Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Aurora Atlântica

Aurora Atlântica

Oceano Atlântico (Boeing 767-300 – vôo 0084 Air Europa); 03 de fevereiro de 2008

Adeus, Artemis (ou tripla Hécate)!
Adeus que Apolo surge no seu coche,
Apolo aparece resplandecente
Sobre o espelho oceânico.

Poseidon, de seus cavalos marinhos,
Acena para o dourado disco
Que nos meio das nuvens
Toca em sua lira uma sinfonia
Dourada e azulina, como a convocar
As Musas para o Sarau.

E eu, jovem poeta valenciano,
Sinto Júpiter Capitolino
Recitar nos meus ouvidos
Esta doce poesia pagã:
Poesia de uma aurora sobre o Oceano…

Amanhecer Atlântico

Amanhecer Atlântico

Oceano Atlântico (Boeing 767-300 – vôo 0084 Air Europa); 03 de fevereiro de 2008

O que dizer de um campo
Azul-dourado com couves-flor etéreas?
O que dizer do “croissant” sideral
Saudando Hélios sobre o Reino de Poseidon?
O que dizer de nuvens debaixo de meus pés nesta paisagem?
Não há de dizer nada:
Apenas contemplar este quadro
Numa janela de avião
E sonhar com a poesia selvagem
De um amanhecer no Oceano…

Poemas Botticelli


Poemas Botticelli


Florença (Itália); 07 de fevereiro de 2008
(Galeria dei Uflizzi – sala X – Botticelli)



I


Pela primeira vez,
Primorosa primavera
Paira como sonho doce
De infância ante meus olhos
Acadêmicos sedento de ninfas.


II


Venha, Vênus, Venha!
Das águas e das tintas,
Venha para florescer bela
Como a real Beleza Etérea
Nascendo de concha de tela.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Minha viagem a Itália - Fotos 01







Enquanto não termino minha série de crônicas, vão algumas fotos minhas na Itália.Mais fotos em Roma. O que dizer de lugares como Monte Palatino e Coliseu? Apenas olhá-los e admirá-los.

Minha viagem à Itália- Fotos 02







Lamento que a minha foto, lendo meu livro na Praça de São Pedro, no Vaticano, tenha queimado. Também estive em Florença, como podem ver minha foto com o Palazzo Vecchio ao fundo... Claro que não deixei de levar meu livro para divulgá-lo na Itália....

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Cinqüentenário de um livro esquecido - artigo

Cinqüentenário de um livro esquecido - artigo original

Ricardo Vidal, 29 anos, escritor. Autor do livro “Estrelas no Lago”. Estuda Letras/Inglês na UNEB-Salvador. Weblog: www.bardocelta.blogspot.com, E-mail: cve_livros@hotmail.com

Para muitos valencianos, tanto a obra como o autor são desconhecidos. Vários, com certeza, dirão que “não é do meu tempo!” – e eles estarão certos! Quem se recordaria de um livro de geografia, de 20 páginas, escrito em 1958, por um ex-diretor de ginásio? Contudo, as “Notas Geográficas sobre a Cidade de Valença”, do professor Brasílio Machado da Silva Filho, é um livro de suma importância para a cultura de nossa cidade e que, infelizmente, chega ao cinqüentenário de sua publicação totalmente esquecida pela população e pelo poder público.

A edição “princeps” do livro “Notas Geográficas sobre a Cidade de Valença” foi impressa em maio de 1958 pela Tipografia Tupy, aqui na cidade de Valença. É uma brochura de 20 páginas, cuja capa em cartão cor de goiaba não apresenta nenhuma ilustração. Está dividido em três partes. Na primeira parte, intitulada “Aspecto Geral do Município”, professor Brasílio faz uma descrição abreviada do município de Valença, destacando os aspectos físicos, divisão política na época, clima e subsolo. A segunda parte, chamada “A Cidade”, fala sobre a localização geográfica, um pouco da histórica, a importância da fábrica de tecido, sobre a nossa indústria madeireira (lembrando que aqui já houve até algumas pequenas fábricas de móveis), demografia e transporte. Na terceira e última parte da obra, chamada “Breve Histórico”, professor Brasílio dá notícias históricas sobre a colonização de Valença. Complementando o trabalho estão quatro fotos da cidade de Valença na época: da CVI, da Câmara de Vereadores, do Jardim Velho e da Praça da República – sendo que a última, os jardins tinham sido inaugurados três meses, em fevereiro de 1958, pelo então prefeito Gentil Paraíso Martins.

OBRA RARÍSSIMA E CAPITAL: Hoje, o livro pode ser considerado “obra rara”. Atualmente, achar um exemplar do livro representa uma odisséia intelectual pelas bibliotecas de Salvador e Valença, já que as mesmas não dispõem do livro. O autor deste artigo só conseguiu achar um exemplar após quase dois meses de procura, e mesmo assim, apenas após a ajuda do professor Edgar Otacílio da Silva Oliveira, a quem fica os sinceros agradecimentos pela ajuda.

Embora algumas informações constantes no livro (em especial, as ligadas a geografia humana) estejam superadas, este livro continua sendo importante para cultura e a historiografia de Valença por ser um retrato de uma época, pelas fotos publicadas (que resgata a memória urbanística da cidade) e pelos comentários que o professor faz sobre Valença. Por exemplo, interessantes são os comentários acerca dos transportes, mostrando como a estrada do Entroncamento implicou para o crescimento da população e da necessidade de se construir um porto marítimo na ponta do Mutá – porto esse que chegou a ser planejado na época e que nunca foi construído. Outros comentários dignos de nota são sobre as razões pelas quais a sede do município seja onde está, em detrimento à aldeia de São Fidelis, povoação mais antiga e dos motivos pelos quais Valença foi escolhida para abrigar a Fábrica de Tecido Todos os Santos. Por isso mereceria que neste ano, em que ela comemora o cinqüentenário do seu lançamento, fosse publicada numa segunda edição especial e comemorativa acrescida de um perfil biográfico do professor Brasílio.

UM GRANDE MESTRE: Brasílio Machado da Silva Filho foi o primeiro diretor do primeiro ginásio de Valença entre os anos de 1954 e 1965 – Ginásio Estadual de Valença, que funcionou no prédio da Escola Estadual João Leonardo da Silva (ex-CENEVA) e que foi a mãe do atual Complexo Escolar Gentil Paraíso Martins (Ex-Ginásio Industrial Ministro Oliveira Brito). Além de diretor, ele também lecionou Geografia Geral e do Brasil. Com grande conhecimento em História e, principalmente, Geografia, Brásilio Machado escreveu também “Geografia da Bahia (para o curso médio)”, publicada em Salvador em 1964. Este livro se destinava principalmente para as estudantes de Magistério, que no primeiro ano, deveriam estudar a disciplina de igual nome. Neste livro, destaca-se uma foto antiga do Rio Una que apareceu nas primeiras páginas como exemplo de meandro de rio.

Professor Brasílio marcou a vida educacional em Valença nas décadas de 50 e 60 do século passado, apesar de não ter nascido aqui na terrinha do Rio Una. Era um homem culto, polido e dotado do típico “humour britânico” (que une a mais refinada ironia com a mais pura fleuma). Conforme lembra Ivanice Muniz Conceição, ex-aluna dele no antigo curso de Magistério, Professor Brasílio tinha jeito calmo, sereno e educado de tratar com os alunos. Mesmo quando repreendia um aluno, nunca se alterava e gritava com seus educando; pelo contrário fazia seu sermão de tal forma educada que cativava o aluno.

Intelectual de prestígio, Brasílio Machado foi amigo do professor Francisco da Conceição Menezes (que foi diretor do Ginásio Estadual da Bahia, atual Colégio Central, e membro do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, IHGB), a quem entregou uma cópia autografada do seu livro “Notas Geográficas sobre a Cidade de Valença”. Este exemplar hoje se encontra na Biblioteca Rui Barbosa, do IHGB.

Além dos livros “Notas Geográficas sobre a Cidade de Valença” e “Geografia da Bahia (para o curso médio)”, Brasílio Machado também escreveu: "Discurso de Paraninfo", feito em Nazaré das Farinhas em 1949; "Problemas Municipalistas", tese apresentada no 01º Congresso dos Municípios Baianos, realizado em Jequié em 1951 e "Aspectos Atuais do ensino Secundário nos Municípios", trabalho apresentados no I Seminário Municipalista Baiano em Salvador entre os dias 21 e 26 de abril de 1952. Consta ainda que Professor Brasílio tivesse escrito mais dois livros – "Notas Geográficas (Comentários de Ordem Geral)" e "Notas sobre o Ensino Secundário". Porém o autor deste artigo não sabe informar se os mesmo vieram a ser publicados ou ficaram no rol de obras inéditas.

Pela importância que o Professor Brásilio Machado possui na história educacional de Valença e pelo o que esse livro representa para a cultura da nossa cidade, seu cinqüentenário não pode passar em branco. SE a Prefeitura Municipal de nossa cidade – através de sua “Secretária Municipal de Turismo, Indústria, Comércio e (ufa!)… Cultura”, não puder imprimir uma edição comemorativa da obra [afinal, este é um ano de eleições municipais!]; o autor deste artigo deixa um apelo disfarçado de sugestão para que os mecenas e as instituições de ensino superior valencianas assumam este nobre papel em prol da história e cultura de nossa cidade. Pois uma cidade sem história é uma cidade sem futuro.

Post-scriptum: Dedico este artigo para meu pai, Sr. Antonio José Conceição Vidal, pelo apoio e incentivo dados à pesquisa.

Bibliografia

OLIVEIRA, Edgar Otacílio da Silva. “Valença: dos primórdios à contemporaneidade”. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo, 2006. (Coleção Cidades da Bahia)

SILVA FILHO, Brasílio Machado. “Geografia da Bahia” Para o ensino médio. Salvador: sem editora, 1964.

SILVA FILHO, Brasílio Machado. “Notas Geográficas sobre a Cidade de Valença” Valença-Bahia: Tipografia Tupy, 1958.

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Salvador, iniciado em 09 de janeiro de 2008 (01h38) e finalizado em 22 de fevereiro de 2008.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Diários de Roma I – A Cidade Eterna


Diários de Roma I – A Cidade Eterna


Ricardo Vidal, 29 anos, escritor. Autor do livro “Estrelas no Lago”. Participou de várias antologias e foi menção honrosa nos concursos de poesia da revista Iararana (2002) e da ALER (2005 e 2007). Fundador e ex-diretor da UMES-Valença (1994-1996). Estuda Letras/Inglês na UNEB-Salvador.
Weblog: www.bardocelta.blogspot.com, E-mail: cve_livros@hotmail.com



Se for possível em algum momento de sua vida, amigo leitor, não deixe de visitar da cidade de Roma, na Itália para ver as ruínas do Coliseu e a Basílica de São Pedro no Vaticano. Mas não vá Roma apenas para ver as ruínas do Coliseu e a Basílica de São Pedro no Vaticano. O autor desta crônica esteve lá e garante que Roma tem mais tesouros do que estamos acostumados a ver.


Por alguma casualidade do destino, os deuses (ou os santos ou os demônios) fizeram da cidade às margens do Rio Tibre e flanqueada por sete colinas em um dos lugares mais belos e grandiosos do planeta Terra. Cada esquina, cada ruela, cada beco é um caminho que se abre para uma praça, uma fonte, uma igreja, uma monumento ou tudo isso junto em um só lugar. E parecem que eles estão lá para provar o quanto o ser humano pode se superar na construção da Beleza.


Observemos, por exemplo, o Coliseu – cujo verdadeiro nome é Anfiteatro Flávio. È uma construção magnífica situada ao lado do Arco de Constantino, do Monte Palatino e da entrada Via Sacra para os fóruns romanos. É uma elipse de tinha inicialmente dois andares visitáveis, com alguns trechos em que se conservam os revestimentos originais em mármore. Dificilmente alguém passará incólume ante a imponência deste trabalho arquitetônico feito numa época que se desconhecia concreto armado e guindastes. È olhar e deixar o queixo seguir a lei da gravidade, em total sinal de admiração.


Só que o Coliseu não é a única construção da Roma Antiga que impressiona. Com o mesmo ingresso do Coliseu pode-se ver as ruínas do Monte palatino – o monte onde nasceu Roma e que depois foi palácios de Césares. Ali se contempla ruínas mais soberbas e com mais opções de vista. Na fachada que se mira o vale do fórum republicano ergue-se o ainda verde “Orti Farnesiani” – o jardim e “Villa” da família Farnese. São alamedas com laranjeiras carregadas e cerejeiras em flor formando um cenário exuberante e convidativo para o namoro. No lado oposto, as ruínas da cabana de Rômulo (construção da pré-história romana cuja tradição atribui ao fundador mítico de Roma) e os palácios imperiais de Augusto, Lívia e da dinastia Flaviana observa o Circo Máximo (antigo estádio para corrida de bigas). No centro, o Museu Palatino guarda as relíquias de um império que já foi “caput mundi”.


Atravessamos o rio Tibre, chegamos ao Vaticano, sede da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. As colunas de Bernini na Praça de São Pedro abrem-se como braços da Basílica como pra acolher todos os turistas e peregrinas num abraço fraterno, convidando-os a conhecer os tesouros da Igreja. E o primeiro deste surge nas escadarias: as estátuas em mármore de São Paulo (a direita) e São Pedro (á esquerda). Ao entrar na Basílica, logo na primeira capela à direita vemos a famosa “Pietá” de Michelangelo. Como não se sensibilizar com dor de Nossa Senhora carregando o Jesus Cristo recém morto na cruz? Próxima a este evangelho em mármore está o monumento tumular da Rainha Cristina da Suécia – a rainha inteligente que amou a Filosofia e renunciou a coroa protestante quando de sua conversão ao catolicismo, sendo mais tarde imortalizada no cinema pela conterrânea Greta Garbo. A capela do Santíssimo Sacramento surge como um oásis para orações em meio á multidão de turistas – assim como a capela da Penitência, com seus múltiplos confessionários em diversas línguas. Sob cúpula de Michelangelo está a Cátedra de São Pedro, maravilhoso trabalho em mármore para o trono papal, erguido sobre a tumba do príncipe dos apóstolos. As imagens de São Longuinho, Santa Verônica e Imperatriz Santa Helena velam Sua Santidade nos seus ofícios divinos. No lado esquerdo da Basílica continua a série de monumentos funerários de rei e papas e capelas (como a do coro). Ao centro, está um corredor de colunas com várias estátuas de santos (e com especial emoção vi as imagens de São João Bosco, Santo Inácio de Loyola e Santa Teresa D’Ávila) velando o mármore do chão, com os nomes das maiores igrejas da Cristandade. No subsolo, o túmulo do São Pedro é guardado pelos túmulos de papas e reis – como os dos últimos Stuarts da Grã-Bretanha.


Se a Basílica de São Pedro convida a fé pela imponência e majestade, ao seu lado, a Igreja de N. S. Santana convida à fé pela paz e quietude. A pequena igrejinha redonda e longe da balburdia dos turistas serve como igreja paroquiana dos moradores do Vaticano. E por isso mesmo, por ser ignota das rotas turísticas que lá no coração da Santa Madre Igreja encontramos um lugar sereno de para sentir a toda verdade e bondade de Cristo, toda a grandeza e majestade de Deus.


Fora as igrejas e as ruínas, Roma ainda encanta pelas Fontes (como a de Trevi – imortalizada por Fellini, Marcelo Mastroiani e Anita Ekberg em “La Dolce Vita”), as praças (como a de Espanha, aos pés das escadarias que levam à Igreja da Trindade dos Montes e onde faleceu o poeta inglês John Keats), monumentos (como ao dedicado à Victor Emanuel II, fundador da Itália Moderna), os obeliscos egípcios, jardins e museus. Roma não é apenas uma capital européia ou uma cidade antiga. Roma é um lugar onde os olhos não se cansam de mirar as diversas belezas que o ser humano ergue aos longos do século e que os narizes não se cansam de respirar cultura


São tantas as maravilhas vistas que uma única crônica não basta para descrevê-la. Fica o convite para que os amigos leitores venham acompanhas meu périplo pela Cidade Eterna, que realizei na primeira quinzena de fevereiro deste ano.


Oceano Atlântico (Vôo 0083 da Air Europa), 12 de fevereiro de 2008

Na Colina do Amparo

Na Colina do Amparo
(Para Elisabete Barbosa)

Valença, 19 de fevereiro de 2000

Do alto da colina do Amparo,
Vendo toda a imensidão,
Encontro-me sozinho. Paro.
Fico a escutar meu coração.

Nos meus olhos sem anteparo
Das místicas e da ilusão,
Em minh'alma tudo é claro:
É Elisabete a minha paixão.

Passados muitos e mais outonos,
No qual meu coração ao léu
E em vão, procurou outros pomos,

Hoje tem a certeza que não vivi:
E aqui, tão próximo do céu,
Estou triste, distante de ti.

Publicado no Jornal Valença Agora (http://www.valencaagora.com/x/b/bs.php?bl=1&menu=893). Observem como um poema escrito a tanto tempo -quase dez anos- ainda pode ter ressonância poética... Preciso aprender que alguns dos poemas que eu escrevi no passado ainda tem importância para minha carreira literária, que eles podem resultar em surpresas.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Contos Zero Zero de Patrick Brock

Contos Zero Zero de Patrick Brock
(Uma resenha do livro “Textorama”)

“TEXTORAMA”. Escrito por Patrick Brock. Arte e projeto gráfico de Delfin. São Paulo: Edições K, 2004. 110 págs. Disponível nas livrarias “Berinjela” e “LDM” (Salvador/Bahia). R$ 10,00

Qual é a cara da novíssima literatura jovem baiana, pós-ano 2000? Nelson de Oliveira, no seu artigo “Geração Zero Zero”, aponta duas tendências desta geração que se esboça: 01º) Autores cujos primeiros textos foram publicados e distribuídos pela internet, através de blogs, e-zines e mail-lists; 02º) Os textos – marcadamente urbanos – procuram o bizarro, o perverso, o escabroso da condição humana; a vitória de Thanatos (segundo Freud, o instinto destruidor do ser humano) sobre um Eros (o instinto de preservação da vida do ser humano) transformado em sexo violento, as provas de que o existencialismo sartreano vive mesclado com a estética cyberpunk nas megalópoles bladerunneianas. E os contos de Patrick Brock, no livro “Textorama”, são o melhor exemplo desta tendência.

Editado em formato de bolso, “Textorama” reúne nas suas 110 páginas 15 textos, distribuídos em duas sessões de contos e uma novela. Em comum, temos uma linguagem visceral, violenta e erótica e textos em que a realidade crua, realismo fantástico e surrealismo distópico são temperados com referências a cultura beat, caos urbano, a mais fina ironia e os filmes de ação. A linguagem, sem os floreios parnasianos, é direta e ágil como um post de um blog. Para quem está acostumado a uma linguagem adocicada (como as dos textos de auto-ajuda e os pseudo-poemas da Jovem Guarda), Patrick Brock pode surgir como uma anti-poesia de sabor ácido e amargo. Contudo, é o inverso que se opera: nos textos surgem uma poesia saborosa, com imagens vertiginosas e atraente, condizente com realidade descrita. Se a mesma é longe de ser um vale de flores banhado por mar de rosa, aí são outros 500… O cenário urbano ao mesmo tempo realista e fantástico, como que retirado das notícias de jornais. Os crimes do conto “Boxeador” podem parecer hediondos e inimagináveis pela crueza até o momento que algum telejornal anuncia uma chacina nas periferias do Rio de Janeiro e São Paulo. Onde está o limite entre realidade e fantasia? Quanto aos temas, sexo e violência basicamente, eles são uma presença constante, o que não seria diferente se observamos o cenário midiático contemporâneo. Mas o cenário urbano distópico, o sexo e a violência não aparecem de forma gratuita nos contos de Patrick Brock. Eles servem como pano de fundo para a reflexão sobre a realidade em vivemos. É fácil ficarmos chocados com o latrocínio e os estupros praticados pelo protagonista do conto “Boxeador”, porém, quantas pessoas perceberam a violência social que ele sofria diariamente? Quantas vezes as classes alta e média foram violentas, ostentando seu poder de consumo a uma maioria que vive nas favelas e cuja juventude não possui muitas escolhas para sair desta situação? Neste ponto Patrick Brock mostra sua maestria na escrita, ao nos apresentar esta realidade com doces sabores de ironia. Mas como isso aparece no livro?

Na primeira sessão, “Confessus”, encontramos contos curtos que são verdadeiros instantâneos fotográficos, flagrantes de momentos: em “Snap”, quatro linhas descrevem o momento de disparo de um tiro fatal; em “Kerouac à vinagrete”, um recém-desempregado inicia sua aventura ao velho estilo “On the road”; em “Cool Jazz”, um encontro sexual em algum boteco perdido na periferia. A cidade descrita no conto “Urbi et Orbi” aparece como chave para o universo brockiano: A cidade é um organismo vivo com “corações-terminais gigantes” e “avenidas cancerígenas” a produzir poluição e caos. Assim, longe de ser um cenário para idílios e utopias, esta cidade mostrar sua cara como a latrina divina onde Deus evacua seus excrementos – como sugere as últimas palavras do texto. Nestes contos, Patrick Brock mostra uma estranha poesia existente nesta vida contemporânea e absurda. Já a segunda sessão, “Cornucópia”, as narrativas são mais longas, em que o sexo e a violência dão mais ênfase a uma crítica social. Além do já citado “Boxeador”, encontramos contos como “Macho” – retrato irônico da emasculação do homem moderno pelas mulheres, invertendo a lógica do “sexo frágil”; “Raccontos” – duas narrativas editadas no formato e-mail; “Autobahn”, em que a velocidade do carro é o afrodisíaco especial que nem o acidente tira o encanto. Aliás, neste conto em particular, a jovem motorista revela o niilismo de uma parcela da atual geração – mesmo que isso termine num acidente com sangue, o que importa a velocidade e, principalmente, o prazer? Sem um ponto de partida e outras motivações, a moça corre no seu carro e seus dedos podem lhe proporcionar o orgasmo que queria. Para onde? Para qual objetivo? Ficam as perguntas para que leitor tire suas conclusões. A terceira e última sessão é uma novela em sete capítulos chamada “A Pira de Al Nitte Lang”. Neste egotrip de sexo e drogas, a personagem principal é um soteropolitano de classe média que segue uma espiral auto-destrutiva similar à vivida pelo ator Edward Norton no filme “Clube da Luta”, de David Fincher. Aqui, o realismo quase neo-naturalista das descrições vai num crescendo que desemboca surpreendentemente no mais completo surrealismo. As ilustrações oitocentistas retiradas dos livros do Marquês de Sade complementam e dialogam magistralmente com a vida de Al Nitte Lang. É o recado do Patrick Brock, de que a violência moderna seja talvez mais sádica e sexualmente perversa do que podemos imaginar. Apenas, é mais sutil.

Quem é o autor deste livro? Patrick Brock, 29 anos, é jornalista formado pela UFBA e atualmente reside em Nova Iorque, onde trabalha como editor de traduções do Wall Street Journal e é colunista do Caderno DEZ! do jornal A Tarde. Mantém o blog “Palavras Cruzadas” (http://www.palavrascruzadas.blogspot.com/). Ainda na Faculdade de Comunicação da UFBA – quando foi colega dos escritores Wladimir Cazé, José Inácio Vieira de Melo e do autor deste aritgo – Brock deu os priemiros passos na literatura através do e-zine “Ogden Zine”. Mias tarde, foi o editor do “K-zine”, e-zine da editora “Edições K”, onde publicou os livros de “Velhas Fezes” e “Textorama”, ambos em 2004.

Com este livro, Patrick brock revela que produz uma literatura séria de boa qualidade. È uma literatura vibrante e plugadas nas tendências mais avançadas da cena literária atual, desta geração Zero Zero. É leitura obrigatória para quem quiser saber o que tem de melhor e mais atual dentre os bons escritores jovens, que chegam para marcar sua presença com texto que são “uma explosão seca de metal incandescente”.

Bibliografia
BROCK, Patrick. “Textorama”. São Paulo: Edições K, 2004.
OLIVEIRA, Nelson de. “Geração Zero Zero” in IARARANA. Salvador: nº 10, p. 74-76, dezembro 2004
GOTLIB, Nádia Batteli. “Teoria do Conto”. 10ª ed. São Paulo: Ática, 2004. (série Princípios)
LEITE, Lígia Chiappini Moraes. “O Foco Narrativo”. 10ª ed. São Paulo: Ática, 2006. (série Princípios)

Ricardo Vidal, 29 anos, escritor. Autor do livro “Estrelas no Lago”. Participou de várias antologias e foi menção honrosa nos concursos de poesia da revista Iararana (2002) e da ALER (2005 e 2007). Fundador e ex-diretor da UMES-Valença (1994-1996). Estuda Letras/Inglês na UNEB-Salvador. Weblog: www.bardocelta.blogspot.com, E-mail: cve_livros@hotmail.com

Publicado no Jornal Valença Agora: http://www.valencaagora.com/x/b/bs.php?bl=1&menu=832

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Fotos da premiação- III Concurso de Poesia da ALER 2007

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Neste, que é o primeiro post do mês de fevereiro, não irei colocar textos. Nem poemas, nem prosa, nem confissões. Apenas algumas fotos minhas, quando recebi recebi a menção honrosa de poesia do III Concurso da ALER.

01) Participando da mesa de premiação, junto com os acadêmicos da ALER e autoridades presentes.

02) Recebendo medalha de menção honrosa pelas mãos de Dr. Mustafá Rosemberg, eminente médico valenciando, escritor e acadêmico da ALER.

03) Emocinado, fazendo meu discurso de agradecimento.

04) Eu e Almir de Oliveira, presidente da ALER.

05) Eu e Franklin Maxado, membro da Academia Feirense de Letras

06) Eu e Dr. Mustafá Rosemberg. Depois da sessão, fomos jantar junto. Foi uma noite inesquecível... Meus pais ficaram em estado de graça.

07) Eu e a vencedora do concurso, Marilene de Oliveira Andrade

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)