Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Amizade em Tempos de Radicalismo

Amizade em Tempos de Radicalismo

Salvador, 22 de dezembro de 2016 (23h38)

Querida ex-colega da FACOM

Hoje, enquanto acessava o Foicebook (Fernando Morais é quem está certo!), o mesmo sugeria a ti como possível amiga. Lembrei-me dos tempos em que fomos colegas no curso de Jornalismo da UFBA, de sua inteligência, das conversas que tivemos no pós-aula – nós dois calouros: você atriz e roqueira e eu um bicho do mato recém-chegado a capital e cheio de poemas na sacola. A saudade bateu forte e a vontade era te adicionar. Mas não dava. È uma pena Tive que declinar da ideia. Nesses tempos de Intolerância e Radicalismo político, não dá para ter você como amiga de foicebook.

Desde o Twitter eu sei que você é uma antipetista e antiesquerdista feroz. Na verdade, já na época da faculdade sabia que você não morria de amores pela esquerda e no tempo do Orkut você admirava o cretino do Diogo Mainardi. Nada de errado com isso. É a sua cabeça, suas convicções e eu a respeito por isso. Da mesma forma que na minha cabeça eu prefiro o socialismo e desde meus 17 anos eu sou filiado a um partido de esquerda e não tenho (até agora) pretensões de desfiliar-me dele. Não espero sua aprovação pelas minhas escolhas (afinal, elas foram feitas antes nos conhecermos) nem quero ficar na posição de avaliar as suas escolhas políticas. Contudo, sei que, no clima atual, é complicado. Será que nós iriamos nos suportar na militância digital, cada um postando mensagens políticas contrárias? E considerando que faz muito tempo que não nos vemos pessoalmente, não deu para criar um muro afetivo que evite os atritos ideológicos.

Penso nisso porque estamos em uma época de radicalismo e intolerância política acentuada pela visibilidade do pensamento causado pela internet. As redes sociais, elas parecem que tiraram as antigas travas morais que as pessoas tinham no trato público e tem permitido expor claramente o que as pessoas pensam. E aí, em lugar de pessoas cordatas e com bom senso, o semianonimato e “liberdade” da internet têm mostrados pessoas mesquinhas, preconceituosas, monstros sem máscaras. Vemos as pessoas destilando racismo, sexismo, xenofobia e LGBTQ+fobia sem nenhum freio moral. É como se a internet transformassem Dr. Jekyll em Mr. Hyde sociais, cada vez mais encastelado nos seus radicalismos e na intolerância. E aí que vem a questão da amizade nas redes sociais.

Giorgio Agamben, ao retomar Aristóteles em seu ensaio “O Amigo”, fala da questão da alteridade. Um amigo é o outro com quem se “com-divide” a experiência da vida. E isso tem uma implicação não só existencial (torna a experiência da vida mais doce) como política (no seu sentido filosófico mais elevado). Politicamente, o amigo não é alguém quem pensa parecido, mas o outro com quem dialoga – mesmo tendo pensamentos antagônicos. É sentir conjuntamente a partilha da vida e assim procurar sínteses na pluralidade de ideias para uma existência mais doce e eticamente melhor no mundo.

Por isso, minha querida ex-colega, entramos em um impasse: a amizade precisa de um diálogo na pluralidade. Só que ela sobrevive a erosão causada nas redes sociais? Até que pontos nós queremos manter a amizade, queremos dividir nossa existência com pessoas cujo pensamento e a mensagem pode ser tão contrárias às nossas crenças? Até quando aguentaremos ver repetidas vezes a postagem eterna que destila a falta de diálogo? Como a intolerância pode tornar doce a experiência compartilhada do viver? É uma tarefa difícil em tempos de relacionamentos fluídos, minha querida… Não minto que de vez em quanto tenho feito algumas faxinas nos meus perfis nas redes sociais, para tirar os contactos daqueles que vejo que não há nenhuma possibilidade de diálogo produtivo.

Por isso, minha amiga, em entrei no seu perfil no foicebook e vi algumas de suas fotos – vi poucas atuais, muitos de seus recortes de jornais. E fechei a aba do meu navegador, com o desejo de que esteja tudo bem contigo. Lembrarei com carinhos das nossas conversas. Se quiseres conversar sobre qualquer coisa que não seja política, a casa estará aberta. Até lá, cada um siga gerenciando e postando o que bem entender nos seus perfis.


Abraços

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)