Sua Majestade, O Bardo

Minha foto
Valença, Bahia, Brazil
Escritor, autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Graduado em Letras/Inglês pela UNEB Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."
Mostrando postagens com marcador Erótica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Erótica. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de novembro de 2011

Os fabliaux de H Hilst



Os fabliaux de H. Hilst: Análise de alguns poemas do livro “Bufólicas”

Bufólicas, de Hilda Hilst, é uma coletânea de sete poemas narrativos em versos brancos e livres (com predomínio de redondilhas). Foi lançada em 1992 como uma reunião de poesias satíricas (a integrar o conjunto de livros "obscenos" que marcaram a produção literária de Hilda Hilst) que retomam o universo dos contos de fadas, para recontá-las dentro de uma perspectiva erótico-cômica. E tais quais as fábulas, os textos encerram com uma “moral” resultante e irônica.
O próprio título do livro Hilda Hilst indica o caráter em que se deve ler a obra: Bufólicas forma-se como um trocadilho com as palavras Bucólica e Bufo. Ou seja, já no início da leitura, nas quatro primeiras letras do título, está indicado para onde a autora quer levar: o lado do riso, do grotesco, da ironia. É como se um bufão entrasse no reino dos contos de fadas para perverter estas narrativas, virar pelo avesso a inocência infantil das histórias para instalar o carnaval dos sentidos, trazendo o que há de mais profano dentro dele. E na complementação do título, a autora já começa pregando uma peça do leitor: embora a palavra “bucólica” remeta a idéia de ambiente rural, ela não indicará um caminho da simplicidade e leveza que esta palavra “bucólica” geralmente é associada. Antes, ela remete aos fabliaux[1] do medievo francês, as narrativas curtas em versos octossílabos em que os vilões (moradores de vilas) são retratados comicamente em uma linguagem normalmente obscena, desnudando a estultice e a inocência destes vilões. Este clima de brincadeira maliciosa e ferina é reforçado com a epígrafe, o adágio latino Ridendo castigat mores.
Numa primeira leitura, “inocente”, poderia se depreender que Hilda Hilst voltou sua carga aos contos de fadas. Dois dos poemas narrativos são calcados em histórias clássicas: “A Chapéu”, cujos personagens da trama são paródias de “Chapeuzinho vermelho”, e “A cantora gritante”, em que são feitas referências às histórias da “A cigarra e a formiga”, de “Branca de Neve” e ao mito de Orfeu. Nos demais poemas os personagens se remetem a tipos universais destas histórias: a fada bondosa, a maga/bruxa má, o anão grotesco, o reizinho e a rainha, etc. Contudo, Hilda Hilst lhes atribui características e/ou situações de sexualidade grotesca, desviante, perversa – sensualidade vulgar que acaba provocando risos, bem ao gosto da tradição das fabliaux. Como lembra Alcir Pécora, no prefácio a segunda edição do livro, “As personagens são as de sempre, no gênero (…). O que muda é que todas são portadoras de anomalias nas genitálias e praticantes de grau diversos de bizarrias[2]”. Destes poemas, dois terão análise mais acurada neste trabalho: “A Cantora Gritante” e “A Chapéu”.
Em “A Cantora Gritante”, Hilda Hilst monta a narração amalgamando elementos de outras histórias cujo tema é a inveja. A protagonista da história chama-se Garganta Alva e destacava-se pela sua voz afinada e imaculada (presumidamente de soprano): “cantava tão bem / subiam-lhe as oitavas / tantas tão claras / na garganta alva[3]”. Tal era o encanto da voz da protagonista que provocava inveja nas mulheres da vizinhança, na medida em que deixavam seus maridos muitos excitados sexualmente todas as noites. Para tanto, elas resolvem calar a rival, maculando sua garganta com o “nabo” do jumento Fodão.
De Garganta Alva, Hilda Hilst apenas descreve sua voz, sempre usando palavras do campo semântico da Brancura: alva, clara. Esta escolha remeteria a figura da Branca de Neve dos irmãos Grimm. Também, pelo exercício da arte de cantar, se faz semelhante tanto a Cigarra das fábulas de Esopo e La Fontaine como ao herói grego Orfeu. Em contraposição, as mulheres das vizinhanças, que são descritas pela sua feiúra física: são mulheres “gordas consortes (…) curvadas, claudicantes / de xerecas inchadas[4]”. Deduz que estas mulheres seriam donas-de-casa, árduas formiguinhas em seus afazeres domésticos.
A ligação com a história da Branca de Neve também se verifica por ambas serem invejadas pelo seu encanto natural. Porém, a protagonista de “A cantora gritante” não gozará da mesma sorte da princesa do conto de fada. Tão pouco terá o desprezo da Cigarra, esfomeada durante o inverno. Será trágico (ou o quanto se pode ser trágico numa ópera-bufólica) como Orfeu, com o silenciamento forçado.
Brancura (imaculada?) inicialmente usada na descrição da protagonista ser contraposta por Hilda Hilst através da ambientação do clímax da história com palavras do campo semântico oposto: “certa noite… de muita escuridão / De lua negra e chuvas[5]”. E será perto do toco negro que a ação do “silenciamento forçado” da protagonista ocorre – Garganta Alva terá sua garganta estuprada (e maculada) pelo “nabo” de um jumento chamado Fodão.
Novamente Hilda Hilst brinca com as palavras e passa uma rasteira no leitor desatento: O jumento possui o nome do aumentativo. Deduz então que sua anatomia animalesca será proporcional ao seu nome, ou antes, desproporcional à sua vítima. Também se deduz que a Garganta Alva não é versada nas artes profundas da atriz Linda Lovelace…
Esta cena de bestialismo que encerra a narração também não deixa de mostra o jogo irônico utilizado pela autora. Se, através do mito de Orfeu, a música foi consagrada como meio para domar e acalmar bestas-fera (como Orfeu fez com as sereias e a Cérbero[6]), aqui, não só a música foi o ponto de partida da discórdia como fez que as mulheres da vizinhança mostraram-se mais cruéis, quase como foram, ao dilacerar Orfeu, as bacantes.
Na história “A Chapéu”, Hilda Hilst promove uma inversão dos pólos: se nas tramas originais de Perrault e dos Irmãos Grimm, o Lobo é um predador ativo e malicioso, masculino, que se opõem a dupla Vovó / Chapeuzinho Vermelho, presas passivas e inocentes, femininas; na recriação de Hilda Hilst, Lobão é explorado pela Avó Leocádia e sua neta Chapéu.
Se nos contos originais, a avó é desprovida de nome e comporta-se como uma personagem secundária, na narrativa de Hilst ela quem domina a situação. Sua posição já se encontra no nome: Leocádia. Leo, a Leoa, a líder, a rainha soberana em torno da qual gravitam as demais personagens. Apesar de não nomear a história, é ela quem primeiro aparece poema: “Leocádia era sábia”. Está sabedoria é que a fará explorar Lobão, tanto financeiramente (agindo como proxeneta, como se pode depreender na reclamação “Pois da última vez / Lobão deu pra três / E eu não recebi o meu quinhão![7]”) como sexualmente (como deixa subentendido ao final do poema, quando ela responde: “Às vezes te miro / E sinto que tens um nabo / Perfeito para meu buraco[8]”).
Já a neta de Leocádia é conhecida pelo seu apelido, Chapéu (sem o característico diminutivo e a cor vermelha). Se também não teria uma inocência infantil, como se observa nos versos “De vermelho só tinha a gruta / E um certo mel na língua suja[9]”, ela fica surpresa quando descobri o caso da avó com o personagem masculino, como se lê nos versos “AAAAII! Grita Chapéu / Enganaram-me! Vó Leocádia / E Lobão / Fornicam desde sempre / Atrás do meu fogão[10]”.
Em oposição ao par Chapéu/Leocádia, o personagem do lobo perde seu epíteto de mau e é chamado apenas de Lobão, estabelecendo uma ironia entre um nome do aumentativo e uma posição bem diminuta dentro do poema narrativo. Sem entrar na cena, é descrita pela Vó Leocádia como “uma bichona peluda” que serve de ganha-pão da dupla[11], que vai ser reforçada na reclamação já citada. Sua aparição mais “concreta” na ocorrerá na segunda metade do poema. Em contraste com o vocabulário chulo das duas personagens femininas, ele mostra uma linguagem mais afetada e um vocabulário quase parnasiano[12]. Ele claramente é posto como presa ante as duas, pelo comentário dele, presente nos versos “E por que tens, ó velha / Os dentes agrandados / Pareces de mim um arremedo!”, invertendo a ordem do diálogo clássico do conto de fadas.
Alcir Pécora, na introdução do livro, definiu o livro Bufólicas como “um exercício de estilo[13]”. Hilda Hilst exercita e atualiza o estilo das paródias fesceninas, do realismo mágico dos contos de fadas e das fabliaux, extraindo da (considerada) ‘baixa matéria-prima’ do erotismo já fronteiriço com a pornografia, pequenas pérolas de literatura e humor.


.
Referências
ANÔNIMO. Pequenas fábulas medievais. Fabliaux dos séculos XIII e XIV. Estabelecimento do texto, tradução para o francês moderno e seleção de Nora Scott. Tradução para o português de Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 1995. (Coleção Gandhära).
BULFINCH, Thomas. Mitologia geral. A idade da fábula. Tradução de Raul L.R. Moreira e Magda Veloso. Belo Horizonte: Itatiaia, 1962. (Coleção Descoberta do mundo, vol. 21).
COMMELIN, Pierre. Mitologia grega e romana. 2. ed. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1997. (Coleção Clássicos).
ESOPO. A Cigarra e as Formigas. In ESOPO. Fábulas. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martins Claret, 2005. (Coleção A obra-prima de cada autor, vol. 182).
GRIM, Jacob e GRIM, Wilhelm. Branca de Neve. In GRIM, Jacob e GRIM, Wilhelm. Contos de grimm vol 1. A Bela Adormecida e outras história. Tradução de Zaida Maldonado. Porto Alegre: L&PM, 2010. (Coleção L&PM Pocket, vol. 256)
GRIM, Jacob e GRIM, Wilhelm. Branca de Neve. In Contos de Fadas: de Perrault, Grimm, Andersen & outros. Apresentação de Ana Maria Machado. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
HAMILTON, Edith. Mitologia. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
HILST, Hilda. Bufólicas. 2. ed. São Paulo: Globo, 2009. (Coleção Obras Reunidas de Hilda Hilst).
LA FONTAINE. A Cigarra e a Formiga. In LA FONTAINE. Fábulas. Vários tradutores. 3. ed. São Paulo: Martins Claret, 2008. (Coleção A obra-prima de cada autor, vol. 200).
MÉNARD, René. Mitologia greco-romana. Tradução de Aldo Della Nina. São Paulo: Opus, 1991. 3 V.
PERRAULT, Charles. Branca de Neve. In Contos de Fadas: de Perrault, Grimm, Andersen & outros. Apresentação de Ana Maria Machado. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
WILKINSON, Philip. Myths & legends. An illustrated guide to their origins and meanings. Londres / Nova York / Munique / Melbourne / Delhi: Dorling Kindersley, 2009.


[1] Fabliau (plural fabliaux) são pequenos poemas narrativos com versos de fundo cômico ou galante. Floresceu na França Medieval, entre os séculos XIII e XIV.
[2] PÉCORA, Alcir. Nota do organizador. IN HILST, Hilda. Bufólicas. 2. ed. São Paulo: Globo, 2009. (Coleção Obras Reunidas de Hilda Hilst). p. 8
[3] HILST, Hilda. A Cantora Gritante. IN HILST, Hilda. Bufólicas. 2. ed. São Paulo: Globo, 2009. (Coleção Obras Reunidas de Hilda Hilst). p. 29
[4] Idem, ibidem.
[5] Idem, p. 30
[6] Conforme relatam Pierre COMMELIN, Edith HAMILTON, Philip WILKINSON, Thomas BULFINCH e René MENARD em seus livros sobre mitologia clássica.
[7] HILST, Hilda. A Chapéu. IN HILST, Hilda. Bufólicas. 2. ed. São Paulo: Globo, 2009. (Coleção Obras Reunidas de Hilda Hilst). p. 23
[8] Idem. p. 24
[9] Idem. p. 23
[10] Idem. p. 24
[11] Idem. p. 23
[12] Ver a Introdução de Alcir PÉCORA da 2ª edição do livro Bufólicas, p. 9
[13] PÉCORA, Alcir. Nota do organizador. IN HILST, Hilda. Bufólicas. 2. ed. São Paulo: Globo, 2009. (Coleção Obras Reunidas de Hilda Hilst). p. 8

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Os (diversos) nomes de Eros

Os (diversos) nomes de Eros
"Definir erotismo, traduzir e ordenar, de acordo com as leis da lógica e da razão, a linguagem cifrada de Eros, seria caminhar em direção oposta ao desejo, ao impulso erótico, que percorre a trajetória do silêncio, da fugacidade e do caos. O caráter incapturável do fenômeno erótico não cabe definições precisas e cristalinas – os domínios de Eros são nebulosos e movediços."
Lúcia Castello Branco
"O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora"
Octávio Paz
O senso comum remete a idéia de erotismo às noções de sexo, da sensualidade, do amor, do desejo, e do requinte[1]. E quase sempre em uma relação tensa com a pornografia (onde termina uma para começar a outra?). Mas o que é erotismo? Etimologicamente, Eros vem da raiz grega Ερως e significa amor (que, por sua vez, é raiz da palavra grega Ιμερος, Imeros, que significa paixão, desejo).
Na mitologia greco-romana, o que os gregos chamavam de Eros[2] (e que os romanos sincretizaram como Cupido) era a personificação do Amor – mais precisamente do amor sensualizado, ligado ao instinto da reprodução da vida. Ou como define Lúcia Castello-Branco, "(…) Eros é o deus do amor, que aproxima, mescla, une, multiplica e varia as espécies vivas". Na versão mais popularizada do mito, Eros é representado como um menino alado e travesso (cuja idade variava entre a infância e a adolescência), filho de Afrodite/Vênus[3] (deusa do amor, da beleza e dos prazeres) e que vive a acertar os corações humanos e divinos com flechas incendiárias que despertavam paixões nos atingidos. Quando apresentado como criança, a ele é atribuído um irmão[4], Anteros, que surgia ora como um deus vingador "dos que são desprezados no amor", ora "como símbolo do amor recíproco" (BULFINCH: 1962, 16). Este irmão seria responsável pelo crescimento de Eros – fato interpretado como a metáfora de que o afeto necessita ser correspondido para desenvolver-se. Já quando é representado como adolescente, aparece casado com a princesa Psiquê, a personificação da alma humana. Em todos os casos, é um deus jovial, ousado, maroto e audaz que consegue exercer seu poder (inflamar o amor no coração) desde os seres humanos até os próprios deuses — não hesitando, inclusive, de flechar sua mãe e o próprio Zeus[5],[6], rei do Olimpo. Foi inflamado pelas setas de Eros que Zeus (mesmo casado com Juno) se envolveu em tantas aventuras amorosas com outras deusas e mortais ­- a exemplo dos mitos de Europa, Leda e Antíope. Aliás, já prevendo singular poder e suas conseqüências que Zeus, no nascimento de Eros, quis obrigar Afrodite que ela se desfizesse do filho, ordem que ela desobedeceu, ocultando o filho numa floresta e o amamentando com leite de animais ferozes. Outra versão, mais primitiva do mito, já o associa à Criação do universo, na geração anterior aos Titãs. Eros, neste caso, seria a força que teria ajudado a criar o Universo a partir do Caos (O ovo cósmico). Segundo René Ménard, "Cupido, nos tempos primitivos é considerado um dos grandes princípios do universo e até um dos mais antigo dos deuses. Representa "a força poderosa que faz com que todos os seres sejam atraídos uns pelos outros, e pela qual nascem e se perpetuam todas as raça" (MÉNARD: 1997, 01).
A partir do mito greco-romano, podem-se depreender dois aspectos que estarão presente na discussão sobre erotismo: Um, derivado do mito primevo, é a relação de criação dos seres, a força reprodutiva; Outro (de certa forma, reforçando o primeiro aspecto), de que o amor também é carnal, é sexo, é sensualidade.
Do significado Ερως, Eros como amor (também carnal) a língua grega herdou várias expressões, como Ερωτος, Erotos, significando "Amor"; Ερωτις, Erotis, significando "amante"; Ερωτύλος, Erotulos, significando tanto "amoroso" como "erótico" e Ερωτιον, Erotion, significando "namorico" ou "passatempo amoroso". Semanticamente a raiz "Ero–" conduz a palavra "erotismo" para o ambiente dos impulsos sexuais. Contudo, o erotismo não se limita a sexualidade no ponto de visto biológico. Como afirma Lúcia Castello-Branco, em seu livro "O que é erotismo":
Não será, portanto, apenas através dos canais da sexualidade explícita que Eros se fará ouvir. Aliás, o segredo de seu poder parece residir exatamente nesta maleabilidade: o erotismo deriva de impulsos sexuais, mas é capaz de ultrapassa-los e de revelar mesmo em contextos onde é grande a repressão à sexualidade, mesmo em casos de extrema sublimações dos impulsos sexuais. (CASTELLO-BRANCO: 2004, 14)
Partindo do mito dos andróginos[7], Lúcia transcende o conceito de união, implícito na união sexual ou amorosa que se efetua entre dois seres para uma noção mais ampla de conexão do ser com o universo. Da mesma forma que os seres mutilados surgidos da separação dos andróginos procuram suas metades correspondentes para restaurarem a antiga unidade, o impulso erótico se manifesta no ser humano como um desejo de união, completude e totalidade, de integração do eu com o universo. Este impulso passa pela união sexual entre dois ou mais seres humanos (cujo momento do orgasmo a pessoa atingiria este estado de união com o/a parceiro/a) e entre em outros terrenos da vida, como a arte.
Sobre o impulso erótico dentro das artes, Lúcia diz que "A expressão artística se realiza em função de um mesmo impulso para a totalidade do ser, para sua permanência além de um instante fugaz". A comunicação obra de arte/ público é erótica: o primeiro contacto é sensual, pelos sentidos do corpo é que o objecto artístico agrada, desagrada ou se torna indiferente. E o gozo estético que o público teria com a obra de arte seria semelhante ao gozo erótico das perversões, cuja completude chegaria como um fim em si mesmo.
Esta idéia do "Eros" como completude está presente no início do Kama-Sutra. No primeiro capítulo, Vatsyayana, mostra que o Kama (entendido como uma amálgama de amor, gozo e prazer sensual), juntamente com o Dharma (virtude e vida espiritual) e o Artha (aquisição da riqueza material) estão juntos como os fins da existência humana. Para o autor hindu, "O Homem (…) deve praticar o Dharma, o Artha et o Kama" na sua vida – em épocas diferentes, entretanto – para que ele "alcançar o 'Makaha', que dispensa de uma transfiguração ulterior". Ou seja, o amor sensual (e o prazer que o mesmo provoca) é posto pela cultura hindu como um dos caminhos para o ser humano possa atingir a perfeição e voltar ao Criador (em última análise, ser completo e integrado à natureza). Purgar o Kama do ser humano implicaria em mantê-lo na eterna roda de reencarnações – tanto que Vatsyayana lembra que "A execução do ato genital é tão necessária à existência e ao bem estar corporal quanto o alimento e portanto os prazeres correlatos são igualmente legítimos, sendo tão importantes quanto a prática de Dharma e de Artha".
Este aspecto em que o impulso erótico união sexual entre seres humanos seria uma faceta do desejo de união do ser com os objectos do mundo, leva ao outro aspecto do Eros como força da criação. O desejo de totalidade e completude que este impulso remete ao Caos primordial, em que tudo esta junto no mesmo ovo cósmico. A Criação é a força da vida que continua que continua presente, se repetindo em pequena escala o mesmo instante que originou o Universo.
Com base neste aspecto que Georges Bataille define o erotismo como "a aprovação da vida até na morte" (1987:11). Partindo da dialética vida/morte, Bataille observa duas forças regeriam o ser humano: De um lado estaria a força de sobrevivência do indivíduo, sua permanência como ele mesmo. Do outro lado, o desejo de fusão com a pessoa amada (que representaria sua dissolução individual). A atividade erótica prepararia a fusão onde se dois seres humanos se misturariam. Deste modo, Ele afirma que:
A aprovação da vida até na morte é desafio, tanto do erotismo dos corações quanto no dos corpos, desafio, por indiferença, à morte. A vida é acesso ao ser: se a vida é mortal, a continuidade do ser não o é. (…) a desordem erótica imediata nos dá um sentimento que ultrapassa tudo, de forma que a sombrias perspectivas ligadas à situação do ser descontínuo caem no esquecimento. E, para além da embriaguez que abre a vida juvenil, é-nos dado o poder de abordar a morte de frente… (BATAILLE: 1987, 22)
Para tanto, o erotismo em Bataille seria uma experiência interior a ser vivida pelo do ser humano. Aliás, este aspecto de vida interior que seria mais uma diferença entre o erotismo e a sexualidade animalesca. Se nos animais ditos irracionais, a escolha do(a) parceiro(a) é uma escolha puramente instintiva (uma vez que parece que a mesma fora dada), no ser humano depende dos gostos individuais, a partir de seu interior. Como lembra Bataille, mesmo que a escolha do(a) parceiro(a) seja a concomitante com a da maioria, ela foi feita a partir da individualidade de cada um. Deste modo, pode-se depreender que o erotismo é uma atividade essencialmente humana, é a sexualidade indo além do mero instinto animal.
Este aspecto exclusivamente humano do erotismo é que leva Octávio Paz a considerar o mesmo pode ser definido como "sexualidade transfigurada". Dito de outra forma, "antes de tudo, o erotismo é exclusivamente humano: é a sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e vontade dos homens." (PAZ: 1994, 16). No caso, o erotismo para Octávio Paz equipara-se a metáfora, em a sexualidade vai além da procriação. Ela também se torna prazer, representação, subversão, sensação e sentimento (amor). Desviando da função reprodutiva 'prescrita' pela natureza (ou Deus, segundo a Teologia), a sexualidade passa a ser, no erotismo, um terreno onde a imaginação do ser humano (homem e mulher) reina. Por isso que Octávio Paz aponta para a multiplicidade do erotismo, a dizer que o mesmo "varia de acordo com o clima e a geografia, com a sociedade e a história, com o indivíduo e o temperamento". Ao contrário dos animais, que fazer sexo da mesma forma, para o ser humano vive sua sexualidade de várias formas, executando várias posições a união sexual e experimentando novas visões para o ato. Diante desta multiplicidade do fenômeno erótico ganha que os autores sentem dificuldade em definir precisamente o erotismo[8].
Esta multiplicidade se revela também na diferença entre sexos. Segundo Francesco Alberoni, "Não existe apenas uma raiz do erotismo, mas duas. Uma mais profundamente presente nas mulheres e a outra nos homens. A primeira tende a produzir uma comunidade de vida, unida pelo amor. A segunda, ao contrário, não tem projetos, vive de projetos". Deste modo, pode afirma que o erotismo feminino é contínuo; enquanto o masculino, descontínuo[9]. Esta continuidade feminina surgiria devido a saciedade do homem após o ato sexual, que levaria a um "decréscimo de interesse para com a mulher" (ALBERONI: 1987, 23), realizado por ter atingido o êxtase do orgasmo. Este comportamento é entendido psicologicamente como uma espécie de rejeição, de ser ratada apenas como corpo. Deste modo, o desejo erótico feminino passa pela permanência do homem ao seu lado após ao orgasmo. Deste modo que os sentidos do tato e do olfato. "a mulher que a presença física do seu homem, sentir suas mãos as suas mãos sobre a sua pele, (…) sentir o seu cheiro, sentir a mistura de seus cheiros" (ALBERONI: 1987, 29). Deste modo, as mulheres vêem o erotismo como um todo: o ato sexual deve está conjugado ao amor e a ternura[10]; a atração erótica ser atividade pela centralidade social, pelo reconhecimento social e/ou poder[11]. A fantasia erótica feminina procura a intimidade e a vida em comum (1987, 60) e tende se abrir com o mundo (1987, 67). Por isso "a sedução feminina deve renovar-se para exorciar o descontínuo que existe no homem". No homem, o erotismo é diferente. Ele é marcado pela descontinuidade, pois ele "experimenta com mais freqüência que a mulher o instante de eternidade. Este não é um intervalo temporal. É um estado particularíssimo, exterior ao tempo". (1987, 41). Esta descontinuidade afirma-se no homem como uma experiência mais interiorizada que a mulher. "há no homem um componente erótico muito forte que desdenha o externo e valoriza o interno" (1987, 67), o que levaria a excluir de sua vida erótica o compromisso, os deveres, a própria vida social" (1987, 60). No homem sua excitação é mais visual – não tato, mas a visão que provoca o excitamento[12].
Pelo o que foi analisado até agora, o erotismo pode ser considerado como a expressão criativa da sexualidade humana, que vai além da mera reprodução biológica para visar também o prazer sensual (que evoca os sentidos, como o Kama da Vatsyayana) e o amor como forma de chegar a completude. Sendo a procura da completude através do amor e do prazer, o ser humano retirar a procriação como característica central do ato sexual – deixando o sexo de ser instintivo para ser cultural. E sendo expressão criativa, o erotismo é múltiplo, varia para cada indivíduo (ou seja, cada sexo terá experiências diferentes de sua sexualidade).



[1] No caso de requinte, este é mais invocado quando se compara o erotismo com pornografia, sendo esta considerada a contraparte vulgar e menos sofisticada da sexualidade, enquanto aquele seria a representação mais nobre e sofisticada.
[2] "O nome Cupido, em latim, implica a idéia de amor violento, de desejo amoroso, em grego, Imeros. Contudo, na mitologia latina, presta-se a esse deus mais ou menos a mesma origem, a mesma história que ao deus grego Eros, Amor". (COMMELIN: 1997, 71)
[3] Embora os autores sejam unânimes em atribuir a maternidade de Eros à Afrodite; a paternidade já é mais contestada. Pierre Commelin diz que "(…) segundo a maioria dos poetas" Eros "nasceu de Marte e Vênus", o que explicaria a audácia deste deus. Contudo, René Ménard afirma que "Mitologicamente, não sabemos quem é seu pai, mas os poetas e escultores concordam em lhe dar Vênus como mãe (…)".
[4] Edith Hamilton, além de atribuir a Anteros também o caráter do que se opunha ao amor, também atribuí como irmãos de Eros/Cupido, os deuses Hímero (personificação da Saudade) e Himeneu (Deus que preside a festa de Casamento).
[5] Segundo Ménard, há uma ressalva quanto a extensão deste poder: "Não obstante o seu poder, (Eros) jamais ousou atacar Minerva e sempre respeitou às Musas".
[6] "Júpiter ­­– Vê, pequenino malandro, se não é grande mal insultar-me a ponto de fazeres com que eu me revestisse de forma de forma de sátiro, touro, cisne e águia. Não fizeste com que mulher alguma se apaixonasse de mim próprio (…)." Neste trecho de um diálogo satírico de Luciano, presente em René Ménard, Júpiter/Zeus reclama ao Cupido, citando às metamorfoses que se submeteu para conquistar algumas de suas amantes.
[7] "(…) Os seres andróginos redondos e possuíam quatro mãos, quatro pernas, duas faces, dois genitais, quatro orelhas e uma cabeça. Esses seres, por sua própria natureza, eram poderosos e resolveram desafiar os deuses, sendo, por isso, castigados por Zeus, que decidiu corta-los em duas partes." (CASTELLO-BRANCO: 2004, 09)
[8] Esta "imprecisão" do termo talvez fica mais patente quando se confronta com a definição de pornografia. Uma vez que ambos tratam da sexualidade humana transfigurada pela cultura e a separação se dar no plano da qualificação subjectiva, Alain Robbe-Grillet considera que "Pornografia é o erotismo dos outros". (ROBBE-GRILLET apud MORAES e LAPEIZ :, 199?, 109)
[9] "Estamos diante de uma estrutural temporal, diversa nos dois sexos. Há uma preferência profunda do feminino para o contínuo e uma preferência profunda do masculino para o descontínuo" (grifo do autor) (ALBERONI: 1988, 24)
[10] "Para a mulher, a ternura e a doçura combinam com o erotismo, inserem-se nele harmoniosamente. Para o homem isso acontece com muito menor freqüência. A mulher sente como erótica, tanto a emoção provocada pelo contato do corpo do filho, como aquela provocada pelo contato com o corpo do amante. Ás vezes, gostaria de tê-los a seu lado juntos, juntos na mesma cama. (…) Também a diferença entre amizade e amor é mais tênue na mulher. Dorothy Tennov observou que as mulheres confundem mais facilmente a enfatuação erótica e a paixão. O homem, ao contrário, tende a acentuar as diferenças, a separar as diversas emoções." (ALBERONI: 1987, 25)
[11] "O erotismo feminino é profundamente influenciado pelo sucesso, pelo reconhecimento social, pelo aplauso (…). O homem quer fazer amor com um mulher bonita e sensual. A mulher quer fazer amor com um artista famoso, com um líder (…)" (ALBERONI: 1987, 32)
[12] "Aos olhos masculinos, a mulher vestida está distante, protegida. A roupa e a maquilagem têm sempre um duplo significado: de convite e de obstáculo". (ALBERONI: 1987, 69)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Último Suspiro

Último Suspiro

Salvador, 04 de setembro de 2000

Deitada na laje fria de mármore,
Teus seios brilhavam a luz do luar.
E tuas formas seminuas, lânguidas,
Resvalam pelos mantos de cetim.

De teu torso níveo, tua tez macia,
Entrevia uma seara fremente
No qual a Vida ainda vegetava
Em luxuriosos desejos e amores.

Teu hálito de canela rescindia
Enquanto meus lábios juntavam-se
Aos teus em um beijo funéreo.

Pouco depois, o teu corpo arfava
Em pecaminosos espasmos e gozos
Que lhe sugavam u’a última gota vital.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Paz na cama (de quem ama)


PAZ NA CAMA (DE QUEM AMA)


A paz na cama
Após este desejo
Que inflama
O pudor e o pejo
É luz diáfana
Que desce o Tejo
Até o Sol de Pindorama .


E assim, sem nexo,
Estico meu corpo
E procuro seu sexo,
Encantos e seu léxico
Feminino, quente , louco.
Prazer e emoção do amplexo
Que antecede o gozo.


Renasce o fogo que ama
Na paz do nosso retiro.
E a lassidão encanta
Meus mornos suspiros;
A languidez de nossa manta
Cobre o sossego que prefiro
Quando desce a paz em nossa cama.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Drummondiana


Drummondiana


Valença, 01º de março de 2000


Depois do amor, sonhar!
E sonhando, indo pelas nuvens… amar!
Mas amar não dois corpos
Numa cama mecânica de cobre,
. Mecânicos gestos,
. Mecânico falar,
. Mecânico gozo.
É AMAR –sentido vulcões–
Tocar orquestras de trovões,
Aspirar à suavidade do mel;
Galgar a profundidade do éter,
Ouvir as doces fragrâncias do azul.
Pele a pele, boca a boca;
Quero unir em um abraço cósmico
O aleph e o ômega de teu corpo
Em espasmos de prazer,
E glórias profundas,
E coloridos orgasmos de jasmins.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Farol do Desejo (Aquele Beijo...)








Farol do Desejo (Aquele Beijo...)
http://www.camarabrasileira.com/sens08-025.htm




Foi numa noite de chuva
Que beijei teus lábios úmidos.
Tu estavas tímida, e timidamente,
Desabrochavas tua feminilidade em nosso ninho.
As gotas de chuva, lá fora, entoavam
Uma sinfonia em cada pétala
De rosa que elas beijavam.
E o beijos que tu me davas,
E o calor das taças de vinho,
E o silêncio confidente da lareira
E o fogo de teu corpo fremente
Incendiava irreversivelmente meu corpo,
Conduzindo minha língua
Pelo teu umbigo macio,
Pelos teus lábios maternais,
Pelos teus seios luminosos,
Pelo teu pescoço ebúrneo
Até chegar a tua face e boca marota.



Nossos corpos nus entraram em curto-circuito
E atingimos a comunhão
Dos corpos e dos orgasmos.
E em nossos lábios,
Recindia a saudade daquele primeiro beijo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

In Taberna


In Taberna


29 de julho de 1996


A dream that was not at all a dream
Darkness - Lord Byron.


— Passava lá fora, a chuva caía a cântaros, a tempestade era medonha, entrei. Boa noite, senhores! Se houver mais uma taça na vossa mesa, enchei-a até às bordas e beberei convosco
Bertram - Álvares de Azevedo.


O vinho faz do poeta um príncipe e do príncipe um poeta
Verso árabe citado em Macário - Álvares de Azevedo.


(Prólogo - Fala do Autor)
(Estava chovendo cântaros rubros,
Parecia que Deus abrira sua vinha.
Vários jovens vejo à sono solto
Cantando os sonhos que me convinha
)
………………………………………………………………


(Idealista Rico)
Dizem ser o dinheiro
Um mal necessário ...
Oras bolas - carambolas!!!!!
Por que não o fazem um bem fútil?
………………………………………………………………


(Esteta Helênico)
Pega-te furtivamente este verso
Escreva-te uma galante pena,
Dei-lhe um belo título:
- Eis um grande poema
………………………………………………………………


(Médico de Coimbra)
Zombaste Bocage, meu caro Bocage
De toda a medicina.
Mas do que valeria sua vida
Se o esculápio não cumprisse sua sina??
………………………………………………………………


(Realista mas Honrado)
Ventos, Chuvas e Trovões
Terremotos, Incêndios e Tufões;
Mas quem agüentaria, Caro barão,
Ter em chamas o próprio coração????
………………………………………………………………


(Apaixonado Incorrigível)
Quem é a sombra
Que mo aparece a noite?
É um anjo do amor?
Ou o demônio de mia desgraça?
A virgem de meus sonhos?
Ou a música perdida da infância?
É só uma barata .......... POOF!!!!!!!!!
………………………………………………………………


(Um Poeta Medievalista)
Traga-me papel e tinta; caneta e café,
Um grande poema estar surgindo...
Um soneto sobre algum copo de vinho,
Uma epigrama sobre a noite com u’a mulher!
………………………………………………………………


(Um Francês da Quartier Latin)
Je suis fleur du amour,
Coeur orange du Vie, Soleil.
Poetè, Je mangè emocion,
Glorie, tout le musique macabre,
Je — feèrique passion
Pour une femme.

Je suis flame du monde:
Je suis…

Je suis le Noir,
Je suis le Rein.
………………………………………………………………


(Velho Libertino)
Beije todas as fadas
Enquanto fores jovem e vigoroso
Beba toda a juventude
Para não reclamares quando estiveres idoso.
………………………………………………………………


(Nosso Padre, Bêbedo)
Khayyam, Epicuro, Bocage, Anacreonte:
Em quer ares estiveram antes
Para nos darem lições tão brilhantes?
………………………………………………………………


(Sincero, com um guarda)
Não entendo o porquê das mulheres dizerem hoje
Não existir, dentre os homens um só cavalheiro?
Quando fazemos uso da boa etiqueta
Somos acusados de atacar co’o falo guerreiro
………………………………………………………………


(Inglês, dentre amigos)
Three things I need:
A full bottle of wine;
A good book of poems
And a hot kiss of virgin.
………………………………………………………………


(Espanhol, nascido nas Américas)
Besame ahora, angelito negro;
El tiempo vuela como un caballo.
Después, yo estuviere viejo en mío aposento...
Y tu, veleidosa, amases otro señorito.
………………………………………………………………


(Outro Francês, este contemporâneo do 9Termidor)
Lumière du ma vie, soleil noir.
Tu es la fleur du un coeur poètique,
Tu es la fèe du une poèse romantique
- Musique divine in blanc soir.
………………………………………………………………


(O Bruxo Solitário)
Bruxas e fadas, Elfos e duendes;
Tenhas Robim Goodfellow por companheiro
Quando a floresta estiver em festa,

Tenhas Mefistófeles por conselheiro
Quando o coração estiver em chamas,

Tenhas Vênus por amante
Quando tua alcova arder em desejo;

Mas não tenhas a cabeça nos pés,
Não tenhas pedras no coração
Quando estiveres amando em teu leito.
………………………………………………………………


(Rapaz Italiano)
Buona sera, casta signorina.
Come stai, bella madona?
Come stai, fiore della vita mia.


Bongiorno, calda nostagia.
Dove stai, il mio dolce amore?
Dove stai, sogno del gioventù?


Gellida mattina, dove stai mia fiore?
………………………………………………………………


(Espírito Latino)
Copulo ergo sum.
In seacula seaculorum,
Carpe diem. Carpe diem.
Post Nubila, Phoebus.
………………………………………………………………


(Arauto do Mago)
Cante o vento a boa-nova,
Espalhe a brisa pelos prados
A notícia que agora brado:
Estão Oberon e Titânia em amor profundo.
(Sei agora que perto estamos do fim do mundo).
………………………………………………………………


(Outro Inglês)
Go away, go away mad
Horse in sea’s wind ...
Go after, go after sad
Darkness - go and leave-me!
Go and leave-me!
………………………………………………………………


(Estudante da Sorbone)
Seios duros e glúteos arrebitados
Beijos lascivos e corpos mulatos
Nada como gozares a juventude fresca
Antes que esta profana fonte esteja seca.
………………………………………………………………


(Revolucionário, dentre outros conspiradores)
Liberdade - Voe alto, Revolução,
Detenham as lavas do vulcão!
Liberdade - Lema da Juventude;
Abra tuas asas na mais alta amplitude.
………………………………………………………………


(Nobre de antiga estirpe)
Sua Majestade el-rei mandou avisar:
Precisa-se de domador de fera
Corajoso, louco e bonito para casar
Com a princesa - graciosíssima megera.
………………………………………………………………


(A Romantic Poet)
I sleep in river of my heart.
The moonlight kiss me, love me.
The butterfly drink my dreams.
I die! I lie! I am the black spleen.
………………………………………………………………


(Cantor de Ópera, cínico)
Baixe seus olhos, Orgulho!
O mundo não passa de uma canção:
Coros de catástrofes, Allegro de saparias
E quartetos solitários em teu leviano coração.
………………………………………………………………


(Filosofo Sóbrio)
Taberneira! Traga-me mais vinho!
Não se afoga coração sem a loucura,
Não se fica bêbedo sem o espírito
E a morte não tem meio melhor
De levar alguém à sepultura.
………………………………………………………………


(O Autor, já com sono)
Morto de sono, durmo com Morfeu.
O vapor do narguilé chama-me à cama.
Sonhos de volúpia e paixão
Dilui-se todos, findou-se a trama;
Era tudo uma triste ilusão.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Canção das Bundas

Canção das Bundas

(um poeminha safado)

Salvador, 13 de julho de 2000 (00h23)

“A bunda, que engraçada,
Está sempre sorrindo, nunca é trágica
”
Carlos Drummond de Andrade

As nádegas são mais que bundas,
São grandes sinos de macio bronze
No bailado balançar brejeiro
Da baiana, que passa na rua.

De nada as nádegas têm de lúdico.
É ninho inocente e luxurioso,
Que nadam na malícia pueril
Que nasce de sua imagem lunar.

Flutuam, antes, nos sonhos sonsos
Do marujo que tem sede de terra,
Do mancebo que desperta pro desejo,
Das várias cabeças varonis.

Que, vendo o badalar do traseiro,
Procuram o desejo ou o amor
E acaba se rendendo as graças
Do balançar de uma bunda.

(Podem, nas alturas do busto,
Confabular os sensuais seios:
‘E nós, frutos da vida, onde
Entramos neste belo mosaico’)

Sinceramente, o que me agrada
Mesmo, é o conjunto brejeiro,
Da bunda que rebola, da boca
Que provoca, do seio que se insinua,
Da nuca sedosa, macia e nua
Gosto corpo feminil inteiro…

quarta-feira, 1 de março de 2006

Pequeno Poema Sensual

Pequeno Poema Sensual

Valença; madrugada de 05 de setembro de 2004

Vendo tuas formas bailarem
Com volúpia e êxtase, sinto
Minha virilidade explodir
Como orgias divinas de estrelas.
Teus seios túrgidos e teus glúteos
Giram rápidos numa dança
Pagã e sensual – expressão
Das magias eróticas do coração
E dos sonhos angelicais de sedução.
Como gostaria de sentir
Tua cona, todas as conas do mundo
Bailando lassas nas minhas entranhas,
E ver bailar teu corpo de Afrodite
Nos meus sonhos impuros de poeta.
Quero sentir o teu corpo feminil,
Sentir e possuir todas as mulheres
Do mundo em um doce sonho
de lassidão…

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Ninfas e Sátiros

Ninfas e Sátiros
Salvador, 28 de março de 2000



É noite. A Lua encobre o céu e a terra
Com seu negro, veludoso pálio cintilante,
Incrustado de soberbos diamantes;
Iluminando o palco p’ra lasciva festa.

****
Dos cantos do bosque, bailavam formosas
Ninfas de talhes belos e perfeitos.
Corpos nus resvalavam seios bem feitos,
Dançavam ao som de flautas vaporosas.

****
Chegando este nobre cortejo à clareira,
Encontravam-se co’os sátiros já em transe,
Com seus falos imensos e latejantes.

****
O prazer de Vênus, à todos, incendeia.
Iniciava-se os mistérios: A volúpia regia;
A paixão inflamava e imperava a orgia.

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)