Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

trechos da monografia O olhar de Marianne

INTRODUÇÃO: UM OLHAR SOBRE O CONTO DE ANAÏS NIN

 

Anaïs Nin foi uma escritora franco-americana de ascendência hispano-dinamarquesa, nascida em Paris em 21 de fevereiro de1903 e que alternou sua vida adulta entre Europa e América até se estabelecer definitivamente nos EUA na segunda metade do século XX – vindo a falecer em Los Angeles em 14 de janeiro de 1977. Casou-se com Hugh Parker Guiler em março de 1923. Contudo, sua vida sentimental foi muito movimentada, ficando famoso seu caso amoroso com Henry Miller e a esposa dele June, cujo affair ficou registrado pela própria Anaïs Nin no seu livro "Henry & June". Também foi amante de Otto Rank, seu psicanalista e conviveu com intelectuais como Rebecca West, Thurema Sokol, Paul Eluárd, André Breton e D. H. Lawrence.

Sua obra se compõe de diários que ela começou a escrever desde os 11 anos de idade, romances, contos e ensaios. Dentre seus escritos, destacam-se "Uma Espiã na Casa do Amor" (romance), "Casa do Incesto" (poema em prosa), "Henry e June" (diário não-expurgado que abrange os períodos de outubro de 1931 a outubro de 1932), "Delta de Vênus" e "Pequenos Pássaros" (ambos, coletâneas de contos eróticos) – todos eles produzidos em língua inglesa. Neles, se observam a influência da literatura de Djurna Barnes e David Herbert Lawrence, do Surrealismo e da Psicanálise freudiana.

Um dos aspectos que marcou a literatura de Anaïs Nin é o erotismo, presente tanto na ficção como nos seus diários.  Dentre as suas obras de ficção, destacam-se os livros "Delta de Vênus" e "Pequenos Pássaros", escritos por Anaïs Nin por encomenda de um anônimo que exigiu desta autora de outros escritores, textos focalizados na temática erótica.

Dentre estes textos, encontra-se o conto "Marianne", cuja protagonista é uma jovem pintora que complementa sua renda datilografando contos eróticos escritos por Anais Nin e outros. Marianne se envolve eroticamente com um homem tímido que obtém o prazer através do exibicionismo. Na relação, o empenho em observar e ser observado se constitui como um jogo erótico, no qual o olhar feminino se configura como elemento ativo dirigindo o foco da história. Ora, ao deslocar da área genital para o olhar como centro do jogo, os eles (o par romântico do conto) vivem uma relação fetichista, no sentindo freudiana da palavra.

Assim, pretende-se analisar o olhar como fetiche no conto "Marianne" e a questão do olhar e sua relação erótica – no caso, expresso pelo "voyeurismo" e "exibicionismo".  Partindo desta base teórica será analisado o conto "Marianne", especialmente o exibicionismo e a timidez de Fred, como se estabelece o voyeurismo de Marianne e como é expresso o erotismo na óptica feminina.

 


 

CAPÍTULO I: EROS UMA VEZ… OU DUAS, TALVEZ

 

1.1 O nome de Eros

 

"O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora"

Octávio Paz

 

O senso comum remete a idéia de erotismo às noções de sexo, da sensualidade, do amor, do desejo, e do requinte[1]. E quase sempre em uma relação tensa com a pornografia (onde termina uma para começar a outra?). Mas o que é erotismo? Etimologicamente, Eros vem da raiz grega Ερως[2] e significa amor (que, por sua vez, é raiz da palavra grega Ιμερος, Imeros, que significa paixão, desejo).

Na mitologia greco-romana, o que os gregos chamavam de Eros[3] (e que os romanos sincretizaram como Cupido) era a personificação do Amor – mais precisamente do amor sensual, ligado ao instinto da reprodução da vida. Ou como define Lúcia Castello-Branco, "(…) Eros é o deus do amor, que aproxima, mescla, une, multiplica e varia as espécies vivas". Na versão mais popularizada do mito, Eros é representado como um menino alado e travesso (cuja idade variava entre a infância e a adolescência), filho de Afrodite/Vênus[4] (deusa do amor, da beleza e dos prazeres) e que vive a acertar os corações humanos e divinos com flechas incendiárias que despertavam paixões nos atingidos. É um deus jovial, ousado, audaz e maroto que consegue exercer seu poder (inflamar o amor no coração) desde os seres humanos até os próprios deuses — não hesitando, inclusive, de flechar sua mãe e o próprio Zeus[5],[6]. Outra versão, mais primitiva do mito, já o associa à Criação do universo, na geração anterior aos Titãs. Eros, neste caso, seria a força que teria ajudado a criar o Universo a partir do Caos (O ovo cósmico)[7].

A partir do mito greco-romano, podem-se depreender dois aspectos que estarão presente na discussão sobre erotismo: Um, derivado do mito primevo, é a relação de criação dos seres, a força reprodutiva; Outro (de certa forma, reforçando o primeiro aspecto), de que o amor também é carnal, é sexo, é sensualidade. Mas esta relação com o sexo, no caso dos seres humanos, vai além da função biológica de reprodução.

No seu livro "A dupla chama: amor e erotismo", Octávio Paz considera que o erotismo "é exclusivamente humano: é a sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e vontade dos homens." (PAZ: 1994, 16). Deste modo, o sexo entre seres humanos também ganha a dimensão do prazer, da representação, da subversão e dos sentimentos (principalmente amor). Desviando da função reprodutiva 'prescrita' pela natureza (ou Deus, segundo a Teologia), a sexualidade passa a ser, no erotismo, um terreno onde a imaginação humana reina. Por isso que Octávio Paz aponta para a multiplicidade do erotismo, a dizer que o mesmo "varia de acordo com o clima e a geografia, com a sociedade e a história, com o indivíduo e o temperamento". Ao contrário dos animais, que fazer sexo da mesma forma, o ser humano vive sua sexualidade de várias formas, executando em várias posições a união sexual e experimentando novas visões para o ato[8]. Diante desta multiplicidade do fenômeno erótico ganha que alguns teóricos sentem dificuldade em definir precisamente o erotismo[9]. Contudo, sendo múltiplo na expressão, ele se conserva como um fenômeno único da espécie humana.

A literatura erótica (como um todo), como um todo, exemplifica esta multiplicidade e humanidade do fenômeno erótico, ao mostrar através da arte literária as várias formas de se viver o sexo na espécie humana. No caso particular do conto "Marianne" de Anaïs Nin, isso é patente, tanto no fato de que a relação afetivo-sexual dos personagens Marianne e Fred é focada mais no ato de observar e ser observado do que o coito vaginal propriamente dita (aliás, no texto não diz claramente a penetração chega a ser consumada entre ambos), como no
fato de que a mesma não visava seguir o instinto natural de reprodução, e sim no gozo
erótico-amoroso.

No caso de Fred, seu prazer sexual não estava centralizado no coito, mas na exibição do seu corpo nu a uma parceira. E para isso, prescindia de todo um ritual, conforme é descrito no conto. Na primeira sessão em que Fred posa para que Marianne possa fazer os estudos para a pintura de seu retrato, ele se despe no meio do estúdio, na frente dela.

 

Ele estava se despindo de maneira espantosamente calculada, como se fosse uma ocupação seleta, um ritual. Em um dado momento, me olhou bem dentro dos olhos e sorriu, mostrando os belos dentes alinhados, e sua pele era tão delicada que capturava a luz que se derramava pela janela e a conservava como um tecido de cetim.

(…) Ele havia tirado o casaco, a camisa, os sapatos, as meias. Só restavam as calças. Ele as segurou como uma stripteaser segura as dobras de seu vestido, ainda me olhando. Eu ainda não conseguia entender o vislumbre de prazer que animava seu rosto.

Então ele se inclinou, abriu o cinto, e as calças escorregaram. Ficou completamente nu diante de mim e no mais óbvio estado de excitação sexual. (…).  (NIN: 2006, 87-88)

 

Apesar das dúvidas iniciais de Marianne, de que ele pudesse "extravasar a excitação em cima", Fred se limitou a ficar "petrificado e contente". Ao final da sessão, ele se vestiu calmamente para beijar educadamente a mão de Marianne e marcar a próxima sessão, em que se repetiu o ritual.

Anaïs Nin deixa claro neste conto que a passividade de Fred em ser observado quando, um pouco adiante mostrar que Marianne percebeu que ele era "daquele tipo interessado apenas em que eu olhe para ele" (NIN: 2006, 89. grifo da autora). E no desenrolar da estória, nunca cabe a ele a iniciativa. Fred não reage à primeira insinuação de Marianne[10] e o ato sexual só se consuma quando ele, fazendo a pose atlética para a pintura, Marianne efetivamente se entrega ao desejo e faz sexo oral nele. Não deixar de ser notável que ao final do conto, o emprego que Fred arruma (e causa a separação de Marianne) é de modelo em uma aula de pintura no qual Marianne era monitora.

Se Fred se excita em ser observado, Marianne ocorre o inverso. Ela é caracterizada no conto como uma pintora que suplementava seus rendimentos datilografando à noite os contos eróticos de Anaïs Nin e de outros escritores. Desde já ela aparece como um voyeur privilegiado na história, seja como pintora (o que, por dever de ofício, precisava ter um olhar mais apurado), seja como datilógrafa, (no qual tinha acesso à fantasia erótica dos outros). Ao ser contratada por Fred para pintar um retrato dele, nu, em pose atlética, ela começa a se excitar ao observá-lo. Seu olhar faz com que Fred ganhe forma e vida na estória. Os detalhe do corpo de Fred são desvelado a medida que seus olhos percorrem cada curva,  cada pedaço de pele. Deste modo, Marianne tornar-se parte ativa da estória, pois parte dela as iniciativas das ações de sedução. É ela quem estimular Fred com seu olhar, é que toca o genital dele e finalmente é ela quem toma a iniciativa para a consumação do ato.

 

 

"(…) Ela se ajoelhou e rezou de novo para o estranho falo que exigia apenas admiração. lambeu-o de novo muito delicada e vibrantemente e, enviando tremores de prazer do sexo para o corpo dele, beijou-o de novo, circundando-o de novo. (…) e ela aumentou a pressão e o movimento da língua.". (NIN: 2006, 91)

 

 

Esta passagem em que os tremores de prazer iam da direção de Marianne para Fred deixa claro qual é o vetor da força-motriz deste relacionamento. Ou seja, Marianne era o pólo ativo de onde partia o furor sexual até o pólo passivo, representado por Fred.

Sobre esta passagem, em que descreve o sexo oral pelo pelos protagonistas, também se nota outra aspecto da multiplicidade que o erotismo. Se pelo instinto animalesco pela reprodução se daria através do encontro de genitais, no ser humano, outras partes do corpo também se entram no jogo sexual. No caso, a boca também é uma zona erógena, sexualizada, dentro do conto. E se considerar que a boca não se conecta ao aparelho reprodutivo, o este ato sexual deixa de visar à reprodução para procurar outros horizontes do universo humano, como a obtenção de prazer e gozo.

Essa multiplicidade que o erotismo assume é que faz com ele seja exclusiva da espécie humana. Contudo, esta multiplicidade também não contemplaria a diferença de gêneros no ser humano? Como o erotismo se configura particularmente entre homens e mulheres? Como ele é percebido a luz desta diferenças?


 

1.2 Erotismo(s) – O Homem e a Mulher

Eros é múltiplo e conforme Octávio Paz, ela varia segundo clima, sociedade e indivíduo, naturalmente se conclui que os gêneros terão experiências eróticas distintas. Segundo Francesco Alberoni, "Não existe apenas uma raiz do erotismo, mas duas. Uma mais profundamente presente nas mulheres e a outra nos homens. A primeira tende a produzir uma comunidade de vida, unida pelo amor. A segunda, ao contrário, não tem projetos, vive de projetos".

Neste caso, o erotismo feminino pode ser descrito contínuo, que surgiria como reação a saciedade do homem após o ato sexual, que levaria a um "decréscimo de interesse para com a mulher" (ALBERONI: 1987, 23), realizado por ter atingido o êxtase do orgasmo. Este comportamento é entendido psicologicamente como uma espécie de rejeição, de ser tratada apenas como corpo. Portanto, o desejo erótico feminino passa pela permanência do homem ao seu lado após o orgasmo. Consequentemente, os sentidos do tato e do olfato ganham importância: "a mulher que a presença física do seu homem, sentir suas mãos as suas mãos sobre a sua
pele, (…) sentir o seu cheiro, sentir a mistura de seus cheiros" (IDEM: 1987, 29). As mulheres vêem o erotismo como um todo: o ato sexual deve está conjugado ao amor e a ternura
[11]; a atração erótica ser atividade pela centralidade social, pelo reconhecimento social e/ou poder[12]. A fantasia erótica feminina procura a intimidade e a vida em comum (IDEM: 1987, 60) e tende se abrir com o mundo (IDEM: 1987, 67). Por isso "a sedução feminina deve renovar-se para exorcisar o descontínuo que existe no homem".

No conto Marianne, a questão da continuidade feminina no jogo erótico constitui um dos aspectos do conflito narrativo. Marianne sempre espera que Fred dê o próximo passo, que dê prosseguimento ao passo. A excitação resultante do olhar quer a conclusão da história até o coito e o conseqüente orgasmo. Assim, ela inicialmente faz a primeira insinuação ao deixar a porta entreaberta enquanto se veste, na expectativa de Fred continue a cena e a tome nos braços para o sexo. Diante da "primeira recusa" (uma vez que Fred desvia o olhar e pega um livro), Marianne muda de estratégia: em uma sessão, já sedenta de desejo, provoca-o beijando-lhe o pênis, na esperança de que se anime a ponto de consumar a cópula. Na segunda tentativa, faz sexo oral nele. Contudo, se isso foi suficiente para conseguir conquistá-lo afetivamente (a ponto de Fred ir morar com ela no estúdio), isso não representou a satisfação do desejo de Marianne. A passividade de Fred que o impedia de avançar no jogo erótico para sua completude, deixando naturalmente Marianne insatisfeita. Isso pode ser observado na seguinte passagem do conto:

 

"Fred se mudou para o estúdio. Mas, conforme Marianne esclareceu, ele não progrediu além da aceitação de suas carícias. Deitavam-se nus na cama, e Fred agia como se ela não tivesse sexo. Recebia os tributos dele freneticamente, mas Marianne era deixada com seu desejo não atendido. (…) Marianne conseguia corresponder, mas de algum modo aquilo não a satisfazia a voracidade pelo corpo dele, por seu sexo, e ela ansiava ser possuída por ele, mais completamente, ser penetrada."  (NIN: 2006, 92 – grifos meus).

 

Mas tarde, quando Marianne ler um manuscrito erótico de Fred, contando um caso de seu passado que justificaria o seu fetiche pelo exibicionismo, "sentiu que jamais superaria a passividade dele". Se sexualmente estaria fadada a incompletude[13], havia ainda a compensação do amor e a intimidade que eles desfrutavam desde o momento que passaram a morarem juntos. Isso poderia manter a continuidade da relação afetivo-sexual – uma vez que o olhar dela permanecia como a fonte exclusiva de prazer para Fred. Esta se finalizará com o emprego de Fred como modelo, uma vez que provocaria outra descontinuidade na relação, o olhar dos alunos da aula de pintura criava uma fratura na exclusividade de Marianne.

Já o erotismo masculino é centrado na descontinuidade[14], pois ele "experimenta com mais freqüência que a mulher o instante de eternidade. Este não é um intervalo temporal. É um estado particularíssimo, exterior ao tempo". (IDEM: 1987, 41). Esta descontinuidade afirma-se no homem como uma experiência mais interiorizada que a mulher. "há no homem um componente erótico muito forte que desdenha o externo e valoriza o interno" (1987, 67), o que levaria a excluir de sua vida erótica o compromisso, os deveres, a própria vida social" (1987, 60).

No homem sua excitação é mais visual – não é tato ou a audição, mas a visão que provoca o excitamento. Não é por acaso que as "revistas masculinas" possuem como característica essencial os ensaios fotográficos de mulheres nuas, conforme lembra nas duas primeiras páginas do livro. Por isso que "Aos olhos masculinos, a mulher vestida está distante, protegida. A roupa e a maquilagem têm sempre um duplo significado: de convite e de obstáculo".
(IDEM: 1987, 69). Será obstáculo porque a roupa e a maquiagem impedem como couraça defensiva a visão do corpo nu da mulher, objecto de desejo do homem. E será convite para o jogo de sedução, no qual homem tentar tirar esta couraça que recobre a mulher.

Essa descontinuidade fica clara em Fred: Não é rito do sexo como um todo que o motivo no jogo, todavia apenas o momento de ser olhado. Ser observado na sua nudez era especial, pois rememorava a sua primeira experiência erótica que tivera aos quinzes anos, quando uma vez foi surpreendido em seu quarto sendo observado pela vizinha do outro lado da rua. Conforme ele confessa no manuscrito,

 

"E ser observado por ela deu-me o mais extraordinário prazer. Eu andava (nu) por lá ou ficava na cama. Ela jamais se mexia. Repetimos essa cena todos os dias durante uma semana, mas no terceiro dia tive uma ereção.

Será que ela podia detectar minha ereção do outro lado da rua, será que ela podia me ver? Comecei a me tocar, sentindo o tempo todo o quanto ela estava atenta a cada um de meus gestos. Fui banhado por uma deliciosa excitação. De onde eu estava, podia ver a silhueta exuberante dela. Olhando direto para ela dessa vez, brinquei com meu sexo e finalmente fiquei tão excitado que gozei"  (NIN: 2006, 94).

 

Este primeiro orgasmo que Fred sentiu na citação irá influenciar sua vida erótico-amorosa. Os encontros sexuais, conforme se depreende no conto, significava para Fred esta volta a um momento de seu passado – momento este que de destaca para ser eterno no seu íntimo, a ser revivido nas outras relações eróticas. Aliás, a importância que o olhar e ser olhado exerce na sua sexualidade faz com que Fred possa ser considerado como fetichista (o que será analisado mais adiante no texto).

Ainda sobre a descontinuidade, a de se considerar que, na continuação da narrativa de Fred, ele confessa que depois da cena, ele não procurou a vizinha para um eventual encontro sexual – o que poderia esperar como a continuação desta possível sedução que aparentemente se estabeleceu entre eles. Isso reforça a opinião de Alberoni da descontinuidade masculina. Se o senso comum indicaria que o próximo passo de Fred (após a sessão de exibicionismo feita por ele) seria a consumação do ato sexual com a vizinha, o que representaria uma continuidade; o que ocorreu foi uma descontinuidade. O orgasmo que Fred sendo observado já bastou para ele vivesse o seu erotismo.

Sobre a visualidade como parte integrante do erotismo masculino, o conto demonstra uma situação não usual: É o homem quem se exibe e a mulher quem fica de voyeur. Isso inverte o senso comum, no qual a mulher nua quem se exibe para a excitação do homem[15]. Fred é quem se despe e mostra suas formas para Marianne. Mas ao se exibir, Fred reafirma o papel preponderante da visualidade no erotismo masculino, pois através da olhar (no caso, o do outro representado por Marianne) que excita e estabelece o jogo erótico para ele.

Ao observar a inversão de papeis entre Fred e Marianne (no caso, exibicionista e voyeur), há um último aspecto a ser considerado. No momento que Marianne assume o papel de observador e Fred de observado, também há uma inversão entre os pólos ativo e passivo da relação erótica. Fred, ao se exibir seu corpo nu, coloca-se como o elemento passivo, ficando Marianne como o contraponto ativo[16]. Marianne é quem toma as iniciativas, conforme foi visto nos parágrafos anteriores. É ela quem dá o primeiro passo para um toque mais íntimo entre eles (conforme pode ser vista na página 90, quando Marianne deu o primeiro beijo no pênis de Fred), é ela quem faz o sexo oral. Já Fred se mostra mais passivo, reagindo aos estímulos provocados por Marianne. A passividade de Fred é explicitamente demonstrada no seguinte trecho do conto: "Quanto mais passivo e introvertido ele (Fred) era, mais ela (Marianne) queria violência. Sonhava em forçar a vontade dele, mas como se poderia forçar a vontade de um homem?" (NIN: 2006, 89).



[1] No caso de requinte, este é mais invocado quando se compara o erotismo com pornografia, sendo esta considerada a contraparte vulgar e menos sofisticada da sexualidade, enquanto aquele seria a representação mais nobre e sofisticada.

[2] Do significado Ερως, Eros como amor (também carnal) a língua grega herdou várias expressões, como Ερωτος, Erotos, significando "Amor"; Ερωτις, Erotis, significando "amante"; Ερωτύλος, Erotulos, significando tanto "amoroso" como "erótico" e Ερωτιον, Erotion, significando "namorico" ou "passatempo amoroso".

[3] "O nome Cupido, em latim, implica a idéia de amor violento, de desejo amoroso, em grego, Imeros. Contudo, na mitologia latina, presta-se a esse deus mais ou menos a mesma origem, a mesma história que ao deus grego Eros, Amor". (COMMELIN: 1997, 71)

[4] Embora os autores sejam unânimes em atribuir a maternidade de Eros à Afrodite; a paternidade já é mais contestada. Pierre Commelin diz que "(…) segundo a maioria dos poetas" Eros "nasceu de Marte e Vênus", o que explicaria a audácia deste deus. Contudo, René Ménard afirma que "Mitologicamente, não sabemos quem é seu pai, mas os poetas e escultores concordam em lhe dar Vênus como mãe (…)".

[5] Segundo Ménard, há uma ressalva quanto a extensão deste poder: "Não obstante o seu poder, (Eros) jamais ousou atacar Minerva e sempre respeitou às Musas".

[6] "Júpiter ­­–  Vê, pequenino malandro, se não é grande mal insultar-me a ponto de fazeres com que eu me revestisse de forma de forma de sátiro, touro, cisne e águia. Não fizeste com que mulher alguma se apaixonasse de mim próprio (…)." Neste trecho de um diálogo satírico de Luciano, presente em René Ménard, Júpiter/Zeus reclama ao Cupido, citando às metamorfoses que se submeteu para conquistar algumas de suas amantes.

[7] Segundo René Ménard, "Cupido, nos tempos primitivos é considerado um dos grandes princípios do universo e até um dos mais antigo dos deuses. Representa "a força poderosa que faz com que todos os seres sejam atraídos uns pelos outros, e pela qual nascem e se perpetuam todas as raça" (MÉNARD: 1997, 01).

[8] A visão do erotismo como algo exclusivo do ser humano e além do instinto animal também é defendido por Georges Bataille, em seu livro "O Erotismo".

[9] Esta "imprecisão" do termo talvez fica mais patente quando se confronta com a definição de pornografia. Uma vez que ambos tratam da sexualidade humana transfigurada pela cultura e a separação se dar no plano da qualificação subjectiva, Alain Robbe-Grillet considera que "Pornografia é o erotismo dos outros". (ROBBE-GRILLET apud MORAES e LAPEIZ :, 199?,  109)

[10] "Uma vez, quando o esperava, (Marianne) tentou deixar a porta entreaberta enquanto se vestia, mas ele desviou o olhar e pegou um livro.

Ele era impossível de estimular, a não ser fitando-o. E àquela altura Marianne estava em um frenesi de desejo por ele. (…)" (NIN: 2006, 90).

[11] "Para a mulher, a ternura e a doçura combinam com o erotismo, inserem-se nele harmoniosamente. Para o homem isso acontece com muito menor freqüência. A mulher sente como erótica, tanto a emoção provocada pelo contato do corpo do filho, como aquela provocada pelo contato com o corpo do amante. Ás vezes, gostaria de tê-los a seu lado juntos, juntos na mesma cama. (…) Também a diferença entre amizade e amor é mais tênue na mulher. Dorothy Tennov observou que as mulheres confundem mais facilmente a enfatuação erótica e a paixão. O homem, ao contrário, tende a acentuar as diferenças, a separar as diversas emoções." (ALBERONI: 1987, 25)

[12] "O erotismo feminino é profundamente influenciado pelo sucesso, pelo reconhecimento social, pelo aplauso (…). O homem quer fazer amor com uma mulher bonita e sensual. A mulher quer fazer amor com um artista famoso, com um líder (…)" (ALBERONI: 1987, 32)

[13] Como fica provado na oração seguinte da citação acima: "Chorou um pouco, sentido-se traída como mulher" (NIN: 2006, 94)

[14] "Estamos diante de uma estrutural temporal, diversa nos dois sexos. Há uma preferência profunda do feminino para o contínuo e uma preferência profunda do masculino para o descontínuo" (grifo do autor) (ALBERONI: 1988, 24)

[15] Fato confirmado quando se observa o mercado editorial, no qual o seguimento das "revistas
masculinas" se caracteriza pela presença de ensaios de nus artísticos feminino; enquanto a contraparte, das "revistas femininas" ocorre exatamente na falta de ensaios de nus artísticos masculinos. Aliás, as revistas que realizam estes trabalhos são focadas e consumidas pelo público homossexual masculino…

[16] Normalmente as culturas ocidentais colocam o homem como elemento ativo da relação e a mulher como elemento passivo. Como exemplo disso, Há a análise de Afonso Cuatrecasas, livro "Erotismo no Império Romano", quando afirma que, durante o período republicano, "era fundamental entre as mulheres o conceito romano de que toda a relação sexual, fosse do tipo que fosse, era o homem quem fazia um benefício ao elemento passivo receptor – a esposa, outra mulher ou um escravo" (CUATRECASAS: 1997, 14). No período em que a moral era mais rígida, esta concepção do homem como pólo ativo fez com que considerado indigno no homem receber a fellatio da mulher; ao passo que a relação homossexual masculino era tolerado conquanto o homem de classe superior não fosse sodomizado por subalternos.



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