Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor, autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Graduado em Letras/Inglês pela UNEB Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

trechos da monografia O olhar de Marianne

INTRODUÇÃO: UM OLHAR SOBRE O CONTO DE ANAÏS NIN

 

Anaïs Nin foi uma escritora franco-americana de ascendência hispano-dinamarquesa, nascida em Paris em 21 de fevereiro de1903 e que alternou sua vida adulta entre Europa e América até se estabelecer definitivamente nos EUA na segunda metade do século XX – vindo a falecer em Los Angeles em 14 de janeiro de 1977. Casou-se com Hugh Parker Guiler em março de 1923. Contudo, sua vida sentimental foi muito movimentada, ficando famoso seu caso amoroso com Henry Miller e a esposa dele June, cujo affair ficou registrado pela própria Anaïs Nin no seu livro "Henry & June". Também foi amante de Otto Rank, seu psicanalista e conviveu com intelectuais como Rebecca West, Thurema Sokol, Paul Eluárd, André Breton e D. H. Lawrence.

Sua obra se compõe de diários que ela começou a escrever desde os 11 anos de idade, romances, contos e ensaios. Dentre seus escritos, destacam-se "Uma Espiã na Casa do Amor" (romance), "Casa do Incesto" (poema em prosa), "Henry e June" (diário não-expurgado que abrange os períodos de outubro de 1931 a outubro de 1932), "Delta de Vênus" e "Pequenos Pássaros" (ambos, coletâneas de contos eróticos) – todos eles produzidos em língua inglesa. Neles, se observam a influência da literatura de Djurna Barnes e David Herbert Lawrence, do Surrealismo e da Psicanálise freudiana.

Um dos aspectos que marcou a literatura de Anaïs Nin é o erotismo, presente tanto na ficção como nos seus diários.  Dentre as suas obras de ficção, destacam-se os livros "Delta de Vênus" e "Pequenos Pássaros", escritos por Anaïs Nin por encomenda de um anônimo que exigiu desta autora de outros escritores, textos focalizados na temática erótica.

Dentre estes textos, encontra-se o conto "Marianne", cuja protagonista é uma jovem pintora que complementa sua renda datilografando contos eróticos escritos por Anais Nin e outros. Marianne se envolve eroticamente com um homem tímido que obtém o prazer através do exibicionismo. Na relação, o empenho em observar e ser observado se constitui como um jogo erótico, no qual o olhar feminino se configura como elemento ativo dirigindo o foco da história. Ora, ao deslocar da área genital para o olhar como centro do jogo, os eles (o par romântico do conto) vivem uma relação fetichista, no sentindo freudiana da palavra.

Assim, pretende-se analisar o olhar como fetiche no conto "Marianne" e a questão do olhar e sua relação erótica – no caso, expresso pelo "voyeurismo" e "exibicionismo".  Partindo desta base teórica será analisado o conto "Marianne", especialmente o exibicionismo e a timidez de Fred, como se estabelece o voyeurismo de Marianne e como é expresso o erotismo na óptica feminina.

 


 

CAPÍTULO I: EROS UMA VEZ… OU DUAS, TALVEZ

 

1.1 O nome de Eros

 

"O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora"

Octávio Paz

 

O senso comum remete a idéia de erotismo às noções de sexo, da sensualidade, do amor, do desejo, e do requinte[1]. E quase sempre em uma relação tensa com a pornografia (onde termina uma para começar a outra?). Mas o que é erotismo? Etimologicamente, Eros vem da raiz grega Ερως[2] e significa amor (que, por sua vez, é raiz da palavra grega Ιμερος, Imeros, que significa paixão, desejo).

Na mitologia greco-romana, o que os gregos chamavam de Eros[3] (e que os romanos sincretizaram como Cupido) era a personificação do Amor – mais precisamente do amor sensual, ligado ao instinto da reprodução da vida. Ou como define Lúcia Castello-Branco, "(…) Eros é o deus do amor, que aproxima, mescla, une, multiplica e varia as espécies vivas". Na versão mais popularizada do mito, Eros é representado como um menino alado e travesso (cuja idade variava entre a infância e a adolescência), filho de Afrodite/Vênus[4] (deusa do amor, da beleza e dos prazeres) e que vive a acertar os corações humanos e divinos com flechas incendiárias que despertavam paixões nos atingidos. É um deus jovial, ousado, audaz e maroto que consegue exercer seu poder (inflamar o amor no coração) desde os seres humanos até os próprios deuses — não hesitando, inclusive, de flechar sua mãe e o próprio Zeus[5],[6]. Outra versão, mais primitiva do mito, já o associa à Criação do universo, na geração anterior aos Titãs. Eros, neste caso, seria a força que teria ajudado a criar o Universo a partir do Caos (O ovo cósmico)[7].

A partir do mito greco-romano, podem-se depreender dois aspectos que estarão presente na discussão sobre erotismo: Um, derivado do mito primevo, é a relação de criação dos seres, a força reprodutiva; Outro (de certa forma, reforçando o primeiro aspecto), de que o amor também é carnal, é sexo, é sensualidade. Mas esta relação com o sexo, no caso dos seres humanos, vai além da função biológica de reprodução.

No seu livro "A dupla chama: amor e erotismo", Octávio Paz considera que o erotismo "é exclusivamente humano: é a sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e vontade dos homens." (PAZ: 1994, 16). Deste modo, o sexo entre seres humanos também ganha a dimensão do prazer, da representação, da subversão e dos sentimentos (principalmente amor). Desviando da função reprodutiva 'prescrita' pela natureza (ou Deus, segundo a Teologia), a sexualidade passa a ser, no erotismo, um terreno onde a imaginação humana reina. Por isso que Octávio Paz aponta para a multiplicidade do erotismo, a dizer que o mesmo "varia de acordo com o clima e a geografia, com a sociedade e a história, com o indivíduo e o temperamento". Ao contrário dos animais, que fazer sexo da mesma forma, o ser humano vive sua sexualidade de várias formas, executando em várias posições a união sexual e experimentando novas visões para o ato[8]. Diante desta multiplicidade do fenômeno erótico ganha que alguns teóricos sentem dificuldade em definir precisamente o erotismo[9]. Contudo, sendo múltiplo na expressão, ele se conserva como um fenômeno único da espécie humana.

A literatura erótica (como um todo), como um todo, exemplifica esta multiplicidade e humanidade do fenômeno erótico, ao mostrar através da arte literária as várias formas de se viver o sexo na espécie humana. No caso particular do conto "Marianne" de Anaïs Nin, isso é patente, tanto no fato de que a relação afetivo-sexual dos personagens Marianne e Fred é focada mais no ato de observar e ser observado do que o coito vaginal propriamente dita (aliás, no texto não diz claramente a penetração chega a ser consumada entre ambos), como no
fato de que a mesma não visava seguir o instinto natural de reprodução, e sim no gozo
erótico-amoroso.

No caso de Fred, seu prazer sexual não estava centralizado no coito, mas na exibição do seu corpo nu a uma parceira. E para isso, prescindia de todo um ritual, conforme é descrito no conto. Na primeira sessão em que Fred posa para que Marianne possa fazer os estudos para a pintura de seu retrato, ele se despe no meio do estúdio, na frente dela.

 

Ele estava se despindo de maneira espantosamente calculada, como se fosse uma ocupação seleta, um ritual. Em um dado momento, me olhou bem dentro dos olhos e sorriu, mostrando os belos dentes alinhados, e sua pele era tão delicada que capturava a luz que se derramava pela janela e a conservava como um tecido de cetim.

(…) Ele havia tirado o casaco, a camisa, os sapatos, as meias. Só restavam as calças. Ele as segurou como uma stripteaser segura as dobras de seu vestido, ainda me olhando. Eu ainda não conseguia entender o vislumbre de prazer que animava seu rosto.

Então ele se inclinou, abriu o cinto, e as calças escorregaram. Ficou completamente nu diante de mim e no mais óbvio estado de excitação sexual. (…).  (NIN: 2006, 87-88)

 

Apesar das dúvidas iniciais de Marianne, de que ele pudesse "extravasar a excitação em cima", Fred se limitou a ficar "petrificado e contente". Ao final da sessão, ele se vestiu calmamente para beijar educadamente a mão de Marianne e marcar a próxima sessão, em que se repetiu o ritual.

Anaïs Nin deixa claro neste conto que a passividade de Fred em ser observado quando, um pouco adiante mostrar que Marianne percebeu que ele era "daquele tipo interessado apenas em que eu olhe para ele" (NIN: 2006, 89. grifo da autora). E no desenrolar da estória, nunca cabe a ele a iniciativa. Fred não reage à primeira insinuação de Marianne[10] e o ato sexual só se consuma quando ele, fazendo a pose atlética para a pintura, Marianne efetivamente se entrega ao desejo e faz sexo oral nele. Não deixar de ser notável que ao final do conto, o emprego que Fred arruma (e causa a separação de Marianne) é de modelo em uma aula de pintura no qual Marianne era monitora.

Se Fred se excita em ser observado, Marianne ocorre o inverso. Ela é caracterizada no conto como uma pintora que suplementava seus rendimentos datilografando à noite os contos eróticos de Anaïs Nin e de outros escritores. Desde já ela aparece como um voyeur privilegiado na história, seja como pintora (o que, por dever de ofício, precisava ter um olhar mais apurado), seja como datilógrafa, (no qual tinha acesso à fantasia erótica dos outros). Ao ser contratada por Fred para pintar um retrato dele, nu, em pose atlética, ela começa a se excitar ao observá-lo. Seu olhar faz com que Fred ganhe forma e vida na estória. Os detalhe do corpo de Fred são desvelado a medida que seus olhos percorrem cada curva,  cada pedaço de pele. Deste modo, Marianne tornar-se parte ativa da estória, pois parte dela as iniciativas das ações de sedução. É ela quem estimular Fred com seu olhar, é que toca o genital dele e finalmente é ela quem toma a iniciativa para a consumação do ato.

 

 

"(…) Ela se ajoelhou e rezou de novo para o estranho falo que exigia apenas admiração. lambeu-o de novo muito delicada e vibrantemente e, enviando tremores de prazer do sexo para o corpo dele, beijou-o de novo, circundando-o de novo. (…) e ela aumentou a pressão e o movimento da língua.". (NIN: 2006, 91)

 

 

Esta passagem em que os tremores de prazer iam da direção de Marianne para Fred deixa claro qual é o vetor da força-motriz deste relacionamento. Ou seja, Marianne era o pólo ativo de onde partia o furor sexual até o pólo passivo, representado por Fred.

Sobre esta passagem, em que descreve o sexo oral pelo pelos protagonistas, também se nota outra aspecto da multiplicidade que o erotismo. Se pelo instinto animalesco pela reprodução se daria através do encontro de genitais, no ser humano, outras partes do corpo também se entram no jogo sexual. No caso, a boca também é uma zona erógena, sexualizada, dentro do conto. E se considerar que a boca não se conecta ao aparelho reprodutivo, o este ato sexual deixa de visar à reprodução para procurar outros horizontes do universo humano, como a obtenção de prazer e gozo.

Essa multiplicidade que o erotismo assume é que faz com ele seja exclusiva da espécie humana. Contudo, esta multiplicidade também não contemplaria a diferença de gêneros no ser humano? Como o erotismo se configura particularmente entre homens e mulheres? Como ele é percebido a luz desta diferenças?


 

1.2 Erotismo(s) – O Homem e a Mulher

Eros é múltiplo e conforme Octávio Paz, ela varia segundo clima, sociedade e indivíduo, naturalmente se conclui que os gêneros terão experiências eróticas distintas. Segundo Francesco Alberoni, "Não existe apenas uma raiz do erotismo, mas duas. Uma mais profundamente presente nas mulheres e a outra nos homens. A primeira tende a produzir uma comunidade de vida, unida pelo amor. A segunda, ao contrário, não tem projetos, vive de projetos".

Neste caso, o erotismo feminino pode ser descrito contínuo, que surgiria como reação a saciedade do homem após o ato sexual, que levaria a um "decréscimo de interesse para com a mulher" (ALBERONI: 1987, 23), realizado por ter atingido o êxtase do orgasmo. Este comportamento é entendido psicologicamente como uma espécie de rejeição, de ser tratada apenas como corpo. Portanto, o desejo erótico feminino passa pela permanência do homem ao seu lado após o orgasmo. Consequentemente, os sentidos do tato e do olfato ganham importância: "a mulher que a presença física do seu homem, sentir suas mãos as suas mãos sobre a sua
pele, (…) sentir o seu cheiro, sentir a mistura de seus cheiros" (IDEM: 1987, 29). As mulheres vêem o erotismo como um todo: o ato sexual deve está conjugado ao amor e a ternura
[11]; a atração erótica ser atividade pela centralidade social, pelo reconhecimento social e/ou poder[12]. A fantasia erótica feminina procura a intimidade e a vida em comum (IDEM: 1987, 60) e tende se abrir com o mundo (IDEM: 1987, 67). Por isso "a sedução feminina deve renovar-se para exorcisar o descontínuo que existe no homem".

No conto Marianne, a questão da continuidade feminina no jogo erótico constitui um dos aspectos do conflito narrativo. Marianne sempre espera que Fred dê o próximo passo, que dê prosseguimento ao passo. A excitação resultante do olhar quer a conclusão da história até o coito e o conseqüente orgasmo. Assim, ela inicialmente faz a primeira insinuação ao deixar a porta entreaberta enquanto se veste, na expectativa de Fred continue a cena e a tome nos braços para o sexo. Diante da "primeira recusa" (uma vez que Fred desvia o olhar e pega um livro), Marianne muda de estratégia: em uma sessão, já sedenta de desejo, provoca-o beijando-lhe o pênis, na esperança de que se anime a ponto de consumar a cópula. Na segunda tentativa, faz sexo oral nele. Contudo, se isso foi suficiente para conseguir conquistá-lo afetivamente (a ponto de Fred ir morar com ela no estúdio), isso não representou a satisfação do desejo de Marianne. A passividade de Fred que o impedia de avançar no jogo erótico para sua completude, deixando naturalmente Marianne insatisfeita. Isso pode ser observado na seguinte passagem do conto:

 

"Fred se mudou para o estúdio. Mas, conforme Marianne esclareceu, ele não progrediu além da aceitação de suas carícias. Deitavam-se nus na cama, e Fred agia como se ela não tivesse sexo. Recebia os tributos dele freneticamente, mas Marianne era deixada com seu desejo não atendido. (…) Marianne conseguia corresponder, mas de algum modo aquilo não a satisfazia a voracidade pelo corpo dele, por seu sexo, e ela ansiava ser possuída por ele, mais completamente, ser penetrada."  (NIN: 2006, 92 – grifos meus).

 

Mas tarde, quando Marianne ler um manuscrito erótico de Fred, contando um caso de seu passado que justificaria o seu fetiche pelo exibicionismo, "sentiu que jamais superaria a passividade dele". Se sexualmente estaria fadada a incompletude[13], havia ainda a compensação do amor e a intimidade que eles desfrutavam desde o momento que passaram a morarem juntos. Isso poderia manter a continuidade da relação afetivo-sexual – uma vez que o olhar dela permanecia como a fonte exclusiva de prazer para Fred. Esta se finalizará com o emprego de Fred como modelo, uma vez que provocaria outra descontinuidade na relação, o olhar dos alunos da aula de pintura criava uma fratura na exclusividade de Marianne.

Já o erotismo masculino é centrado na descontinuidade[14], pois ele "experimenta com mais freqüência que a mulher o instante de eternidade. Este não é um intervalo temporal. É um estado particularíssimo, exterior ao tempo". (IDEM: 1987, 41). Esta descontinuidade afirma-se no homem como uma experiência mais interiorizada que a mulher. "há no homem um componente erótico muito forte que desdenha o externo e valoriza o interno" (1987, 67), o que levaria a excluir de sua vida erótica o compromisso, os deveres, a própria vida social" (1987, 60).

No homem sua excitação é mais visual – não é tato ou a audição, mas a visão que provoca o excitamento. Não é por acaso que as "revistas masculinas" possuem como característica essencial os ensaios fotográficos de mulheres nuas, conforme lembra nas duas primeiras páginas do livro. Por isso que "Aos olhos masculinos, a mulher vestida está distante, protegida. A roupa e a maquilagem têm sempre um duplo significado: de convite e de obstáculo".
(IDEM: 1987, 69). Será obstáculo porque a roupa e a maquiagem impedem como couraça defensiva a visão do corpo nu da mulher, objecto de desejo do homem. E será convite para o jogo de sedução, no qual homem tentar tirar esta couraça que recobre a mulher.

Essa descontinuidade fica clara em Fred: Não é rito do sexo como um todo que o motivo no jogo, todavia apenas o momento de ser olhado. Ser observado na sua nudez era especial, pois rememorava a sua primeira experiência erótica que tivera aos quinzes anos, quando uma vez foi surpreendido em seu quarto sendo observado pela vizinha do outro lado da rua. Conforme ele confessa no manuscrito,

 

"E ser observado por ela deu-me o mais extraordinário prazer. Eu andava (nu) por lá ou ficava na cama. Ela jamais se mexia. Repetimos essa cena todos os dias durante uma semana, mas no terceiro dia tive uma ereção.

Será que ela podia detectar minha ereção do outro lado da rua, será que ela podia me ver? Comecei a me tocar, sentindo o tempo todo o quanto ela estava atenta a cada um de meus gestos. Fui banhado por uma deliciosa excitação. De onde eu estava, podia ver a silhueta exuberante dela. Olhando direto para ela dessa vez, brinquei com meu sexo e finalmente fiquei tão excitado que gozei"  (NIN: 2006, 94).

 

Este primeiro orgasmo que Fred sentiu na citação irá influenciar sua vida erótico-amorosa. Os encontros sexuais, conforme se depreende no conto, significava para Fred esta volta a um momento de seu passado – momento este que de destaca para ser eterno no seu íntimo, a ser revivido nas outras relações eróticas. Aliás, a importância que o olhar e ser olhado exerce na sua sexualidade faz com que Fred possa ser considerado como fetichista (o que será analisado mais adiante no texto).

Ainda sobre a descontinuidade, a de se considerar que, na continuação da narrativa de Fred, ele confessa que depois da cena, ele não procurou a vizinha para um eventual encontro sexual – o que poderia esperar como a continuação desta possível sedução que aparentemente se estabeleceu entre eles. Isso reforça a opinião de Alberoni da descontinuidade masculina. Se o senso comum indicaria que o próximo passo de Fred (após a sessão de exibicionismo feita por ele) seria a consumação do ato sexual com a vizinha, o que representaria uma continuidade; o que ocorreu foi uma descontinuidade. O orgasmo que Fred sendo observado já bastou para ele vivesse o seu erotismo.

Sobre a visualidade como parte integrante do erotismo masculino, o conto demonstra uma situação não usual: É o homem quem se exibe e a mulher quem fica de voyeur. Isso inverte o senso comum, no qual a mulher nua quem se exibe para a excitação do homem[15]. Fred é quem se despe e mostra suas formas para Marianne. Mas ao se exibir, Fred reafirma o papel preponderante da visualidade no erotismo masculino, pois através da olhar (no caso, o do outro representado por Marianne) que excita e estabelece o jogo erótico para ele.

Ao observar a inversão de papeis entre Fred e Marianne (no caso, exibicionista e voyeur), há um último aspecto a ser considerado. No momento que Marianne assume o papel de observador e Fred de observado, também há uma inversão entre os pólos ativo e passivo da relação erótica. Fred, ao se exibir seu corpo nu, coloca-se como o elemento passivo, ficando Marianne como o contraponto ativo[16]. Marianne é quem toma as iniciativas, conforme foi visto nos parágrafos anteriores. É ela quem dá o primeiro passo para um toque mais íntimo entre eles (conforme pode ser vista na página 90, quando Marianne deu o primeiro beijo no pênis de Fred), é ela quem faz o sexo oral. Já Fred se mostra mais passivo, reagindo aos estímulos provocados por Marianne. A passividade de Fred é explicitamente demonstrada no seguinte trecho do conto: "Quanto mais passivo e introvertido ele (Fred) era, mais ela (Marianne) queria violência. Sonhava em forçar a vontade dele, mas como se poderia forçar a vontade de um homem?" (NIN: 2006, 89).



[1] No caso de requinte, este é mais invocado quando se compara o erotismo com pornografia, sendo esta considerada a contraparte vulgar e menos sofisticada da sexualidade, enquanto aquele seria a representação mais nobre e sofisticada.

[2] Do significado Ερως, Eros como amor (também carnal) a língua grega herdou várias expressões, como Ερωτος, Erotos, significando "Amor"; Ερωτις, Erotis, significando "amante"; Ερωτύλος, Erotulos, significando tanto "amoroso" como "erótico" e Ερωτιον, Erotion, significando "namorico" ou "passatempo amoroso".

[3] "O nome Cupido, em latim, implica a idéia de amor violento, de desejo amoroso, em grego, Imeros. Contudo, na mitologia latina, presta-se a esse deus mais ou menos a mesma origem, a mesma história que ao deus grego Eros, Amor". (COMMELIN: 1997, 71)

[4] Embora os autores sejam unânimes em atribuir a maternidade de Eros à Afrodite; a paternidade já é mais contestada. Pierre Commelin diz que "(…) segundo a maioria dos poetas" Eros "nasceu de Marte e Vênus", o que explicaria a audácia deste deus. Contudo, René Ménard afirma que "Mitologicamente, não sabemos quem é seu pai, mas os poetas e escultores concordam em lhe dar Vênus como mãe (…)".

[5] Segundo Ménard, há uma ressalva quanto a extensão deste poder: "Não obstante o seu poder, (Eros) jamais ousou atacar Minerva e sempre respeitou às Musas".

[6] "Júpiter ­­–  Vê, pequenino malandro, se não é grande mal insultar-me a ponto de fazeres com que eu me revestisse de forma de forma de sátiro, touro, cisne e águia. Não fizeste com que mulher alguma se apaixonasse de mim próprio (…)." Neste trecho de um diálogo satírico de Luciano, presente em René Ménard, Júpiter/Zeus reclama ao Cupido, citando às metamorfoses que se submeteu para conquistar algumas de suas amantes.

[7] Segundo René Ménard, "Cupido, nos tempos primitivos é considerado um dos grandes princípios do universo e até um dos mais antigo dos deuses. Representa "a força poderosa que faz com que todos os seres sejam atraídos uns pelos outros, e pela qual nascem e se perpetuam todas as raça" (MÉNARD: 1997, 01).

[8] A visão do erotismo como algo exclusivo do ser humano e além do instinto animal também é defendido por Georges Bataille, em seu livro "O Erotismo".

[9] Esta "imprecisão" do termo talvez fica mais patente quando se confronta com a definição de pornografia. Uma vez que ambos tratam da sexualidade humana transfigurada pela cultura e a separação se dar no plano da qualificação subjectiva, Alain Robbe-Grillet considera que "Pornografia é o erotismo dos outros". (ROBBE-GRILLET apud MORAES e LAPEIZ :, 199?,  109)

[10] "Uma vez, quando o esperava, (Marianne) tentou deixar a porta entreaberta enquanto se vestia, mas ele desviou o olhar e pegou um livro.

Ele era impossível de estimular, a não ser fitando-o. E àquela altura Marianne estava em um frenesi de desejo por ele. (…)" (NIN: 2006, 90).

[11] "Para a mulher, a ternura e a doçura combinam com o erotismo, inserem-se nele harmoniosamente. Para o homem isso acontece com muito menor freqüência. A mulher sente como erótica, tanto a emoção provocada pelo contato do corpo do filho, como aquela provocada pelo contato com o corpo do amante. Ás vezes, gostaria de tê-los a seu lado juntos, juntos na mesma cama. (…) Também a diferença entre amizade e amor é mais tênue na mulher. Dorothy Tennov observou que as mulheres confundem mais facilmente a enfatuação erótica e a paixão. O homem, ao contrário, tende a acentuar as diferenças, a separar as diversas emoções." (ALBERONI: 1987, 25)

[12] "O erotismo feminino é profundamente influenciado pelo sucesso, pelo reconhecimento social, pelo aplauso (…). O homem quer fazer amor com uma mulher bonita e sensual. A mulher quer fazer amor com um artista famoso, com um líder (…)" (ALBERONI: 1987, 32)

[13] Como fica provado na oração seguinte da citação acima: "Chorou um pouco, sentido-se traída como mulher" (NIN: 2006, 94)

[14] "Estamos diante de uma estrutural temporal, diversa nos dois sexos. Há uma preferência profunda do feminino para o contínuo e uma preferência profunda do masculino para o descontínuo" (grifo do autor) (ALBERONI: 1988, 24)

[15] Fato confirmado quando se observa o mercado editorial, no qual o seguimento das "revistas
masculinas" se caracteriza pela presença de ensaios de nus artísticos feminino; enquanto a contraparte, das "revistas femininas" ocorre exatamente na falta de ensaios de nus artísticos masculinos. Aliás, as revistas que realizam estes trabalhos são focadas e consumidas pelo público homossexual masculino…

[16] Normalmente as culturas ocidentais colocam o homem como elemento ativo da relação e a mulher como elemento passivo. Como exemplo disso, Há a análise de Afonso Cuatrecasas, livro "Erotismo no Império Romano", quando afirma que, durante o período republicano, "era fundamental entre as mulheres o conceito romano de que toda a relação sexual, fosse do tipo que fosse, era o homem quem fazia um benefício ao elemento passivo receptor – a esposa, outra mulher ou um escravo" (CUATRECASAS: 1997, 14). No período em que a moral era mais rígida, esta concepção do homem como pólo ativo fez com que considerado indigno no homem receber a fellatio da mulher; ao passo que a relação homossexual masculino era tolerado conquanto o homem de classe superior não fosse sodomizado por subalternos.



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domingo, 31 de janeiro de 2010

minha lista de livros indispensaveis


Talvez uma das coisas mais comuns que alguém pode fazer é uma lista de discos, flimes ou livros prediletos. Regularmente uma lista das 10, 50 ou 100 mais ou obras essenciais aparece nos meios de comunicação, quase como uma matéria-coringa. Seja por ocasião de uma data (dia do rock ou final de década), seja por uma decisão editorial (a próxima edição é temática, por exemplo, sobre literatura feminina); a matéria aparece lá.

Há quem vê estas listas como referências sagradas (principalmente se chancelada de um órgão importante, como a revista Carta-Capital ou o suplimento literário do The Times) - se é, então é e não há como negar. Há quem vê com ironia e leveza - principalmente quando a lista não confere com o gosto de quem a lê. Na verdade, listas são subjectivas, por mais que se tente usar critérios duros e objectivos. Quando muito, serve para perceber tendências ou o gosto pessoal de quem a fez.

Deste modo, a lista que eu irei postar agora não pretende ser uma lista definitiva, que procure a ser a verdade do universo ou inquestionável. Apenas uma lista comentada de alguns livros que li e nada mais. Caso alguém resolver ler algum dos livros listados, bem, boa leitura!

01) Códigos do Silêncio e Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
A poesia de Zé Inácio traz um jogo interessante: ao mesmo tempo que ela fala da vivência dele, de sertanejo acostumado com a lide do gado no meio do mandacaru; também possui a vocação dos grandes mestres da literatura em falar de sentimentos universais. Na poesia, não é raro ver Homero e Rilke procurando sombra debaixo de uma juazeiro, enquanto Lampião e Corisco derrubam as muralhas de Tróia com suas peixeiras em punhos, lutando contra Gregos e Troianos. Falando assim rapidamente, não sei se expresso corretamente a poesia dele. Mas a poesia de Zé Inácio me é fascinante, por isso eu recomendo a leitura.

2) Fausto (Goëthe)
Fausto é o apelo universal do ser humano que procura superar sua existência, não se importando com os riscos. E se essa superação tiver na sabedoria como foco, o ser humano estará livre para atingir sua plenitude. Essa parece ser a mensagem que esta obra-prima nos passa. Gosto deste livro por Goëthe entendeu (na minha visão) o verdadeiro sentido do mito. Dr. Fausto procura a sabedoria na sua plenitude. E para isso, ele precisava transcender o horizonte fechado do senso-comum e o conhecimento institucionalizado e instrumental (o "quarto gótico" onde ele se encontra no início do livro). Ele quer ir mais além, para tanto, ousar até fazer um pacto com Mefistófeles (o proibido, o heterodoxo, o novo). Só que Fausto não desvia de intenção inicial, a despeito das armadilhas do diabo. Por isso que Fausto alcança o paraíso no final. A verdadeiro problema que Goëthe coloca não o ser humano fazer o pacto com o demônio na procura da sabedoria, mas se o ser humano se deixa ludibriar por falsas promessas. Não é a-tóa que Otto Maria Carpeaux compara "Fausto" a "Divina Comédia", como os poemas da caminho do homem em superar sua existência.Vale a pena sua leitura. Dentre as tradução, indico a de Janin Kablin Segal, lançada pela Ediora Vila Rica.

3) Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
"Werther" foi o livro da minha adolescência. Por isso que, juntamente com "Fausto", não resistir e comprei quatro edições diferentes desta obra. Primeiro grande sucesso de Goëthe (baseado em experiências pessoais do autor), "Werther" é o espírito romântico e sensível que não se deixa seduzir pela mediocridade. É um eterno inconformado, que não se contenta com o senso-comum alienante. Sua paixão extrema por Charlotte é a parte mais visível de sua alma, que prefere passear sozinho nas colinas para ler seus poetas (Homero, e depois Ossian) a ficar em conversas vazias sobre amenidades domésticas. Seu final trágico, longe de ser uma derrota, é a reafirmação de alguém que nega veementemente o conformismo e alienação da sociedade burguesa. Ainda hoje é um livro que reverbera em mim e indico como leitura essencial - principalmente para os jovens. Indico as edições da Martin Fontes e da L&PM, por conter informações extra sobre a obra.

4) Mensagem (Fernando Pessoa)
Foi o primeiro livro de poemas que li na minha vida. E tive sorte de ler um dos mais ricos livros da poesia lusófona. "Mensagem" foi o único livro em português que Pessoa publicou em vida, para participar de um concurso. E nele é recontada a história das navegações portuguesas como uma aventura universal do ser humano. E ao confrontar o passado como presente, Pessoa encontra na Tradição a esperança para o futuro. Mesmo que a maioria dos grandes poemas (como "Tabacaria", "Ode Triunfal", "Poema em Linha Recta", "O menino de tua mãe" e "Não digas nada") de Pessoa não estejam neste livro, "Mensagem" possui muitos dos poemas essenciais da língua portuguesa (como "Mar Português", "A Última Nau" e "Dom Sebastião"). Lê-lo e Relê-lo é sempre um prazer.

5) Delta de Vênus & Pequenos Pássaros (Anaïs Nin)
Ao dizer que a minha monografia de graduação aborda um dos contos eróticos de Anaïs Nin já esclareço o quanto eu gosto deles. Anaïs Nin escreveu diários, ensaios e ficção. E é nos diários e na ficção que dosou muito bem o erotismo, mas escrito numa perspectiva feminina. Os dois livros citados são de contos e estão disponíveis pela L&PM Editora. Quem quiser uma boa história sem moralismo, estes livros são indicados.

6) Rubáiyát (Omar Khayyam)
Há quem pense que os poema de Khayyam são sobre sobre vinhos e orgias. E uma leitura desatentas das traduções Fiztgerald e Toussaint podem realmente levar ao equívoco. Mas estes poemas persas medievais não teriam alcançado a imortalidade se falassem apenas de vinho e orgias. Khayyam se tornar um existencialista avant-à-lettre, ao indagar o sentido da vida, quando a mesma se parece efêmera e absurda. O embriaguez provocada pelo vinho é o contraponto de que o homem é efêmero e feito da mesma matéria da poeira, diante da indiferença de Allah. Das edições que eu tenho, a da Ediouro (feita a partir da célebre tradução de Manuel Bandeira) é a com melhor acabamento, praticamente uma obra de arte. A da Martim Claret diz sua tradução foi feita diretamente do persa, destoando em muito da de Manuel Bandeira. Contudo, minha predileta é a edição portuguêsa da Moraes Edições. De leitura mais agradável e leve, procurou se um resumo das traduções canônicas de Fiztgerald, Toussaint, Bandeira e Tarquínio.

7) 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
Júlio Verne foi o autor da minha infância. Era o "cara" que soube antecipar as descoberta do futuro ao mesmo que escreveu aventuras perenes. Desta, as "20.000 Léguas Submarinas" são a que mais gostei. E como não se deliciar pela viagem que Prof. Arounax faz em um submarino elétrico no meado do século XIX, com o misterioso Capitão Nemo? Viajar por Vanikoro, Túnel Arábico, Pólo Sul e Atlântida; enfrentar Lulas gigantescas e tentar encontrar a verdadeira liberdade? Das edições em português, eu indico da Martim Claret, por ser a mais completa e próxima do origianl.

8) Manifesto Comunista (Marx & Engels)
Não minto em dizer que este é meu livro de filosofia predileto. Apesar de curto e escrito a mais de 150 anos, ele continua atual no apelo que faz aos seres humanos para lutarem por um mundo melhor. Escrito como peça de propaganda, o "Manifesto", ao esclarecer o mecanismo que rege a história e indicar ao oprimidos uma alternativa de sociedade. Das várias edições, a lançada conjuntamente pela editoras Boitempo e Fundação Perseu Abramo traz vários ensaios, comentando o texto. Quanto a tradução da L&PM, traz também o livro "Crítica ao Programa de Gotha", em que Marx reafirma suas idéias ao critica o novo programa do SDP alemão. Tenho curiosidade de ler a edição da Martim Claret, também com outros textos em apêndices...

9) Estrelas no Lago (Ricardo Vidal)
Ok! Admito que coloco o meu livro aqui como uma espécie de brincadeira e merchandising. Mas, seu não considerar meu livro bom e indicá-lo para leitura, quem mais faria? Quem quiser, escrever para mim: cve_livros@hotmail.com

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Os (diversos) nomes de Eros

Os (diversos) nomes de Eros
"Definir erotismo, traduzir e ordenar, de acordo com as leis da lógica e da razão, a linguagem cifrada de Eros, seria caminhar em direção oposta ao desejo, ao impulso erótico, que percorre a trajetória do silêncio, da fugacidade e do caos. O caráter incapturável do fenômeno erótico não cabe definições precisas e cristalinas – os domínios de Eros são nebulosos e movediços."
Lúcia Castello Branco
"O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora"
Octávio Paz
O senso comum remete a idéia de erotismo às noções de sexo, da sensualidade, do amor, do desejo, e do requinte[1]. E quase sempre em uma relação tensa com a pornografia (onde termina uma para começar a outra?). Mas o que é erotismo? Etimologicamente, Eros vem da raiz grega Ερως e significa amor (que, por sua vez, é raiz da palavra grega Ιμερος, Imeros, que significa paixão, desejo).
Na mitologia greco-romana, o que os gregos chamavam de Eros[2] (e que os romanos sincretizaram como Cupido) era a personificação do Amor – mais precisamente do amor sensualizado, ligado ao instinto da reprodução da vida. Ou como define Lúcia Castello-Branco, "(…) Eros é o deus do amor, que aproxima, mescla, une, multiplica e varia as espécies vivas". Na versão mais popularizada do mito, Eros é representado como um menino alado e travesso (cuja idade variava entre a infância e a adolescência), filho de Afrodite/Vênus[3] (deusa do amor, da beleza e dos prazeres) e que vive a acertar os corações humanos e divinos com flechas incendiárias que despertavam paixões nos atingidos. Quando apresentado como criança, a ele é atribuído um irmão[4], Anteros, que surgia ora como um deus vingador "dos que são desprezados no amor", ora "como símbolo do amor recíproco" (BULFINCH: 1962, 16). Este irmão seria responsável pelo crescimento de Eros – fato interpretado como a metáfora de que o afeto necessita ser correspondido para desenvolver-se. Já quando é representado como adolescente, aparece casado com a princesa Psiquê, a personificação da alma humana. Em todos os casos, é um deus jovial, ousado, maroto e audaz que consegue exercer seu poder (inflamar o amor no coração) desde os seres humanos até os próprios deuses — não hesitando, inclusive, de flechar sua mãe e o próprio Zeus[5],[6], rei do Olimpo. Foi inflamado pelas setas de Eros que Zeus (mesmo casado com Juno) se envolveu em tantas aventuras amorosas com outras deusas e mortais ­- a exemplo dos mitos de Europa, Leda e Antíope. Aliás, já prevendo singular poder e suas conseqüências que Zeus, no nascimento de Eros, quis obrigar Afrodite que ela se desfizesse do filho, ordem que ela desobedeceu, ocultando o filho numa floresta e o amamentando com leite de animais ferozes. Outra versão, mais primitiva do mito, já o associa à Criação do universo, na geração anterior aos Titãs. Eros, neste caso, seria a força que teria ajudado a criar o Universo a partir do Caos (O ovo cósmico). Segundo René Ménard, "Cupido, nos tempos primitivos é considerado um dos grandes princípios do universo e até um dos mais antigo dos deuses. Representa "a força poderosa que faz com que todos os seres sejam atraídos uns pelos outros, e pela qual nascem e se perpetuam todas as raça" (MÉNARD: 1997, 01).
A partir do mito greco-romano, podem-se depreender dois aspectos que estarão presente na discussão sobre erotismo: Um, derivado do mito primevo, é a relação de criação dos seres, a força reprodutiva; Outro (de certa forma, reforçando o primeiro aspecto), de que o amor também é carnal, é sexo, é sensualidade.
Do significado Ερως, Eros como amor (também carnal) a língua grega herdou várias expressões, como Ερωτος, Erotos, significando "Amor"; Ερωτις, Erotis, significando "amante"; Ερωτύλος, Erotulos, significando tanto "amoroso" como "erótico" e Ερωτιον, Erotion, significando "namorico" ou "passatempo amoroso". Semanticamente a raiz "Ero–" conduz a palavra "erotismo" para o ambiente dos impulsos sexuais. Contudo, o erotismo não se limita a sexualidade no ponto de visto biológico. Como afirma Lúcia Castello-Branco, em seu livro "O que é erotismo":
Não será, portanto, apenas através dos canais da sexualidade explícita que Eros se fará ouvir. Aliás, o segredo de seu poder parece residir exatamente nesta maleabilidade: o erotismo deriva de impulsos sexuais, mas é capaz de ultrapassa-los e de revelar mesmo em contextos onde é grande a repressão à sexualidade, mesmo em casos de extrema sublimações dos impulsos sexuais. (CASTELLO-BRANCO: 2004, 14)
Partindo do mito dos andróginos[7], Lúcia transcende o conceito de união, implícito na união sexual ou amorosa que se efetua entre dois seres para uma noção mais ampla de conexão do ser com o universo. Da mesma forma que os seres mutilados surgidos da separação dos andróginos procuram suas metades correspondentes para restaurarem a antiga unidade, o impulso erótico se manifesta no ser humano como um desejo de união, completude e totalidade, de integração do eu com o universo. Este impulso passa pela união sexual entre dois ou mais seres humanos (cujo momento do orgasmo a pessoa atingiria este estado de união com o/a parceiro/a) e entre em outros terrenos da vida, como a arte.
Sobre o impulso erótico dentro das artes, Lúcia diz que "A expressão artística se realiza em função de um mesmo impulso para a totalidade do ser, para sua permanência além de um instante fugaz". A comunicação obra de arte/ público é erótica: o primeiro contacto é sensual, pelos sentidos do corpo é que o objecto artístico agrada, desagrada ou se torna indiferente. E o gozo estético que o público teria com a obra de arte seria semelhante ao gozo erótico das perversões, cuja completude chegaria como um fim em si mesmo.
Esta idéia do "Eros" como completude está presente no início do Kama-Sutra. No primeiro capítulo, Vatsyayana, mostra que o Kama (entendido como uma amálgama de amor, gozo e prazer sensual), juntamente com o Dharma (virtude e vida espiritual) e o Artha (aquisição da riqueza material) estão juntos como os fins da existência humana. Para o autor hindu, "O Homem (…) deve praticar o Dharma, o Artha et o Kama" na sua vida – em épocas diferentes, entretanto – para que ele "alcançar o 'Makaha', que dispensa de uma transfiguração ulterior". Ou seja, o amor sensual (e o prazer que o mesmo provoca) é posto pela cultura hindu como um dos caminhos para o ser humano possa atingir a perfeição e voltar ao Criador (em última análise, ser completo e integrado à natureza). Purgar o Kama do ser humano implicaria em mantê-lo na eterna roda de reencarnações – tanto que Vatsyayana lembra que "A execução do ato genital é tão necessária à existência e ao bem estar corporal quanto o alimento e portanto os prazeres correlatos são igualmente legítimos, sendo tão importantes quanto a prática de Dharma e de Artha".
Este aspecto em que o impulso erótico união sexual entre seres humanos seria uma faceta do desejo de união do ser com os objectos do mundo, leva ao outro aspecto do Eros como força da criação. O desejo de totalidade e completude que este impulso remete ao Caos primordial, em que tudo esta junto no mesmo ovo cósmico. A Criação é a força da vida que continua que continua presente, se repetindo em pequena escala o mesmo instante que originou o Universo.
Com base neste aspecto que Georges Bataille define o erotismo como "a aprovação da vida até na morte" (1987:11). Partindo da dialética vida/morte, Bataille observa duas forças regeriam o ser humano: De um lado estaria a força de sobrevivência do indivíduo, sua permanência como ele mesmo. Do outro lado, o desejo de fusão com a pessoa amada (que representaria sua dissolução individual). A atividade erótica prepararia a fusão onde se dois seres humanos se misturariam. Deste modo, Ele afirma que:
A aprovação da vida até na morte é desafio, tanto do erotismo dos corações quanto no dos corpos, desafio, por indiferença, à morte. A vida é acesso ao ser: se a vida é mortal, a continuidade do ser não o é. (…) a desordem erótica imediata nos dá um sentimento que ultrapassa tudo, de forma que a sombrias perspectivas ligadas à situação do ser descontínuo caem no esquecimento. E, para além da embriaguez que abre a vida juvenil, é-nos dado o poder de abordar a morte de frente… (BATAILLE: 1987, 22)
Para tanto, o erotismo em Bataille seria uma experiência interior a ser vivida pelo do ser humano. Aliás, este aspecto de vida interior que seria mais uma diferença entre o erotismo e a sexualidade animalesca. Se nos animais ditos irracionais, a escolha do(a) parceiro(a) é uma escolha puramente instintiva (uma vez que parece que a mesma fora dada), no ser humano depende dos gostos individuais, a partir de seu interior. Como lembra Bataille, mesmo que a escolha do(a) parceiro(a) seja a concomitante com a da maioria, ela foi feita a partir da individualidade de cada um. Deste modo, pode-se depreender que o erotismo é uma atividade essencialmente humana, é a sexualidade indo além do mero instinto animal.
Este aspecto exclusivamente humano do erotismo é que leva Octávio Paz a considerar o mesmo pode ser definido como "sexualidade transfigurada". Dito de outra forma, "antes de tudo, o erotismo é exclusivamente humano: é a sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e vontade dos homens." (PAZ: 1994, 16). No caso, o erotismo para Octávio Paz equipara-se a metáfora, em a sexualidade vai além da procriação. Ela também se torna prazer, representação, subversão, sensação e sentimento (amor). Desviando da função reprodutiva 'prescrita' pela natureza (ou Deus, segundo a Teologia), a sexualidade passa a ser, no erotismo, um terreno onde a imaginação do ser humano (homem e mulher) reina. Por isso que Octávio Paz aponta para a multiplicidade do erotismo, a dizer que o mesmo "varia de acordo com o clima e a geografia, com a sociedade e a história, com o indivíduo e o temperamento". Ao contrário dos animais, que fazer sexo da mesma forma, para o ser humano vive sua sexualidade de várias formas, executando várias posições a união sexual e experimentando novas visões para o ato. Diante desta multiplicidade do fenômeno erótico ganha que os autores sentem dificuldade em definir precisamente o erotismo[8].
Esta multiplicidade se revela também na diferença entre sexos. Segundo Francesco Alberoni, "Não existe apenas uma raiz do erotismo, mas duas. Uma mais profundamente presente nas mulheres e a outra nos homens. A primeira tende a produzir uma comunidade de vida, unida pelo amor. A segunda, ao contrário, não tem projetos, vive de projetos". Deste modo, pode afirma que o erotismo feminino é contínuo; enquanto o masculino, descontínuo[9]. Esta continuidade feminina surgiria devido a saciedade do homem após o ato sexual, que levaria a um "decréscimo de interesse para com a mulher" (ALBERONI: 1987, 23), realizado por ter atingido o êxtase do orgasmo. Este comportamento é entendido psicologicamente como uma espécie de rejeição, de ser ratada apenas como corpo. Deste modo, o desejo erótico feminino passa pela permanência do homem ao seu lado após ao orgasmo. Deste modo que os sentidos do tato e do olfato. "a mulher que a presença física do seu homem, sentir suas mãos as suas mãos sobre a sua pele, (…) sentir o seu cheiro, sentir a mistura de seus cheiros" (ALBERONI: 1987, 29). Deste modo, as mulheres vêem o erotismo como um todo: o ato sexual deve está conjugado ao amor e a ternura[10]; a atração erótica ser atividade pela centralidade social, pelo reconhecimento social e/ou poder[11]. A fantasia erótica feminina procura a intimidade e a vida em comum (1987, 60) e tende se abrir com o mundo (1987, 67). Por isso "a sedução feminina deve renovar-se para exorciar o descontínuo que existe no homem". No homem, o erotismo é diferente. Ele é marcado pela descontinuidade, pois ele "experimenta com mais freqüência que a mulher o instante de eternidade. Este não é um intervalo temporal. É um estado particularíssimo, exterior ao tempo". (1987, 41). Esta descontinuidade afirma-se no homem como uma experiência mais interiorizada que a mulher. "há no homem um componente erótico muito forte que desdenha o externo e valoriza o interno" (1987, 67), o que levaria a excluir de sua vida erótica o compromisso, os deveres, a própria vida social" (1987, 60). No homem sua excitação é mais visual – não tato, mas a visão que provoca o excitamento[12].
Pelo o que foi analisado até agora, o erotismo pode ser considerado como a expressão criativa da sexualidade humana, que vai além da mera reprodução biológica para visar também o prazer sensual (que evoca os sentidos, como o Kama da Vatsyayana) e o amor como forma de chegar a completude. Sendo a procura da completude através do amor e do prazer, o ser humano retirar a procriação como característica central do ato sexual – deixando o sexo de ser instintivo para ser cultural. E sendo expressão criativa, o erotismo é múltiplo, varia para cada indivíduo (ou seja, cada sexo terá experiências diferentes de sua sexualidade).



[1] No caso de requinte, este é mais invocado quando se compara o erotismo com pornografia, sendo esta considerada a contraparte vulgar e menos sofisticada da sexualidade, enquanto aquele seria a representação mais nobre e sofisticada.
[2] "O nome Cupido, em latim, implica a idéia de amor violento, de desejo amoroso, em grego, Imeros. Contudo, na mitologia latina, presta-se a esse deus mais ou menos a mesma origem, a mesma história que ao deus grego Eros, Amor". (COMMELIN: 1997, 71)
[3] Embora os autores sejam unânimes em atribuir a maternidade de Eros à Afrodite; a paternidade já é mais contestada. Pierre Commelin diz que "(…) segundo a maioria dos poetas" Eros "nasceu de Marte e Vênus", o que explicaria a audácia deste deus. Contudo, René Ménard afirma que "Mitologicamente, não sabemos quem é seu pai, mas os poetas e escultores concordam em lhe dar Vênus como mãe (…)".
[4] Edith Hamilton, além de atribuir a Anteros também o caráter do que se opunha ao amor, também atribuí como irmãos de Eros/Cupido, os deuses Hímero (personificação da Saudade) e Himeneu (Deus que preside a festa de Casamento).
[5] Segundo Ménard, há uma ressalva quanto a extensão deste poder: "Não obstante o seu poder, (Eros) jamais ousou atacar Minerva e sempre respeitou às Musas".
[6] "Júpiter ­­– Vê, pequenino malandro, se não é grande mal insultar-me a ponto de fazeres com que eu me revestisse de forma de forma de sátiro, touro, cisne e águia. Não fizeste com que mulher alguma se apaixonasse de mim próprio (…)." Neste trecho de um diálogo satírico de Luciano, presente em René Ménard, Júpiter/Zeus reclama ao Cupido, citando às metamorfoses que se submeteu para conquistar algumas de suas amantes.
[7] "(…) Os seres andróginos redondos e possuíam quatro mãos, quatro pernas, duas faces, dois genitais, quatro orelhas e uma cabeça. Esses seres, por sua própria natureza, eram poderosos e resolveram desafiar os deuses, sendo, por isso, castigados por Zeus, que decidiu corta-los em duas partes." (CASTELLO-BRANCO: 2004, 09)
[8] Esta "imprecisão" do termo talvez fica mais patente quando se confronta com a definição de pornografia. Uma vez que ambos tratam da sexualidade humana transfigurada pela cultura e a separação se dar no plano da qualificação subjectiva, Alain Robbe-Grillet considera que "Pornografia é o erotismo dos outros". (ROBBE-GRILLET apud MORAES e LAPEIZ :, 199?, 109)
[9] "Estamos diante de uma estrutural temporal, diversa nos dois sexos. Há uma preferência profunda do feminino para o contínuo e uma preferência profunda do masculino para o descontínuo" (grifo do autor) (ALBERONI: 1988, 24)
[10] "Para a mulher, a ternura e a doçura combinam com o erotismo, inserem-se nele harmoniosamente. Para o homem isso acontece com muito menor freqüência. A mulher sente como erótica, tanto a emoção provocada pelo contato do corpo do filho, como aquela provocada pelo contato com o corpo do amante. Ás vezes, gostaria de tê-los a seu lado juntos, juntos na mesma cama. (…) Também a diferença entre amizade e amor é mais tênue na mulher. Dorothy Tennov observou que as mulheres confundem mais facilmente a enfatuação erótica e a paixão. O homem, ao contrário, tende a acentuar as diferenças, a separar as diversas emoções." (ALBERONI: 1987, 25)
[11] "O erotismo feminino é profundamente influenciado pelo sucesso, pelo reconhecimento social, pelo aplauso (…). O homem quer fazer amor com um mulher bonita e sensual. A mulher quer fazer amor com um artista famoso, com um líder (…)" (ALBERONI: 1987, 32)
[12] "Aos olhos masculinos, a mulher vestida está distante, protegida. A roupa e a maquilagem têm sempre um duplo significado: de convite e de obstáculo". (ALBERONI: 1987, 69)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ultimo Post de 2009

Não a última crônica de Fernando Sabino ou o último poema de Bandeira. Não. Não quero escrever nada aqui (e agora) como se estivesse escrevendo a última página do livro. Mas o ano de 2009 se acaba e em breve irei viajar para Dom Macedo City. Por isso quero deixar este post no meu blog, um pouco como valanço, um pouco como uma mensagem boiando numa garrafa.
No geral, 2009 foi um ano bom. Trabalho, Literatura, Amor, Faculdade, tudo isso eu termino o ano com saldo positivo. Estou empregado, trabalhando como Designer. Ganhei outra menção honrosa na ALER, meu nome foi citado nos livros de Renata Belmonte e Eliana Mara e participei das primeiras Ocupações Culturais e da Bienal de Livros da Bahia. Estou amando minha atual namorada. E a formatura está próxima. Talvez, eu tenha que dizer que perdir um pouco aquele tempo de ficar mais comigo, pensando nos meus textos. E também tenha que deixar para o meado de 2010 a publicação de meu próximo livro. Que fazer?
Do blog, basta ver o número de visitas e os lugares que eles vieram nos ler. Austrália, Moçambique, Cabo Verde, Índia, França, Espanha, Portugal, EUA, Rússia... Sucesso? Talvez... Sim. Ou não! Com certeza, alguém mais me leu...
Mas é isso aí. 2010 vem pela frente, como uma caixinha de surpresas. Não me é dado conhecer o futuro (apesar de Rimbaud achar que o poeta é um vidente...). Mas, pelo menos podemos sonhar com um ano que seja de Paz, Properidade, Sucesso, Saúde e Sossego. Talvez seja isso que queria dizer neste último post: Feliz Ano Novo!
PT Saudações,
-------------- fim da transmissão --------------------

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Literatura do Vazio


Pesquisando na internet, achei esta tira do Angeli. Em parte, sinto como na primeira metade da tira. Só não quero chegar ao ponto de concordar com a segunda metade dela...
Fico pensando em a Senhorita B diria desta tira...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

blog


Quem diria, meu blog acessados por Americanos e .... Russos! Imagine se isso tivesse acontecido durante a Guerra Fria...
03 de dezembro de 2009

sábado, 21 de novembro de 2009

Especial para Lemos e Relemos

Especial para Lemos & Relemos

Ricardo Lemos – Jornal Valença Agora

POETA PREMIADO 01

A carreira literária de Ricardo Vidal, 31 anos, continua ascendente. Pela terceira vez consecutiva, ele ganhou a menção honrosa no Concurso de Poesia da Academia de Letras do Recôncavo (ALER). A cerimônia foi realizada em Nazaré, no dia 07 de novembro passado e na ocasião, a poetisa Amália Grimaldi também ganhou a menção honrosa no concurso. Segundo informação de um dos membros do júri, dois poemas de Ricardo Vidal foram escolhidos para menção honrosa. Contudo, como o regulamento prevê que não se pode acumular prêmios, só o poema “Estrela de Nove Meses”, de sua autoria, foi escolhido.

POETA PREMIADO 02

Ricardo Vidal também teve o poema “Sangue das Vinhas” escolhido para participar da 6ª edição do “Panorama Literário Brasileiro – Poesia”, editada pela editora carioca Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBjE) e reune os melhores poemas publicadas no ano. Em junho e julho deste ano, Vidal publicou poemas e contos nas antologias da CBjE. Dentre os textos, além do premiado, há um conto dedicado às lendas sobre a construção da igreja de N. Sra. do Amparo.

Salvador, 09 de novembro de 2009

Assessoria de Imprensa de Ricardo Vidal

O Outro Aniversario de Valenca

O Outro Aniversário de Valença

Ricardo Vidal

Escritor, formando em Letras pela UNEB e Designer gráfico da ASCOM-Secretaria de Saúde do Estado da Bahia

Todos os anos, no dia 10 de novembro, a cidade de Valença comemora o seu aniversário. A proximidade com a festa de Nossa Senhora do Amparo, padroeira dos operários e co-padroeira da cidade, faz com que a festa fica mais animada, com a junção do sentimento religioso com o cívico. Contudo, seria esta verdadeira data de aniversário do município de Valença?

Existe o costume, no Brasil, de associar o aniversário da cidade com sua emancipação e elevação a condição de cidade. Atualmente, quase toda sede de município possui esta condição. Contudo (principalmente no passado) isso não era regra. Muitos municípios brasileiros surgiram com sua sede na condição de vila, como prova as histórias de Valença e Cairu.

Conforme lembram os professores Edgard Oliveira e Waldir Freitas, o povoamento da região de Valença é um dos mais antigos. Já por volta de 1550 existia um povoado às margens do Rio Una, fundado por Sebastião de Pontes. Dependente da Vila e Município de Nossa Senhora do Rosário de Cairu, o povoado do Rio Una não logrou a se manter por muito tempo, pois a prisão de Sebastião de Pontes fez com estas terras ficassem a mercês dos belicosos índios gueréns e os moradores acabaram povoando as ilhas de Tinharé, Cairu e Boipeba. Só com a pacificação e escravização dos índios que as terras de nossa cidade voltaram a terem residentes. Contudo, permanecia a vinculação política e religiosa à Cairu.

Somente em 1799 que Valença foi desmembradas à Cairu, com a criação em 10 de julho Vila e Município de Nova Valença. A paróquia do Sagrado Coração de Jesus surgiu em 1801, rompendo assim os últimos laços com o nosso vizinho. Nossa Câmara de Vereadores foi fundada nesta época, que votou o “Código de Posturas Municipal”, tataravô de nossa atual Lei Orgânica do Município. Isso tudo OCORREU ANTES de 1849. Ou seja, como ente político-administrativo da Bahia, o município de Valença já existia 50 anos antes! Tanto que nossa cidade participou com delegados à Câmara de Cachoeira no processo que culminou com o 02 de Julho e a consolidação da independência brasileira na Bahia em 1823.

Com a chegada da primeira fábrica de tecido em 1845 (cujo de modelo de gestão era revolucionário para o Brasil da época, já adotando alguns princípios de socialismo utópico de Robert Owens), o prestígio político de Valença aumentou a ponto de ser elevada a cidade em 10 de novembro de 1849. Devido a isso é que ficou esta data como o dia de nossa cidade, em lugar do dia 10 de julho.

Prof Edgard Oliveira já havia alertado para este fato em artigo publicado no jornal Infolha nº 24 de novembro de 2007. Como a tradição já foi estabelecida e a proximidade com a festa do amparo e de nascimentos do Barão de Uruguaiana e Conselheiro Zacarias, não seria conveniente abandonar o 10 de novembro como grande data cívica de Valença. Contudo, seria uma justiça histórica que os nossos vereadores não deixassem a outra data importante para Valença, o 10 de julho, no esquecimento, elaborando e promulgando uma lei que a declarasse como umas das datas festivas de Valença. Afinal, um lugar lindo e altivo como a nossa Valença, que neste de 2009 comemora 160 anos de cidade e 210 anos de municípios merece e precisa resgatar sua memória…

Bibliografia

OLIVEIRA, Waldir Freitas. “A industrial cidade de valença”. Um surto de industrialização na Bahia do século XIX. Salvador; Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da Bahia, 1985

OLIVEIRA, Edgard Otacílio da Silva. “Valença: dos primórdios a contemporaneidade”. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo, 2006

Anedotas do Conselheiro e do Barao

Anedotas do Conselheiro e do Barão
A primeira quinzena do mês de novembro sempre foi motivos de festa para Valença. A primeira semana é o novenário que culminará com a festa de Nossa Senhora do Amparo, celebrado no dia 8. Já o dia 10 é o aniversário da elevação de Valença a condição de Industrial Cidade, ocorrido em 1849[1]. Mas a primeira quinzena de novembro também possui outros motivos de orgulho para valencianos, pois foi nos dias 03 e 05 nasceram, respectivamente, o Barão de Uruguaiana e o Conselheiro Zacarias.
Ambos nasceram em Valença no início do século XIX, antes da independência do Brasil e se destacaram como políticos ímpares,­ sendo que os dois chegaram à condição de conselheiros do império, senadores e primeiro-­ministros do Império do Brasil. Também foram maçons.
Ângelo Moniz da Silva Ferraz, barão com grandeza de Uruguaiana, nasceu em Valença / Bahia em 1812. Diplomado em Direito e militar de carreira, presidiu o gabinete de 1859, pelo partido Conservador. Mais tarde passou para o partido Liberal. Durante a Guerra do Paraguai, foi ministro da Guerra no segundo gabinete do Conselheiro Zacarias. Participou da rendição do Gen. Estigarriba em Uruguaiana como ajudante-de-ordens do imperador Dom Pedro II, o que lhe viria a justificar seu título nobiliárquico.[2]
Zacarias de Góes de Vasconcelos nasceu em Valença / Bahia em 1815. Formando em Direito pela Faculdade de Olinda (onde foi professor mais tarde), foi presidente das então províncias (e atuais estados) de Piauí, Sergipe e Paraná (seu primeiro presidente, logo após a criação da mesma em 1853). Foi um dos três únicos brasileiros a ocupar a cargo de primeiro-ministro três vezes. Um dos fundadores da Liga Progressista (de liberais e conservadores de centro), mais tarde entrou para o partido Liberal. Conselheiro Zacarias também foi escritor, autor do livro de filosofia política “Da Natureza e Limites do Poder Moderador”, do Manifesto do Centro Liberal, Programa do Partido Liberal e de discursos.
ANEDOTAS – Apesar das suas memórias estarem esquecidas atualmente em nossa cidade, ambos foram grandes figuras brasileiras de seu tempo. Isso pode ser observado nas anedotas que existiram sobre eles e que foram recolhidas por Humberto de Campo, no livro “Brasil Anedótico” (disponível na internet). Segue alguns delas, como forma de resgatar a memória deles, além de mostrar o lado humano.
SENADORES "BARBEIROS"
Zacarias de Gois e Vasconcelos era orgulhosíssimo e fazia questão de, quando falava, ser ouvido atentamente por toda a casa. Um dia, achava-se ele na tribuna, quando notou que dois velhos colegas, o Barão do Rio-Grande e o Barão de Pirapama, que eram profundamente surdos, conversavam em voz alta, para se entenderem sobre navalhas afiadas. Zacarias parou. E como a interrupção causasse estranheza:
- Estou esperando que os Barões de Pirapama e do Rio-Grande acabem de se barbear!
PATRULHA POLÍTICA
Ângelo Moniz da Silva Ferraz, O Barão de Uruguaiana, foi, como deputado e senador, um dos oradores mais vigorosos do seu tempo.
Eleito pela Baía em 1845; dirigia ele uma oposição de três ou quatro deputados, quando, num discurso, exclamou:
- Eu, e o meu partido...
- V. Excia. não comanda um partido, aparteou um deputado governista. - V. Excia. chefia, apenas, uma patrulha!
A frase ganhou curso, ficando Ferraz, até a sua adesão ao partido liberal, com o apelido de "chefe de patrulha”.
Ricardo Vidal

3000 visitas

Fato que não posso deixar passar em branco: Dia 20 de novembro de 2009, feriado da consciência negra, meu blog contou com mais de 3.000 visitas. Uma das páginas mais acessadas é o meu texto sobre Luiz Gama.
Que venha mais 3000 visitantes agora...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Fotos da premiacao ALER 07112009

Depois eu mando faço a resenha da premiação da ALER, em 07 de novembro de 2009, na cidade de Nazaré das Farinhas.
Nas fotos, presença da Sapiranga, Lita Passos, Danilo Evangelista, Almir de Oliveira, Hélio Valadão Sr., Amália Grimaldi e autoridades nazarenas.

Chegou o Windows 7. Deixe seu computador mais simples e fácil. Clique para conhecer.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Meu twitter

Tentei resistir. Não via motivo para escrever textos curtos. Tento ser um tecnorealista e não me deixar levar pelos modismos - usar as inovações tecnológicas quando forem necessárias. Mas a vida é um processo de assimilação e sei lá o quê e quando se vê, já aderiu ao uso de destes gagdets da última estação. Tudo isso só para dizer que já tenho um twitter (http://twitter.com/bardocelta).
Então, recapitulando o que já escrevi no meu twitter:
  1. Possuo perfil no Orkut, Gazzag e Myspace.
  2. Uso o MSN Messenger e já tive u ICQ Number
  3. Tenho um fotolog (quase abandonado)
  4. Possuo um twitter e meu(s) blog(s)
  5. Tenho conta no Google, no Yahoo, no Hotmail e no Youtube
  6. Tenho cadastro na Wikipedia para escrever e/ou modificar os artigos
Falta agora o skipe, o facebook e um celular para que me torne um típico jovem internauta na virada de milênio...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ricardo Vidal ganha terceira menção honrosa no Concurso de Poesia da ALER

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Ricardo Vidal ganha terceira menção honrosa no Concurso de Poesia da ALER

O escritor valenciano Ricardo Vidal, 31 anos, receberá, no próximo dia 07 de novembro, na cidade de Nazaré, a menção honrosa do IV Concurso de Poesia da Academia de Letras do Recôncavo. É a terceira vez seguida que ele ganha este prêmio no concurso da Academia. O poema premiado de Vidal chama-se "Estrela de Nove Meses".

"O que me deixa feliz não é o aspecto da realização pessoal, mas a oportunidade de levar o nome de minha cidade para o mais alto cumes da glória. Isso, em um ano de sucesso: participação na Bienal de Livros, trabalho, etc." Comentou Ricardo Vidal.

A comissão julgadora foi composta pelos acadêmicos Lita Passos, que a presidiu, Danilo Evangelista dos Santos, Judite Barros, Manoel Borges dos Santos e Marilene Oliveira Andrade. Os três primeiros colocados foram Pedro Silva Braz, Yasmim Manatta Camardelli e Antônio Carlos de Oliveira Barreto, respectivamente. A poetisa valenciana Amália Grimaldi também foi agraciada com a menção honrosa.

ANO DE SUCESSO – A menção honrosa veio em um ano produtivo na vida de Ricardo Vidal. Em fevereiro e março, foi um dos artistas que ajudou a organizar as primeiras edições da "Ocupação Cultural". Em abril, participou da Bienal de Livros da Bahia, declamando seus versos na Praça de Poesia e Cordel. Em julho e agosto, teve quatro textos escolhidos para participar das antologias da editora carioca Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBjE), sendo que um dos textos evoca as lendas da construção da Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Além disso, está escrevendo seu segundo livro, que deverá ser lançado no meio do ano que vêm.

No plano de pessoal, trabalhou na Secretaria de Educação do Estado da Bahia (na Coordenação de Tecnologia, Novas Mídias e Educomunicação) como Coordenador de Educação Estadual IV durante seis meses. Atualmente trabalha na Assessoria de Comunicação Social da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia como designer. No final do ano concluirá o curso de Letras na UNEB.

Ricardo Vidal publicou em 2004 seu primeiro livro de poemas, "Estrelas no Lago". Participou das antologias "Sensualidade em Prosa e Verso", "Novos Talentos de Contos Brasileiros", "Livro de Ouro do Conto Brasileiro", "Antologia de Contos Fantásticos", "Panorama Literário Brasileiro", "Antologia de Contosi de Autores Contemporâneos" e "Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos" (editadas pela CBjE) e "Quase Escritores 1994" (editada pelo Educandário Paulo Freire), além de colaborar esporadicamente com o jornal "Valença Agora" com poemas e artigos. Também mantém o blogue "Castelo do Bardo Celta" (www.bardocelta.blogspot.com) – que já foi visitado por mais de 2.800 pessoas do mundo, inclusive por norte–americanos, espanhóis e cabo-verdianos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Tricampeonato Poetico da Academia

Parem as rotativas!!!! Notícia urgente para o Blog!!!
O Sr. Almir de Oliveira, presidente da Academia de Letras do Recôncavo, acabou de me telefonar hoje, dia 19 de outubro, às 08h20 da matina,para me informar que o meu poema "Estrelas de Nove Meses" acaba de ser escolhido como menção honrosa do 04° Concurso de Poesia promovido pela instituição. É a terceira vez que ganho o título, indo para tri-menção!!!
A premiação será em Nazaré (leitores e leitoras do blog, aguardem!), em novembro (depois eu digo a data, tudinho)!!!!!
YABADADOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

MAIS DENDE PARA CULTURA VALENCIANA - Carta Aberta

MAIS DENDÊ PARA CULTURA VALENCIANA

(Carta Aberta à Conferência Municipal de Cultura – Valença)

Artistas e Intelectuais de Valença

SaudaçõeS

Nos últimos recebi por e-mail as notícias sobre a Conferência Municipal de Cultura que será realizada em Valença no próximo dia 16 de outubro. Dentre os e-mails, um pedia o apoio à escolha de Adriano Pereira como um dos delegados que representará nossa cidade nas outras conferências mais abrangentes. Infelizmente, não poderei estar na minha cidade e participar deste fórum devido aos compromissos profissionais que tenho aqui em Salvador. Contudo, se eu estivesse aí no dia, uma coisa seria certa – escolheria Adriano como um dos nossos delegados, para que ele ajude a trazer mais dendê para a cultura de nosso município.

Nossa cultura é rica e saborosa como uma boa moqueca de camarão. Possuímos uma história rica que ainda estar por se descobrir. Possuímos escritores e escritoras presentes em academias e nos pódios de concurso que reafirmam uma tradição literária municipal do qual fazem parte nomes como os de Fábio Luz e Conselheiro Zacarias. Possuímos artistas plásticos de renome internacional. Possuímos, ao lado desta cultura erudita, uma cultura popular forte como o sertanejo de Euclides da Cunha ­- mesmo na adversidade e com falta de recursos, ela brilha e resiste sempre. Todavia, a nossa moqueca sofre com a falta de dendê. Falta mais investimentos, articulação entre os poderes públicos (principalmente com o municipal), sensibilidade de que cultura é investimento. Publicação de livros, patrocínio à eventos culturais e apoio a grupos folclóricos é geração de renda, prevenção à delinqüência juvenil, é promoção da cidadania. Falta colocar mais dendê nesta moqueca para ela possa mostrar toda a sua complexidade de sabores.

Para isso que o nome de Adriano surge como dos mais indicados para levar nossas opiniões e reivindicações nas conferências regional e estadual, que serão realizadas mais na frente. Ele é o idealizador e catalisador do projeto "Ocupação Cultural" ­­– que atualmente dá um novo sopro para a vida intelectual da Valença. Ele trafega por entre o mundo do teatro, os domínios da crítica cultural, o universo dos blogues, os altares da escrita. Ele está nas ruas fazendo teatro popular e estar nas academias, discutindo e propondo teorias. Adriano não apenas "faz arte" - ele agita, produz, reflete e transforma a cultura. Sendo ele um intelectual agitador e militante, ele se coloca como um dos mais aptos a levar a "moqueca cultural" de Valença para os debates sobre a cultura baiana e a trazer novas idéias e dendê para nós.

Bem, essa é a palavra que eu gostaria de trazer para vocês. Apesar de morar hoje em Salvador, meu coração ainda está aqui e meus olhos e ouvidos acompanham atentamente nossos jornais e nossas rádios. Na minha literatura eu trago as marcas de quem se criou às margens do Rio Una. Lamento não poder estar nos debates da conferência municipal de cultura. Contudo, endosso o nome de meu amigo e colega intelectual Adriano Pereira.

Nossa cidade possui uma produção cultural vastíssima que precisa se descoberta. Se houver apoio, a cultura de Valença poderá ir além da saborosa moqueca que já produzimos. Temos potencial para uma grande mariscada de poesia, ensaios, polêmicas, teatro, música, debates, folclore, teorias e práticas. Falta colocar mais dendê nela. Adriano Pereira, meu chapa – porque você não vá buscar este dendê nas Conferências Regional e Estadual de Cultura?

Cordialmente

Ricardo Vidal

Escritor valenciano, autor do livro "Estrelas no Lago" e do blog "Castelo do Bardo Celta", participou de diversas antologias da CBjE, 03º lugar no concurso nacional de poesia da revista Iararana e duas vezes menção honrosa no Concurso de Poesia da Academia de Letras do Recôncavo. Graduando em Letras | Inglês na UNEB (campus Salvador)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Concurso da ALER


Amanhã termina o prazo do IV Concurso de Poesia da ALER. Gostaria de estar entre os três primeiros... Mas tenho uma má impressão. Oxalá que um dos meus nove poemas possam (pelo menos) ser aceitos.Agora, não seria engraçado se eu (de novo) ganhar a menção honrosa?
Quem diria que um ano que começou tão bem (pelo menos, na literatura) termine assim, melancólico, igual a um super-herói aposentado...
Câmbio e desligo!

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)