Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Passeio por uma Praia Virgem

Passeio por uma Praia Virgem

Prefácio para o livro "Letras com Cacau, Cravo e Dendê: Dicionário Panorâmico da Literatura Valenciana"


Valença, 14 de janeiro de 2014

Se um historiador do futuro tiver que escolher cinco fatos significativos da história de Valença acontecidos nos primeiros anos do século XXI, o surto de produção literária que aconteceu a partir da publicação da antologia Valenciando neces-sariamente deverá ser citado. Em um feito raro para as demais cidades interioranas do estado da Bahia (até mesmo para grandes centros como Feira de Santana, Itabuna e Vitória da Conquista, com longa tradição universitária), pois os autores nascidos e/ou residentes na cidade de Valença nesse período publicaram 27 volumes no período de 14 anos, o que coloca aproximadamente a um livro novo a cada semestre, percorrendo diversos gêneros, como ensaios, crônicas, romances, poemas, memórias e historiografia.
Em um primeiro momento, existe a tentação de analisar essa Supernova Literária1 como consequência direta dos avanços tecnológicos (como a microinformática e internet) e do reordenamento das políticas públicas de cultura que ocorreu no período em que Gilberto Gil / Juca Ferreira capitanearam o Ministério da Cultura. Tal situação poderia dar uma primeira (e errônea) impressão de que a literatura valenciana é um fenômeno recente. Contudo, numa análise mais acurada, o que fica evidente é que essa produção literária é muito anterior. Por exemplo, há a figura do Conselheiro Zacarias. Mais conhecido pela sua figura de político e estadista do meado do século XIX, Zacarias iria se notabilizar-se nas letras pelos seus discursos e escritos políticos, com destaque ao seu tratado Da Natureza e Limites do Poder Moderador – obra capital para entender o pensamento dos setores liberais durante o II reinado. E assim como ele, somam-se as figuras de outros escritores importantes como Fábio Luz, José Malta, Newton Libertador, Pedro M. da Silva, Elmano Amorim, Galvão de Queiroz e Admar Braga Guimarães.
Ao mirar com mais calma e atenção para a riqueza da literatura valenciana (tanto presente quanto passada), somos levados a crer que existe um grande “território inexplorado”, cujas jazidas ocultas esperam o momento de serem garimpadas. Para os estudantes de direito, interessam conhecer as discussões sobre ordenamento constitucional apresentado tantos pelo Conselheiro Zacarias como por Admar Braga. No campo da historiografia, Augusto Moutinho e Edgar Oliveira oferecem textos lapidares sobre a história regional que esclarecem alguns pontos da história nacional (como no caso do afundamento de navios brasileiros pelo submarino alemão U-507 e o momento exato em que Brasil entrará na Segunda Guerra Mundial). Na área da escrita feminina, Celeste Martinez e Rosângela Góes escrevem poemas saborosos sobre a condição feminina, abrindo outras searas para os estudos feministas. E na poesia, se por um lado Mustafá Rosemberg, claramente formado no espírito de Olavo Bilac, é um epígono do parnasianismo em que traz um doce erotismo lapidado no melhor uso lírico do vernáculo da última flor do Lácio, por outro, Adriano Pereira abre-se para uma contraposição pós-moderna, ao incursionar na desconstrução morfolexicológica das palavras, cujas brincadeiras gráficas levam a ter três ou quatro versos sobrepostos numa única linha labiríntica de signos – clara dialética que traduz muito da alma baiana, sobreposição de rupturas e tradições. Isso, sem deixar de lado o realismo fantástico na prosa de Araken Vaz Galvão, abrindo este uma ponte a integrar o litoral oriental brasileiro com o melhor da tradição literária hispano-americana. Isso, claro, para não citar os vários poetas e cronistas que jazem esquecidos nos antigos jornais – como são José Malta, Elmano Amorim e Newton Libertador (para ficar nos exemplos mais flagrantes).
Diante dessa profusão de autores, urge que se comece a ter análises críticas que se volte para essa produção e abram possíveis trilhas de leitura. Num país cujas políticas públicas eram marcadas pela tradição da ausência do estado (conforme observa Albino Rubim2), não basta apenas produzir a literatura, como também se debruçar sobre ela e estudá-la, ter pesquisas acadêmicas e estudos sistêmicos – até como forma que dessas obras não venham a cair no esquecimento.
É lugar comum entender a importância da cultura na formação da identidade de um povo. Infelizmente, o município de Valença mostra-se carente de uma reflexão mais aprofundada de sua cultura regional – mesmo considerando que atualmente ela é uma cidade universitária (contando inclusive com cursos superiores de Letras).
Diante desse contexto é que surge esse volume, como primeira tentativa de se sistematizar a literatura valenciana.
O livro foi concebido exatamente para ser um pequeno guia de referência da literatura valenciana, apontando autores, instituições e fatos literários expressivos. Declaradamente visa preservar a memoria do que se tem até agora produzido, a fim de que futuramente sirva de subsídios para estudos críticos mais aprofundados.
Deste modo, o livro foi organizado em duas partes: a primeira, introdutória, foi feito um perfil geográfico, histórico e cultural do município. Procura-se contextualizar para o leitor em quais condições é produzida essa literatura e em quais bases residem suas especificidades. Na segunda, há os verbetes propriamente ditos literatura. Para tanto foram usados os seguintes critérios na hora da organização:

a)      Autores: Optou-se por inserir em verbetes aqueles que tenham publicados pelo menos um livro ou que tenham participado de pelo menos duas obras coletivas, ou uma obra coletiva e colabore constante na imprensa. Assim, privilegiam-se os escritores que tenham uma obra mais densa, melhor delimitando os nomes realmente relevantes.
b)      Livros, Eventos e Fenômenos: Além de um verbete específico sobre as antologias já publicadas, há verbetes para obras, fenômenos e eventos que por si apresentam relevância dentro da história literária valenciana, seja (por exemplo) um evento cristaliza um grupo de escritores ou livros que colocam como marcos na historiografia literária.
c)      Instituições: São citadas as principais instituições que, de alguma forma, fomentam e promovem a literatura regional.

Diante a pretensão que obra se arvora, considera-se, entretanto, reconhecer que essa obra não se apresenta fechada e detentora do julgamento final. Conforme foi dito anteriormente, a literatura valenciana ainda é um território inexplorado. Mesmo que esse livro se apresente após uma longa pesquisa e reflexão sobre os autores da região, há a possibilidade de que ocorram omissões indesculpáveis ou escolhas passíveis de contestações. No caso, só resta ao autor ouvir serenamente as críticas construtivas e fazer as devidas emendas nas próximas edições.
Em suma, espera-se que o cacau, o cravo e o dendê presente na escrita desses autores e autoras encantem o leitor.
A todos, um bom passeio por essa praia ainda virgem!

Ricardo Vidal

Notas
1. Período iniciado em 2005, com a publicação de antologia Valenciando: antologia de escritores de Valença e que vai se caracteriza pela grande quantidade e diversidade de títulos recentemente publicados em Valença. Para mais detalhes, ver o verbete homônimo na página XX.

2. Ver As políticas culturais e o governo Lula. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo: 2001 (Brasil em debate; vol. 5)

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Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)