esse cheiro de peixe
Que de mim exala
Mesmo quando uso
Chanel nº 5
Valença – Carollini Assis

Toda a Valença é, portanto, um tear,
E, em seu pano grosso de aspecto rudimentar,
Amparo, a Bordadeira, virá aplicar fibra
Têxtil – Cadu Oliveira

Cruzo a ponte
Chego no cais,
Saudade me atrai…
Caminho pela graça
Paro na praça
Urbis, Vila Operária
Valença Una – Adriano Pereira

I
Vem, minhas ninfas do Rio Una, vem!
Traga-me a poesia de suas águas
Como o sal que tempera os mariscos.
Traga os poemas que nascem nas ruas
E rasgam a aurora vermelha como esperança.

Vem, minhas ninfas do Rio Una, vem.
Vem como amante, vem como mãe
Vem como uma azul canção selvagem
Quero-te uma etérea balada cósmica
Que acorde as estrelas com sua música.

Vem, minhas ninfas do Rio Una, vem!
Quero-te cantar esse rio de águas negras
E essas colinas da Madona do Amparo
– seios que desenham o vale de Valença.
Quero-te como poesia e fogo, sonho e mar.

II
Minha cidade de Valença, o sol te banham
Durante um rubro amanhecer atlântico.
Desperta suas casas com um sorriso
De raio de sol fulgídio quase um beijo.

A rua Marquês fervilha, fervilha as pontes.
Fervilha o Jardim Novo com as sombras
De teus sobrados se desvanecendo como
Uma memória perdida em algum sótão.

Valença é o Tento cheirando a peixe e sal,
È o Novo Horizonte rasgando sua malha.
Valença é a Vila de operárias abelhas tecendo
A manhã com dendê e algodão e cantos.

Valença são seus jardins sempre reformados
E suas velhas ruas tortas. É a Bolívia e Jacaré.
É a Graça de Nossa Senhora que nos Amparai,
Amém. É Pitanga, Jambeiro e Dendezeiro.

III
Gosto de me perder em suas artérias,
Sentir o perfume de cravo e do guaraná.
Gosto de costurar a trama de suas ruas:
Ruas do Leite e do Siri sem Molho, Triana.
Quero passear na alegre Praça da Bandeira,
Descansar sossegado na Orla do Rio Una.

IV
Valença, sonho do varão Sebastião,
Tua história é um carrossel épico.
O Barão e o Conselheiro confabulando
Nos corredores do Imperial Senado!
A fábrica primaz de tecidos e urdiduras
A Recreativa hospitaleira cheia de náufragos.
Valença coberta de sangue aimoré,
De pecados e glórias, semente da paz.
Valença um grito insano no infinito!

V
Valença, meu farol no universo, termino
Esse canto grosseiro com o desejo
De seres grandes, dentre as grandes do Brasil.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Benditas Palavras Mal Ditas

Benditas Palavras Mal Ditas

Salvador, 25 de agosto de 2016 (02h15)


Carollini Assis, jornalista valenciana da TV Aratu, estreia na literatura com um livro de título provocante: “O Livro das Palavras Mal Ditas”. O leitor desavisado pode estranhar que uma novata nas belas letras traga ao público um livro com palavras mal ajambradas, sem cuidado, ditas de forma má. Puro artifício de uma escritora que entra de forma vigorosa no mundo das letras, que já pega o leitor pela goela e o faz sucumbir com um texto direto e lírico, como no poema DEUS: “Escreveu para mim / um livro / cheio de equívocos”.
Com prefácio de Orlando Senna e palavras de Gustavo Felicíssimo (editor da obra e escritor) e de Marcus Vinícius Rodrigues, o livro é composto de poemas curtos, alguns de uma leveza e sagacidade que parece um haikai, mas que acertam em cheio no ponto de deslocar os significados das palavras, tirando a crosta que o senso comum recobre-as e fazer luzi-las com significados novos. Às vezes, os títulos aparecem como verbetes de um dicionário particular, no qual as palavras aparecem de forma saborosa e sensual no texto – como no poema UNA: “Memória do rio / nas veias da cidade / lasciva”.
E já que aparece a palavra lasciva, eis que uma característica se destaca nesse livro: o erotismo. Mas não o erotismo que beira a pornografia masculinizada (e o que a pornografia se não o erotismo alheio, como diz o escritor e cineasta francês Alain Robbe-Grillet?), é o erotismo lírico e curto, da sensibilidade de mulher moderna -  ou seja, um erotismo que sabe ser direto, mas sem perder a ternura jamais. Esse erotismo se dá nos fragrantes de prazer, na bendita precisão de uma polaroide. O tema é tratado com a leveza que o tema requer, às vezes com um pouco de graça, como no poema FOME: “Colheu um dedo / no pé do meu corpo / e chupou”.
Bendito seja esse livro de palavras ditas com graça e galhardia!
Carollini Assis é natural de Valença, Bahia. É formada em jornalismo pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), especialista em roteiros para TV e Vídeo. Estão no prelo mais dois livros: “A Santa que geme nas estações” (contos eróticos) e “Produção: entre a comunidade e a televisão”, sobre produção em telejornalismo.

Livro das Palavras Mal Ditas
Editora Mondrongo
Bahia, 2016
72 páginas.
Capa e Editoração de Ulisses Góes

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

domingo, 31 de julho de 2016

Notas do Reino de Jambom XVI - Novo peregrinar

Há tempos que o Reino de Jambom voltou a ficar distante, perdido nas brumas. Agora, um novo peregrinar de R Vidal faz com que sua casa seja a estrada entre três novas cidades. Seu castelo está a sua espera.

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Na ficção da vida civil, Alagoinhas, Valença e Salvador. Um mestrado e nada mais

terça-feira, 21 de junho de 2016

Politicando I - Bolsonaro como reu

Há coisas que são divergências ideológicas, como desejar uma economia regulamentada pelo mercado ou um estado desenvolvimentista que vise o bem estar social. Outra coisa é saber quais são os limites mínimos da civilização. Esse foi o motivo que o nazismo, com seu programa de genocídio foi banido da arena política. Por isso, seria bom os bolsominions entenderem que seu deputado "idolatrado" MERECE ser julgado por apologia ao estupro e, provado que ele cometeu um crime (como está na cara), deve pagar. Não há nada de perseguição política. Apenas entendem que a liberdade de expressão tem por limites o bom senso e a civilização.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Soneto do Jasmim

Soneto do Jasmim

Salvador, 14 de junho de 2016 (01h45)


Um doce aroma recorda minha aurora,
Quando o jasmim a noite brinca com a brisa.
É um cheiro mágico, do tempo de outrora,
Que minha fronte afaga, queima e alisa.

Ele chega de mansinho, sem demora,
E vai alojando seu império e harmoniza.
Abre-se então uma sutil caixa de Pandora,
Pois no final uma tristeza se concretiza.

Tudo era lembrança e nada mais sobrou.
Somente resta uma vã e tola esperança
De acreditar que se vive mais uma trova.

Ah, jasmim doce que me acompanhou
Como um elfo guardião das lembranças!

Serve para avisar que o Tempo não volta.

Edelweiss

Edelweiss

Salvador, 14 de junho de 02h01 / 02h08


Venha, minha pequena flor, venha
Refletir a neve como um prisma.
Seja o encanto alpino, a musa diminuta
Que das alturas impera garbosa
E soberana na simplicidade.

Quisera eu ter halo branco de candura,
Ser esse pirata branco na montanha.
E quando uma criança se refletir nas pétalas,
O sorriso dela ecoaria suavemente
Como melodia nas montanhas.

Venha, venha, pequeno Edelweiss,
Diamante botânico perdido nas rochas,
Seja minha rainha, minha musa,
Seja a canção que sempre sonhei
E nunca cantei na minha vida.


Rosas dos 16 de Maio

Rosas dos 16 de Maio

Salvador, 14 de junho de 2016 (02h19)

Não te calaram. Nem te calariam
As patas dos cavalos e explosões.
Na altivez da juventude havia rosas,
Rosas que iriam mudar o mundo
E enfrentariam o último coronel da Ditadura.


segunda-feira, 16 de maio de 2016

15 anos essa tarde: 16 de Maio na UFBA



Hoje, 16 de maio de 2016, faz 15 anos que participei da Invasão da UFBA. O contexto? Estávamos nos anos finais da Era FHC e houve um escândalo político: alguns senadores tiveram acesso aos votos secretos no painel do Senado. Dentre eles, Toninho Malvadeza. A oposição baiana, de esquerda, estava exigindo sua cassação por quebra do decoro parlamentar. A Bahia era governado pelo carlismo e, sinceramente, não sabíamos por quanto tempo teríamos mudanças dentro do Palácio de Ondina.

Lembro-me bem, pois era (ainda) estudante de Jornalismo na FACOM-Ufba e estagiava na assessoria de imprensa do Sintsef (Sindicato dos Servidores Públicos Federais no Estado da Bahia). Era também filiado (como ainda sou) ao PT, o que me dava mais ânimo para ir a essa manifestações. 

O clima estava pegando fogo. No dia 10, houve uma manifestação. O Engraçado que tinha ido ver minha então namorada e de lá iria para o estágio. Não sei os servidores federais estavam em greve (creio que sim, devido a conjuntura neoliberal). Então vi uma manifestação no Campo Grande. Logo vi os dirigentes do Sintsef e fui escalado para fotografar a passeata. Mas essa não foi uma passeata qualquer - havia uma pequena cisão no comando. De um lado, o PC do B queria seguir o trajeto de sempre e terminar na Praça Municipal. Outro grupo queria fazer a manifestação em frente a casa de ACM, na Graça. Comunistas, Petistas, Trotskistas, Anarquistas (os antepassados no Black Blocs, com a cara escondida) discutiam em cima do Mini-Trio principal, até que os manifestantes que estavam na rua fizeram valer sua vontade e fizeram os carros de som mudarem de direção. O recado não seria dado ao prefeito-pau-mandado, mas ao próprio Cabeça Branca. Foi quando a tropa de choque trancou a passagem nos Aflitos. Depois de um momento de tensa e falsa trégua, a PM começou a lançar bombas para dispersar. Claro que a manifestação correu até a Praça da Piedade e de lá fez seu protesto. Quem pensou que isso iria amedrontar esses jovens se enganou.

A minha geração ainda foi criada ouvindo os ecos dos anos 1960, alguns se lembravam da redemocratização, carregávamos um pouco da chama do Impeachment de Collor. E o clima na cidade era que ainda precisávamos tirar um resto de entulho autoritário. Alguns, talvez trazia nos olhos uma nostalgia do passado e uma coisa no coração por não ter uma causa pelo qual lutar - não como foi a luta contra a Ditadura Militar ou o Maio de 1968 na França. Eu me sentia um pouco assim e muitos colegas de militância (no ardor do 20 e poucos) talvez pudessem está sentindo algo parecido. 

Foi por isso que no dia 16 de maio se armou "A Passeata". A organização fora "secreta" (?) e o trajeto só seria dito na hora. Lembro-me que minha turma de comunicação pegou um ônibus com demais manifestantes lá no campus de Ondina. Eu, fui a paisana como estudante e procurei fugir da turma do sindicato, porque queria está não a trabalho, mas por consciência própria. Então, na manhã, concentramo-nos na frente da Reitoria da UFBA. A jararaca começou a andar e logo no Campo Grande virou. Estávamos alegre, seguindo pelas ruas do Canela e voltamos para a UFBA. Era uma manhã ensolarada. A ideia era ir por dentro do campus do Canela e chegar no Largo da Graça. Vendo hoje, pergunto-me se fomos ingênuos ou tivemos excesso de autoconfiança para achar a PMBA não estaria lá, nos esperando - aliás, sabíamos que a UFBA, como área federal, não era juridição da PMBA e sim, da DPF. E assim foi. Durante o meio dia o Vale estava claramente dividido: de um lado do viaduto, toda a Tropa de Choque, os cavalarianos, blindados, K9. Do outros, estudantes, servidores públicos, políticos, professores. De novo a mesma tensa tranquilidade. Foi engraçado ver uma roda de capoeira no meio do viaduto, como a dizer: "paz, paz, estamos na Bahia!". Até que, no meio da tarde, manifestação avançou: havia uma liminar exigindo a retirada da PMBA do campus da UFBA e o compromisso da manifestação seguir para Barra. Quando o carro da Polícia Federal chegou, que alegria! E que cena inusitada: estudantes batendo palmas para (uma das) polícia! Alguns subiram até a Faculdade de Direito para comemorar. Foi quando a tempestade chegou de repente.

Covardemente, a PMBA começou  disparar contra os estudantes e o caos se implantou! As vidraças da faculdade foram destruídas por uma turba que procurava abrigo contra a arbitrariedade. Sangue. Fumaça. Calor. Guerra.

Mas quem esperava pegar os jovens desprevenidos se iludiu: a batalha se instalou no Vale. Claro que foi desigual: rojões, coquetéis molotovs e uma pequena barricada de fogo contra bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio e bala de borracha. Mas todos aguerridos, ninguém disposto a arredar um milímetro ao adversário.

Eu fique observando tudo dentro da Escola de Administração. Pateticamente, ainda tentei avisar ao sindicato que eu não iria ao estágio, porque estava preso na manifestação, devido à ação da repressão... Mas resisti. Conseguir ir até a faculdade de educação, peguei uma nuvem de gás lacrimogênio. E de lá tentávamos continuar a luta. Só no final da tarde, os restos de manifestantes que ainda estavam por lá se reagrupou e fez uma passeata até a Câmara Municipal de Salvador. Eu ainda consegui ir à reunião do Conselho Universitário da UFBA, no qual forçou o então reitor Heonir Rocha (tido como amigo de ACM) a tomar uma decisão. 

Cheguei em casa quase meia-noite, mãe e namorada preocupadas comigo.

O resto é História: ACM renunciou e voltou eleito para o senado. Mas não ganhou assim. Morreu vendo seu candidato derrotado pelas mesmas forças que o combateram nesse 16 de maio.

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Valeu a pena? Algumas namoradas depois, não sei o que dizer dos dias de hoje. 02 anos depois desses eventos elegemos Lula presidente e 06, Jacques Wagner assumia o governo do estado. 13 anos depois, vejo jovens abraçando alienadamente a causa direitista e o PT ser alijado do governo da república via um golpe parlamentar. Pode dar uma sensação de melancolia, uma clima de "o sonho acabou". Mas quando os jovens que lutam contra o golpe, quando vejo que a Bahia ainda é governo pelo meu partido, fico com a sensação de dever cumprido - fiz a minha parte para que o meu país pudesse ser democrático!

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)