Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O olhar de marianne - monografia

O(S) OLHA(RES) DE "MARIANNE":
UM ESTUDO SOBRE O EROTISMO
FEMININO NOS CONTOS DE ANAÏS NIN


Trabalho monográfico apresentado ao curso de Letras, Língua Inglesa e Literaturas, para obtenção da Licenciatura.


Orientadora: Profª Ms Sonia Maria Davico Simon


AGRADECIMENTOS

Profa. Sônia Simon, mesmo que eu utilizasse todas as palavras do mundo, ainda assim seria pouco para expressar meu muito obrigado pela sua orientação, pela compreensão com minhas faltas e pela (muitíssima) paciência com as minhas ambições, vaidades e devaneios.

Carla Lemos, muito obrigado para ti, minha namorada. Na reta final, foi seu carinho, amor e compreensão que me davam alento, quando o cansaço parecia vencer meus sonhos.

Prof Jaime Sodré, muito obrigado, pois bastou uma única conversa contigo para que me sentisse estimulado a continuar minha pesquisa sobre o erotismo feminino.

Antonio Marques, César Leal e Cristiano Silveira (a "Diretoria"), muito obrigado pelos bons tempos que passamos juntos como estudantes da UNEB, fazendo com que a expressão "convivência acadêmica" realmente significasse o crescimento intelectual mútuo.

Professoras e professores do curso de Letras do Campus I da UNEB, especialmente Profª Sônia Simon, Profª Janaína Weissheimer, Profª Adelaide Oliveira, Profª Rita Angélica Luz, Prof. Sérgio Guerra, Prof. Edison Miranda, Profª. Valdilene Assis, Profª Denise Zogbhi, Profª. Márcia Rios e Profª Conceição Reis, muito obrigado pelas aulas, pelos exemplos e pela amizade, que sempre carregarei por toda a vida. Vossas lições estão gravadas em minh'alma!

Carolina Meira Lins e Elena Mercuri Amoedo, muito obrigado pelas palavras gentis de incentivo, trocadas via blog e e-mail, quando a monografia ainda estava no início.

Marcílio Rocha Ramos (MR Ramos), Aline Adorno e Paula Ferreira, muito obrigado pelo estímulo para que terminasse minha monografia.

"Sr." Cristiano Araújo Silva, "Sr." Flamínio Luís Silva Santana e "tia" Ana Rita
Araújo
, muito obrigado pela amizade sincera e pelas cobranças fraternas que ajudaram ao meu crescimento pessoal (principalmente para que terminasse minha graduação).

O erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensável como a poesia.

Anaïs Nin

RESUMO

O erotismo é vivenciado de vários modos, diferentemente por homens e mulheres. E uma destas formas está no uso do olhar, no ato de observar e ser observado, como modo de se obter gratificação sexual, independente do intercurso vaginal. Portanto, o presente trabalho possui como objeto de estudo o conto Marianne, da escritora franco-americana Anaïs Nin. Analisa-se neste conto o olhar enquanto fetiche e sua relação erótica, através a dicotomia exibicionismo e voyeurismo. Para efetivação do projeto, foi utilizada como proposta metodológica a revisão bibliográfica, comparando o texto de Anaïs Nin com os teóricos do erotismo, fetichismo como fenômeno psicanalítico e da criação artística como ato erótico. Quanto a fundamentação, utilizou-se de Octávio Paz para explicar o caráter múltiplo do erotismo, Francesco Alberoni para explicar as diferentes vivência do erotismo entre homens e mulheres, Sigmund Freud para entender o fetichismo na perspectiva da psicanálise e Walter Benjamim, para relacionar o exercício da narrativa como criação artística e o erotismo.

Palavras-chave: erotismo, fetichismo, exibicionismo, voyeurismo, criação artística

ABSTRACT

Men and Women live the Eroticism in many ways. One of this ways is in act of to observe and to be observed, as a form of gain a sexual gratification – independent of there was vaginal intercourse or not. Therefore, this academic work studied the Anaïs Nin's short-story "Marianne." It analyse the "look" as a sexual fetish and it is erotic relationship, through the dichotomy exhibitionism and voyeurism. It was made useful the Literature review as methodology, comparing the Nin's text with some theorists of fetishism, eroticism and artistic creation; as Octavio Paz (about the multiplicity in Eros), Francesco Alberoni (difference between male discontinuity versus female continuity), Sigmund Freud (psychoanalytic view about fetishism) and Walter Benjamin (relationship among narrative, artistic creation and erotiscism).

Keywords: eroticism, fetishism, exhibitionism, voyeurism, artistic creation

APRESENTAÇÃO: UM OLHAR SOBRE O CONTO DE ANAÏS NIN

Anaïs Nin foi uma escritora franco-americana de ascendência hispano-dinamarquesa, nascida em Paris em 21 de fevereiro de 1903 e que alternou sua vida adulta entre Europa e América até se estabelecer definitivamente nos EUA na segunda metade do século XX, vindo a falecer em Los Angeles em 14 de janeiro de 1977. Casou-se com Hugh Parker Guiler em março de 1923. Sua vida sentimental foi muito movimentada, ficando famoso seu caso amoroso com Henry Miller e a esposa dele June, cujo affair ficou registrado pela própria Anaïs Nin no seu livro "Henry & June"; também foi amante de Otto Rank, seu psicanalista. Conviveu com intelectuais como Rebecca West, Thurema Sokol, Paul Eluárd, André Breton e D. H. Lawrence.

Sua obra se compõe de diários que ela começou a escrever desde os 11 anos de idade, romances, contos e ensaios. Dentre seus escritos, destacam-se Uma Espiã na Casa do Amor (romance), Casa do Incesto (poema em prosa), Henry e June (diário não-expurgado que abrange os períodos de outubro de 1931 a outubro de 1932), Delta de Vênus e Pequenos Pássaros (ambos, coletâneas de contos eróticos) – todos eles produzidos em língua inglesa. Neles, se observam a influência da literatura de Djurna Barnes e David Herbert Lawrence, do Surrealismo e da Psicanálise freudiana.

Um dos aspectos que marcou a literatura de Anaïs Nin é o erotismo, presente tanto na ficção como nos seus diários. Dentre as suas obras de ficção, destacam-se os livros "Delta de Vênus" e "Pequenos Pássaros", escritos por Anaïs Nin por encomenda de um anônimo que exigiu desta autora e de outros escritores, textos focalizados na temática erótica.

Dentre estes textos encontra-se o conto "Marianne", cuja protagonista é uma jovem pintora que complementa sua renda datilografando contos eróticos escritos pela própria Anaïs Nin e outros. Marianne se envolve eroticamente com um homem tímido que obtém o prazer através do exibicionismo. Na relação, o empenho em observar e ser observado se constitui como um jogo erótico, em que o olhar feminino se configura como elemento ativo que dirige o foco da história.

A partir desta percepção, pretende-se analisar o olhar como fetiche no conto "Marianne" e a questão do olhar e sua relação erótica – no caso, expresso pelo "voyeurismo" e "exibicionismo". Este trabalho desenvolve-se através da leitura analítica de teóricos que discutem o erotismo, fetichismo na psicanálise e a relação entre criação artística e erotismo. Inicialmente será discutido os fundamentos do erotismo em Octavio Paz e Francesco Alberoni – principalmente no que se refere sobre a multiplicidade do fenômeno erótico e a relação entre continuidade feminina / descontinuidade masculina na vivência do erotismo. Também será analisada a relação entre "exibicionismo" e "voyeurismo" a luz da teoria freudiana do fetichismo e a da criação literária como criação erótica, a partir da teoria do narrador de Walter Benjamin. Partindo desta base teórica será analisado o conto "Marianne", especialmente o exibicionismo e a timidez de Fred, como se estabelece o voyeurismo de Marianne e como é expresso o erotismo na visão feminina.

CAPÍTULO I: EROS UMA VEZ… OU DUAS, TALVEZ

1.1 O NOME DE EROS

"O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora"

Octávio Paz

O senso comum remete a idéia de erotismo às noções de sexo, da sensualidade, do amor, do desejo, e do requinte. No caso de requinte, este é mais invocado quando se compara o erotismo com pornografia, sendo esta considerada a contraparte vulgar e menos sofisticada da sexualidade, enquanto aquele seria a representação mais nobre e sofisticada, e
quase sempre, em uma relação tensa com a pornografia (onde as fronteiras entre uma e outra são indefinidas). Mas, o que é erotismo? Etimologicamente, Eros vem da raiz grega
Ερως
[1] e significa amor; que, por sua vez, é raiz da palavra grega Ιμερος, Imeros, que significa paixão, desejo.

Na mitologia greco-romana, o que os gregos chamavam de Eros, e que os romanos sincretizaram como Cupido, era a personificação do Amor, mais precisamente o amor sensual, ligado ao instinto de reprodução da vida Segundo Pierre Commelin, O nome Cupido, em latim, implica a idéia de amor violento, de desejo amoroso, em grego, Imeros. Contudo, na mitologia latina, presta-se a esse deus mais ou menos a mesma origem, a mesma história que ao deus grego Eros, Amor[2]. Lúcia Castello-Branco define (…) Eros é o deus do amor, que aproxima, mescla, une, multiplica e varia as espécies vivas. Na versão clássica do mito, Eros é representado como um menino alado e travesso; cuja idade variava entre a infância e a adolescência, filho de Afrodite/Vênus (deusa do amor, da beleza e dos prazeres). Embora os autores sejam unânimes em atribuir a maternidade de Eros à Afrodite; a paternidade já é mais contestada. Pierre Commelin diz que (…) segundo a maioria dos poetas (…) Eros nasceu de Marte e Vênus[3], o que explicaria a audácia deste deus. Contudo, René Ménard afirma que Mitologicamente, não sabemos quem é seu pai, mas os poetas e escultores concordam em lhe dar Vênus como mãe (…)[4]. Vive a acertar os corações humanos e divinos com flechas incendiárias que despertavam paixões nos atingidos. É um deus jovial, ousado, audaz e maroto que consegue exercer seu poder de inflamar o amor no coração nos seres humanos e até nos próprios deuses, não hesitando, inclusive, de flechar sua mãe e o Zeus. Segundo Ménard, há uma ressalva quanto a extensão deste poder: Não obstante o seu poder, (Eros) jamais ousou atacar Minerva e sempre respeitou às Musas [5]. Outra versão mais primitiva do mito o associa à Criação do universo, na geração anterior aos Titãs. Eros, neste caso, seria a força que teria ajudado a criar o Universo a partir do Caos (O ovo cósmico). Segundo René Ménard, Cupido, nos tempos primitivos é considerado um dos grandes princípios do universo e até um dos mais antigo dos deuses. Representa a força poderosa que faz com que todos os seres sejam atraídos uns pelos outros, e pela qual nascem e se perpetuam todas as raça [6].

A partir do mito greco-romano, podem-se depreender dois aspectos que estarão presente na discussão sobre erotismo: Um, derivado do mito primevo, é a relação de criação dos seres, a força reprodutiva; Outro (de certa forma, reforçando o primeiro aspecto), de que o amor também é carnal, é sexo, é sensualidade. Mas esta relação com o sexo, no caso dos seres humanos, vai além da função biológica de reprodução.

No livro A dupla chama: amor e erotismo, Octávio Paz considera que o erotismo é exclusivamente humano: é a sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e vontade dos homens.[7]. Deste modo, o sexo entre seres humanos também ganha a dimensão do prazer, da representação, da subversão e dos sentimentos, principalmente amor. Desviando da função reprodutiva 'prescrita' pela natureza ou Deus, segundo a Teologia, a sexualidade passa a ser, no erotismo, um terreno onde a imaginação humana reina. Por isso Octávio Paz aponta para a multiplicidade do erotismo, a dizer que o mesmo varia de acordo com o clima e a geografia, com a sociedade e a história, com o indivíduo e o temperamento[8]. Ao contrário dos animais, que realizam o ato sexual uniformemente, o ser humano vive sua sexualidade de várias formas, executando a união sexual em várias posições e experimentando novas experiências para o ato[9]. Diante desta multiplicidade do fenômeno erótico é que alguns teóricos sentem dificuldade em definir precisamente o erotismo. Esta "imprecisão" do termo talvez fica mais patente quando se confronta com a definição de pornografia. Uma vez que ambos tratam da sexualidade humana transfigurada pela cultura e a separação se dar no plano da qualificação subjectiva, Alain Robbe-Grillet considera que Pornografia é o erotismo dos outros[10]. Contudo, sendo múltiplo na expressão, ele se conserva como um fenômeno único da espécie humana.

A literatura erótica como um todo, exemplifica esta multiplicidade e humanidade do fenômeno erótico, ao mostrar através da arte literária as várias formas de se viver o sexo na espécie humana. No caso particular do conto "Marianne" de Anaïs Nin, isso é patente, tanto no fato de que a relação afetivo-sexual dos personagens Marianne e Fred é focada mais no ato de observar e ser observado do que o coito vaginal propriamente dito (aliás, no texto não diz claramente a penetração chega a ser consumada entre ambos), como no fato de que a mesma não visava seguir o instinto natural de reprodução, e sim no gozo erótico-amoroso.

No caso de Fred, o protagonista masculino do conto, seu prazer sexual não estava centralizado no coito, mas na exibição do seu corpo nu a uma parceira. E para isso, prescindia de todo um ritual, conforme é descrito no conto. Na primeira sessão em que Fred posa para que Marianne possa fazer os estudos para a pintura de seu retrato, ele se despe
no estúdio, na frente dela.

Ele estava se despindo de maneira espantosamente calculada, como se fosse uma ocupação seleta, um ritual. Em um dado momento, me olhou bem dentro dos olhos e sorriu, mostrando os belos dentes alinhados, e sua pele era tão delicada que capturava a luz que se derramava pela janela e a conservava como um tecido de cetim.(…) Ele havia tirado o casaco, a camisa, os sapatos, as meias. Só restavam as calças. Ele as segurou como uma stripteaser segura as dobras de seu vestido, ainda me olhando. Eu ainda não conseguia entender o vislumbre de prazer que animava seu rosto. Então ele se inclinou, abriu o cinto, e as calças escorregaram. Ficou completamente nu diante de mim e no mais óbvio estado de excitação sexual. (…). (NIN: 2006, 87-88)

Apesar das dúvidas iniciais de protagonista feminina, de que ele pudesse extravasar a excitação em cima[11], o protagonista masculino se limitou a ficar petrificado e contente[12]. Ao final da sessão, ele se vestiu calmamente para beijar educadamente a mão de Marianne e marcar a próxima sessão, em que se repetiu o ritual.

A autora deixa claro neste conto que a passividade de Fred em ser observado quando, um pouco adiante, mostra que personagem feminina percebeu que ele era daquele tipo interessado apenas em que eu olhe para ele[13]. E no desenrolar da estória, nunca cabe a ele a iniciativa. Fred não reage à primeira insinuação de Marianne e o ato sexual só se consuma quando ele, fazendo a pose atlética para a pintura, Marianne efetivamente se entrega ao desejo e faz sexo oral nele.

Uma vez, quando o esperava, tentou deixar a porta entreaberta enquanto se vestia, mas ele desviou o olhar e pegou um livro.

Ele era impossível de estimular, a não ser fitando-o. E àquela altura Marianne estava em um frenesi de desejo por ele. (…) (NIN. 2006,90 )

Não deixa de ser notável que ao final do conto, o emprego que Fred arruma (e causa a separação de Marianne) é o de modelo em uma aula de pintura no qual a personagem feminina era monitora.

Se o personagem masculino se excita em ser observado, com a personagem feminina ocorre o inverso. Ela é caracterizada no conto como uma pintora que suplementava seus rendimentos datilografando à noite os contos eróticos de Anaïs Nin e de outros escritores. Desde então ela aparece como um voyeur privilegiado na história, seja como pintora, o que, por dever de ofício, precisava ter um olhar mais apurado, seja como datilógrafa, no qual tinha acesso à fantasia erótica dos outros. Ao ser contratada por Fred para pintar um retrato dele, nu, em pose atlética, ela começa a se excitar ao observá-lo. Seu olhar faz com que o protagonista masculino ganhe forma e vida na estória. Os detalhe do corpo de Fred são desvelados a medida que seus olhos percorrem cada curva, cada pedaço de pele. Deste modo, a protagonista feminina torna-se parte ativa da história, pois parte dela as iniciativas das ações de sedução. É ela quem estimula Fred com seu olhar, que toca o genital dele e finalmente é ela quem toma a iniciativa para a consumação do ato.

"(…) Ela se ajoelhou e rezou de novo para o estranho falo que exigia apenas admiração. lambeu-o de novo muito delicada e vibrantemente e, enviando tremores de prazer do sexo para o corpo dele, beijou-o de novo, circundando-o de novo. (…) e ela aumentou a pressão e o movimento da língua.". (NIN: 2006, 91)

Esta passagem em que os tremores de prazer iam da direção de Marianne para Fred deixa claro qual é o vetor da força-motriz deste relacionamento. Ou seja, Marianne era o pólo ativo de onde partia o furor sexual até o pólo passivo, representado por Fred.

Sobre esta passagem, em que descreve o sexo oral pelos protagonistas, também se nota outra aspecto da multiplicidade que o erotismo assume na vida humana. Se pelo instinto animalesco à reprodução se daria através do encontro de genitais, no ser humano, outras partes do corpo também se entram no jogo sexual. No caso, a boca também é uma zona erógena, sexualizada, dentro do conto. E se considerar que a boca não se conecta ao aparelho reprodutivo, o este ato sexual deixa de visar à reprodução para procurar outros horizontes do universo humano, como a obtenção de prazer e gozo. Segundo Octávio Paz, o erotismo é invenção, variação incessante; o sexo é sempre o mesmo.[14]

1.2 EROTISMO(S) – O HOMEM E A MULHER

Eros é múltiplo e conforme Octávio Paz, ele varia segundo clima, sociedade e indivíduo, portanto se conclui que os gêneros terão experiências eróticas distintas. Segundo Francesco Alberoni,

"Não existe apenas uma raiz do erotismo, mas duas. Uma mais profundamente presente nas mulheres e a outra nos homens. A primeira tende a produzir uma comunidade de vida, unida pelo amor. A segunda, ao contrário, não tem projetos, vive de projetos". (ALBERONI: 1987, XX)

Neste caso, o erotismo feminino pode ser descrito contínuo, que surgiria como reação a saciedade do homem após o ato sexual, que levaria a um decréscimo de interesse para com a mulher[15], realizado por ter atingido o êxtase do orgasmo. Este comportamento é entendido psicologicamente como uma espécie de rejeição de ser tratada apenas como corpo. Portanto, o desejo erótico feminino passa pela permanência do homem ao seu lado após o orgasmo. Consequentemente, os sentidos do tato e do olfato ganham importância: a mulher quer a presença física do seu homem, sentir suas mãos sobre a sua pele, (…) sentir o seu cheiro, sentir a mistura de seus cheiros[16]. As mulheres vêem o erotismo como um todo: o ato sexual deve está conjugado ao amor e a ternura.

Para a mulher, a ternura e a doçura combinam com o erotismo, inserem-se nele harmoniosamente. Para o homem isso acontece com muito menor freqüência. A mulher sente como erótica, tanto a emoção provocada pelo contato do corpo do filho, como aquela provocada pelo contato com o corpo do amante. Ás vezes, gostaria de tê-los a seu lado juntos, juntos na mesma cama. (…) Também a diferença entre amizade e amor é mais tênue na mulher. Dorothy Tennov observou que as mulheres confundem mais facilmente a enfatuação erótica e a paixão. O homem, ao contrário, tende a acentuar as diferenças, a separar as diversas emoções (ALBERONI: 1987, 25).

A atração erótica é atividade pela centralidade social, pelo reconhecimento
social e/ou poder.
O erotismo feminino é profundamente influenciado pelo sucesso, pelo reconhecimento social, pelo aplauso (…). O homem quer fazer amor com uma
mulher bonita e sensual. A mulher quer fazer amor com um artista famoso, com um líder (…)
[17]. A fantasia erótica feminina procura a intimidade e a vida em comum e tende se abrir com o mundo. Por isso a sedução feminina deve renovar-se para exorcizar o descontínuo
que existe no homem
.
[18]

No conto Marianne, a questão da continuidade feminina no jogo erótico constitui um dos aspectos do conflito narrativo. Marianne sempre espera que Fred dê o próximo passo, que dê prosseguimento. A excitação resultante do olhar quer a conclusão da história até o coito e o conseqüente orgasmo. Assim, ela inicialmente faz a primeira insinuação ao
deixar a porta entreaberta enquanto se veste, na expectativa que o personagem masculino continue a cena e a tome nos braços para o sexo. Diante da "primeira recusa" já que Fred desvia o olhar e pega um livro, Marianne muda de estratégia; em uma sessão, já sedenta de desejo, provoca-o beijando-lhe o pênis, na esperança de que se anime a ponto de consumar a cópula. Na segunda tentativa, faz sexo oral nele. Contudo, se isso foi suficiente para conseguir conquistá-lo afetivamente a ponto de Fred ir morar com ela no estúdio, isso não representou a satisfação do desejo de Marianne. A passividade de Fred impedia-o de avançar no jogo erótico para sua completude, deixando Marianne insatisfeita.

"Fred se mudou para o estúdio. Mas, conforme Marianne esclareceu, ele não progrediu além da aceitação de suas carícias. Deitavam-se nus na cama, e Fred agia como se ela não tivesse sexo. Recebia os tributos dele freneticamente, mas Marianne era deixada com seu desejo não atendido. (…) Marianne conseguia corresponder, mas de algum modo aquilo não a satisfazia a voracidade pelo corpo dele, por seu sexo, e ela ansiava ser possuída por ele, mais completamente, ser penetrada." (NIN: 2006, 92 – grifos meus).

Mais tarde, quando Marianne for ler um manuscrito erótico de Fred, contando um caso de seu passado que justificaria o seu fetiche pelo exibicionismo, sentiu que jamais superaria a passividade dele[19]. Se sexualmente estaria fadada a incompletude, como fica provado na oração seguinte da citação acima: Chorou um pouco, sentido-se traída como mulher[20], havia ainda a compensação do amor e a intimidade que eles desfrutavam desde o momento que passaram a morarem juntos. Isso poderia manter a continuidade da relação afetivo-sexual uma vez que o olhar dela permanecia como a fonte exclusiva de prazer para o protagonista masculino. O namoro entre os protagonistas se finalizará com o emprego de Fred como modelo, uma vez que provocaria outra descontinuidade na relação, o olhar dos alunos da aula de pintura cria uma fratura na exclusividade de Marianne.

O erotismo masculino é centrado na descontinuidade, pois ele experimenta com mais freqüência que a mulher o instante de eternidade. Este não é um intervalo temporal. É um estado particularíssimo, exterior ao tempo[21]. Esta descontinuidade afirma-se no homem como uma experiência mais interiorizada que a mulher. há no homem um componente erótico muito forte que desdenha o externo e valoriza o interno[22], o que levaria a excluir de sua vida erótica o compromisso, os deveres, a própria vida social[23].

No homem sua excitação é mais visual – não é tato ou a audição, mas a visão que provoca o excitamento. Não é por acaso que as "revistas masculinas" possuem como característica essencial os ensaios fotográficos de mulheres nuas, conforme lembra nas duas primeiras páginas do livro O erotismo. Aos olhos masculinos, a mulher vestida está distante, protegida. A roupa e a maquilagem têm sempre um duplo significado: de convite e de obstáculo"[24]. Será obstáculo porque a roupa e a maquiagem impedem como couraça defensiva a visão do corpo nu da mulher, objecto de desejo do homem. E será convite para o jogo de sedução, no qual homem tentar tirar esta couraça que recobre a mulher.

Essa descontinuidade fica clara em Fred: Não é rito do sexo como um todo que o motiva no jogo, todavia apenas o momento de ser olhado. Ser observado na sua nudez era especial, pois rememorava a sua primeira experiência erótica que tivera aos quinze anos, quando uma vez foi surpreendido em seu quarto sendo observado pela vizinha do outro lado da rua, conforme confessa no manuscrito,

"E ser observado por ela deu-me o mais extraordinário prazer. Eu andava (nu) por lá ou ficava na cama. Ela jamais se mexia. Repetimos essa cena todos os dias durante uma semana, mas no terceiro dia tive uma ereção.

Será que ela podia detectar minha ereção do outro lado da rua, será que ela podia me ver? Comecei a me tocar, sentindo o tempo todo o quanto ela estava atenta a cada um de meus gestos. Fui banhado por uma deliciosa excitação. De onde eu estava, podia ver a silhueta exuberante dela. Olhando direto para ela dessa vez, brinquei com meu sexo e finalmente fiquei tão excitado que gozei" (NIN: 2006, 94).

O primeiro orgasmo que Fred sentiu na citação irá influenciar sua vida erótico-amorosa. Os encontros sexuais, conforme se depreende no conto, significava para Fred esta volta a um momento de seu passado – momento este que de destaca para ser eterno no seu íntimo, a ser revivido nas outras relações eróticas.

Ainda sobre a descontinuidade, há de se considerar que, na continuação da narrativa de Fred, ele confessa que depois da cena, ele não procurou a vizinha para um eventual encontro sexual – o que poderia esperar como a continuação desta
possível sedução que aparentemente se estabeleceu entre eles. Isso reforça a opinião de Alberoni da descontinuidade masculina. Se o senso comum indicaria que o próximo
passo de Fred (após a sessão de exibicionismo feita por ele) seria a consumação do ato sexual com a vizinha, o que representaria uma continuidade; o que ocorreu foi uma descontinuidade. O orgasmo que o personagem masculino obteve enquanto era observado já bastou para ele vivesse o seu erotismo.

Sobre a visualidade como parte integrante do erotismo masculino, o conto demonstra uma situação não usual: É o homem quem se exibe e a mulher é a voyeur. Isso inverte o senso comum, no qual a mulher nua é quem se exibe para a excitação do homem. Fato confirmado quando se observa o mercado editorial, no qual o seguimento das "revistas masculinas" se caracteriza pela presença de ensaios de nus artísticos feminino; enquanto a contraparte, das "revistas femininas" ocorre exatamente na falta de ensaios de nus artísticos masculinos. Aliás, as revistas que realizam estes trabalhos são focadas e consumidas pelo público homossexual masculino… Fred é quem se despe e mostra suas formas para Marianne. Mas ao se exibir, ele reafirma o papel preponderante da visualidade no erotismo masculino, pois através do olhar (no caso, o do outro representado pela personagem feminina) que o excita e estabelece o jogo erótico.

Ao observar a inversão de papéis entre os protagonistas, no caso, exibicionista e voyeur, há um último aspecto a ser considerado. No momento em que Marianne assume o papel de observadora e Fred de observado, também há uma inversão entre os pólos ativo e passivo da relação erótica. Ao se exibir seu corpo nu, o personagem masculino coloca-se como o elemento passivo, ficando personagem feminino como o contraponto ativo. A protagonista é quem toma as iniciativas, conforme foi visto nos parágrafos anteriores. É ela quem dá o primeiro passo para um toque mais íntimo entre eles, e é ela quem pratica o sexo oral. Todavia o personagem masculino se mostra mais passivo, reagindo aos estímulos provocados por Marianne. Quanto mais passivo e introvertido ele era, mais ela queria violência. Sonhava em forçar a vontade dele, mas como se poderia forçar a vontade de um homem?[25]


CAPÍTULO II: O OLHAR EM MARIANNE

"O olhar não está isolado, o olhar está enraizado na corporeidade, enquanto sensibilidade (…)".

Alfredo Bosi – Fenomenologia do Olhar

2.1 O OLHAR COMO FETICHE ERÓTICO.

O jogo erótico vivido pelos protagonistas no conto de Anaïs Nin focou-se no olhar. A visão do corpo nu e o ver que é observado pelo outro é em que consiste a linha mestra da história. O olhar neste caso se configura como um fetiche que ocupará o centro do ato sexual, relegando o intercurso vaginal para um lugar menos importante dentro jogo erótico, ou no caso do conto, sem sequer a acontecer.

Segundo a psicanálise, o fetichismo pode ser considerado como uma tendência erótica para coisas inanimadas que, direta ou indiretamente estão em contato com o corpo humano ou para determinadas partes do corpo da pessoa amada. Deste modo, a pessoa fetichista se utiliza necessariamente destas coisas inanimadas para a obtenção da gratificação sexual. Para o fetichista, é o elemento necessário e suficiente para sua excitação sexual. Ele consegue amar apenas uma parte do outro ou um objeto que o parceiro use, como, por exemplo, roupas íntimas, mãos, látex, olhos, óculos, profissões, nádegas, etc.

Segundo a escola freudiana de psicanálise, o fetichismo surge como uma reação a "perda" do falo feminino. Eloísa Celeri et alli, no artigo "Paradoxo, Objeto transicional e Fetiche", afirma que:

"O fetiche se constrói sobre duas atitudes opostas. A visão traumática dos órgãos genitais femininos é rejeitada pelo ego, que sofre um processo de clivagem, e a atitude que se ajusta ao desejo (a mulher não é castrada) passa a coexistir lado a lado com a atitude que se ajusta à realidade, ou seja, o fetiche paradoxalmente nega e confirma a castração. Outro aspecto apresentado nesse ensaio diz respeito ao funcionamento do fetiche como defesa contra a homossexualidade, "dotando as mulheres de características que as tornam toleráveis como objetos sexuais" (Freud, 1927/1996)." (CELERI ET ALLI: 2008)

Ou seja, o fetichismo surge como uma defesa ao medo de castração, oriunda da descoberta de que as mulheres, incluindo a própria progenitora, não possuem o falo, símbolo do poder e da fertilidade, durante o processo do seu desenvolvimento psíquico. Esse medo de ser castrado, perder o perder o pênis no caso dos homens e de já nascer faltando no caso das mulheres faz com o ser humano encontre um substituto para a fonte de sua libido. Segundo Celeri et alli, Porque este orgasmo é alcançado necessariamente a certas condições extrínsecas é que o fetichismo foi considerado pela psicanálise como perversão, ou seja, a obtenção do gozo sexual através de formas outras que não o coito vaginal[26].

Freud, no livro Três ensaios sobre a teoria da sexualidade[27], afirmou que certo grau de fetichismo fazia parte da normalidade. O fetichismo só seria considerado patológico quando a fixação no objeto "se coloca no lugar do alvo sexual normal, e ainda, quando o fetiche se desprende de determinada pessoa e se torna o único objeto sexual[28]".

Na categoria do fetichismo, encontram-se as práticas do exibicionismo e do voyeurismo. A partir do olhar como objecto erótico, a diferença entre eles está que no exibicionismo, a pessoa consegue a gratificação sexual ao se mostrar parcial ou totalmente nua, fazendo ou não atos libidinosos; enquanto no voyeurismo, o prazer é obtido quando a pessoa observa outras pessoas nuas.

Sobre o exibicionismo, Viviana Martinez [29] lembra o comentário de Sigmund Freud escrito no livro Três Ensaios sobre a sexualidade humana.

Sobre o exibicionismo, Freud refere-se, nos "Três ensaios…", ao fato do exibicionista, além de substituir o ato sexual pela exibição, mostra os seus genitais esperando que também lhes sejam mostrados os genitais de quem observa. E ainda, "… a compulsão exibicionista, por exemplo, depende intimamente do complexo de castração, acentuando de contínuo a integridade dos próprios genitais (masculinos) e renovando a satisfação infantil experimentada pela falta de membro nos genitais femininos" (MARTINEZ, 2001, 45)

Este comportamento fetichista aparece no conto de Anaïs Nin através do caminho em que toma a relação erótica entre os personagens. Em lugar de uma relação amorosa "convencional", em que os personagens teriam no coito vaginal o ápice do relacionamento; a libido aqui é redirecionando perversamente para o ato de olhar. O prazer surge claramente na vontade de se mostrar e no fato de ser espectador. Isso leva a re-significação do que é um relacionamento sexual, em que o mero encontro entre genitais deixa de ser a parte mais importante.

Ainda sobre a citação de Martinez, fica evidente que voyeurismo e exibicionismo estão correlacionados: a esperança do exibicionista em que o seu observador (o voyeur) mostre também sua genitália faz que os papeis se alternem e que haja a reciprocidade na relação. No conto, há a impressão que isso não ocorre, uma vez que o protagonista masculino não esboça o desejo de ver a protagonista feminina nua. Marianne chega a esboçar o caminho inverso quando, já tomada pelo deseja, confessa que (…) gostaria que ele entrasse no estúdio enquanto estivesse se vestindo e que a visão do seu corpo o inflamasse[30]. E no parágrafo seguinte, chegou até deixar a porta entreaberta enquanto se vestia. No entanto, a tática foi abortada que Fred desviou o olhar e pegou um livro, conforme apresenta no conto.[31]

2.2 O EXIBICIONISMO DE FRED

O fetiche do personagem masculino é o exibicionismo. Seu prazer reside no fato de ser observado, como é constatado pela personagem feminina nos primeiros encontros: Eu realmente estava atormentada de desejo. Mas um homem daquele tipo está interessado apenas em que eu olhe para ele[32].

No relato feito pelo protagonista masculino, sabe-se que aos quinze anos ocorreu sua primeira experiência erótica relacionado ao exibicionismo, quando percebeu de seu quarto que era observado por uma vizinha e descobriu o prazer em ser observado.

Através da análise do conto, percebe-se que este exibicionismo pode ser considerado quase patológico. Isso transparece na narrativa de Marianne, em quatro momentos.

Em um primeiro momento, Marianne esboça um primeiro contato erótico, fruto de um escorregão, em que a coloca ajoelhada defronte ao falo dele. O elogio dela ao membro masculino de Fred fez com que o mesmo tornar-se mais rígido. Como ele não esboçou nenhuma iniciativa:

(…) Marianne chegou mais perto, seus lábios abriram-se levemente, e delicadamente, muito delicadamente, tocou a ponta do sexo [de Fred] com a língua. Ele ainda estava observando o rosto dela e o modo como a língua meneava a acariciava a ponta do sexo.

Ela o lambeu gentilmente, com a delicadeza de um gato, então inseriu uma pequena porção na boca e fechou os lábios em volta. O sexo dele estremeceu.

Marianne refreou-se e não fez mais por medo de encontrar resistência. E, quando arou, ele não a encorajou a continuar. Parecia contente. Marianne sentiu que aquilo que ela poderia pedir dele (…) (NIN: 2006, 90);

Em seguida, Marianne descreve a primeira relação sexual entre eles:

No dia seguinte (…), Marianne repetiu a pose de veneração, seu êxtase ante a beleza do sexo dele. Ela se ajoelhou e rezou de novo para o estranho falo que exigia apenas admiração. Lambeu-o de novo muito delicada e vibrantemente, enviando tremores de prazer de sexo para o corpo dele. (…)

Quando o viu que ele estava derretido de prazer, ela parou, prevendo que, se o privasse
agora, talvez ele fizesse um gesto voltado para a satisfação. De início ele não fez nenhum movimento. O sexo palpitava, e ele estava atormentado pelo desejo; então, de repente, ela ficou espanta da ao ver a mão dele movendo-se na direção do sexo como se ele fosse se satisfazer por si.

Marianne ficou desesperada. Afastou a mão dele, colocou o sexo na boca de novo e circundou as partes sexuais dele com ambas as mãos, acariciou-o e absorveu-o até ele gozar.

Ele inclinou-se com gratidão, ternura, e murmurou:

Você é a primeira mulher, a primeira mulher, a primeira mulher… (Grifo meu.
NIN: 2006, 91-92);

Conforme a descrição das situações, a importância de ser observado por outrem fazia que a penetração vaginal fica-se virtualmente fora da vida sexual do casal. Fred não esboçava nenhum outro movimento de ir a outras práticas sexuais além do exibicionismo.

Fred só reage ao elogio de Marianne, quando ela observa seu pênis mais de perto. O personagem masculino não consegue interagir fisicamente com sua parceira. A plenitude de uma relação erótica ocorre apenas pela iniciativa de Marianne. Na relação, após Fred atingir ao ápice do prazer, murmura para Marianne que ela fora a primeira mulher, numa possível alusão de sua virgindade.

Em outro momento, na descrição dos primeiros dias em que eles passaram a morar junto e Fred não retribuía as carícias:

(…) conforme Marianne esclareceu (a Anaïs), ele não progrediu além da aceitação de suas carícias. Deitavam-se nus na cama, e Fred agia como se ela absolutamente não tivesse sexo. Recebia os tributos dela freneticamente, mas Marianne era deixada de lado com seu desejo atendido. Tudo o que ele fazia era colocar as duas mãos entre as pernas delas. Enquanto ela o acariciava com a boca, as mãos dele abriam seu sexo (o de Marianne) como uma for, e ele buscava o pistilo. Quando sentia as contrações dela, ele acariciava com vontade a abertura palpitante. Marianne conseguia corresponder, mas de algum modo aquilo não satisfazia a voracidade pelo corpo dele, por seu sexo, e ela ansiava ser possuída por ele mais completamente, ser penetrada. (grifos meus. NIN: 2006, 92);

A protagonista feminina esclarece como foi a vida sexual de ambos após a primeira relação. Nesta fala, percebe-se um aspecto que reforça o exibicionismo em níveis quase patológicos: É quando ela afirma que Fred agia como se ela absolutamente não tivesse sexo, o que remete à citação de Martinez à Freud, de que a compulsão exibicionista (…) depende intimamente do complexo de castração, acentuando de contínuo a integridade dos próprios genitais (masculinos) e renovando a satisfação infantil experimentada pela falta de membro nos genitais femininos[33]. Quando Fred coloca no fato de ser observado a fonte do erotismo, indiretamente ele parece negar a parceira o prazer da penetração, o que deixa Marianne insatisfeita. Evitar o coito seria uma forma de preservar-se do medo da castração, e ver seu falo exibido e venerado; como diz Marianne, ele é que recebia os tributos, reforça a idéia da satisfação infantil de que as mulheres são "castradas" e os homens, não.

Assim, há o relato que Fred encaminha ao colecionador e que descreve sua primeira experiência como exibicionista. Após descrever o ritual, ele termina dizendo:

Não tentamos nos encontrar na rua, embora fôssemos vizinhos (no caso, ele e a vizinha que o observava do outro lado da rua). Tudo de que me lembro é o prazer obtido com aquilo, que nenhum outro prazer jamais igualou. Fico excitado com a mera recordação daqueles episódios. Marianne me dá o mesmo prazer de algum modo. Gosto do jeito ávido com que ela me olha, me admirando, venerando. (grifos meus. NIN: 2006, 92);

A experiência que ocorreu nos quinze anos do protagonista, ser observado, masturbar-se e não tocar na mulher, o marcou profundamente, foi o "instante de eternidade", como explica Alberoni, que será revivido com o comportamento de Marianne.

Ao final do conto, Fred vai trabalhar como modelo em uma aula de pintura, o que levará a separação. Se anteriormente a satisfação obtida era pela observação de uma única mulher, passará a ser observado por várias mulheres.

2.3 O VOYEURISMO EM MARIANNE

Fred, exibicionista, é o objeto da visão; Marianne, por sua vez, torna-se a contraparte de sujeito da visão, na condição de voyeur. O fato de a autora caracterizar Marianne como uma pintora que complementa a renda datilografando os contos eróticos que Anaïs vendia para o colecionador reforça o caráter de observadora que a protagonista irá desempenhar na história. Se, por ofício da arte, ela se acostumara a "espiar" o mundo, e assim pintar seus quadros, datilografar os contos eróticos de outros a torna uma espiã das fantasias e taras alheias, à protagonista feminina coube olhar e moldar estas visões em arte. Entretanto este voyeurismo não se traduz em sexo para ela. Quando apresentada no conto, suas limitações são mostradas através da sua relação com a psicanálise e do puritanismo demonstrado, a despeito sua postura liberal. A fantasia de Marianne consiste em ser pega pela força. A experiência erótica que ela lembra com mais freqüência era:

(…) uma noite com homem ao qual ela não correspondeu, e que então, quando estava indo embora do estúdio, ele apertou-a com força contra a parede, ergueu uma das pernas dela e meteu. O estranho é que na hora ela não sentiu nada, mas depois, cada vez que lembrava da cena, ficava fogosa e inquieta. As penas afrouxavam, e ela daria qualquer coisa para sentir aquele corpo grande apertando-a de novo, encostando-a na parede, deixando-a sem escapatória, e então possuindo-a (NIN, 2006, 85);

O Eros que Marianne vive é diferente do Fred, pois se este remete ao mito clássico (o deus do amor carnal); o daquela se traduz em criação, como mito primitivo. O Eros de Marianne se realiza na construção da história, a mesma história em que, ela é personagem de Anaïs Nin, ou seja, também narradora. Sob o seu olhar é que a narrativa e personagens ganham forma. A passividade e o exibicionismo do personagem masculino tornam-se mais evidente quando ele vira uma "marionete", um personagem de Marianne. Ele não existe autonomamente no discurso de Anaïs Nin, só existe através da voz do outro que fala sobre dele. Sua voz só existe na voz de Marianne, sua existência depende do tempo que a e coloca o seu foco sobre ele. Portanto, se Fred fica fora do foco de Marianne, deixa de existir enquanto personagem. Suas falas, memórias e sua existência surgem na história através da narrativa de Marianne para Anaïs Nin, a autora do conto.

O contraste entre os dois Eros torna-se evidente no desenvolvimento da história. Em um primeiro momento, o par voyeur / exibicionista é harmônico quando a pintora Marianne fica excitada com o modelo Fred. Ele se exibe e Ela o observa. Ambos estão excitados com a circunstância e jogo erótico flui. Contudo, o conflito se apresenta a partir da passividade do protagonista masculino em não corresponder aos desejos da protagonista feminino. Quanto mais passivo e introvertido ele era, mais ela queria violência. Sonhava em forçar a vontade dele, mas como se poderia forçar a vontade de um homem[34]. A angústia se agudiza por ter seu desejo não atendido. A personagem feminina reage, toma a iniciativa. Deitados na cama, eles liam os manuscritos eróticos que ela datilografava como forma de estimá-lo[35]. Entretanto, ao de Fred a cerca sua primeira experiência (…) sentiu que jamais superaria a passividade dele. Chorou um pouco, sentido-se traída como mulher. Contudo, ela o amava[36]. O desfecho melancólico se dá quando Fred aceita trabalhar como modelo. Ao perder a exclusividade erótica, que, segundo Alberoni, é uma das características eróticas femininas, Marianne, enciumada, destrói os desenhos que fizera de Fred. Simbolicamente, é o apagamento do personagem masculino na história.


CONSIDERAÇÕES FINAIS: CRIAÇÃO ARTÍSTICA E EROTISMO

O erotismo é multifacetado e humano, longe de representar o instinto sexual de reprodução da espécie, o erotismo mostra que a sexualidade humana também é poder, prazer, criação, portanto, múltipla. Pode ser vivido através do olhar, como ocorreu com os personagens Marianne e Fred. Além dos genitais, o corpo e a alma se configuram como zonas erógenas, conforme observa Vatsyayana, no Kama-Sutra, ao mostrar que Kama, entendido como uma amálgama de amor, gozo e prazer sensual, o Dharma, virtude e vida espiritual e o Artha, aquisição da riqueza material, estão juntos como os fins da existência humana.

A multiplicidade também está na maneira como os gêneros humanos enxergam o erotismo. Francesco Alberoni demonstra em seu livro O erotismo que a homens e mulheres experimentam o erotismo de forma diferente: Homens são visuais e descontínuos, enquanto as mulheres buscam a continuidade e outros sentidos. Esta diferença é evidente o comportamento contrastante de Fred e de Marianne. Cabe, futuramente, uma pesquisa a respeito da aplicação desse modelo as outras eróticas de autoria feminina.

Outro aspecto das múltiplas faces de Eros está nos significados que ele pode ter. Da mesma forma se refere ao Amor como conceito platônico, também pode ser o amor físico como a própria idéia de criação. Anaïs Nin mostrou isso, ao fazer do conto um meta-conto, em que uma narrativa vira a narrativa de uma narrativa. A autora conta a estória de Marianne, que narra a experiência de Fred. Isso remete a Walter Benjamim, quando ele fala: A narrativa mergulha as coisas na vida do narrador para depois a ir aí buscas de novo. Por isso a narrativa tem gravadas as marcas do narrador. [37]


REFERÊNCIAS

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BENJAMIM, Walter. O Narrador. In. Sobre arte, técnica, linguagem e política. Tradução de Maria Amélia Cruz. Introdução de T. W. Adorno. Lisboa: Relógio D'Água, 1992.

BULFINCH, Thomas. Mitologia geral. Idade da Fábula. Tradução de Raul L. R. Moreira e Magda Veloso. Belo Horizonte: Itatiaia, 1962. (coleção descoberta do mundo. vol. 21)

CHASSANG, Alexis. Dictionnaire grec-français. Paris: Garnier Frères, ca 1910.

COMMELIN, Pierre. Mitologia grega e romana. 02ª ed. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1997. (coleção clássicos)

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MÉNARD, René. Mitologia greco-romana. Tradução de Aldo della Nina. São Paulo: Opus, 1997. Vol. III

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_________. Fire, from "a journal of love". The previously unpublished unexpurgated diary (1933-193). Prefácio de Rupert Pole a notas biográficas e Anotações de Gunther Stuhlman. Nova York: Harcourt Brace & Company, 1995

_________. Henry & June. Diários não-expurgados de Anaïs Ninn (1931-1932). Tradução de Rosane Pinho. Porto Alegre, RS: L&PM, 2007. (Coleção L&PM pocket).

_________. La casa dell'incesto. 06ª ed. (edição bilíngüe inglês-italiano). Maria Caronia. Pósfácio de Hunther Stuhlmann. Milão: Giangiacomo Feltrinelli Editore, 2008. (Coleção Universale Economica Feltrinelli)

_________. Pequenos pássaros. Histórias eróticas. Tradução de Haroldo Netto. Porto Alegre, RS: L&PM, 2007. (Coleção L&PM pocket).

PAZ, Octavio. A dupla chama amor e erotismo. Tradução de Wladir Dupont. São Paulo: Siciliano, 1994.

VATSYAYANA. Kâma-sûtra. O livro do amor. Pósfacio de João Palma-Ferreira e Tradução de António Pinho. Lisboa: Edição Livros do Brasil, ca 1974.

VATSYAYANA. Kama sutra. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Martin Claret, 2005. (Coleção A obra-prima de cada autor).

VATSYAYANA. Kama sutra. Tradução do sânscrito, prefácio, introdução e notas de Richard Burton. Tradução do inglês de Luciane Aquino. Porto Alegre, RS: L&PM, 2007. (Coleção L&PM pocket).

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CELERI, Eloisa Helena Rubello Valler, OUTEIRAL, José, MELLO FILHO, Julio de et al. Paradoxo, objeto transicional e fetiche. Rev. bras. psicanál. [online]. mar. 2008, vol.42, no.1 [citado 10 Janeiro 2010], p.60-73. Disponível na World Wide Web: <http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0486641X2008000100007&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0486-641X . Acesso em 10 de janeiro de 2010

MARTINEZ, Viviana C. Velasco. A nudez. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund. [online]. Fev. 2001. IV, 41-52 [citado 10 Janeiro 2010], p.60-73. Disponível na World Wide Web: <http://www.fundamentalpsychopathology.org/art/jun1/4.pdf>. Acesso em 10 de janeiro de 2010

[1] Segundo Aléxis Chassang, em seu Dictionaire Grec-Francaise (ca 1910), do significado Ερως, Eros como amor (também carnal) a língua grega herdou várias expressões, como Ερωτος, Erotos, significando "Amor"; Ερωτις, Erotis, significando "amante"; Ερωτύλος, Erotulos, significando tanto "amoroso" como "erótico" e Ερωτιον, Erotion, significando "namorico" ou "passatempo amoroso".

[2] COMMELIN. 1997, 71

[3] Idem, ibidem

[4] MENARD. 1997, 3

[5]. Idem, ibidem

[6] MÉNARD: 1997, 01

[7] PAZ. 1994, 16

[8] Idem , ibidem

[9] A visão do erotismo como algo exclusivo do ser humano e além do instinto animal também é defendido por Georges Bataille, em seu livro "O Erotismo".

[10]. ROBBE-GRILLET apud MORAES e LAPEIZ . ca 1998, 109

[11] NIN. 2006, 88

[12] Idem, ibidem

[13] NIN, 2006, 89. grifo da autora

[14] PAZ. 1994, 16

[15] ALBERONI. 1987, 23

[16] idem, 29

[17] ALBERONI, 1987, 32

[18] Idem, 67

[19] NIN. 2006, 94

[20] Idem, ibidem

[21] ALBERONI. 1987, 41

[22] Idem, 67

[23] Idem, 60

[24] Idem , 69.

[25] NIN: 2006, 89

[26] CELERI ET ALLI: 2008

[27] FREUD APUD Celeri et alli. Disponível em <http://pepsic.bvspsi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=
S0486641X2008000100007&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0486-641X
. Acesso em 10 de janeiro de 2010

[28] Idem

[29] MARTINEZ in A nudez . Disponível em <http://www.fundamentalpsychopathology.org/art/jun1/4.pdf>. Acesso em 10 de janeiro de 2010

[30] NIN: 2006, 90

[31] Idem, ibidem

[32] Idem, 89

[33] MARTINEZ: 2001, 45

[34] NIN, 2006, 89

[35] Idem, 92

[36] Idem, 94

[37] BENJAMIM,1992,p.37.


Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)