Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Vitivinicultura Literaria

Vitivinicultura Literária

Prefácio etílico de um livro bucólico


Salvador, 23 de fevereiro de 2012 /
Valença, 25 de junho de 2014.

Pelo título do livro, o prefácio deveria falar da poesia como um exercício de jardinagem da alma e/ou do estilo. Mas eu admito que a jardinagem seja algo que eu não tenho domínio suficiente para fazer a devida metáfora, fazendo com que meu texto soasse deveras artificial. Gosto (muito) de flores, mas não sei cultivá-las. Aprecio as flores como um enófilo amador que começa a beber os bons vinhos – chega perto, degusta os olores, aprecia as formas, estuda um pouquinho, mas não se atreve a entrar nos cernes mais rebuscados e técnicos da elaboração de um simples vinho tinto seco ou do cultivo de um pequeno canteiro de jasmins chineses. Desse modo, parto por um caminho por mim mais conhecido que, sem abandonar o espírito bucólico do livro, lançará melhor luz sobre alguns pontos acerca a obra.

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Pessoalmente, sempre imaginei o exercício da literatura como algo mais próximo da produção do vinho. As palavras e as frases são colhidas nos parreirais do idioma para serem macerados no tanque branco da página (ou na tela, se pensarmos nos computadores) para formar o mosto/texto. Depois, são deixadas fermentando e decantando sozinhas no texto. Convém, para um escritor profissional (ou um autor diletante mais preocupado com sua produção escrita), que periodicamente retorne aos seus textos, burile onde for preciso, e, principalmente, acompanhe essa fermentação, a fim de ver se o texto virou vinagre, se ainda precisa de mais tempo de maturação ou se simplesmente já está pronto para ser engarrafado no livro e entregue ao público.
Penso nisso porque os textos (pelo o que pude tirar de minha experiência), normalmente seguem três caminhos:
01) Alguns textos viram vinagres porque não resistiram a prova do tempo. Mesmo que, na hora da composição ele realmente emocione, no outro dia (ou na outra semana, ou ainda, meses e anos depois) eles já não dizem mais nada à alma. Mostram-se ingênuos ou vazios, ainda sejam reescritos. Aliás, não é bom mexê-lo: praticamente seria necessário escrever um novo texto, mais apurado. Não prestam para publicação e inexoravelmente o seu destino é o lixo ou o fundo esquecido de uma gaveta.
02) Outros textos ainda não envelheceram o suficientemente bem. São textos difíceis, com um forte travo do tanino e que tendem a se confundir com os textos avinagrados acima citados: não estão maduros a ponto de serem publicados. Contudo, isso não quer dizer que seja um texto para ser descartado. Ele pode ser aproveitado numa edição futura, porque é texto que nasceu póstumo. Ele ainda guarda surpresas, é um texto indomado, o qual (talvez) até precise de duas ou três emendas a fim de que possa sair redondo na página do livro. É um texto cuja leitura, por parte do escritor, precisa ser mais bem digerida antes de mandar servir aos leitores ­­- digestão essa que pode ser longa o suficiente que só faça o texto vir a lume pelas mãos de um pesquisador que, tendo acesso ao arquivo do escritor, o encontre e o publique em uma edição póstuma de obras completas ou em uma edição crítica.
03) E, last but not least, há os textos que estão prontos para serem engarrafados. Venceram a prova do tempo e a leitura ainda inebria com facilidade, não restando dúvidas ao escritor de que já se pode entregar aos seus leitores.
Asseguro esta minha tese com a produção destes meus três livros. Estrelas no Lago, Fogos de Beltane e Flores do Outono vieram a lume depois desse processo de escrever, reescrever, fundir, cortar, ler, reler, recortar, corrigir, aumentar e (auto)criticar constantemente. Periodicamente foram feitas triagens em cima de triagens, leituras em cima de leitura, como se eternos palimpsestos fossem.
Em Flores do Outono, o exemplo talvez seja mais radical. Inicialmente era um mero título ad hoc para o meu segundo caderno de poemas, que eu então escrevi ainda na adolescência, quando ainda morava em Valença. Nesta fase eu apenas coligia todos os meus escritos, dividido entre a esperança juvenil de um dia talvez publicá-los (e, quiçá, correr o risco de ser famoso) e a vontade madura de ainda escondê-los, cético quanto ao seu real valor. Mais tarde, já morando em Salvador (período em que estava cursando a universidade), tomei a coragem de reunir os meus melhores poemas para poder registrar junto a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Foi quando comecei a cristalizar certa crença de, quem sabe um dia, mandar para o prelo os primeiros meus poemas "maduros". O volume de folhas A4 encadernadas que enviei para o registro era uma amálgama de outros quatro cadernos, pastas de computador e alfarrábios que eu já tinha escrito. Aproveitei o título do segundo caderno, Flores do Outono por me parecer mais atraente e já naquela vez eu dividira em partes com nomes de flores, reunindo poemas que pudessem ter alguma identidade entre si. Outros volumes eu viria a registrar postumamente, reciclando os outros nomes ad hoc dados aos cadernos e pastas.
Quando, mais tarde, resolvi publicar o meu primeiro livro (o Estrelas no Lago), mesclei os volumes registrados. Na hora eu achei melhor dar um novo nome para este livro, mesmo que muito dele tenha a essência do Flores do Outono primitivo. Imaginei o Estrelas no Lago como um livro de estreia que servisse de teste para os meus poemas, para que, no futuro, eu publicasse o Flores do Outono como o foi inicialmente concebido – projeto que naturalmente eu abandonei logo depois.
Fato similar ocorreu com Fogos de Beltane, que foi inicialmente um volume ad hoc para participar de um concurso literário e que seguiu uma lógica parecida com ao primeiro livro (ou seja, coligindo poemas dos cadernos anteriormente organizados para formar uma segunda unidade editorial). Posteriormente se tornou no segundo volume de poesia a ser publicado por conta própria, trazendo alguns dos poemas mais recentes.
Nesse ponto eu pude ver com mais clareza esse processo da “vitivinicultura literária”: Na medida em que eu retornava a leitura, repetia-se a observação de textos avinagrados (como na sessão de poemas dedicados a minha cidade natal, nos muitos se mostraram imaturos e sem nenhuma força poética que justificar vir a lume), de textos que se mostraram prontos para serem consumidos naquele momento (ou seja, todos os que saíram neles) e de textos que ainda precisavam envelhecer mais no barril (como o “A Jangada Partiu”, que aproveitei nesse volume). Claro, admito que, nesse processo, eu sacrifiquei poemas que teriam (talvez) mais sentido se publicados dentro do título original ­­– como no caso de “Flor do Outono” e “Cântico dos Lírios”. No entanto, vários poemas posteriormente escritos (e que não estavam alocados ainda nenhum outro volume) mostraram mais afeitos ao espírito desse volume ­– como o caso de “Rosa Bianca” e “O Dom da Rosa”, como se não houvesse mais outro lugar para publicá-los. O resultado é esse volume, digamos que a versão 3.0 do meu tão acalentado e querido projeto Flores do Outono.
Cito essa história de como eu escrevi esse meu livro para ilustrar minha tese. A variação de textos entre o caderno manuscrito, as folhas encadernadas para registro na Biblioteca Nacional e o livro propriamente publicado ocorreu exatamente porque vi muitos textos se avinagrando e outros imaturos e póstumos, esperando o momento certo de ir para o prelo.
Pode parecer, aos olhos dos leigos, uma excentricidade este meu método de trabalho. Mas tenho certeza que com outros escritores um processo parecido também se desenrole.
Creio que escrever um livro é ter isso em mente: todo texto artístico precisa “fermentar”, dar-lhe o devido tempo de maturação. E dar tempo implica em estabelecer o distanciamento necessário para que o escritor possa desenvolver sua autocrítica em relação ao escrito, a fim de se perceber a sua evolução. Não basta apenas pisar e repisar nas palavras no papel para achar que o texto já está para ser engarrafado ­­­- é preciso que o tempo também aja sobre ele, que haja essa fermentação necessária para se extrair a essência de uma nova sonoridade, de uma nova sintaxe, de um novo sentido, de uma nova forma de expressão, qualquer coisa que mexa na língua e cause o famoso “estranhamento” pregado pelos formalistas russos. Como consequência dessa tese, percebe-se que a “fermentação” não servirá apenas para aparar pequenas arestas (como erros ortográficos ou para apurar as frases e os parágrafos). É através desse processo que o livro ganha sua integridade como obra de arte – que servirá de marco para a separação entre o escriba diletante e o escritor profissional candidato a figurar na história.
Ao comparar a produção do vinho com a do livro, percebo a importância do fator Tempo para o sucesso. Bons vinhos finos, assim como bons livros, não são produtos rápidos, feitos a toque de caixa. É preciso paciência na hora de produzir. Quando considero as idas e vindas para compor esse livro, vejo que não basta apenas a “chegada mágica da inspiração” (como imagina o senso comum alimentado pelo romantismo do século XIX) para se o poema garanta o seu lugar como de arte. É o posterior exercício crítico de leitura e releitura que testa a permanência da fruição estética do mesmo e se percebe os pontos fracos. É na leitura “fria” (que eu comparo ao momento de “decantação” do vinho) que se podem filtrar as falhas do texto e assim emenda-lo – isso quando o texto se mostra realmente promissor, não “azedou” a ponto de virar “vinagre”. E no caso da composição de um livro de poema, é nessa hora que realmente se percebe quando o texto está bom. E mais tarde, será o mesmo fator Tempo que dirá sobre o sucesso do livro depois de pronto. Da mesma forma que muitos vinhos ainda amadurecem dentro a garrafa, os textos amadurecem do livro. E só o tempo dirá quando um livro atingirá sua maturidade, qual será a duração de seu auge, e/ou quando ele “passará do ponto” e deixará de ser relevante – mutatis mutandis, similar ao que acontece com as safras das uvas viníferas.

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Eu organizei o presente volume como uma rede de pequenos mosaicos unidos por uma linha mestra. No meu primeiro livro, Estrelas no Lago, esse procedimento estava presente em forma embrionária. Os poemas se articulam entre si formando tênues sequências sem divisões aparentes (como no caso dos poemas eróticos e dos poemas de amor). Contudo, como o volume foi concebido como um trabalho de estreia, a linha mestra acabou se limitando na seleção do que julguei serem meus melhores trabalhos escritos até o momento. Já para o presente volume, não só deliberadamente dividi as sessões como procurei explorar um leitmotiv especialmente caro para mim: flores. Selecionei de meus parreirais as uvas que julguem mais apropriadas, levando-me a reservar os poemas com mais referência a campo semântico da noite e das estrelas para o meu próximo volume, Sombras do Luar. Quanto à divisão do mosaico, optei estabelecer a seguinte seleção:
a) Em [Jasmins], coloquei os poemas os quais, de certa forma, eu dialogo com a minha contemporaneidade, numa poética crítica da vida atual, fruto da minha ideologia. Evitando cair na tentação de compor poemas doutrinários ao velho estilo da estética engajada de matriz esquerdista, procurei reunir minhas reflexões inconformistas sobre a realidade, fustigando nas entrelinhas o que julgo ser a mediocridade de vida atual.
b) Em [Cravos], apresento um caleidoscópio lírico. Aqui não estabeleci uma unidade temática (como nas demais divisões), mas tento estabelecer um diálogo particular com e sobre as possibilidades expressivas da poesia.
c) Em [Margaridas] estão reunidos os poemas mais picantes. Ainda que certa carga erótica seja constante na maioria de meus poemas, os que particularmente compõem esta divisão são aqueles que eu deliberadamente carreguei a mão no tempero do desejo e da sexualidade. É o meu exercício particular de entrar no território pedregoso da sensualidade e extrair/traduzir os encantos desse paraíso temático que é ainda (hipocritamente) preso ao lodo do tabu.
d) Apresentando o outro lado da moeda, na sessão [Rosas] estão os poemas em que volto ao velho tema do Amor. Só que aqui eu trabalho o amor na sua totalidade: o que ficou na lembrança, o que ainda vive, o que é alegria e o que também já foi perdição, tristeza e tormento.
e) Saindo do sentimento do amor, [Tulipas] segue com meus poemas do delírio, da embriaguez das sensações. Embriaguez pela música, pelo vinho, pela poesia, pelas cores e pela expressão própria das palavras.
f) Para encerrar o livro, [Edelweiss] reuni meus poemas escritos em espanhol e inglês. Na verdade, apresento uma prévia do outro livro meu (até agora parcialmente inédito) chamado Peregrino en una Noche sin Luna, onde apresento meus exercícios líricos em língua estrangeira, sendo que algumas são as minhas traduções de outros poemas que eu já escrevera anteriormente.

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Enfim, é isso aí. Espero que essas palavras iniciais ajudem na compreensão da obra. No fundo, apenas queria dizer que apreciem os meus poemas desse meu novo livro, com a esperança de que os poemas contidos nele, não alcançando a altura de um Tokaji húngaro, um Viño Verde galego, um Valpolicella italiano ou de um Reisling alsaciano, ao menos não tenham virado vinagre. Que seja um vinho de mesa encantador e de bom terroir que agrade as papilas estéticas do leitor.
Tim-Tim! ¡salud!

Ricardo Vidal

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