Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

domingo, 31 de janeiro de 2010

minha lista de livros indispensaveis


Talvez uma das coisas mais comuns que alguém pode fazer é uma lista de discos, flimes ou livros prediletos. Regularmente uma lista das 10, 50 ou 100 mais ou obras essenciais aparece nos meios de comunicação, quase como uma matéria-coringa. Seja por ocasião de uma data (dia do rock ou final de década), seja por uma decisão editorial (a próxima edição é temática, por exemplo, sobre literatura feminina); a matéria aparece lá.

Há quem vê estas listas como referências sagradas (principalmente se chancelada de um órgão importante, como a revista Carta-Capital ou o suplimento literário do The Times) - se é, então é e não há como negar. Há quem vê com ironia e leveza - principalmente quando a lista não confere com o gosto de quem a lê. Na verdade, listas são subjectivas, por mais que se tente usar critérios duros e objectivos. Quando muito, serve para perceber tendências ou o gosto pessoal de quem a fez.

Deste modo, a lista que eu irei postar agora não pretende ser uma lista definitiva, que procure a ser a verdade do universo ou inquestionável. Apenas uma lista comentada de alguns livros que li e nada mais. Caso alguém resolver ler algum dos livros listados, bem, boa leitura!

01) Códigos do Silêncio e Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
A poesia de Zé Inácio traz um jogo interessante: ao mesmo tempo que ela fala da vivência dele, de sertanejo acostumado com a lide do gado no meio do mandacaru; também possui a vocação dos grandes mestres da literatura em falar de sentimentos universais. Na poesia, não é raro ver Homero e Rilke procurando sombra debaixo de uma juazeiro, enquanto Lampião e Corisco derrubam as muralhas de Tróia com suas peixeiras em punhos, lutando contra Gregos e Troianos. Falando assim rapidamente, não sei se expresso corretamente a poesia dele. Mas a poesia de Zé Inácio me é fascinante, por isso eu recomendo a leitura.

2) Fausto (Goëthe)
Fausto é o apelo universal do ser humano que procura superar sua existência, não se importando com os riscos. E se essa superação tiver na sabedoria como foco, o ser humano estará livre para atingir sua plenitude. Essa parece ser a mensagem que esta obra-prima nos passa. Gosto deste livro por Goëthe entendeu (na minha visão) o verdadeiro sentido do mito. Dr. Fausto procura a sabedoria na sua plenitude. E para isso, ele precisava transcender o horizonte fechado do senso-comum e o conhecimento institucionalizado e instrumental (o "quarto gótico" onde ele se encontra no início do livro). Ele quer ir mais além, para tanto, ousar até fazer um pacto com Mefistófeles (o proibido, o heterodoxo, o novo). Só que Fausto não desvia de intenção inicial, a despeito das armadilhas do diabo. Por isso que Fausto alcança o paraíso no final. A verdadeiro problema que Goëthe coloca não o ser humano fazer o pacto com o demônio na procura da sabedoria, mas se o ser humano se deixa ludibriar por falsas promessas. Não é a-tóa que Otto Maria Carpeaux compara "Fausto" a "Divina Comédia", como os poemas da caminho do homem em superar sua existência.Vale a pena sua leitura. Dentre as tradução, indico a de Janin Kablin Segal, lançada pela Ediora Vila Rica.

3) Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
"Werther" foi o livro da minha adolescência. Por isso que, juntamente com "Fausto", não resistir e comprei quatro edições diferentes desta obra. Primeiro grande sucesso de Goëthe (baseado em experiências pessoais do autor), "Werther" é o espírito romântico e sensível que não se deixa seduzir pela mediocridade. É um eterno inconformado, que não se contenta com o senso-comum alienante. Sua paixão extrema por Charlotte é a parte mais visível de sua alma, que prefere passear sozinho nas colinas para ler seus poetas (Homero, e depois Ossian) a ficar em conversas vazias sobre amenidades domésticas. Seu final trágico, longe de ser uma derrota, é a reafirmação de alguém que nega veementemente o conformismo e alienação da sociedade burguesa. Ainda hoje é um livro que reverbera em mim e indico como leitura essencial - principalmente para os jovens. Indico as edições da Martin Fontes e da L&PM, por conter informações extra sobre a obra.

4) Mensagem (Fernando Pessoa)
Foi o primeiro livro de poemas que li na minha vida. E tive sorte de ler um dos mais ricos livros da poesia lusófona. "Mensagem" foi o único livro em português que Pessoa publicou em vida, para participar de um concurso. E nele é recontada a história das navegações portuguesas como uma aventura universal do ser humano. E ao confrontar o passado como presente, Pessoa encontra na Tradição a esperança para o futuro. Mesmo que a maioria dos grandes poemas (como "Tabacaria", "Ode Triunfal", "Poema em Linha Recta", "O menino de tua mãe" e "Não digas nada") de Pessoa não estejam neste livro, "Mensagem" possui muitos dos poemas essenciais da língua portuguesa (como "Mar Português", "A Última Nau" e "Dom Sebastião"). Lê-lo e Relê-lo é sempre um prazer.

5) Delta de Vênus & Pequenos Pássaros (Anaïs Nin)
Ao dizer que a minha monografia de graduação aborda um dos contos eróticos de Anaïs Nin já esclareço o quanto eu gosto deles. Anaïs Nin escreveu diários, ensaios e ficção. E é nos diários e na ficção que dosou muito bem o erotismo, mas escrito numa perspectiva feminina. Os dois livros citados são de contos e estão disponíveis pela L&PM Editora. Quem quiser uma boa história sem moralismo, estes livros são indicados.

6) Rubáiyát (Omar Khayyam)
Há quem pense que os poema de Khayyam são sobre sobre vinhos e orgias. E uma leitura desatentas das traduções Fiztgerald e Toussaint podem realmente levar ao equívoco. Mas estes poemas persas medievais não teriam alcançado a imortalidade se falassem apenas de vinho e orgias. Khayyam se tornar um existencialista avant-à-lettre, ao indagar o sentido da vida, quando a mesma se parece efêmera e absurda. O embriaguez provocada pelo vinho é o contraponto de que o homem é efêmero e feito da mesma matéria da poeira, diante da indiferença de Allah. Das edições que eu tenho, a da Ediouro (feita a partir da célebre tradução de Manuel Bandeira) é a com melhor acabamento, praticamente uma obra de arte. A da Martim Claret diz sua tradução foi feita diretamente do persa, destoando em muito da de Manuel Bandeira. Contudo, minha predileta é a edição portuguêsa da Moraes Edições. De leitura mais agradável e leve, procurou se um resumo das traduções canônicas de Fiztgerald, Toussaint, Bandeira e Tarquínio.

7) 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
Júlio Verne foi o autor da minha infância. Era o "cara" que soube antecipar as descoberta do futuro ao mesmo que escreveu aventuras perenes. Desta, as "20.000 Léguas Submarinas" são a que mais gostei. E como não se deliciar pela viagem que Prof. Arounax faz em um submarino elétrico no meado do século XIX, com o misterioso Capitão Nemo? Viajar por Vanikoro, Túnel Arábico, Pólo Sul e Atlântida; enfrentar Lulas gigantescas e tentar encontrar a verdadeira liberdade? Das edições em português, eu indico da Martim Claret, por ser a mais completa e próxima do origianl.

8) Manifesto Comunista (Marx & Engels)
Não minto em dizer que este é meu livro de filosofia predileto. Apesar de curto e escrito a mais de 150 anos, ele continua atual no apelo que faz aos seres humanos para lutarem por um mundo melhor. Escrito como peça de propaganda, o "Manifesto", ao esclarecer o mecanismo que rege a história e indicar ao oprimidos uma alternativa de sociedade. Das várias edições, a lançada conjuntamente pela editoras Boitempo e Fundação Perseu Abramo traz vários ensaios, comentando o texto. Quanto a tradução da L&PM, traz também o livro "Crítica ao Programa de Gotha", em que Marx reafirma suas idéias ao critica o novo programa do SDP alemão. Tenho curiosidade de ler a edição da Martim Claret, também com outros textos em apêndices...

9) Estrelas no Lago (Ricardo Vidal)
Ok! Admito que coloco o meu livro aqui como uma espécie de brincadeira e merchandising. Mas, seu não considerar meu livro bom e indicá-lo para leitura, quem mais faria? Quem quiser, escrever para mim: cve_livros@hotmail.com

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Os (diversos) nomes de Eros

Os (diversos) nomes de Eros
"Definir erotismo, traduzir e ordenar, de acordo com as leis da lógica e da razão, a linguagem cifrada de Eros, seria caminhar em direção oposta ao desejo, ao impulso erótico, que percorre a trajetória do silêncio, da fugacidade e do caos. O caráter incapturável do fenômeno erótico não cabe definições precisas e cristalinas – os domínios de Eros são nebulosos e movediços."
Lúcia Castello Branco
"O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora"
Octávio Paz
O senso comum remete a idéia de erotismo às noções de sexo, da sensualidade, do amor, do desejo, e do requinte[1]. E quase sempre em uma relação tensa com a pornografia (onde termina uma para começar a outra?). Mas o que é erotismo? Etimologicamente, Eros vem da raiz grega Ερως e significa amor (que, por sua vez, é raiz da palavra grega Ιμερος, Imeros, que significa paixão, desejo).
Na mitologia greco-romana, o que os gregos chamavam de Eros[2] (e que os romanos sincretizaram como Cupido) era a personificação do Amor – mais precisamente do amor sensualizado, ligado ao instinto da reprodução da vida. Ou como define Lúcia Castello-Branco, "(…) Eros é o deus do amor, que aproxima, mescla, une, multiplica e varia as espécies vivas". Na versão mais popularizada do mito, Eros é representado como um menino alado e travesso (cuja idade variava entre a infância e a adolescência), filho de Afrodite/Vênus[3] (deusa do amor, da beleza e dos prazeres) e que vive a acertar os corações humanos e divinos com flechas incendiárias que despertavam paixões nos atingidos. Quando apresentado como criança, a ele é atribuído um irmão[4], Anteros, que surgia ora como um deus vingador "dos que são desprezados no amor", ora "como símbolo do amor recíproco" (BULFINCH: 1962, 16). Este irmão seria responsável pelo crescimento de Eros – fato interpretado como a metáfora de que o afeto necessita ser correspondido para desenvolver-se. Já quando é representado como adolescente, aparece casado com a princesa Psiquê, a personificação da alma humana. Em todos os casos, é um deus jovial, ousado, maroto e audaz que consegue exercer seu poder (inflamar o amor no coração) desde os seres humanos até os próprios deuses — não hesitando, inclusive, de flechar sua mãe e o próprio Zeus[5],[6], rei do Olimpo. Foi inflamado pelas setas de Eros que Zeus (mesmo casado com Juno) se envolveu em tantas aventuras amorosas com outras deusas e mortais ­- a exemplo dos mitos de Europa, Leda e Antíope. Aliás, já prevendo singular poder e suas conseqüências que Zeus, no nascimento de Eros, quis obrigar Afrodite que ela se desfizesse do filho, ordem que ela desobedeceu, ocultando o filho numa floresta e o amamentando com leite de animais ferozes. Outra versão, mais primitiva do mito, já o associa à Criação do universo, na geração anterior aos Titãs. Eros, neste caso, seria a força que teria ajudado a criar o Universo a partir do Caos (O ovo cósmico). Segundo René Ménard, "Cupido, nos tempos primitivos é considerado um dos grandes princípios do universo e até um dos mais antigo dos deuses. Representa "a força poderosa que faz com que todos os seres sejam atraídos uns pelos outros, e pela qual nascem e se perpetuam todas as raça" (MÉNARD: 1997, 01).
A partir do mito greco-romano, podem-se depreender dois aspectos que estarão presente na discussão sobre erotismo: Um, derivado do mito primevo, é a relação de criação dos seres, a força reprodutiva; Outro (de certa forma, reforçando o primeiro aspecto), de que o amor também é carnal, é sexo, é sensualidade.
Do significado Ερως, Eros como amor (também carnal) a língua grega herdou várias expressões, como Ερωτος, Erotos, significando "Amor"; Ερωτις, Erotis, significando "amante"; Ερωτύλος, Erotulos, significando tanto "amoroso" como "erótico" e Ερωτιον, Erotion, significando "namorico" ou "passatempo amoroso". Semanticamente a raiz "Ero–" conduz a palavra "erotismo" para o ambiente dos impulsos sexuais. Contudo, o erotismo não se limita a sexualidade no ponto de visto biológico. Como afirma Lúcia Castello-Branco, em seu livro "O que é erotismo":
Não será, portanto, apenas através dos canais da sexualidade explícita que Eros se fará ouvir. Aliás, o segredo de seu poder parece residir exatamente nesta maleabilidade: o erotismo deriva de impulsos sexuais, mas é capaz de ultrapassa-los e de revelar mesmo em contextos onde é grande a repressão à sexualidade, mesmo em casos de extrema sublimações dos impulsos sexuais. (CASTELLO-BRANCO: 2004, 14)
Partindo do mito dos andróginos[7], Lúcia transcende o conceito de união, implícito na união sexual ou amorosa que se efetua entre dois seres para uma noção mais ampla de conexão do ser com o universo. Da mesma forma que os seres mutilados surgidos da separação dos andróginos procuram suas metades correspondentes para restaurarem a antiga unidade, o impulso erótico se manifesta no ser humano como um desejo de união, completude e totalidade, de integração do eu com o universo. Este impulso passa pela união sexual entre dois ou mais seres humanos (cujo momento do orgasmo a pessoa atingiria este estado de união com o/a parceiro/a) e entre em outros terrenos da vida, como a arte.
Sobre o impulso erótico dentro das artes, Lúcia diz que "A expressão artística se realiza em função de um mesmo impulso para a totalidade do ser, para sua permanência além de um instante fugaz". A comunicação obra de arte/ público é erótica: o primeiro contacto é sensual, pelos sentidos do corpo é que o objecto artístico agrada, desagrada ou se torna indiferente. E o gozo estético que o público teria com a obra de arte seria semelhante ao gozo erótico das perversões, cuja completude chegaria como um fim em si mesmo.
Esta idéia do "Eros" como completude está presente no início do Kama-Sutra. No primeiro capítulo, Vatsyayana, mostra que o Kama (entendido como uma amálgama de amor, gozo e prazer sensual), juntamente com o Dharma (virtude e vida espiritual) e o Artha (aquisição da riqueza material) estão juntos como os fins da existência humana. Para o autor hindu, "O Homem (…) deve praticar o Dharma, o Artha et o Kama" na sua vida – em épocas diferentes, entretanto – para que ele "alcançar o 'Makaha', que dispensa de uma transfiguração ulterior". Ou seja, o amor sensual (e o prazer que o mesmo provoca) é posto pela cultura hindu como um dos caminhos para o ser humano possa atingir a perfeição e voltar ao Criador (em última análise, ser completo e integrado à natureza). Purgar o Kama do ser humano implicaria em mantê-lo na eterna roda de reencarnações – tanto que Vatsyayana lembra que "A execução do ato genital é tão necessária à existência e ao bem estar corporal quanto o alimento e portanto os prazeres correlatos são igualmente legítimos, sendo tão importantes quanto a prática de Dharma e de Artha".
Este aspecto em que o impulso erótico união sexual entre seres humanos seria uma faceta do desejo de união do ser com os objectos do mundo, leva ao outro aspecto do Eros como força da criação. O desejo de totalidade e completude que este impulso remete ao Caos primordial, em que tudo esta junto no mesmo ovo cósmico. A Criação é a força da vida que continua que continua presente, se repetindo em pequena escala o mesmo instante que originou o Universo.
Com base neste aspecto que Georges Bataille define o erotismo como "a aprovação da vida até na morte" (1987:11). Partindo da dialética vida/morte, Bataille observa duas forças regeriam o ser humano: De um lado estaria a força de sobrevivência do indivíduo, sua permanência como ele mesmo. Do outro lado, o desejo de fusão com a pessoa amada (que representaria sua dissolução individual). A atividade erótica prepararia a fusão onde se dois seres humanos se misturariam. Deste modo, Ele afirma que:
A aprovação da vida até na morte é desafio, tanto do erotismo dos corações quanto no dos corpos, desafio, por indiferença, à morte. A vida é acesso ao ser: se a vida é mortal, a continuidade do ser não o é. (…) a desordem erótica imediata nos dá um sentimento que ultrapassa tudo, de forma que a sombrias perspectivas ligadas à situação do ser descontínuo caem no esquecimento. E, para além da embriaguez que abre a vida juvenil, é-nos dado o poder de abordar a morte de frente… (BATAILLE: 1987, 22)
Para tanto, o erotismo em Bataille seria uma experiência interior a ser vivida pelo do ser humano. Aliás, este aspecto de vida interior que seria mais uma diferença entre o erotismo e a sexualidade animalesca. Se nos animais ditos irracionais, a escolha do(a) parceiro(a) é uma escolha puramente instintiva (uma vez que parece que a mesma fora dada), no ser humano depende dos gostos individuais, a partir de seu interior. Como lembra Bataille, mesmo que a escolha do(a) parceiro(a) seja a concomitante com a da maioria, ela foi feita a partir da individualidade de cada um. Deste modo, pode-se depreender que o erotismo é uma atividade essencialmente humana, é a sexualidade indo além do mero instinto animal.
Este aspecto exclusivamente humano do erotismo é que leva Octávio Paz a considerar o mesmo pode ser definido como "sexualidade transfigurada". Dito de outra forma, "antes de tudo, o erotismo é exclusivamente humano: é a sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e vontade dos homens." (PAZ: 1994, 16). No caso, o erotismo para Octávio Paz equipara-se a metáfora, em a sexualidade vai além da procriação. Ela também se torna prazer, representação, subversão, sensação e sentimento (amor). Desviando da função reprodutiva 'prescrita' pela natureza (ou Deus, segundo a Teologia), a sexualidade passa a ser, no erotismo, um terreno onde a imaginação do ser humano (homem e mulher) reina. Por isso que Octávio Paz aponta para a multiplicidade do erotismo, a dizer que o mesmo "varia de acordo com o clima e a geografia, com a sociedade e a história, com o indivíduo e o temperamento". Ao contrário dos animais, que fazer sexo da mesma forma, para o ser humano vive sua sexualidade de várias formas, executando várias posições a união sexual e experimentando novas visões para o ato. Diante desta multiplicidade do fenômeno erótico ganha que os autores sentem dificuldade em definir precisamente o erotismo[8].
Esta multiplicidade se revela também na diferença entre sexos. Segundo Francesco Alberoni, "Não existe apenas uma raiz do erotismo, mas duas. Uma mais profundamente presente nas mulheres e a outra nos homens. A primeira tende a produzir uma comunidade de vida, unida pelo amor. A segunda, ao contrário, não tem projetos, vive de projetos". Deste modo, pode afirma que o erotismo feminino é contínuo; enquanto o masculino, descontínuo[9]. Esta continuidade feminina surgiria devido a saciedade do homem após o ato sexual, que levaria a um "decréscimo de interesse para com a mulher" (ALBERONI: 1987, 23), realizado por ter atingido o êxtase do orgasmo. Este comportamento é entendido psicologicamente como uma espécie de rejeição, de ser ratada apenas como corpo. Deste modo, o desejo erótico feminino passa pela permanência do homem ao seu lado após ao orgasmo. Deste modo que os sentidos do tato e do olfato. "a mulher que a presença física do seu homem, sentir suas mãos as suas mãos sobre a sua pele, (…) sentir o seu cheiro, sentir a mistura de seus cheiros" (ALBERONI: 1987, 29). Deste modo, as mulheres vêem o erotismo como um todo: o ato sexual deve está conjugado ao amor e a ternura[10]; a atração erótica ser atividade pela centralidade social, pelo reconhecimento social e/ou poder[11]. A fantasia erótica feminina procura a intimidade e a vida em comum (1987, 60) e tende se abrir com o mundo (1987, 67). Por isso "a sedução feminina deve renovar-se para exorciar o descontínuo que existe no homem". No homem, o erotismo é diferente. Ele é marcado pela descontinuidade, pois ele "experimenta com mais freqüência que a mulher o instante de eternidade. Este não é um intervalo temporal. É um estado particularíssimo, exterior ao tempo". (1987, 41). Esta descontinuidade afirma-se no homem como uma experiência mais interiorizada que a mulher. "há no homem um componente erótico muito forte que desdenha o externo e valoriza o interno" (1987, 67), o que levaria a excluir de sua vida erótica o compromisso, os deveres, a própria vida social" (1987, 60). No homem sua excitação é mais visual – não tato, mas a visão que provoca o excitamento[12].
Pelo o que foi analisado até agora, o erotismo pode ser considerado como a expressão criativa da sexualidade humana, que vai além da mera reprodução biológica para visar também o prazer sensual (que evoca os sentidos, como o Kama da Vatsyayana) e o amor como forma de chegar a completude. Sendo a procura da completude através do amor e do prazer, o ser humano retirar a procriação como característica central do ato sexual – deixando o sexo de ser instintivo para ser cultural. E sendo expressão criativa, o erotismo é múltiplo, varia para cada indivíduo (ou seja, cada sexo terá experiências diferentes de sua sexualidade).



[1] No caso de requinte, este é mais invocado quando se compara o erotismo com pornografia, sendo esta considerada a contraparte vulgar e menos sofisticada da sexualidade, enquanto aquele seria a representação mais nobre e sofisticada.
[2] "O nome Cupido, em latim, implica a idéia de amor violento, de desejo amoroso, em grego, Imeros. Contudo, na mitologia latina, presta-se a esse deus mais ou menos a mesma origem, a mesma história que ao deus grego Eros, Amor". (COMMELIN: 1997, 71)
[3] Embora os autores sejam unânimes em atribuir a maternidade de Eros à Afrodite; a paternidade já é mais contestada. Pierre Commelin diz que "(…) segundo a maioria dos poetas" Eros "nasceu de Marte e Vênus", o que explicaria a audácia deste deus. Contudo, René Ménard afirma que "Mitologicamente, não sabemos quem é seu pai, mas os poetas e escultores concordam em lhe dar Vênus como mãe (…)".
[4] Edith Hamilton, além de atribuir a Anteros também o caráter do que se opunha ao amor, também atribuí como irmãos de Eros/Cupido, os deuses Hímero (personificação da Saudade) e Himeneu (Deus que preside a festa de Casamento).
[5] Segundo Ménard, há uma ressalva quanto a extensão deste poder: "Não obstante o seu poder, (Eros) jamais ousou atacar Minerva e sempre respeitou às Musas".
[6] "Júpiter ­­– Vê, pequenino malandro, se não é grande mal insultar-me a ponto de fazeres com que eu me revestisse de forma de forma de sátiro, touro, cisne e águia. Não fizeste com que mulher alguma se apaixonasse de mim próprio (…)." Neste trecho de um diálogo satírico de Luciano, presente em René Ménard, Júpiter/Zeus reclama ao Cupido, citando às metamorfoses que se submeteu para conquistar algumas de suas amantes.
[7] "(…) Os seres andróginos redondos e possuíam quatro mãos, quatro pernas, duas faces, dois genitais, quatro orelhas e uma cabeça. Esses seres, por sua própria natureza, eram poderosos e resolveram desafiar os deuses, sendo, por isso, castigados por Zeus, que decidiu corta-los em duas partes." (CASTELLO-BRANCO: 2004, 09)
[8] Esta "imprecisão" do termo talvez fica mais patente quando se confronta com a definição de pornografia. Uma vez que ambos tratam da sexualidade humana transfigurada pela cultura e a separação se dar no plano da qualificação subjectiva, Alain Robbe-Grillet considera que "Pornografia é o erotismo dos outros". (ROBBE-GRILLET apud MORAES e LAPEIZ :, 199?, 109)
[9] "Estamos diante de uma estrutural temporal, diversa nos dois sexos. Há uma preferência profunda do feminino para o contínuo e uma preferência profunda do masculino para o descontínuo" (grifo do autor) (ALBERONI: 1988, 24)
[10] "Para a mulher, a ternura e a doçura combinam com o erotismo, inserem-se nele harmoniosamente. Para o homem isso acontece com muito menor freqüência. A mulher sente como erótica, tanto a emoção provocada pelo contato do corpo do filho, como aquela provocada pelo contato com o corpo do amante. Ás vezes, gostaria de tê-los a seu lado juntos, juntos na mesma cama. (…) Também a diferença entre amizade e amor é mais tênue na mulher. Dorothy Tennov observou que as mulheres confundem mais facilmente a enfatuação erótica e a paixão. O homem, ao contrário, tende a acentuar as diferenças, a separar as diversas emoções." (ALBERONI: 1987, 25)
[11] "O erotismo feminino é profundamente influenciado pelo sucesso, pelo reconhecimento social, pelo aplauso (…). O homem quer fazer amor com um mulher bonita e sensual. A mulher quer fazer amor com um artista famoso, com um líder (…)" (ALBERONI: 1987, 32)
[12] "Aos olhos masculinos, a mulher vestida está distante, protegida. A roupa e a maquilagem têm sempre um duplo significado: de convite e de obstáculo". (ALBERONI: 1987, 69)

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)