Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Identidade e Estereótipos

Identidade e Estereótipos

Salvador; 23 de março de 2008.

Sempre achei curioso o fato das pessoas estranharem quando eu dizia que eu sou de baiano de Valença. “Seu sotaque é um diferente que pensei que você viesse do Sul. Seus hábitos não são de baiano. Imaginava que pelo fato de você ter nascido em Valença fizesse que eu você comesse camarão todo dia”. – Várias vezes eu ouvi comentários semelhantes porque eu quase que não me enquadro nos estereótipos relacionados com minha origem.

Só para clarear, devo lembrar que eu nasci na cidade de Valença, município do estado da Bahia, que por sua vez está localizado na região Nordeste da República Federativa do Brasil, América do Sul. Ou seja, pelo ponto vista geográfico, posso considerar que faz parte do conjunto de minha identidade ser: Latino-americano, Brasileiro, Nordestino, Baiano e Valenciano. Contudo, será que eu me enquadro nos estereótipos destes povos?

Partindo da identidade maior, de nascido no América do Sul, as coisas começam a complicar: Apesar de ser neto de galego originário de Pontevedra, o país onde nasci fala português e não o espanhol. Também não tenho aquele moreno de quem é descendente de índio. Aliás, qualquer ascendência indígena que tenho deve ser bem distante, algo de seis ou sete gerações atrás. Também não vivo em um lugar rodeado por florestas tropicais – como costuma ser retratado em filmes.

Quanto a ser brasileiro, eu posso decepcionar os estrangeiros: Não conheço o Rio de Janeiro nem a floresta Amazônica. Não jogo nem sou fã de futebol (minha paixão pelo Galícia Esporte Clube é mais de razão étnica do que o esporte em si). A Copa do Mundo, a rigor, eu acho chata e para pirraçar, não torço pela seleção canarinho – se eu tiver que torcer por alguma seleção, que seja a espanhola. Não sei sambar nem sei batucar. Não tenho escola de samba nem sou fã do carnaval. Não gosto muito de feijoada. E sou contra a Lei de Gerson e o famoso jeitinho!

Claro que alguém um pouco instruído pode dizer: “É comum os gringos confundirem Rio de Janeiro com o Brasil. O Nordeste é diferente!”. Realmente, o Nordeste brasileiro é diferente dos morros e da zona sul carioca. Mesmo assim, eu não tenho as marcas que as pessoas atribuem aos nordestinos. Não venho do sertão semi-árido, nunca vesti gibão de couro, não fui alfabetizado lendo literatura do cordel (que só vi conhecer depois de estar na faculdade), nunca comi buchada de bode com rapadura e farinha, eu não rezo para o Padim Ciço nem sou afilhado de Lampião.

Ora”, direis, “Mas a Bahia é um caso a parte no Nordeste”! E isso é verdade se eu disser que nasci no litoral baiano – a milhas de distância deste mítico sertão nordestino estereotipado. Então alguém pode pensar que eu gosto de ouvi Axé Music e Samba-reggae, que eu sei todas as coreografias de carnaval, me esbaldo na cozinha baiana (principalmente quando levam azeite de dendê), que eu sou ‘preguiçoso’ e que falo arrastado este dialeto baianês. Verdade? No que se refere à culinária, passa perto: eu não gosto de caruru e estou perdendo o gosto para moqueca. Eu odeio carnaval de trio elétrico – logo não sei dançar nenhuma dessas coreografias. Não gosto de Axé Music e assemelhados. Não sou preguiçoso (se bem que também não tenho a pressa neurótica do paulistano). E quanto ao baianês, passo léguas de distância da caricatura da TV Globo. Posso até falar ‘oxe!’ e ‘oxente!’ de vez em quando – porém eu fico retado quando ouço alguém falar ‘arretado’ na TV! Arre! Baiano não fala assim!

Só que justiça seja feita: não nasci em Salvador para ter estas marcas de ‘baianidade’ nagô-caetanesca-gilbertogiliana. Nasci no interior, na cidade de Valença. O que não autoriza que as pessoas pensem que, como interiorano minha infância foi subindo em árvore do quintal, que minhas férias eram em fazenda, montando em um cavalo. Fui, sou e serei sempre um animal urbano, de nunca pisar na terra descalço. São contadas nos dedos as vezes que subi em uma árvore – para desespero do meu pai. E pelo amor de Deus – o fato da cidade ser uma grande produtora de camarão não quer dizer que eu coma camarão todo dia! Camarão por lá é caro e de certa forma é um artigo de luxo

Só que no final das contas, mesmo não comendo camarão todo dia, eu me orgulho de ser valenciano, filho da boa terrinha do Rio Una e patrício do Conselheiro Zacarias de Góis e Vasconcelos. Sinto-me honrado em ter nascido no mesmo estado que gerou Waldir Pires, Rui Barbosa, Castro Alves, Gilberto Gil e dos filhos de Dona Canô – mesmo que não vou atrás do trio elétrico. Não escondo que sou varão nordestino – apesar de nunca ter andado com peixeira ou gibão de couro. Brasileiro com amor (e como não amar a Pátria do Cruzeiro do Sul, onde nasceu a Bossa Nova e Santos Dumont?) sem torcer pela seleção canarinho; sonho com integração de minha América Latina com nossos irmãos de fala hispânica (inclusive com nossos vizinhos argentinos!) – da Patagônia até a fronteira do Rio Grande no norte do México. Pois esta é a minha identidade, sem estereótipos.

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