Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

terça-feira, 29 de julho de 2014

A imortalidade dos nossos idolos

A (i)mortalidade dos nossos ídolos

Ricardo Vidal
Escritor, especialista em Estudos Literários pela UFBA
membro da Academia Valenciana de Educação, Letras e Artes

25 e 28 de julho de 2014

Na semana passada, o Brasil recebeu a notícia do falecimento de Dr. Rogério Mourão, principal nome da astronomia brasileira. Essa notícia chega quando ainda estávamos nos recompondo do susto do falecimento de Ariano Suassuna, que por sua vez veio de assalto quando ainda tínhamos as pálpebras úmidas pelo falecimento de João Ubaldo Ribeiro…

Num insight de humor negro, poder-se-ia pensar como a Morte ironicamente confrontou a “imortalidade” dos membros da Casa de Machado de Assis – afinal, em menos de 20 dias, três “imortais” faleceram seguidamente: Ivan Junqueira, além dos já citados Ariano e Ubaldo. Contudo, por uma triste coincidência, o falecimento dos escritores valencianos Macária Andrade e Edgard Oliveira (meus confrades da AVELA) e do crítico baiano de cinema André Setaro (de quem orgulhosamente fui aluno na Faculdade de Comunicação de UFBA) nesse triste ano de 2014 faz meditar sobre a (i)mortalidade dos nossos ídolos…

A Razão filosófica e a Empiria científica diz que não haveria muito que se lamentar, pois a única coisa que se tem por certa no mundo é que todo ser vivo – a partir da fecundação dos gametas e passando por todos os processos químicos, sociais, biológicos e culturais – encontra a morte no final da sua caminhada (cedo ou tarde, sem nunca falhar). A Religião ainda traz o consolo da Fé na “outra vida”, enquanto a Arte purga as aflições pela catarse e gozo estético. Mas, de uma forma ou de outra, naquele momento obscuro em que não entra as luzes da Fé, do Belo e da Razão, a sensação que temos é que certas pessoas deveriam ser imunes a essa sentença perene da Morte. Ou melhor, nos recusamos em acreditar que o professor genial de cinema, o cientista aclamado pelos pares ou o escritor contemporâneo predileto (seres que julgamos olímpicos e, portanto, acima das mesquinharias do mundo) também é feito do mesmo pó que se fez o mendigo, o fariseu, o bom, o facínora e o parvo. 

Sua fala inédita não se ouvirá mais, sua presença se limitará às memórias das pessoas e ao nome aposto em alguma obra, até que as areias do Pai Tempo cobrirão parcialmente essa nova estátua de Ozymandias, ficando uma ou outra anedota para lhe restituir uma sombra de Humanidade para aquele nome já quase obscuro.

Para evitar isso que tentamos trapacear a Morte. Criamos subterfúgios nos enganar: edições de obras póstumas, cartas e álbuns de fotografia que consolam a ausência do gênio; arquivos e museus perenizem seus objetos e feitos, lembranças indiretas do ídolo ausente; monumentos e honrarias que os eternizem como exemplos e êmulos para a população; a análise crítica exercitada sobre vida e pensamento deles – em busca de algum exemplo ou ensinamento novo que possa engrandecer a mente; uma mimese menor, material, necessária e profana de novos mitos, para celebrar o ser olimpiano que uma vez já caminhou por entre nós. A mortalidade do corpo físico é substituída pela imortalidade dos signos e dos índices preservados pela memória. 

É essa vontade de se derrotar (por algum meio imaginário) a Morte que obriga transcender nossa condição de meros animais do planeta Terra, conglomerados de átomos fugazes e perdidos na imensidão das galáxias existindo sem sentindo, para nos definidos como Seres Humanos. Ou, dizendo tudo de forma mais simples: cada menina que se questione sobre os mistérios das estrelas ou sobre o passado do Baixo Sul, um menino cante o hino de Valença ou um jornalista se debruce para criticar bem um bom filme; Rogério Mourão, Edgard Oliveira, Macária Andrade e André Setaro estarão vivos e presentes entre nós. Serão para sempre… imortais!…  

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Balada Cósmica

Balada Cósmica
(Para Pelegrini, Maurício e Kadu Lisboa)

Valença; 21 de julho de 2014 (02h38 AM)

Nas estrelas procuro meu refúgio
E não quero pensar em mais nada
– só na vertigem positrônica dos sonhos.
Quero entrar nesse abismo sem fim,
No abismo negro ás margens dos quasares.
Quero ser o centauro das galáxias,
A Nêmesis dos eclipses e das elipses.
Quero fundar uma colônia nietzschiana
No meio das planícies rubras de Marte.
E como um além-do-homem cósmico,
Romperia as fronteiras psicológicas
Que separam o átomo e a verdade.
Cavalgaria um cometa perdido na noite
E fundaria Impérios de Utopias e Futuro,
Derrotando o niilismo empírico dos “coxinhas”.
E com baladas fulgindo sobre as trevas,
Estabeleceria as treze auroras da Humanidade:
As auroras que nos levaria à total redenção…

Soneto Ebrio escrito na Madrugada

Soneto Ébrio escrito na Madrugada
(Para Rosângela Góes)

Valença; 21 de julho de 2014 (02h05 AM)

Estrêlas! Simbolismo das Alturas,
Turibulárias das essências puras,
- Olhos do Azul iluminando os mundos.
Estrêlas – Elmano Amorim

Na treva desabitada de estrelas
Uma estrela se compõe aqui dentro
à revelia do espelho e do espaço
À última adolescente – Rosângela Góes

Da céltica cornamusa ouço a saudade.
E das harpas hebraicas, respiro paixões.
Caminho perdido na minha feliz cidade
A procura de minhas perdidas ilusões.

E ébrio pela plástica aura das estéticas,
Invento mil baladas sobre quimeras:
Descrevo hipérbole para uma poética
Do Rio Una, minha doce negra pantera.

De Rosângela Figueiredo e Elmano Amorim,
Aprendo que Valença é rica na sua poesia.
E assim, dou-me conta do tesouro carmim
Que sempre os inspirou com audaz alegria.

E sonhando com distantes quasares quânticos,
Termino meu soneto inglês, com ares românticos…

Vitivinicultura Literaria

Vitivinicultura Literária

Prefácio etílico de um livro bucólico


Salvador, 23 de fevereiro de 2012 /
Valença, 25 de junho de 2014.

Pelo título do livro, o prefácio deveria falar da poesia como um exercício de jardinagem da alma e/ou do estilo. Mas eu admito que a jardinagem seja algo que eu não tenho domínio suficiente para fazer a devida metáfora, fazendo com que meu texto soasse deveras artificial. Gosto (muito) de flores, mas não sei cultivá-las. Aprecio as flores como um enófilo amador que começa a beber os bons vinhos – chega perto, degusta os olores, aprecia as formas, estuda um pouquinho, mas não se atreve a entrar nos cernes mais rebuscados e técnicos da elaboração de um simples vinho tinto seco ou do cultivo de um pequeno canteiro de jasmins chineses. Desse modo, parto por um caminho por mim mais conhecido que, sem abandonar o espírito bucólico do livro, lançará melhor luz sobre alguns pontos acerca a obra.

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Pessoalmente, sempre imaginei o exercício da literatura como algo mais próximo da produção do vinho. As palavras e as frases são colhidas nos parreirais do idioma para serem macerados no tanque branco da página (ou na tela, se pensarmos nos computadores) para formar o mosto/texto. Depois, são deixadas fermentando e decantando sozinhas no texto. Convém, para um escritor profissional (ou um autor diletante mais preocupado com sua produção escrita), que periodicamente retorne aos seus textos, burile onde for preciso, e, principalmente, acompanhe essa fermentação, a fim de ver se o texto virou vinagre, se ainda precisa de mais tempo de maturação ou se simplesmente já está pronto para ser engarrafado no livro e entregue ao público.
Penso nisso porque os textos (pelo o que pude tirar de minha experiência), normalmente seguem três caminhos:
01) Alguns textos viram vinagres porque não resistiram a prova do tempo. Mesmo que, na hora da composição ele realmente emocione, no outro dia (ou na outra semana, ou ainda, meses e anos depois) eles já não dizem mais nada à alma. Mostram-se ingênuos ou vazios, ainda sejam reescritos. Aliás, não é bom mexê-lo: praticamente seria necessário escrever um novo texto, mais apurado. Não prestam para publicação e inexoravelmente o seu destino é o lixo ou o fundo esquecido de uma gaveta.
02) Outros textos ainda não envelheceram o suficientemente bem. São textos difíceis, com um forte travo do tanino e que tendem a se confundir com os textos avinagrados acima citados: não estão maduros a ponto de serem publicados. Contudo, isso não quer dizer que seja um texto para ser descartado. Ele pode ser aproveitado numa edição futura, porque é texto que nasceu póstumo. Ele ainda guarda surpresas, é um texto indomado, o qual (talvez) até precise de duas ou três emendas a fim de que possa sair redondo na página do livro. É um texto cuja leitura, por parte do escritor, precisa ser mais bem digerida antes de mandar servir aos leitores ­­- digestão essa que pode ser longa o suficiente que só faça o texto vir a lume pelas mãos de um pesquisador que, tendo acesso ao arquivo do escritor, o encontre e o publique em uma edição póstuma de obras completas ou em uma edição crítica.
03) E, last but not least, há os textos que estão prontos para serem engarrafados. Venceram a prova do tempo e a leitura ainda inebria com facilidade, não restando dúvidas ao escritor de que já se pode entregar aos seus leitores.
Asseguro esta minha tese com a produção destes meus três livros. Estrelas no Lago, Fogos de Beltane e Flores do Outono vieram a lume depois desse processo de escrever, reescrever, fundir, cortar, ler, reler, recortar, corrigir, aumentar e (auto)criticar constantemente. Periodicamente foram feitas triagens em cima de triagens, leituras em cima de leitura, como se eternos palimpsestos fossem.
Em Flores do Outono, o exemplo talvez seja mais radical. Inicialmente era um mero título ad hoc para o meu segundo caderno de poemas, que eu então escrevi ainda na adolescência, quando ainda morava em Valença. Nesta fase eu apenas coligia todos os meus escritos, dividido entre a esperança juvenil de um dia talvez publicá-los (e, quiçá, correr o risco de ser famoso) e a vontade madura de ainda escondê-los, cético quanto ao seu real valor. Mais tarde, já morando em Salvador (período em que estava cursando a universidade), tomei a coragem de reunir os meus melhores poemas para poder registrar junto a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Foi quando comecei a cristalizar certa crença de, quem sabe um dia, mandar para o prelo os primeiros meus poemas "maduros". O volume de folhas A4 encadernadas que enviei para o registro era uma amálgama de outros quatro cadernos, pastas de computador e alfarrábios que eu já tinha escrito. Aproveitei o título do segundo caderno, Flores do Outono por me parecer mais atraente e já naquela vez eu dividira em partes com nomes de flores, reunindo poemas que pudessem ter alguma identidade entre si. Outros volumes eu viria a registrar postumamente, reciclando os outros nomes ad hoc dados aos cadernos e pastas.
Quando, mais tarde, resolvi publicar o meu primeiro livro (o Estrelas no Lago), mesclei os volumes registrados. Na hora eu achei melhor dar um novo nome para este livro, mesmo que muito dele tenha a essência do Flores do Outono primitivo. Imaginei o Estrelas no Lago como um livro de estreia que servisse de teste para os meus poemas, para que, no futuro, eu publicasse o Flores do Outono como o foi inicialmente concebido – projeto que naturalmente eu abandonei logo depois.
Fato similar ocorreu com Fogos de Beltane, que foi inicialmente um volume ad hoc para participar de um concurso literário e que seguiu uma lógica parecida com ao primeiro livro (ou seja, coligindo poemas dos cadernos anteriormente organizados para formar uma segunda unidade editorial). Posteriormente se tornou no segundo volume de poesia a ser publicado por conta própria, trazendo alguns dos poemas mais recentes.
Nesse ponto eu pude ver com mais clareza esse processo da “vitivinicultura literária”: Na medida em que eu retornava a leitura, repetia-se a observação de textos avinagrados (como na sessão de poemas dedicados a minha cidade natal, nos muitos se mostraram imaturos e sem nenhuma força poética que justificar vir a lume), de textos que se mostraram prontos para serem consumidos naquele momento (ou seja, todos os que saíram neles) e de textos que ainda precisavam envelhecer mais no barril (como o “A Jangada Partiu”, que aproveitei nesse volume). Claro, admito que, nesse processo, eu sacrifiquei poemas que teriam (talvez) mais sentido se publicados dentro do título original ­­– como no caso de “Flor do Outono” e “Cântico dos Lírios”. No entanto, vários poemas posteriormente escritos (e que não estavam alocados ainda nenhum outro volume) mostraram mais afeitos ao espírito desse volume ­– como o caso de “Rosa Bianca” e “O Dom da Rosa”, como se não houvesse mais outro lugar para publicá-los. O resultado é esse volume, digamos que a versão 3.0 do meu tão acalentado e querido projeto Flores do Outono.
Cito essa história de como eu escrevi esse meu livro para ilustrar minha tese. A variação de textos entre o caderno manuscrito, as folhas encadernadas para registro na Biblioteca Nacional e o livro propriamente publicado ocorreu exatamente porque vi muitos textos se avinagrando e outros imaturos e póstumos, esperando o momento certo de ir para o prelo.
Pode parecer, aos olhos dos leigos, uma excentricidade este meu método de trabalho. Mas tenho certeza que com outros escritores um processo parecido também se desenrole.
Creio que escrever um livro é ter isso em mente: todo texto artístico precisa “fermentar”, dar-lhe o devido tempo de maturação. E dar tempo implica em estabelecer o distanciamento necessário para que o escritor possa desenvolver sua autocrítica em relação ao escrito, a fim de se perceber a sua evolução. Não basta apenas pisar e repisar nas palavras no papel para achar que o texto já está para ser engarrafado ­­­- é preciso que o tempo também aja sobre ele, que haja essa fermentação necessária para se extrair a essência de uma nova sonoridade, de uma nova sintaxe, de um novo sentido, de uma nova forma de expressão, qualquer coisa que mexa na língua e cause o famoso “estranhamento” pregado pelos formalistas russos. Como consequência dessa tese, percebe-se que a “fermentação” não servirá apenas para aparar pequenas arestas (como erros ortográficos ou para apurar as frases e os parágrafos). É através desse processo que o livro ganha sua integridade como obra de arte – que servirá de marco para a separação entre o escriba diletante e o escritor profissional candidato a figurar na história.
Ao comparar a produção do vinho com a do livro, percebo a importância do fator Tempo para o sucesso. Bons vinhos finos, assim como bons livros, não são produtos rápidos, feitos a toque de caixa. É preciso paciência na hora de produzir. Quando considero as idas e vindas para compor esse livro, vejo que não basta apenas a “chegada mágica da inspiração” (como imagina o senso comum alimentado pelo romantismo do século XIX) para se o poema garanta o seu lugar como de arte. É o posterior exercício crítico de leitura e releitura que testa a permanência da fruição estética do mesmo e se percebe os pontos fracos. É na leitura “fria” (que eu comparo ao momento de “decantação” do vinho) que se podem filtrar as falhas do texto e assim emenda-lo – isso quando o texto se mostra realmente promissor, não “azedou” a ponto de virar “vinagre”. E no caso da composição de um livro de poema, é nessa hora que realmente se percebe quando o texto está bom. E mais tarde, será o mesmo fator Tempo que dirá sobre o sucesso do livro depois de pronto. Da mesma forma que muitos vinhos ainda amadurecem dentro a garrafa, os textos amadurecem do livro. E só o tempo dirá quando um livro atingirá sua maturidade, qual será a duração de seu auge, e/ou quando ele “passará do ponto” e deixará de ser relevante – mutatis mutandis, similar ao que acontece com as safras das uvas viníferas.

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Eu organizei o presente volume como uma rede de pequenos mosaicos unidos por uma linha mestra. No meu primeiro livro, Estrelas no Lago, esse procedimento estava presente em forma embrionária. Os poemas se articulam entre si formando tênues sequências sem divisões aparentes (como no caso dos poemas eróticos e dos poemas de amor). Contudo, como o volume foi concebido como um trabalho de estreia, a linha mestra acabou se limitando na seleção do que julguei serem meus melhores trabalhos escritos até o momento. Já para o presente volume, não só deliberadamente dividi as sessões como procurei explorar um leitmotiv especialmente caro para mim: flores. Selecionei de meus parreirais as uvas que julguem mais apropriadas, levando-me a reservar os poemas com mais referência a campo semântico da noite e das estrelas para o meu próximo volume, Sombras do Luar. Quanto à divisão do mosaico, optei estabelecer a seguinte seleção:
a) Em [Jasmins], coloquei os poemas os quais, de certa forma, eu dialogo com a minha contemporaneidade, numa poética crítica da vida atual, fruto da minha ideologia. Evitando cair na tentação de compor poemas doutrinários ao velho estilo da estética engajada de matriz esquerdista, procurei reunir minhas reflexões inconformistas sobre a realidade, fustigando nas entrelinhas o que julgo ser a mediocridade de vida atual.
b) Em [Cravos], apresento um caleidoscópio lírico. Aqui não estabeleci uma unidade temática (como nas demais divisões), mas tento estabelecer um diálogo particular com e sobre as possibilidades expressivas da poesia.
c) Em [Margaridas] estão reunidos os poemas mais picantes. Ainda que certa carga erótica seja constante na maioria de meus poemas, os que particularmente compõem esta divisão são aqueles que eu deliberadamente carreguei a mão no tempero do desejo e da sexualidade. É o meu exercício particular de entrar no território pedregoso da sensualidade e extrair/traduzir os encantos desse paraíso temático que é ainda (hipocritamente) preso ao lodo do tabu.
d) Apresentando o outro lado da moeda, na sessão [Rosas] estão os poemas em que volto ao velho tema do Amor. Só que aqui eu trabalho o amor na sua totalidade: o que ficou na lembrança, o que ainda vive, o que é alegria e o que também já foi perdição, tristeza e tormento.
e) Saindo do sentimento do amor, [Tulipas] segue com meus poemas do delírio, da embriaguez das sensações. Embriaguez pela música, pelo vinho, pela poesia, pelas cores e pela expressão própria das palavras.
f) Para encerrar o livro, [Edelweiss] reuni meus poemas escritos em espanhol e inglês. Na verdade, apresento uma prévia do outro livro meu (até agora parcialmente inédito) chamado Peregrino en una Noche sin Luna, onde apresento meus exercícios líricos em língua estrangeira, sendo que algumas são as minhas traduções de outros poemas que eu já escrevera anteriormente.

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Enfim, é isso aí. Espero que essas palavras iniciais ajudem na compreensão da obra. No fundo, apenas queria dizer que apreciem os meus poemas desse meu novo livro, com a esperança de que os poemas contidos nele, não alcançando a altura de um Tokaji húngaro, um Viño Verde galego, um Valpolicella italiano ou de um Reisling alsaciano, ao menos não tenham virado vinagre. Que seja um vinho de mesa encantador e de bom terroir que agrade as papilas estéticas do leitor.
Tim-Tim! ¡salud!

Ricardo Vidal

Passeio por uma Praia Virgem

Passeio por uma Praia Virgem

Prefácio para o livro "Letras com Cacau, Cravo e Dendê: Dicionário Panorâmico da Literatura Valenciana"


Valença, 14 de janeiro de 2014

Se um historiador do futuro tiver que escolher cinco fatos significativos da história de Valença acontecidos nos primeiros anos do século XXI, o surto de produção literária que aconteceu a partir da publicação da antologia Valenciando neces-sariamente deverá ser citado. Em um feito raro para as demais cidades interioranas do estado da Bahia (até mesmo para grandes centros como Feira de Santana, Itabuna e Vitória da Conquista, com longa tradição universitária), pois os autores nascidos e/ou residentes na cidade de Valença nesse período publicaram 27 volumes no período de 14 anos, o que coloca aproximadamente a um livro novo a cada semestre, percorrendo diversos gêneros, como ensaios, crônicas, romances, poemas, memórias e historiografia.
Em um primeiro momento, existe a tentação de analisar essa Supernova Literária1 como consequência direta dos avanços tecnológicos (como a microinformática e internet) e do reordenamento das políticas públicas de cultura que ocorreu no período em que Gilberto Gil / Juca Ferreira capitanearam o Ministério da Cultura. Tal situação poderia dar uma primeira (e errônea) impressão de que a literatura valenciana é um fenômeno recente. Contudo, numa análise mais acurada, o que fica evidente é que essa produção literária é muito anterior. Por exemplo, há a figura do Conselheiro Zacarias. Mais conhecido pela sua figura de político e estadista do meado do século XIX, Zacarias iria se notabilizar-se nas letras pelos seus discursos e escritos políticos, com destaque ao seu tratado Da Natureza e Limites do Poder Moderador – obra capital para entender o pensamento dos setores liberais durante o II reinado. E assim como ele, somam-se as figuras de outros escritores importantes como Fábio Luz, José Malta, Newton Libertador, Pedro M. da Silva, Elmano Amorim, Galvão de Queiroz e Admar Braga Guimarães.
Ao mirar com mais calma e atenção para a riqueza da literatura valenciana (tanto presente quanto passada), somos levados a crer que existe um grande “território inexplorado”, cujas jazidas ocultas esperam o momento de serem garimpadas. Para os estudantes de direito, interessam conhecer as discussões sobre ordenamento constitucional apresentado tantos pelo Conselheiro Zacarias como por Admar Braga. No campo da historiografia, Augusto Moutinho e Edgar Oliveira oferecem textos lapidares sobre a história regional que esclarecem alguns pontos da história nacional (como no caso do afundamento de navios brasileiros pelo submarino alemão U-507 e o momento exato em que Brasil entrará na Segunda Guerra Mundial). Na área da escrita feminina, Celeste Martinez e Rosângela Góes escrevem poemas saborosos sobre a condição feminina, abrindo outras searas para os estudos feministas. E na poesia, se por um lado Mustafá Rosemberg, claramente formado no espírito de Olavo Bilac, é um epígono do parnasianismo em que traz um doce erotismo lapidado no melhor uso lírico do vernáculo da última flor do Lácio, por outro, Adriano Pereira abre-se para uma contraposição pós-moderna, ao incursionar na desconstrução morfolexicológica das palavras, cujas brincadeiras gráficas levam a ter três ou quatro versos sobrepostos numa única linha labiríntica de signos – clara dialética que traduz muito da alma baiana, sobreposição de rupturas e tradições. Isso, sem deixar de lado o realismo fantástico na prosa de Araken Vaz Galvão, abrindo este uma ponte a integrar o litoral oriental brasileiro com o melhor da tradição literária hispano-americana. Isso, claro, para não citar os vários poetas e cronistas que jazem esquecidos nos antigos jornais – como são José Malta, Elmano Amorim e Newton Libertador (para ficar nos exemplos mais flagrantes).
Diante dessa profusão de autores, urge que se comece a ter análises críticas que se volte para essa produção e abram possíveis trilhas de leitura. Num país cujas políticas públicas eram marcadas pela tradição da ausência do estado (conforme observa Albino Rubim2), não basta apenas produzir a literatura, como também se debruçar sobre ela e estudá-la, ter pesquisas acadêmicas e estudos sistêmicos – até como forma que dessas obras não venham a cair no esquecimento.
É lugar comum entender a importância da cultura na formação da identidade de um povo. Infelizmente, o município de Valença mostra-se carente de uma reflexão mais aprofundada de sua cultura regional – mesmo considerando que atualmente ela é uma cidade universitária (contando inclusive com cursos superiores de Letras).
Diante desse contexto é que surge esse volume, como primeira tentativa de se sistematizar a literatura valenciana.
O livro foi concebido exatamente para ser um pequeno guia de referência da literatura valenciana, apontando autores, instituições e fatos literários expressivos. Declaradamente visa preservar a memoria do que se tem até agora produzido, a fim de que futuramente sirva de subsídios para estudos críticos mais aprofundados.
Deste modo, o livro foi organizado em duas partes: a primeira, introdutória, foi feito um perfil geográfico, histórico e cultural do município. Procura-se contextualizar para o leitor em quais condições é produzida essa literatura e em quais bases residem suas especificidades. Na segunda, há os verbetes propriamente ditos literatura. Para tanto foram usados os seguintes critérios na hora da organização:

a)      Autores: Optou-se por inserir em verbetes aqueles que tenham publicados pelo menos um livro ou que tenham participado de pelo menos duas obras coletivas, ou uma obra coletiva e colabore constante na imprensa. Assim, privilegiam-se os escritores que tenham uma obra mais densa, melhor delimitando os nomes realmente relevantes.
b)      Livros, Eventos e Fenômenos: Além de um verbete específico sobre as antologias já publicadas, há verbetes para obras, fenômenos e eventos que por si apresentam relevância dentro da história literária valenciana, seja (por exemplo) um evento cristaliza um grupo de escritores ou livros que colocam como marcos na historiografia literária.
c)      Instituições: São citadas as principais instituições que, de alguma forma, fomentam e promovem a literatura regional.

Diante a pretensão que obra se arvora, considera-se, entretanto, reconhecer que essa obra não se apresenta fechada e detentora do julgamento final. Conforme foi dito anteriormente, a literatura valenciana ainda é um território inexplorado. Mesmo que esse livro se apresente após uma longa pesquisa e reflexão sobre os autores da região, há a possibilidade de que ocorram omissões indesculpáveis ou escolhas passíveis de contestações. No caso, só resta ao autor ouvir serenamente as críticas construtivas e fazer as devidas emendas nas próximas edições.
Em suma, espera-se que o cacau, o cravo e o dendê presente na escrita desses autores e autoras encantem o leitor.
A todos, um bom passeio por essa praia ainda virgem!

Ricardo Vidal

Notas
1. Período iniciado em 2005, com a publicação de antologia Valenciando: antologia de escritores de Valença e que vai se caracteriza pela grande quantidade e diversidade de títulos recentemente publicados em Valença. Para mais detalhes, ver o verbete homônimo na página XX.

2. Ver As políticas culturais e o governo Lula. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo: 2001 (Brasil em debate; vol. 5)

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)