Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Retrato de Família

Salvador, 09 de maio de 2003 (20h48)

.O apartamento ficava em um típico conjunto de classe média. Não era grande, nem pequeno – era médio, com seus três quartos e a cozinha ampliada com a demolição da dependência de empregada. Cada quarto tinha um aparelho de televisão (mais um na cozinha) e na sala, uma enciclopédia empilhada no chão fazia a vez de mesa para o telefone. Era um apertamento normal de uma família normal – com direito a contas a pagar e dois automóveis. Lá vivia a família Sousa. Um pai, uma mãe e um casal de filho – o varão era o mais velho e a caçula, a filha.

.O filho primogênito, R, nós o encontramos agora de frente para a janela de seu quarto. A janela estava aberta, a noite era de outono e o vento constante, fino e frio anunciava em assovios sua presença. R Sousa olhou para o chão de andares abaixo e olhou para o céu de andares acima. Olhou para o infinito horizonte de uma cidade grande e horrorosa.

.Seu coração estava triste, chorava sangue muito. Seus olhos estavam banhados de melancolia e desengano.

.Em sua escrivaninha, seus escritos careciam de arrumação e denunciavam seu gosto por literatura e filosofia. Livros e manuscritos subiam em pilhas, alternando paráfrases de Goethe com máximas de Nietzsche, estudos sobre Schopenhauer e Sartre com versos de Dante e Lorde Byron.

.R contemplava o infinito escuro da noite. Em que pensava ele, neste momento? O que ele pretendia fazer neste instante?

.R pensava na sua família, na sua pobre e medíocre família.

.Pensava em seu pai, F, contabilista aposentado. F vivia sua vida de pacato cidadão comum, de quem começou a trabalhar logo que concluiu o segundo grau. Embora fosse esperto e um dos melhores alunos de sua turma, F não fez vestibular. Tentou uns cinco concursos para o serviço público para as áreas das mais díspares (com motorista da SUCAM e restaurador do IPHAN), mas não passou. Empregou-se em uma empresa média de serviços, onde ganhava razoavelmente bem. Podia até para viajar no fim do ano, com seu velho carro, mas nunca tinha dinheiro para comprar livros que não fossem precisar para escola. Aliás, achava um desperdício pagar RS 11,90 por volume de Homero ou Machado de Assis, se com esse dinheiro ele comprava pão para a família durante uma semana ou a santa gasolina do tão importante carro.

.R pensava também em sua mãe, J, dona de casa e ex-normalista. Sua pobre mãe, cujo único divertimento era a televisão. Não se cansou até colocar vários aparelhos pela casa. Mesmo que os olhos estivessem presos nas tarefas domesticas, a TV estava ligada, para que J pudessem saber da última fofoca de Leão Lobo e Márcia Goldsmith, das dicas de casa e cozinha de Ana Maria Braga e Claudete Troiano, dos casos de ADN de Ratinho, as pseudonotícias de Datena. E ela dizia orgulhosa que pela TV, ficava super informada do mundo, muito mais do que tivesse lido. Livro ela não tinha tempo para ler…

.R pensava na sua irmã caçula, S, que já tinha um carro e que nunca pegava em um livro. Queria porque queria entrar no curso de Enfermagem, mas não havia jeito ou maneira que a convencessem de ler algum dos clássicos de literatura que eram pedidos no vestibular. O motivo evocado era singelo e convincente: No cursinho, ela decorava os macetes e os resumos, o que lhe dava mais tempo para se dedicar às matérias específicas. E depois, (SE e) quando passar, de que adiantará os versos e os romances de autores mortos para o exercício de sua profissão?

.R pensava na sua vida. Pensava quando criança ele foi um dos primeiros na classe. Pensava quando era sempre chamado para fazer ajudar nas peças e nos recitais na escola. Pensava nas redações premiadas, que ornavam o ginásio no fim do ano. Pensou nos versos que figuraram na antologia ditada pelo colégio. Pensou nas notas altas que tirou em toda sua vida escolar. Pensou no teste de aptidão que fez e lhe indicou a trilha das Letras. Pensou também na tristeza da família, quando R optou pelo curso de Psicologia, em lugar de um curso mais nobre com Medicina ou Arquitetura (desejo de sua mãe melodramática), ou mais rentável, como Informática ou Economia (vontade de seu pai pragmático). Pensou e penou estes anos em que fazia uma faculdade sem estímulo e era assediado a fazer qualquer concurso público que lhe desse qualquer salário de quatro a cinco dígitos. Pensou nas horas em que ficava sozinho durante a noite, em seu quarto, ouvindo música clássica e escrevendo seus contos queridos, seus poemas maduros e suas peças teatrais inconclusas, como único consolo para sua alma. Pensou nas brigas que teve com seu pai, quando R trocou uma inútil carteira de habilitação por uma importante máquina de datilografia.

.R pensava na contradição que foi sua vida. E com o coração amargurado, olhou para o chão de andares abaixo e para o céu de andares acima. Olhou para o infinito horizonte escuro da cidade. Volveu o pescoço e contemplou seu quarto, cujas quatro paredes era uma única estante repleta de livros, livros, revistas, fascículos e mais livros. Sentiu em sua face o vento frio e constante do outono. Fechou os olhos e refletiu nos passos que iria dar naquele momento.

. com os olhos fechados, viu na miríade dos séculos as estrelas apaixonadas de Olavo Bilac, as quimeras íntimas de Florbela Espanca, o barco ébrio de Arthur Rimbaud. Viu a praga que sua família era para o mercado editorial. Viu várias famílias vivendo pequenos dramas iguais ao seu – de um jovem se recusar a seguir a alienante e alienada mediocridade da vida moderna. Viu uma legião de seres humanos vegetando na ilusão de terem nas mãos o carro do ano. Viu (com carinho e ternura) as mulheres que passaram em sua vida, que aceitavam serem musas mas recusavam a serem amantes.

.E com os olhos fechados, R subiu no parapeito da janela e colocou uma perna para fora. Seu coração batia acelerado. Sentou-se devagar. O vento zunia um réquiem amigo. Um sino funeral alhures replicava baixinho. Respirou fundo, colocou a outra perna para fora e…



……………………………………………………



.Termino aqui o meu retrato de família. Sinceramente, não sei o que R fez. Não sei se ele pulou pela janela do décimo andar ou se seu espírito voou para as estrelas na cauda de algum poema. Não me lembro de ter ouvido choro de mãe ou grito de irmã. Não sei se S passou no vestibular ou se leu algum livro. Creio que seus pais continuam seguindo a sua vida normal: J assistindo Ratinho e Datena e F pagando em dias as contas da casa para mais tarde passear de automóvel – mas não tenho certeza de nada disso.

.Em todo caso, se o leitor ou a leitora quiser rezar para que Deus ilumine a alma de R, a ovelha negra queria ser um artista livre-pensador, peço que reze também para que iluminem a família Sousa também – afinal, ninguém merecia uma maldição dessa…

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Conto revisto. Edição original publicada na "Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - vol. 01 - Rio de Janeiro: CBJE, 2004" http://www.camarabrasileira.com/cs14.htm

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