Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Lendas do Amparo

O rio Una seguia plácido dentre Valença enquanto um sol alaranjado do crepúsculo cobria de escarlate e vinho a cumeeira de dois montes no horizonte. Por que cumeeira? Os montes surgiam como dois seios túrgidos e lúbricos de morena sensual cujo rio era o seu ventre lascivo e fecundo. E no alto de uma das colinas o sol era uma casta coroa criselefantina a rodear a santa e veneranda igreja de Nossa Senhora do Amparo.

- Pai, por que igreja foi construída lá no alto? - perguntava o filho caçula enquanto comia um pastel no calçadão da Orla do rio Una.

- Bem, diz minha avó materna, que quando criança ela ouviu de um mascate em Sarapuí, que um rico fazendeiro da região, valente como um bandeirante e arrogante como um coronel, deu para cavalgar furiosamente pela colina, como a desafiar a Deus e o Diabo com sua correria. O cavalo corria como corisco a cortar cataclismos com suas crina de carvão e coragem por força do castigo inclemente da chibata cortante do centauro que o cavalgava. Pulava os arbustos como se brincasse com um fogo, a subir pelas escarpas. Até que, lá no alto, como a vingar dos acoites, deu um coice e derrubou bruscamente seu cavaleiro. Queda feia e seria morte certa se o fazendeiro não tivesse clamado amparo a Nossa Senhora, com toda a humildade do coração (embora já estivesse entregando a alma ao destino). Acordou lá embaixo, horas depois, já às margens do rio, tendo o corpo coberto com alguns arranhões - apesar de ter rolado de uma grande altura. Dizem que depois ele se tornara um homem piedoso repleto de fé, e que construiu com suas mãos uma igreja para sua protetora.

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- Que nada! - dizia, da janela de um dos casarões na praça da República, uma comadre fofoqueira para seu amigo, Dr. Mustafá Rosenberg - Não teve queda de cavalo. Segundo minha tia freira carmelita, ela ouviu de uma madre superiora cuja família é amiga da família do professor Jorge Aguiar, que a igreja foi construída ali porque, muito antigamente, havia uma imagem de Nossa Senhora que, posta no altar mor da Matriz do Sagrado Coração de Jesus, projetava sua sombra no alto do morro, como a indicar o local de sua moradia. Foi assim que povo daqui construiu seu templo lá em cima.

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- Foi milagre sim, mas não de sombra no altar! - Replicava o magarefe no Mercado Municipal para seu cliente - a verdade meu amigo, contada pelo meu padrinho, professor Martiniano Costa, que ouviu das bocas dos pescadores do Tento (amigos deles), foi que há muitos anos um barco de pesca daqui da cidade havia se perdido em alto mar durante uma tormenta. A tripulação, vendo o naufrágio iminente, começou a rezar para Nossa Senhora. E estava uma onda enorme a abrir sua boca de demônio e a devorar o barco, quando ela apareceu com seu manto azul e branco. A onda fechou suas mandíbulas e o tempo serenou. Nossa Senhora estava lá no alto do monte como um farol, indicando com seu dedo a foz do rio Una. Chegando são e salvos, eles em gratidão construíram a capela do alto do morro onde ela amparou seus filhos pescadores. Mais tarde o povo a expandiu o castelo da rainha de Valença.

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- A história dos pescadores que se salvaram no naufrágio realmente aconteceu - contradizia o sacristão dentro do salão da Casa Paroquial, enquanto conversava com as professoras Dinalva Teles, Ana Franco e Rosângela Figueiredo - mas a igreja já existia. O que professora Macária me contou foi que encontraram nos arquivos da arquidiocese de Salvador o relato de um viajante que falava de um grupo de escravos fugidos afilhados de Nossa Senhora. Estes, tentando escapar daquele rico fazendeiro da primeira lenda, teriam se dirigido para a colina, achado a imagem da Santa Mãe de Deus e orado para ela. Foi então que ela apareceu e os amparou, escondendo os escravos em seu manto e ludibriado o dono feroz e o capitão do mato que os perseguiam. Mais tarde, foram pedir refúgio ao bom pároco da Matriz. Este, devoto da Virgem Maria, ao ver a imagem e ouvir contado do milagre da fuga; percebeu que ela era madrinha destes negros e fez que Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana comprasse a liberdade deles, que depois construíram o santuário para sua Benfeitora.

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Do alto de sua torre de marfim, o doutor professor de História ri baixinho, pensando: pobres ignorantes, tudo lenda, pura lenda, só lenda...

Mesmo que sejam simples lendas, o poeta não deixa de bebê-las em êxtase (junto com seus amigos Cristiano, Flamínio e Pablo e seu primo pintor Junior da Hora) enquanto o sol coroa a Igreja de Nossa Senhora do Amparo e o rio Una de águas negras corre como um ventre fecundo que divide o horizonte em dois seios femininos...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Sabedoria Bagdali

Uma nação sem grandes poetas jamais chegará a ter grandes políticos”

*** Frase pintada em placa de madeira na entrada do Sindicato dos Escritores Iraquianos, bairro de Karada, periferia de Bagdá


Fazendo um comentário marginal a esta citação, dois pontos curiosos devem ser notados:

01} Mesmo num país com problemas de organização política (agravados com a invasão norte-americana) como o Iraque, os escritores estão organizados em um Sindicato. Por que a nossa democracia brasileria ainda não conseguiu um feito desse?

02} Tudo bem, que os escritores tenham o direito de se enclausurarem numa Torre de Marfim. Mas que não se esqueçam que também SOMOS cidadãos e que a poesia TAMBÉM foi feita para revelar e transformar a realidade.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Baile de Máscaras Mortas

. Este encontro poderia ter sido numa recepção de casamento ou num velório – mas aconteceu numa mesa de boteco meio vagabunda. E os nossos personagens poderiam ser os Três Mosqueteiros (ou os Três Patetas) – mas são somente três amigos de infância: Aquiles, Jonas ou Nero. Jonas era professor de geografia, trazia uma pasta com livros, usava calça jeans e camisa pólo. Nero era um obscuro redator de telejornal e usava bermuda e camisa regata, pois estava no seu dia de folga. Aquiles era advogado e acabara de voltar do tribunal de pequenas causas.

. Era um final de tarde de uma sexta-feira estafante e a mesa de bar fora o porto inseguro para afogar as pequenas decepções diárias. Várias garrafas de cerveja no chão e pratos de petiscos refletiam rostos vermelhos e sorrisos alcoólicos de nascimentos fugazes. Recordavam agora os tempos de escolas:

. — Lembra-se do professor Carrasco da Cicatriz?

. — Claro! E os seus bordões? “Enquanto os outros estão perdidos em conta um por um os ângulos, você aplica este macete de colocar menos um em evidência e pronto! Podem dizer que mataram a pau a questão e eliminou concorrente”.

. — Sim, e ele continuando dramaticamente: “Mas é claro que eu não precisava dizer este macete. Vocês já sabiam disso por você são alunos astutos! Alunos… inteligentes. São alunos…”.

. — … do professor Wellington! — concluíram em uníssono e às gargalhadas.

. Era bom relembrar estes tempos tão estranhamente prazerosos! Claro que se perguntassem aos três na época, eles diriam que esta era a pior fase de suas vidas. Mas agora que tinham carreiras sólidas e inúteis, levavam uma vida adulta tão vazia existencialmente, aqueles anos passados era vistos com falsa nostalgia… ou como ponto de partida para ironias.

. — Aquiles, lembra-te do que você queria fazer na vida?

. Aquiles se recordou amargamente dos seus ideais. Frívolo quando jovem e aluno mediano, seguiu a carreira jurídica por imitação ao padrinho, que era desembargador e professor de Direito Romano. Fez um curso regular, mas nada de diferente da maioria de seus colegas arrivistas e pedantes. Mesmo assim fora arrebatado pelo ideal da Justiça e gostaria de ser um grande juiz penal a serviço do bem da comunidade. Sonhava com a glória e a notoriedade de condenar um grande criminoso – mesmo que isso custasse a sua própria vida. Passou a ter a juíza Denise Frossard como musa de seus devaneios. Só que acabou prestando exame para OAB. E seus ideais de servir ao bem comum transformaram-se em modorrento trabalho de ora a defender um bêbado arruaceiro, ora a processar o cachorro de um vizinho. Ficava enfurnado no seu escritório. Os rendimentos são razoáveis que permitem uma vida sossegada. Contudo, há dias em ele se pergunta: de que vale este sossego? Seria melhor uma vida curta e gloriosa do que este longo ocaso da existência?


. — Claro que eu me lembro? Ser vir a Justiça pela bem da comunidade! E é isso que estou fazendo, aceitando as pequenas causas. No mais, gosto de minha vida calma, mesmo longe dos holofotes — E Aquiles bebeu vorazmente seu co-po para afogar a mentira que dissera a pouco.


. — E o seu livro, Dom Nero! Quando ele será lançado e ser aclamado como membro da Academia?

. À medida que Nero alargava seu sorriso amarelo ele se recolhia constrangido no fundo da cadeira. Nero gostava de ler e de escrever. Queria ser escritor – por isso optou em cursar Jornalismo. Mas se decepcionou com a faculdade. Longe de formar novos literatos do porte de um Lima Barreto ou de um Olavo Bilac, o curso formava repórteres e apresentadores de TV. Fez um curso regular e longo por odiar fazer reportagem e trabalhar com meios eletrônicos. Nesses anos penosos tivera algum alento quando publicou alguns contos promissores – O que o levou a prometer a escrever seu grande livro – algo que o projetasse no mundo literário. Assim que se formara, ainda pensou em trabalhar em no caderno cultural de algum jornal impresso. Para sua frustração, ficou pulando de assessoria em assessoria de imprensa até ser contratado como redator de um telejornal sensacionalista. Felizmente não aparecia de frente das câmeras, mas não lhe agradava redigir noticiários policiais ou fofocas de artistas. Nem suportava assistir a programação vulgar e medíocre da empresa onde trabalhava. E o livro ia sendo procrastinado, procrastinado…

. — Minha obra prima? Vai bem obrigado. Ontem redigir algumas páginas. Bem, uma obra prima não é feita assim, de uma hora para outra. Sabem quanto tempo levou Goethe para escrever seu monumental Fausto? Por hora, contente-se em ouvir meus textos sendo lidos na televisão… — Nero acendeu seu cigarro. Tragava-o como um dragão, como a sufocar sua melancolia de não poder se de-dicar unicamente à literatura.

. — Jonas, cadê a gostosa da Rosinha?

. Foi então a vez de Jonas sentir o seu desconforto. Sua ambição era viver um grande amor. Estudioso e tímido, passou a adolescência inteiramente virgem, sem um namorico sequer. Durante os anos na Faculdade de Geociências chegou a freqüentar uns bordéis com os colegas e uns teve uns dois casos rápidos. Em compensação o curso foi espetacular. Seu sonho de valsa só apareceu fugazmente na pessoa de Rosa Bianca. Durante um ano e oito meses ele viveu seu idílio, que terminou melancolicamente com uma briga. Três meses ela se casara com um ex-namorado (o mesmo que anos antes havia traído Rosa com um amigo). Para o sentimental Jonas isso foi um desastre. Vogou dentre prostíbulos até conhecer a enfermeira Maria do Socorro. Ela se afeiçoara com o boêmio romântico. Ele sentia atração e carinho por ela. Depois de namoro morno e de um noivado sem tempero, casaram-se por inércia. Em lugar de uma paixão avassaladora, viviam os dois um casamento sem graça, com filhos a pagar e contas por criar. Como alternativa ao sexo bissemanal e burocrático, Jonas continuava a freqüentar esporadicamente os bordéis. Ele nunca pediu divórcio, pois no final sabia de sua carência afetiva e Maria o socorria perfeitamente quando o vazio resplendia em sua alma.

. — Sei lá! Só não cometem sobre ela para minha amada–idolatrada–salve–salve esposa — E ele correu para o banheiro a fim de enxugar u ma lágrima teimosa que insistia em descer e o envergonhar em frente aos amigos. Voltou com o rosto molhado e os olhos levemente inchados.

. — Amigos, sabem de uma coisa? O único que estava certo era nosso amigo Pierre Truffaut.

.Um silêncio de morte desceu sobre a mesa. Há exatos dez anos, o mais brilhante, o mais talentoso, o mais inteligente, o mais sincero e o mais sedutor dos amigos, não suportando a dor da doença, preferiu adiantar sua entrada no grande mistério da vida.

. Pierre nunca pediram licença para ser feliz e levou sua alegria aos extremos, mesmo que isso chocasse seus amigos. Tinha uma cultura invejável e permitira fazer seus cursos superiores com distinção. Amou as mulheres como o romantismo dos franceses e o ardor dos italianos. Ousou compor uma ópera bem sucedida e deixara alguns volumes de poesia e ensaios. Era sempre solícito e so-lidário com os amigos e sempre respondia um ato mesquinho com um sorriso e uma palavra de confiança. Escondia suas tristezas e dificuldades para levar conforto ao amigo. Tinha suas loucuras, seu opiniões extravagantes em relação à vida. E assim que recebeu o diagnóstico da doença fatal, resignou ao suicídio. Não queria sofrer nem fazer sofrer a quem amava. Antes, deixou um último pedido aos seus amigos queridos: Pedia que eles tivessem uma vida acima da mediocridade e digna de seus talentos e aspirações.

. Com o fantasma da promessa não cumprida ao amigo morto, os três procuravam encher seus vazios existenciais com fumaça de cigarro, porres alcoólicos e altas taxas de colesterol. Não demoraram muito para os três se despedirem deste baile de máscaras; e cada qual levava sua máscara morta de volta para sua mediocridade.

Um Charuto em Paris

Salvador, 11 de dezembro de 2004

. Finalmente Roberto chegara ao seu destino sonhado. Os anos passados na universidade não foram para que ele se tornasse um professor de literatura respeitado; foram para realizar um velho sonho de adolescente de província: flanar pelo centro de Paris. Não como um turista que cronometradamente sai da Torre Effiel para ver a Mona Lisa no Louvre – mas como um boêmio que se delicia com o crepúsculo às margens do rio Sena, sem compromisso com Deus ou com o Estado.

. A tarde estava agradável no final de outono. Depois de se alojar em um hotel confortável e barato nas imediações do Quartier Latin, ele vestiu calça negra, boina negra de veludo, camisa existencialista (modelo clássico de malha negra e gola rulê) e um capote negro a la Matrix. Dentro do capote, além dos passaportes brasileiro e espanhol, trazia um legítimo cognac, charutos Havana (Martinica produz bons charutos? Na dúvida, trouxe os cubanos), a mini antologia bilíngüe da poesia francesa de Cláudio Veiga e um livro de poemas de José Inácio Vieira de Melo. Estava pronto para baldear na Citè Lumierè.

. Saiu pela Rua de Vaugirad até o Jardins de Luxemburgo. Vagou entre a Rua Soufflot (Ah, o Panteão!) e o Boulevard Saint Germain. A Île-de-la-Citè em sua frente, com suas bancas de livros encheram os olhos de gula. Após comprar dois livros, caminhou até a Praça Saint Michel e procurou um banco tranqüilo onde pudesse contemplar o Palais de Justice.

. Sentou-se com gosto, como se fosse o próprio Jean Valjean ou um personagem de Sartre ou Balzac. Devidamente acomodado nos seus devaneios, ritualisticamente acendeu seu charuto. Após àquela letárgica e gaulesa baforada, bebeu uma dose longa de cognac. Que sensações singulares inundavam suas papilas gustativas! Para complementar o seu íntimo orgasmo intelectual, começou a ler os versos do Correspondances de Baudelaire.

. Já lia os primeiros versos quando viu um guarda chegando sua direção. Discretamente, Roberto apalpou o capote, para se certificar de que estava com os passaportes. Um incômodo começou tomar seu corpo com a aproximação do policial. Pensou em ignorá-lo, mas o perfil do guarda se agigantou em sua frente até fincar sua presença ante a Roberto. Na lapela lia-se: Pierre - CRS. O policial disparou a queima roupa:

. — Bonjour, monsieur!

. — Bonjour, monsieur! – respondeu Roberto com os olhos inseguros e se levantado cauteloso de sua extinta placidez.

. — S’il vous plaît,… - continuou o guarda, para o desespero de Roberto. Em seus ouvidos a fala da Pierre tornou-se um zumbido confuso. O que o policial estava falando? Roberto se lembrava de seu aprendizado: brasileiro, aprendera Inglês como segunda língua no ensino fundamental. Estudara Letras com Espanhol na Universidade por influência do avô imigrante. Depois Italiano para o doutorado em Leopardi. E embora gostasse muito da França, só desenvolvera pessimamente um francês de fronteira, para leitura e balbucio cinco ou quatro expressões. Como poderia se comunicar ele com Pierre?

. Roberto ficou calado em infinitos quinze segundos. Seus olhos se arquearam numa dúvida, como a indicar ao guarda seu incômodo. Pierre voltou a perguntar em francês quando Roberto segurou a coragem em seus lábios trêmulos e disse um "Pardon, monsieur, Je ne comprends pas", interrompendo o guarda. Este se calou. Seu rosto continuava simpático embora emanasse autoridade. Pierre olhava para o charuto aceso de Roberto.

.Roberto prosseguiu no seu francês estropiado:

. — Je suis… (Deveria ele dizer que era cidadão brasileiro ou espanhol? Temia o preconceito contra os latino-americanos. Preferiu dizer uma meia verdade) Je suis un brésilien.

. — Touriste brésilien? – Pierre franziu amigavelmente a sobrancelha. Seu olhar continuava fixo e sedento pelo charuto.

. Roberto continuou preocupado. Suas roupas não eram de um turista convencional. Qual seria o problema? Esta era sua primeira viagem ao exterior. Viajava sozinho, sem um roteiro prévio além daquele que traçara na juventude. Não esperava passar por aquilo. Por que não fora para Santiago de Compostella? Não, seu sonho era a Paris de seus romances. Discretamente voltou a passar a mão no bolso do casaco para se certificar dos documentos. Estavam lá. Que alívio! Seu charuto, que vontade de pô-lo na boca para poder aliviar a tensão! Que vontade de beber um gole de cognac! Roberto tomou de novo coragem e perguntou para o guarda se ele falava português. Resposta negativa. Não ousou falar em italiano, pois conhecia as rusgas entre Gauleses e Romanos. Nem arriscaria falar no idioma britânico. Arriscou o castelhano:

. — Parlez-vous Espagnol, monsieur?

. Outra resposta negativa. Pierre olhava ainda para o charuto que jazia esquecido na mão de Roberto, que cada vez mais ficava tenso. Seria proibido fumar em praça pública na França? Eu conhecia várias leis estranhas pelo mundo, mas aquilo lhe parecia um absurdo. Estaria o guarda suspeitando que estivesse com alguma droga ilícita? Estaria ele desconfiando que eu fosse um terrorista? Também, meu rosto moreno era mais levantino que sertanejo. E se o guarda visse meus dois passaportes? Roberto foi sendo tomado por um pavor interno que enrijecia suas cordas vocais. Seu sonho caía das nuvens para de suas cinzas nascer este pesadelo. Por um momento ele deixou de ser um professor universitário para ser um adolescente perplexo, com medo do castigo iminente.

. Finalmente Pierre chamou uma outra policial que passava naquele momento. Roberto se tornara pânico e vergonha. Seria preso agora, na frente de todos? A jovem guarda que se aproximou era simpática. Na lapela, lia-se Jeane D’Arc. Os dois trocaram algumas palavras até que ela virou-se para Roberto perguntou em português se ele era brasileiro. O sotaque levemente lusitano confortou o coração de Roberto. Ao menos alguém estava falando em português. Ele respondeu nervosamente que sim. Será que agora saberei o porquê da prisão? Com um sorriso de santa nos lábios, ela prosseguiu:

. – Meu colega Pierre queria pedir ao senhor um charuto. Ele aprecia os bons Havanas só que aqui eles são muitos caros e os de Martinica não lhe agradam…
Uma lufada de ar tranqüilo expeliu do corpo de Roberto todas as suas preocupações. Rapidamente tirou uns sete charutos de dentro do capote e ofereceu para os dois policiais. Jeane recusou delicadamente. Pierre pegou uns quatros e agradeceu efusivamente. Os dois partiram em sua ronda pelo parque.

. Roberto voltou para seu charuto. Sentou-se com o coração mais calmo. Tomou um gole de cognac e deu outra baforada, suspirosa e caribenha. Trocou de livro – agora desejava os versos pátrios de Zé Inácio. Roberto sentia-se mais do que nunca um personagem de Sartre ou Jean Valjean naquela tarde de Paris.

Retrato de Família

Salvador, 09 de maio de 2003 (20h48)

.O apartamento ficava em um típico conjunto de classe média. Não era grande, nem pequeno – era médio, com seus três quartos e a cozinha ampliada com a demolição da dependência de empregada. Cada quarto tinha um aparelho de televisão (mais um na cozinha) e na sala, uma enciclopédia empilhada no chão fazia a vez de mesa para o telefone. Era um apertamento normal de uma família normal – com direito a contas a pagar e dois automóveis. Lá vivia a família Sousa. Um pai, uma mãe e um casal de filho – o varão era o mais velho e a caçula, a filha.

.O filho primogênito, R, nós o encontramos agora de frente para a janela de seu quarto. A janela estava aberta, a noite era de outono e o vento constante, fino e frio anunciava em assovios sua presença. R Sousa olhou para o chão de andares abaixo e olhou para o céu de andares acima. Olhou para o infinito horizonte de uma cidade grande e horrorosa.

.Seu coração estava triste, chorava sangue muito. Seus olhos estavam banhados de melancolia e desengano.

.Em sua escrivaninha, seus escritos careciam de arrumação e denunciavam seu gosto por literatura e filosofia. Livros e manuscritos subiam em pilhas, alternando paráfrases de Goethe com máximas de Nietzsche, estudos sobre Schopenhauer e Sartre com versos de Dante e Lorde Byron.

.R contemplava o infinito escuro da noite. Em que pensava ele, neste momento? O que ele pretendia fazer neste instante?

.R pensava na sua família, na sua pobre e medíocre família.

.Pensava em seu pai, F, contabilista aposentado. F vivia sua vida de pacato cidadão comum, de quem começou a trabalhar logo que concluiu o segundo grau. Embora fosse esperto e um dos melhores alunos de sua turma, F não fez vestibular. Tentou uns cinco concursos para o serviço público para as áreas das mais díspares (com motorista da SUCAM e restaurador do IPHAN), mas não passou. Empregou-se em uma empresa média de serviços, onde ganhava razoavelmente bem. Podia até para viajar no fim do ano, com seu velho carro, mas nunca tinha dinheiro para comprar livros que não fossem precisar para escola. Aliás, achava um desperdício pagar RS 11,90 por volume de Homero ou Machado de Assis, se com esse dinheiro ele comprava pão para a família durante uma semana ou a santa gasolina do tão importante carro.

.R pensava também em sua mãe, J, dona de casa e ex-normalista. Sua pobre mãe, cujo único divertimento era a televisão. Não se cansou até colocar vários aparelhos pela casa. Mesmo que os olhos estivessem presos nas tarefas domesticas, a TV estava ligada, para que J pudessem saber da última fofoca de Leão Lobo e Márcia Goldsmith, das dicas de casa e cozinha de Ana Maria Braga e Claudete Troiano, dos casos de ADN de Ratinho, as pseudonotícias de Datena. E ela dizia orgulhosa que pela TV, ficava super informada do mundo, muito mais do que tivesse lido. Livro ela não tinha tempo para ler…

.R pensava na sua irmã caçula, S, que já tinha um carro e que nunca pegava em um livro. Queria porque queria entrar no curso de Enfermagem, mas não havia jeito ou maneira que a convencessem de ler algum dos clássicos de literatura que eram pedidos no vestibular. O motivo evocado era singelo e convincente: No cursinho, ela decorava os macetes e os resumos, o que lhe dava mais tempo para se dedicar às matérias específicas. E depois, (SE e) quando passar, de que adiantará os versos e os romances de autores mortos para o exercício de sua profissão?

.R pensava na sua vida. Pensava quando criança ele foi um dos primeiros na classe. Pensava quando era sempre chamado para fazer ajudar nas peças e nos recitais na escola. Pensava nas redações premiadas, que ornavam o ginásio no fim do ano. Pensou nos versos que figuraram na antologia ditada pelo colégio. Pensou nas notas altas que tirou em toda sua vida escolar. Pensou no teste de aptidão que fez e lhe indicou a trilha das Letras. Pensou também na tristeza da família, quando R optou pelo curso de Psicologia, em lugar de um curso mais nobre com Medicina ou Arquitetura (desejo de sua mãe melodramática), ou mais rentável, como Informática ou Economia (vontade de seu pai pragmático). Pensou e penou estes anos em que fazia uma faculdade sem estímulo e era assediado a fazer qualquer concurso público que lhe desse qualquer salário de quatro a cinco dígitos. Pensou nas horas em que ficava sozinho durante a noite, em seu quarto, ouvindo música clássica e escrevendo seus contos queridos, seus poemas maduros e suas peças teatrais inconclusas, como único consolo para sua alma. Pensou nas brigas que teve com seu pai, quando R trocou uma inútil carteira de habilitação por uma importante máquina de datilografia.

.R pensava na contradição que foi sua vida. E com o coração amargurado, olhou para o chão de andares abaixo e para o céu de andares acima. Olhou para o infinito horizonte escuro da cidade. Volveu o pescoço e contemplou seu quarto, cujas quatro paredes era uma única estante repleta de livros, livros, revistas, fascículos e mais livros. Sentiu em sua face o vento frio e constante do outono. Fechou os olhos e refletiu nos passos que iria dar naquele momento.

. com os olhos fechados, viu na miríade dos séculos as estrelas apaixonadas de Olavo Bilac, as quimeras íntimas de Florbela Espanca, o barco ébrio de Arthur Rimbaud. Viu a praga que sua família era para o mercado editorial. Viu várias famílias vivendo pequenos dramas iguais ao seu – de um jovem se recusar a seguir a alienante e alienada mediocridade da vida moderna. Viu uma legião de seres humanos vegetando na ilusão de terem nas mãos o carro do ano. Viu (com carinho e ternura) as mulheres que passaram em sua vida, que aceitavam serem musas mas recusavam a serem amantes.

.E com os olhos fechados, R subiu no parapeito da janela e colocou uma perna para fora. Seu coração batia acelerado. Sentou-se devagar. O vento zunia um réquiem amigo. Um sino funeral alhures replicava baixinho. Respirou fundo, colocou a outra perna para fora e…



……………………………………………………



.Termino aqui o meu retrato de família. Sinceramente, não sei o que R fez. Não sei se ele pulou pela janela do décimo andar ou se seu espírito voou para as estrelas na cauda de algum poema. Não me lembro de ter ouvido choro de mãe ou grito de irmã. Não sei se S passou no vestibular ou se leu algum livro. Creio que seus pais continuam seguindo a sua vida normal: J assistindo Ratinho e Datena e F pagando em dias as contas da casa para mais tarde passear de automóvel – mas não tenho certeza de nada disso.

.Em todo caso, se o leitor ou a leitora quiser rezar para que Deus ilumine a alma de R, a ovelha negra queria ser um artista livre-pensador, peço que reze também para que iluminem a família Sousa também – afinal, ninguém merecia uma maldição dessa…

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Conto revisto. Edição original publicada na "Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - vol. 01 - Rio de Janeiro: CBJE, 2004" http://www.camarabrasileira.com/cs14.htm

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)