Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Saudações às Estrelas

Saudações às Estrelas

(Para o companheiro Ruy Lima, presidente do PT de Valença)

Valença; 27 de abril de 2008 (02h41AM)

Noite, permita-me rasgar teu veludo
Para que as estrelas hoje brilhem garbosas.
Quero este brilho festivo de carrossel
Para saudar a vitória e a unidade.
Quero o brilho verde cheio de vida
Das estrelas ecológicas.
Quero o brilho vermelho e corajoso
Das estrelas socialistas.
Quero o brilho negro e harmonioso
Das estrelas revolucionárias.
Quero o brilho dourado e libertário
Das estrelas democráticas.
Quero o brilho rosa e companheiro
Das estrelas femininas.
Quero o brilho sem cor, sem raça e sem sexo
Das estrelas igualitárias.
Quero o brilho prateado e esperançoso
Das estrelas populares.
Quero o brilho de todos os que lutam
Para saudar a vitória de hoje,
O brilho das estrelas que são diversas na unidade
E que sonham por uma aurora escarlate,
Socialista, Democrática e que não tem medo de ser feliz!
Quero que as estrelas brilhem forte hoje
Para que a manhã possa explodir fraterna, sempre!!!
Brilhem, estrelas! Brilhem!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Genialidade Precoce de Álvares de Azevedo

Genialidade Precoce de Álvares de Azevedo

Ricardo Vidal, 29 anos, escritor. Autor do livro “Estrelas no Lago”. Estuda Letras/Inglês na UNEB-Salvador. Weblog: www.bardocelta.blogspot.com, E-mail: cve_livros@hotmail.com

Álvares de Azevedo morreu antes de completar 21 anos. Contudo, deixou para a posteridade um conjunto de obra literária digna de gente grande. Tanto em volume como em qualidade, está colocado como um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos.
Manuel Antonio de Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, em 12 de setembro de 1831. Diz a lenda que teria nascido em uma das salas da biblioteca da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco – como que para explicar sua genialidade. Na verdade, nascera na casa do avô materno, que fica “próximo” à faculdade, que depois viria a freqüentar vinte anos mais tarde.

Paulistano de nascimento, todavia criou-se no Rio de Janeiro, para onde se mudou em 1833. Lá estudou no colégio Stoll e no Imperial Colégio Pedro II. Neste período, seus professores atestaram a genialidade do aluno, com notas excepcionais em todas as matérias, com exceção em ginástica.

Em 1848, voltou para São Paulo, para cursar Direito. Naquela época, a capital bandeirante se destacava exclusivamente pelo seu curso jurídico que, juntamente com o de Olinda, e as faculdades de medicina de Salvador e Rio de Janeiro, foram as únicas instituições de nível superior do país no meados do século XIX e onde se formava a elite cultual do Brasil de então. Nesta época, Álvares de Azevedo foi colega de outros futuros gênios da literatura nacional, como Bernardo Guimarães e José de Alencar.

Sendo pouco avesso ao convívio social da cidade, que sempre julgou provinciana (conforme atestava suas cartas), tampouco participava das rodas boêmias dos estudantes. Álvares de Azevedo vivia recluso em seu quarto, com e para seus livros. Contudo, sua reclusão não impediu que outra lenda se acrescentasse a sua vida – de que era um boêmio inveterado, consumidor voraz de conhaque e membro da Sociedade Epicuréia – que promovia as orgias românticas e macabras, como festins noturnos em cemitérios.

De sua participação na vida social, restringisse alguns discursos, como o comemorativo da criação dos cursos jurídicos, em 1849 e o da fundação da Sociedade do Ensaio Filosófico Paulistano, em 1850. Destes discursos, o de 1849 foi a única obra publicada em vida.

Morreu em 25 de abril de 1852, em conseqüência ao um tumor na fossa ilíaca provocada de uma queda de cavalo, sem concluir o curso de Direito. Em 1853, foram publicados seus textos, por iniciativa do seu pai.

UMA LITERATURA JOVEM E MADURA. A produção literária de Álvares de Azevedo impressiona tanto pela sua qualidade como pela quantidade. Além dos poemas, acrescenta-se no seu inventário poético o livro de contos fantásticos “Noite na Taverna”, a peça de teatro “Macário”, o romance “Livro de Fra Gondicário” além de volumes de crítica, discursos e cartas.

Como poeta, ele figura como o principal representante da chamada Segunda Geração Romântica ou Geração Ultra–Romântica. Sendo um leitor voraz tanto dos clássicos do porte de Shakespeare e Göethe, como – e principalmente – de românticos, como Byron, Musset, Shelley e Lamartine; Álvares de Azevedo assimilou as características da época: intimismo, sarcasmo, desejo pela morte, império do sentimento sobre a razão, escapismo, mulheres idealizadas e impossíveis, amores entre o angelical e demoníaco. Entretanto, em lugar de ser um mero caudatário de tendências, mostrou originalidade nas suas criações poéticas, como a introduzir a ironia à inglesa: sutil e recheada de fleuma, diferente da velha chalaça portuguesa. Isso é atestado nos poemas “Namoro à Cavalo” e “Minha Desgraça”.

Original também é seu lirismo confessional, em que canta seu amor familiar à sua mãe e a sua irmã e sua sensação de uma morte prematura – amor puro e casto de alguém que sente saudades pelos seus entes mais queridos. É ponto pacífico dentre os críticos que aí Álvares de Azevedo alcançou sua perfeição. A sinceridade presente neste nos verso do poema “Se eu morresse amanhã” e “Lembrança de Morrer” o coloca dentre os maiores líricos.

Sua obra poética é composta pelos livros “Lira dos Vintes Anos” (que se destinava a um projeto coletivo, que iriam contar com versos de Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães), “Poesias Diversas” e os poemas narrativos “O Conde Lopo” e “Poema do Frade”.

Na prosa, se destacam os contos fantásticos de “Noite na Taverna”, a narrar diversas aventuras macabras de assassinatos, traições e amores de jovens estudantes europeus, reunidos em torno de uma mesa esfumaçada de taverna, que tanto poderiam ser cenários dos devaneios de Byron como dos sonhos de Shelley. Estes contos, bem acabados exemplos da estética byroniana, introduzem nas nossas letras os textos de mistérios e horror.

Dignos de notas são seus trabalhos de crítico literário, em que se notam a extensão de sua cultura humanística e um apurado senso de análise. Isso é atestado no prefácio de sua peça de teatro “Macário”, em que, reconhecendo a fraqueza de sua própria obra, delineiam um perfil de teatro que tivesse o que há de melhor no teatro espanhol, no grego e no inglês.

O romance “Livro de Fra Gondicário”, os discursos e a sua correspondência completam o seu patrimônio literário, que foi escrito por um jovem que faleceria precocemente com duas décadas de vida.

Em face dessa prodigalidade, alguns críticos divagam: Tivesse Álvares de Azevedo vivido mais tempo, conseguiria se superar? O Brasil ganharia um grande dramaturgo? Um grande crítico – como o foi Edgar Allan Poe para os Estados Unidos? Ou não? De concreto, o que deixou em vida já o credencia a ser um dos nossos clássicos da nossa literatura.

Floradas

Floradas (para D. Záide)

Salvador, 29 de maio de 2001 (UFBA, Cantina do PAF I)

Da rosa, tens o rubor;
Da orquídeas, a beleza.
Da tulipa, tens o frescor
E da hortênsia, a leveza.

Tens o perfume do jasmim;
Do girassol, tens o riso.
Tens da tília a perenidade
E da dália, a serenidade.

Dos lírios tens a santa paz;
Da margarida, o encanto.
Da camélia tens o canto
E do crisântemo, o charme.

És doce como o miosótis
E como o cravo, és singela.
Como a magnólia, és suave
E como a violeta, bela.

……………………………………………………………………

Ai, Ai! Pobre de mim!
Por mais que eu tente,
São poucas as palavras
Para quem és toda um jardim.

(Publicado no jornal Valença Agora, sob o título "Floradas") .

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Weblogs que eu recomendo 02

Weblogs que eu recomendo II

Será que já criaram a "blogterapia"? Hoje pela manhã (estou escrevendo de madrugada) terei que fazer meu estágio de regência em ginásio. E até agora estou sem sono. Não que eu tenha medo ou esteja preocupado (diria que levemmente irritado porque não dormir). Apenas fiquei sem sono. E para passar o tempo, resolvir ver minha lista de blogs preferidos. É a minha forma de enganar o tempo, fazendo ele pensar que está me enterrando com a passagem dos segundos - quando na verdade ele apenas é uma percepção psicológica de um fenômeno físico no qual sou apenas umm personagem-espectador. E antes que eu fique tentando da dissertar sobre as setas do Tempo de Stephen Hawking, voltemos para o objetivo deste posts: Indicar a leituras de alguns blogs interessantes:

  1. Cavaleiro de Fogo (http://www.jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/). Meu amigo e colega de poesia José Inácio Vieira de Melo lançou recentemente seu blog, no qual temmos poesias e informações culturais, revelando esta poesia que anda escondida nos sertões da Bahia.
  2. Outras Bossas (http://www.outras-bossas.blogspot.com/). Foi uma grata surpresa encontrar o blog da cantora (e jornalista) Joyce. Crônicas e comentários deliciosos que derretem nos olhos e encantam o leitor. E por que não dizer, um momento para aprofundar também o conhecimento sobre MPB e Bossa Nova na voz de um dos seus ícones?
  3. Leda Nagle (http://bloglog.globo.com/ledanagle/). Para quem é fã do programa "Sem Censura", lógico que eu não deixarei de dar uma espiada no blog da jornalista Leda Nagle. Isso prova que pode existe vida inteligente na televisão.... hehehe!
  4. Cláudia Gimenez (http://bloglog.globo.com/claudiajimenez/) A Rede Globo criou este grife "bloglog" e nele encontramos os blogs oficiais de famosos. Admito que não me causa muito interesse saber das intimidades dos famosos. Contudo, achei o blog de Cláudia Gimenez interessante, principalmente para acompanhar a carreira teatral dela. Tabémm a espontaneidade dela é cativante!!!
  5. Bruna Surfistinha (http:www.brunasurfistinha.com). Devo confessar que parte do motivo que me escolher o meu tema de pesquisa acadêmica foi por conta de blog. Digo isso porque, se ela não tivesse feito o sucesso que fez na internet com seu diário eletrônico, que gerou até agora três livros e assim abrisse uma trilha no mercado editoral (mais tarde seguida por Vanessa de Oliveira, Belle, a portuguesa que escreveu "300 clientes habituais", etc...); eu não teria me atinado para este filão da literatura erótica feminina contemporânea. otivo que coloco aqui como um dos blogs que eu leio.

Bem. Um dia desse eu escrevo para o Valença Agora um artigo falando de blogs e com uma lista dos eus blogs prediletos.

(Para ver outros weblogs que recomendo, entre neste link: http://bardocelta.blogspot.com/2007/09/weblogs-que-eu-recomendo.html)

sábado, 5 de abril de 2008

Serie 01 de abril de 1964 - Poetrix


Série 01º de abril de 1964 - Poetrix


Salvador, 05 de abril de 2008 (00h12)


01º de abril de 1964 - I (piada trágica)


No meio da madrugada (como ratos)
Assassinos instalam uma ditadura e depois
A chamaram de Revolução Democrática.


01º de abril de 1964 - II (cores do terror)


Asnos cor de verde-oliva
Pintaram de vermelho-sangue
E sepultaram o Brasil nas trevas.


01º de abril de 1964 - III (sons do silêncio)


Marchas militares, demagogias
E ufanismo ingênuo abafam alegres
Os gemidos dos torturados.


01º de abril de 1964 - IV (fauna)


Na selva de gorilas e arapongas,
Até o sabiá partiu para o exílio,
Com medo do pau de arara.


01º de abril de 1964 - V (Obituário)


Disseram: "Salvaremos a Democracia!"
E assassinaram-na com baionetas,
Cassações e atos institucionais.


01º de abril de 1964 - VI (cultura)


De hoje em diante,
Seremos livres
Para sermos censurados.


01º de abril de 1964 - VII (Lavagem cerebral)


Patriotas morrem no Araguaia.
"Eram terroristas crueis"!
Mentiras podres no jornal


01º de abril de 1964 - VIII (Meio e Mensagem)


Cadeira do dragão, pau de arara:
Meios para se construir o futuro
De um país silenciado pelos coturnos.


01º de abril de 1964 - IX (noite eterna)


Na noite dos DOPS e DOI-Codi,
Até os sapos tem medo
De coaxarem suas fofocas.


01º de abril de 1964 - X (Esperança ainda que tardia)


Um dia foi do ditador de plantão,
21 anos e alguns desaparecidos
Depois, será a vez da Democracia


Ricardo Vidal


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Esta série de poetrix versando sobre a farsa do Golpe ilitar de 01º de abril de 1964 (que alguns teimam em chamar de "Revolução de 31 de março") como forma de lembrar que precisamos lutar muito para vivermos numa democracia e que precisamos ter cuidado ao perigoso canto de sereia de que naquela época as coisas era melhores. Aliás, como sugestão de leitura intertextual, sugiro que assitiam o filme "Land of the Blind", com Ralph Fiennes, Lara Finn Boyle e Donald Sutherland.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Identidade e Estereótipos

Identidade e Estereótipos

Salvador; 23 de março de 2008.

Sempre achei curioso o fato das pessoas estranharem quando eu dizia que eu sou de baiano de Valença. “Seu sotaque é um diferente que pensei que você viesse do Sul. Seus hábitos não são de baiano. Imaginava que pelo fato de você ter nascido em Valença fizesse que eu você comesse camarão todo dia”. – Várias vezes eu ouvi comentários semelhantes porque eu quase que não me enquadro nos estereótipos relacionados com minha origem.

Só para clarear, devo lembrar que eu nasci na cidade de Valença, município do estado da Bahia, que por sua vez está localizado na região Nordeste da República Federativa do Brasil, América do Sul. Ou seja, pelo ponto vista geográfico, posso considerar que faz parte do conjunto de minha identidade ser: Latino-americano, Brasileiro, Nordestino, Baiano e Valenciano. Contudo, será que eu me enquadro nos estereótipos destes povos?

Partindo da identidade maior, de nascido no América do Sul, as coisas começam a complicar: Apesar de ser neto de galego originário de Pontevedra, o país onde nasci fala português e não o espanhol. Também não tenho aquele moreno de quem é descendente de índio. Aliás, qualquer ascendência indígena que tenho deve ser bem distante, algo de seis ou sete gerações atrás. Também não vivo em um lugar rodeado por florestas tropicais – como costuma ser retratado em filmes.

Quanto a ser brasileiro, eu posso decepcionar os estrangeiros: Não conheço o Rio de Janeiro nem a floresta Amazônica. Não jogo nem sou fã de futebol (minha paixão pelo Galícia Esporte Clube é mais de razão étnica do que o esporte em si). A Copa do Mundo, a rigor, eu acho chata e para pirraçar, não torço pela seleção canarinho – se eu tiver que torcer por alguma seleção, que seja a espanhola. Não sei sambar nem sei batucar. Não tenho escola de samba nem sou fã do carnaval. Não gosto muito de feijoada. E sou contra a Lei de Gerson e o famoso jeitinho!

Claro que alguém um pouco instruído pode dizer: “É comum os gringos confundirem Rio de Janeiro com o Brasil. O Nordeste é diferente!”. Realmente, o Nordeste brasileiro é diferente dos morros e da zona sul carioca. Mesmo assim, eu não tenho as marcas que as pessoas atribuem aos nordestinos. Não venho do sertão semi-árido, nunca vesti gibão de couro, não fui alfabetizado lendo literatura do cordel (que só vi conhecer depois de estar na faculdade), nunca comi buchada de bode com rapadura e farinha, eu não rezo para o Padim Ciço nem sou afilhado de Lampião.

Ora”, direis, “Mas a Bahia é um caso a parte no Nordeste”! E isso é verdade se eu disser que nasci no litoral baiano – a milhas de distância deste mítico sertão nordestino estereotipado. Então alguém pode pensar que eu gosto de ouvi Axé Music e Samba-reggae, que eu sei todas as coreografias de carnaval, me esbaldo na cozinha baiana (principalmente quando levam azeite de dendê), que eu sou ‘preguiçoso’ e que falo arrastado este dialeto baianês. Verdade? No que se refere à culinária, passa perto: eu não gosto de caruru e estou perdendo o gosto para moqueca. Eu odeio carnaval de trio elétrico – logo não sei dançar nenhuma dessas coreografias. Não gosto de Axé Music e assemelhados. Não sou preguiçoso (se bem que também não tenho a pressa neurótica do paulistano). E quanto ao baianês, passo léguas de distância da caricatura da TV Globo. Posso até falar ‘oxe!’ e ‘oxente!’ de vez em quando – porém eu fico retado quando ouço alguém falar ‘arretado’ na TV! Arre! Baiano não fala assim!

Só que justiça seja feita: não nasci em Salvador para ter estas marcas de ‘baianidade’ nagô-caetanesca-gilbertogiliana. Nasci no interior, na cidade de Valença. O que não autoriza que as pessoas pensem que, como interiorano minha infância foi subindo em árvore do quintal, que minhas férias eram em fazenda, montando em um cavalo. Fui, sou e serei sempre um animal urbano, de nunca pisar na terra descalço. São contadas nos dedos as vezes que subi em uma árvore – para desespero do meu pai. E pelo amor de Deus – o fato da cidade ser uma grande produtora de camarão não quer dizer que eu coma camarão todo dia! Camarão por lá é caro e de certa forma é um artigo de luxo

Só que no final das contas, mesmo não comendo camarão todo dia, eu me orgulho de ser valenciano, filho da boa terrinha do Rio Una e patrício do Conselheiro Zacarias de Góis e Vasconcelos. Sinto-me honrado em ter nascido no mesmo estado que gerou Waldir Pires, Rui Barbosa, Castro Alves, Gilberto Gil e dos filhos de Dona Canô – mesmo que não vou atrás do trio elétrico. Não escondo que sou varão nordestino – apesar de nunca ter andado com peixeira ou gibão de couro. Brasileiro com amor (e como não amar a Pátria do Cruzeiro do Sul, onde nasceu a Bossa Nova e Santos Dumont?) sem torcer pela seleção canarinho; sonho com integração de minha América Latina com nossos irmãos de fala hispânica (inclusive com nossos vizinhos argentinos!) – da Patagônia até a fronteira do Rio Grande no norte do México. Pois esta é a minha identidade, sem estereótipos.

Cena Provinciana

Cena Provinciana

Valença; 31 de dezembro de 2007

Quando eu cheguei à cidadezinha,
O Tempo me esperava sonolento
Numa velha cadeira de balanço:
Nhec… Nhec… Nhec… Nhec…

A vida andava devagar, devagar:
Devagar ia o vento parando nas folhagens,
Devagar trinavam os pardais no ninho,
Devagar as taturanas trocavam de pele,
Devagar a Velhice esculpia os rostos.

Na escola primária, o mestre-escola
Ensinava que a capital federal
Era a cidade do Rio de Janeiro.
Na calçada em frente à farmácia,
Dois jovens bacharéis discutiam
Se a UDN ou o PSD era o melhor partido.
Na janela desbotada, uma neta
Sexagenária usava o vestido da vovó.
Numa vitrola cansada alhures,
Um vinil mono arrastava um cantor
Desconhecido da Jovem Guarda – como se fosse novidade!
Na matinê, Ankito estrelava com Oscarito
As recém–lançadas chanchadas da Atlântica.

Era uma cidadezinha tão linda, tão devagar,
Que desconhecia Toy-art e I-pod;
Os CDs de Enya, a filosofia de Derrida,
Os filmes de Sophia Coppola e Lars von Trier;
Os livros de Aleiton Fonseca e Carlos Ribeiro;
Que os astronautas alunissaram na paisagem flicts;
Da reeleição de Lula e do fim da CPMF
E que Renata Belmonte, Fernanda Young e Alex Leila
São as poetisas–musa do momento.

Meu Deus! Mas o que eu faço aqui, distante da civilização?
É o que pergunta meu coração, sem respostas à vista…

Provincia

Província

(para o colega Amil Lima)

Valença; 31 de dezembro de 2007

Era uma cidade interiorana, mas antenada:

Os pais jogavam paciência no computador;
As mães assistiam “Big Brother Brasil”
E outros reality-shows;
As crianças brincavam de Traficante
E Tropa de Elite nas calçadas;
Os brotos, irados, tunavam os carangos
Para ficarem mais velozes e mais furiosos;
As cocotas eram garotas papo-firmes
Que se vestiam a la Carla Perez e Wanderléia.
Os jovens dançavam freneicamente Arrocha,
Jovem Guarda, Funk carioca e Pagode.
Os intelectuais (muitos sabidos por sinal)
Liam avidamente Paulo Coelho e Dan Brown
(Embora continuassem escandalizados com a pedra no meio do caminho);
Os marmiteiros comiam X–alguma coisa
No comida–a–quilo da praça
E bebiam a nova cerveja da Televisão.

Quando um moço cosmopolita perguntou
Se havia naquela cidade progressista e antenada,
Um pub que tocasse Madredeus e servisse Dry-Martini,
O povo de lá o chamou de tabaréu démondè…

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)