Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor, autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Graduado em Letras/Inglês pela UNEB Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Vitivinicultura Literaria

Vitivinicultura Literária

Prefácio etílico de um livro bucólico


Salvador, 23 de fevereiro de 2012 /
Valença, 25 de junho de 2014.

Pelo título do livro, o prefácio deveria falar da poesia como um exercício de jardinagem da alma e/ou do estilo. Mas eu admito que a jardinagem seja algo que eu não tenho domínio suficiente para fazer a devida metáfora, fazendo com que meu texto soasse deveras artificial. Gosto (muito) de flores, mas não sei cultivá-las. Aprecio as flores como um enófilo amador que começa a beber os bons vinhos – chega perto, degusta os olores, aprecia as formas, estuda um pouquinho, mas não se atreve a entrar nos cernes mais rebuscados e técnicos da elaboração de um simples vinho tinto seco ou do cultivo de um pequeno canteiro de jasmins chineses. Desse modo, parto por um caminho por mim mais conhecido que, sem abandonar o espírito bucólico do livro, lançará melhor luz sobre alguns pontos acerca a obra.

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Pessoalmente, sempre imaginei o exercício da literatura como algo mais próximo da produção do vinho. As palavras e as frases são colhidas nos parreirais do idioma para serem macerados no tanque branco da página (ou na tela, se pensarmos nos computadores) para formar o mosto/texto. Depois, são deixadas fermentando e decantando sozinhas no texto. Convém, para um escritor profissional (ou um autor diletante mais preocupado com sua produção escrita), que periodicamente retorne aos seus textos, burile onde for preciso, e, principalmente, acompanhe essa fermentação, a fim de ver se o texto virou vinagre, se ainda precisa de mais tempo de maturação ou se simplesmente já está pronto para ser engarrafado no livro e entregue ao público.
Penso nisso porque os textos (pelo o que pude tirar de minha experiência), normalmente seguem três caminhos:
01) Alguns textos viram vinagres porque não resistiram a prova do tempo. Mesmo que, na hora da composição ele realmente emocione, no outro dia (ou na outra semana, ou ainda, meses e anos depois) eles já não dizem mais nada à alma. Mostram-se ingênuos ou vazios, ainda sejam reescritos. Aliás, não é bom mexê-lo: praticamente seria necessário escrever um novo texto, mais apurado. Não prestam para publicação e inexoravelmente o seu destino é o lixo ou o fundo esquecido de uma gaveta.
02) Outros textos ainda não envelheceram o suficientemente bem. São textos difíceis, com um forte travo do tanino e que tendem a se confundir com os textos avinagrados acima citados: não estão maduros a ponto de serem publicados. Contudo, isso não quer dizer que seja um texto para ser descartado. Ele pode ser aproveitado numa edição futura, porque é texto que nasceu póstumo. Ele ainda guarda surpresas, é um texto indomado, o qual (talvez) até precise de duas ou três emendas a fim de que possa sair redondo na página do livro. É um texto cuja leitura, por parte do escritor, precisa ser mais bem digerida antes de mandar servir aos leitores ­­- digestão essa que pode ser longa o suficiente que só faça o texto vir a lume pelas mãos de um pesquisador que, tendo acesso ao arquivo do escritor, o encontre e o publique em uma edição póstuma de obras completas ou em uma edição crítica.
03) E, last but not least, há os textos que estão prontos para serem engarrafados. Venceram a prova do tempo e a leitura ainda inebria com facilidade, não restando dúvidas ao escritor de que já se pode entregar aos seus leitores.
Asseguro esta minha tese com a produção destes meus três livros. Estrelas no Lago, Fogos de Beltane e Flores do Outono vieram a lume depois desse processo de escrever, reescrever, fundir, cortar, ler, reler, recortar, corrigir, aumentar e (auto)criticar constantemente. Periodicamente foram feitas triagens em cima de triagens, leituras em cima de leitura, como se eternos palimpsestos fossem.
Em Flores do Outono, o exemplo talvez seja mais radical. Inicialmente era um mero título ad hoc para o meu segundo caderno de poemas, que eu então escrevi ainda na adolescência, quando ainda morava em Valença. Nesta fase eu apenas coligia todos os meus escritos, dividido entre a esperança juvenil de um dia talvez publicá-los (e, quiçá, correr o risco de ser famoso) e a vontade madura de ainda escondê-los, cético quanto ao seu real valor. Mais tarde, já morando em Salvador (período em que estava cursando a universidade), tomei a coragem de reunir os meus melhores poemas para poder registrar junto a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Foi quando comecei a cristalizar certa crença de, quem sabe um dia, mandar para o prelo os primeiros meus poemas "maduros". O volume de folhas A4 encadernadas que enviei para o registro era uma amálgama de outros quatro cadernos, pastas de computador e alfarrábios que eu já tinha escrito. Aproveitei o título do segundo caderno, Flores do Outono por me parecer mais atraente e já naquela vez eu dividira em partes com nomes de flores, reunindo poemas que pudessem ter alguma identidade entre si. Outros volumes eu viria a registrar postumamente, reciclando os outros nomes ad hoc dados aos cadernos e pastas.
Quando, mais tarde, resolvi publicar o meu primeiro livro (o Estrelas no Lago), mesclei os volumes registrados. Na hora eu achei melhor dar um novo nome para este livro, mesmo que muito dele tenha a essência do Flores do Outono primitivo. Imaginei o Estrelas no Lago como um livro de estreia que servisse de teste para os meus poemas, para que, no futuro, eu publicasse o Flores do Outono como o foi inicialmente concebido – projeto que naturalmente eu abandonei logo depois.
Fato similar ocorreu com Fogos de Beltane, que foi inicialmente um volume ad hoc para participar de um concurso literário e que seguiu uma lógica parecida com ao primeiro livro (ou seja, coligindo poemas dos cadernos anteriormente organizados para formar uma segunda unidade editorial). Posteriormente se tornou no segundo volume de poesia a ser publicado por conta própria, trazendo alguns dos poemas mais recentes.
Nesse ponto eu pude ver com mais clareza esse processo da “vitivinicultura literária”: Na medida em que eu retornava a leitura, repetia-se a observação de textos avinagrados (como na sessão de poemas dedicados a minha cidade natal, nos muitos se mostraram imaturos e sem nenhuma força poética que justificar vir a lume), de textos que se mostraram prontos para serem consumidos naquele momento (ou seja, todos os que saíram neles) e de textos que ainda precisavam envelhecer mais no barril (como o “A Jangada Partiu”, que aproveitei nesse volume). Claro, admito que, nesse processo, eu sacrifiquei poemas que teriam (talvez) mais sentido se publicados dentro do título original ­­– como no caso de “Flor do Outono” e “Cântico dos Lírios”. No entanto, vários poemas posteriormente escritos (e que não estavam alocados ainda nenhum outro volume) mostraram mais afeitos ao espírito desse volume ­– como o caso de “Rosa Bianca” e “O Dom da Rosa”, como se não houvesse mais outro lugar para publicá-los. O resultado é esse volume, digamos que a versão 3.0 do meu tão acalentado e querido projeto Flores do Outono.
Cito essa história de como eu escrevi esse meu livro para ilustrar minha tese. A variação de textos entre o caderno manuscrito, as folhas encadernadas para registro na Biblioteca Nacional e o livro propriamente publicado ocorreu exatamente porque vi muitos textos se avinagrando e outros imaturos e póstumos, esperando o momento certo de ir para o prelo.
Pode parecer, aos olhos dos leigos, uma excentricidade este meu método de trabalho. Mas tenho certeza que com outros escritores um processo parecido também se desenrole.
Creio que escrever um livro é ter isso em mente: todo texto artístico precisa “fermentar”, dar-lhe o devido tempo de maturação. E dar tempo implica em estabelecer o distanciamento necessário para que o escritor possa desenvolver sua autocrítica em relação ao escrito, a fim de se perceber a sua evolução. Não basta apenas pisar e repisar nas palavras no papel para achar que o texto já está para ser engarrafado ­­­- é preciso que o tempo também aja sobre ele, que haja essa fermentação necessária para se extrair a essência de uma nova sonoridade, de uma nova sintaxe, de um novo sentido, de uma nova forma de expressão, qualquer coisa que mexa na língua e cause o famoso “estranhamento” pregado pelos formalistas russos. Como consequência dessa tese, percebe-se que a “fermentação” não servirá apenas para aparar pequenas arestas (como erros ortográficos ou para apurar as frases e os parágrafos). É através desse processo que o livro ganha sua integridade como obra de arte – que servirá de marco para a separação entre o escriba diletante e o escritor profissional candidato a figurar na história.
Ao comparar a produção do vinho com a do livro, percebo a importância do fator Tempo para o sucesso. Bons vinhos finos, assim como bons livros, não são produtos rápidos, feitos a toque de caixa. É preciso paciência na hora de produzir. Quando considero as idas e vindas para compor esse livro, vejo que não basta apenas a “chegada mágica da inspiração” (como imagina o senso comum alimentado pelo romantismo do século XIX) para se o poema garanta o seu lugar como de arte. É o posterior exercício crítico de leitura e releitura que testa a permanência da fruição estética do mesmo e se percebe os pontos fracos. É na leitura “fria” (que eu comparo ao momento de “decantação” do vinho) que se podem filtrar as falhas do texto e assim emenda-lo – isso quando o texto se mostra realmente promissor, não “azedou” a ponto de virar “vinagre”. E no caso da composição de um livro de poema, é nessa hora que realmente se percebe quando o texto está bom. E mais tarde, será o mesmo fator Tempo que dirá sobre o sucesso do livro depois de pronto. Da mesma forma que muitos vinhos ainda amadurecem dentro a garrafa, os textos amadurecem do livro. E só o tempo dirá quando um livro atingirá sua maturidade, qual será a duração de seu auge, e/ou quando ele “passará do ponto” e deixará de ser relevante – mutatis mutandis, similar ao que acontece com as safras das uvas viníferas.

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Eu organizei o presente volume como uma rede de pequenos mosaicos unidos por uma linha mestra. No meu primeiro livro, Estrelas no Lago, esse procedimento estava presente em forma embrionária. Os poemas se articulam entre si formando tênues sequências sem divisões aparentes (como no caso dos poemas eróticos e dos poemas de amor). Contudo, como o volume foi concebido como um trabalho de estreia, a linha mestra acabou se limitando na seleção do que julguei serem meus melhores trabalhos escritos até o momento. Já para o presente volume, não só deliberadamente dividi as sessões como procurei explorar um leitmotiv especialmente caro para mim: flores. Selecionei de meus parreirais as uvas que julguem mais apropriadas, levando-me a reservar os poemas com mais referência a campo semântico da noite e das estrelas para o meu próximo volume, Sombras do Luar. Quanto à divisão do mosaico, optei estabelecer a seguinte seleção:
a) Em [Jasmins], coloquei os poemas os quais, de certa forma, eu dialogo com a minha contemporaneidade, numa poética crítica da vida atual, fruto da minha ideologia. Evitando cair na tentação de compor poemas doutrinários ao velho estilo da estética engajada de matriz esquerdista, procurei reunir minhas reflexões inconformistas sobre a realidade, fustigando nas entrelinhas o que julgo ser a mediocridade de vida atual.
b) Em [Cravos], apresento um caleidoscópio lírico. Aqui não estabeleci uma unidade temática (como nas demais divisões), mas tento estabelecer um diálogo particular com e sobre as possibilidades expressivas da poesia.
c) Em [Margaridas] estão reunidos os poemas mais picantes. Ainda que certa carga erótica seja constante na maioria de meus poemas, os que particularmente compõem esta divisão são aqueles que eu deliberadamente carreguei a mão no tempero do desejo e da sexualidade. É o meu exercício particular de entrar no território pedregoso da sensualidade e extrair/traduzir os encantos desse paraíso temático que é ainda (hipocritamente) preso ao lodo do tabu.
d) Apresentando o outro lado da moeda, na sessão [Rosas] estão os poemas em que volto ao velho tema do Amor. Só que aqui eu trabalho o amor na sua totalidade: o que ficou na lembrança, o que ainda vive, o que é alegria e o que também já foi perdição, tristeza e tormento.
e) Saindo do sentimento do amor, [Tulipas] segue com meus poemas do delírio, da embriaguez das sensações. Embriaguez pela música, pelo vinho, pela poesia, pelas cores e pela expressão própria das palavras.
f) Para encerrar o livro, [Edelweiss] reuni meus poemas escritos em espanhol e inglês. Na verdade, apresento uma prévia do outro livro meu (até agora parcialmente inédito) chamado Peregrino en una Noche sin Luna, onde apresento meus exercícios líricos em língua estrangeira, sendo que algumas são as minhas traduções de outros poemas que eu já escrevera anteriormente.

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Enfim, é isso aí. Espero que essas palavras iniciais ajudem na compreensão da obra. No fundo, apenas queria dizer que apreciem os meus poemas desse meu novo livro, com a esperança de que os poemas contidos nele, não alcançando a altura de um Tokaji húngaro, um Viño Verde galego, um Valpolicella italiano ou de um Reisling alsaciano, ao menos não tenham virado vinagre. Que seja um vinho de mesa encantador e de bom terroir que agrade as papilas estéticas do leitor.
Tim-Tim! ¡salud!

Ricardo Vidal

Passeio por uma Praia Virgem

Passeio por uma Praia Virgem

Prefácio para o livro "Letras com Cacau, Cravo e Dendê: Dicionário Panorâmico da Literatura Valenciana"


Valença, 14 de janeiro de 2014

Se um historiador do futuro tiver que escolher cinco fatos significativos da história de Valença acontecidos nos primeiros anos do século XXI, o surto de produção literária que aconteceu a partir da publicação da antologia Valenciando neces-sariamente deverá ser citado. Em um feito raro para as demais cidades interioranas do estado da Bahia (até mesmo para grandes centros como Feira de Santana, Itabuna e Vitória da Conquista, com longa tradição universitária), pois os autores nascidos e/ou residentes na cidade de Valença nesse período publicaram 27 volumes no período de 14 anos, o que coloca aproximadamente a um livro novo a cada semestre, percorrendo diversos gêneros, como ensaios, crônicas, romances, poemas, memórias e historiografia.
Em um primeiro momento, existe a tentação de analisar essa Supernova Literária1 como consequência direta dos avanços tecnológicos (como a microinformática e internet) e do reordenamento das políticas públicas de cultura que ocorreu no período em que Gilberto Gil / Juca Ferreira capitanearam o Ministério da Cultura. Tal situação poderia dar uma primeira (e errônea) impressão de que a literatura valenciana é um fenômeno recente. Contudo, numa análise mais acurada, o que fica evidente é que essa produção literária é muito anterior. Por exemplo, há a figura do Conselheiro Zacarias. Mais conhecido pela sua figura de político e estadista do meado do século XIX, Zacarias iria se notabilizar-se nas letras pelos seus discursos e escritos políticos, com destaque ao seu tratado Da Natureza e Limites do Poder Moderador – obra capital para entender o pensamento dos setores liberais durante o II reinado. E assim como ele, somam-se as figuras de outros escritores importantes como Fábio Luz, José Malta, Newton Libertador, Pedro M. da Silva, Elmano Amorim, Galvão de Queiroz e Admar Braga Guimarães.
Ao mirar com mais calma e atenção para a riqueza da literatura valenciana (tanto presente quanto passada), somos levados a crer que existe um grande “território inexplorado”, cujas jazidas ocultas esperam o momento de serem garimpadas. Para os estudantes de direito, interessam conhecer as discussões sobre ordenamento constitucional apresentado tantos pelo Conselheiro Zacarias como por Admar Braga. No campo da historiografia, Augusto Moutinho e Edgar Oliveira oferecem textos lapidares sobre a história regional que esclarecem alguns pontos da história nacional (como no caso do afundamento de navios brasileiros pelo submarino alemão U-507 e o momento exato em que Brasil entrará na Segunda Guerra Mundial). Na área da escrita feminina, Celeste Martinez e Rosângela Góes escrevem poemas saborosos sobre a condição feminina, abrindo outras searas para os estudos feministas. E na poesia, se por um lado Mustafá Rosemberg, claramente formado no espírito de Olavo Bilac, é um epígono do parnasianismo em que traz um doce erotismo lapidado no melhor uso lírico do vernáculo da última flor do Lácio, por outro, Adriano Pereira abre-se para uma contraposição pós-moderna, ao incursionar na desconstrução morfolexicológica das palavras, cujas brincadeiras gráficas levam a ter três ou quatro versos sobrepostos numa única linha labiríntica de signos – clara dialética que traduz muito da alma baiana, sobreposição de rupturas e tradições. Isso, sem deixar de lado o realismo fantástico na prosa de Araken Vaz Galvão, abrindo este uma ponte a integrar o litoral oriental brasileiro com o melhor da tradição literária hispano-americana. Isso, claro, para não citar os vários poetas e cronistas que jazem esquecidos nos antigos jornais – como são José Malta, Elmano Amorim e Newton Libertador (para ficar nos exemplos mais flagrantes).
Diante dessa profusão de autores, urge que se comece a ter análises críticas que se volte para essa produção e abram possíveis trilhas de leitura. Num país cujas políticas públicas eram marcadas pela tradição da ausência do estado (conforme observa Albino Rubim2), não basta apenas produzir a literatura, como também se debruçar sobre ela e estudá-la, ter pesquisas acadêmicas e estudos sistêmicos – até como forma que dessas obras não venham a cair no esquecimento.
É lugar comum entender a importância da cultura na formação da identidade de um povo. Infelizmente, o município de Valença mostra-se carente de uma reflexão mais aprofundada de sua cultura regional – mesmo considerando que atualmente ela é uma cidade universitária (contando inclusive com cursos superiores de Letras).
Diante desse contexto é que surge esse volume, como primeira tentativa de se sistematizar a literatura valenciana.
O livro foi concebido exatamente para ser um pequeno guia de referência da literatura valenciana, apontando autores, instituições e fatos literários expressivos. Declaradamente visa preservar a memoria do que se tem até agora produzido, a fim de que futuramente sirva de subsídios para estudos críticos mais aprofundados.
Deste modo, o livro foi organizado em duas partes: a primeira, introdutória, foi feito um perfil geográfico, histórico e cultural do município. Procura-se contextualizar para o leitor em quais condições é produzida essa literatura e em quais bases residem suas especificidades. Na segunda, há os verbetes propriamente ditos literatura. Para tanto foram usados os seguintes critérios na hora da organização:

a)      Autores: Optou-se por inserir em verbetes aqueles que tenham publicados pelo menos um livro ou que tenham participado de pelo menos duas obras coletivas, ou uma obra coletiva e colabore constante na imprensa. Assim, privilegiam-se os escritores que tenham uma obra mais densa, melhor delimitando os nomes realmente relevantes.
b)      Livros, Eventos e Fenômenos: Além de um verbete específico sobre as antologias já publicadas, há verbetes para obras, fenômenos e eventos que por si apresentam relevância dentro da história literária valenciana, seja (por exemplo) um evento cristaliza um grupo de escritores ou livros que colocam como marcos na historiografia literária.
c)      Instituições: São citadas as principais instituições que, de alguma forma, fomentam e promovem a literatura regional.

Diante a pretensão que obra se arvora, considera-se, entretanto, reconhecer que essa obra não se apresenta fechada e detentora do julgamento final. Conforme foi dito anteriormente, a literatura valenciana ainda é um território inexplorado. Mesmo que esse livro se apresente após uma longa pesquisa e reflexão sobre os autores da região, há a possibilidade de que ocorram omissões indesculpáveis ou escolhas passíveis de contestações. No caso, só resta ao autor ouvir serenamente as críticas construtivas e fazer as devidas emendas nas próximas edições.
Em suma, espera-se que o cacau, o cravo e o dendê presente na escrita desses autores e autoras encantem o leitor.
A todos, um bom passeio por essa praia ainda virgem!

Ricardo Vidal

Notas
1. Período iniciado em 2005, com a publicação de antologia Valenciando: antologia de escritores de Valença e que vai se caracteriza pela grande quantidade e diversidade de títulos recentemente publicados em Valença. Para mais detalhes, ver o verbete homônimo na página XX.

2. Ver As políticas culturais e o governo Lula. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo: 2001 (Brasil em debate; vol. 5)

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Via Lactea revisitada

Via Láctea, revisitada
(Para Mustafá Rosemberg e Maurício Sena)

Valença; 23 de junho de 2014 (19h33)

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! (…)
Via Láctea XIII – Olavo Bilac

Queria eu, dos quasares quânticos, ouvir encantos
De uma sereia cósmica perdida na escuridão.
E dentre poemas, queria sentir os silenciosos cantos
Do pulsar solitário a admirar a imensidão.

Queria, com meus dedos frios, ficar dissecando
Bósons de Higgs em meio ao oriônico Cinturão.
E nesse laboratório acima de pecados miserandos,
Veria que o ser humano (coitado!) é fugaz botão.

Abro a janela para contemplar os rubros cometas
Que cruzam a distantes galáxias como mensageiros
De mistérios maiores a habitar longínquos exoplanetas.

Sim, no meio da Via Láctea, em sua placidez sideral,
Reina um bom senso e uma paz, que me faz estrangeiro
Em meio da mesquinharia de minha Humanidade natal…


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Elogio para Edgard

Elogio para Edgard
(Um discurso sobre a saudade)

Valença; 05 de junho de 2014

O ano de 2014 foi especialmente triste para Valença. Por três vezes, novas estrelas brilharam na constelação da imortalidade. Por três vezes, a saudade se fez presente nos corações às margens do rio Una.
Em Janeiro, a poetisa que imortalizou “A Decidida” em prosa e versos, a educadora que se dedicou a forjar gerações e gerações de valencianos insignes, a primeira presidenta de nossa academia e eterna confreira, Macária Andrade, abriu essa senda. Sua memória estará sempre conosco, como mais adiante iremos falar nos trabalhos de nosso sodalício. Contudo, se para uma perda tão grande o tempo ainda não dera o devido remédio, em maio vimos nossa cidade perder mais dois nomes.
Um foi Washington, futebolista que jogou na seleção canarinho e cuja arte estava em mostrar porque o esporte bretão encontrou nos trópicos sua pátria mais firme e que, depois de longa doença, fora escalado na seleção celeste onde estão jogando Garrincha, Nilton Santos, Dr. Sócrates e Leônidas da Silva. Já o outro nome foi o do nosso confrade Edgard Otacílio da Silva Oliveira. E sobre ele gostaria de dizer algumas singelas palavras.
Edgar Oliveira, baiano de Santa Inês da safra de 1955, é o típico caso do valenciano por adoção. Aqui chegou e aqui se encantou. Como ele mesmo me disse certa feita: “Estou evoluindo: saí da Barra, para vim morar no Tento e por fim, na zona rural”. Conforme se observa no seu próprio currículo lattes, depois de trabalhar no Conjunto Petroquímico Presidente Vergas e no Terminal Químico de Aratu, Edgard veio com a família para estudar Pedagogia no então recém-inaugurado campus XV da UNEB. Formou-se pedagogo e depois em Filosofia, sendo que, para o último, apresentou o trabalho “Valença: sua história (conheça-te a ti mesmo)”. Mais tarde, na FACE, fez a especialização em Gestão e Educação Ambiental, com o trabalho “A cidade de Valença e o rio Una” e o mestrado profissionalizante em Teologia e Educação Comunitária, cuja dissertação tem por título “Os Processos Inquisitoriais e a Formação Cultural do Povo brasileiro”.
Como educador, trabalhou em diversos colégios da cidade e na Faculdade de Ciências Educacionais, no Núcleo de Pesquisa, Pós-Graduação e Extensão.
Mas o seu nome entra para os anais da cultura valenciana como Historiador. Se, antes dele, os livros que versam mais claramente sobre o passado de nossa cidade são “A Sombra da Guerra”, de prof. Guto Moutinho; “Valença: Memórias de uma cidade”, do nosso confrade Araken; o “Industrial Cidade de Valença: um surto de industrialização na Bahia no século XIX”, de Waldir Freitas e a já esquecida brochura de Prof. Brasílio Machado, “Notas Geográficas da Cidade de Valença”; nosso confrade Egdard expande mais esse horizonte. Em 2006 sai sua magnum opus “Valença: dos primórdios à contemporaneidade”. Livro que já chegou à terceira edição e que se tornou uma das leituras obrigatórias de qualquer pessoa que ame Valença. Assim como o de Araken, Edgard se aprofunda sobre a história de nossa cidade, caça todas as informações disponíveis e traça um estudo amplo e completo sobre ela. Mas, na prosa de Edgard, essa história nos é transmitida de um jeito sereno e doce. E ricamente documentado em fotos e ilustrações. Ele traz informações curiosas, como o fato de já a Câmara Municipal de Valença receber ordens para o envio de mantimentos para Salvador, uma vez que a frota em que vinha a Corte Portuguesa de Don João VIº iria aportar lá, enquanto fugia de Napoleão Bonaparte. Além dessa obra, ele enriquece a historiografia valenciana com os trabalhos “CVI - 160 anos de uma profunda relação social com o povo de Valença”, “A História da Igreja Nossa Senhora do Amparo” (em coautoria com nosso confrade Francisco Neto) e, finalmente, “Serapuí: sua história, belezas e lendas”.
Sua preocupação com a história e cultura de Valença não se limitou a livros. Também se traduziu em ações. Nos últimos anos, estava articulando com o Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia um documentário sobre os afundamentos dos navios Itagiba e Arará, atacado pelo infame submarino alemão U-507. Da mesma forma (juntamente com os confrades Mustafá e Galvão) que auxiliou Marcelo Monteiro com informações cruciais para que esse escrevesse o “U-507, o submarino que afundou o Brasil na Segundo Guerra Mundial”. E, igualmente, foi um dos artífices para que esse ano pudesse vir a lume a coleção “Literatura do Baixo Sul”.
No caso da coleção, ela mostra claramente sua faceta generosa: generosa em dividir o conhecimento, generosa em ajudar no progresso intelectual da cidade, generosa em conversar com jovens.
Pessoalmente, lembro-me da minha primeira conversa que tive com ele, durante uma das primeiras edições da “Ocupação Cultural”. Ele comentou, com certo entusiasmo e clara empatia, sobre alguns dos meus artigos que havia escrito anteriormente sobre a História Valenciana. Mais tarde, no seu autógrafo a minha edição do “Valença: dos primórdios para contemporaneidade”, deixou-me transparecer um sutil desejo de que os estudos sobre o e a cultura valenciana não se limitassem apenas a ele, mas que outras pessoas também se interessem em estuda-la com afinco e tragam mais coisas novas para que todos possam ter acesso.
Nosso confrade Edgard faleceu, infelizmente. Perdemos a chances de vermos mais outros livros importantes que desvendem a nossa história. Mas, quando eu vejo antes dele partir para o desconhecido, outros livros que se voltam sobre a história de nossa região foram publicados (a exemplo do de Francisco Neto e o de Márcio Viera), creio que ele sentiu que as sementes lançadas começaram a brotar. E, se depender de nossa Academia, ele ainda irá frutificar mais e mais.
No mais, só nos resta saudade de nosso confrade, agora, mais do nunca, um verdadeiro Imortal. Evoé, Edgard, Evoé!

Elogio para Edgard

Elogio para Edgard
(Um discurso sobre a saudade)

Valença; 05 de junho de 2014

O ano de 2014 foi especialmente triste para Valença. Por três vezes, novas estrelas brilharam na constelação da imortalidade. Por três vezes, a saudade se fez presente nos corações às margens do rio Una.
Em Janeiro, a poetisa que imortalizou “A Decidida” em prosa e versos, a educadora que se dedicou a forjar gerações e gerações de valencianos insignes, a primeira presidenta de nossa academia e eterna confreira, Macária Andrade, abriu essa senda. Sua memória estará sempre conosco, como mais adiante iremos falar nos trabalhos de nosso sodalício. Contudo, se para uma perda tão grande o tempo ainda não dera o devido remédio, em maio vimos nossa cidade perder mais dois nomes.
Um foi Washington, futebolista que jogou na seleção canarinho e cuja arte estava em mostrar porque o esporte bretão encontrou nos trópicos sua pátria mais firme e que, depois de longa doença, fora escalado na seleção celeste onde estão jogando Garrincha, Nilton Santos, Dr. Sócrates e Leônidas da Silva. Já o outro nome foi o do nosso confrade Edgard Otacílio da Silva Oliveira. E sobre ele gostaria de dizer algumas singelas palavras.
Edgar Oliveira, baiano de Santa Inês da safra de 1955, é o típico caso do valenciano por adoção. Aqui chegou e aqui se encantou. Como ele mesmo me disse certa feita: “Estou evoluindo: saí da Barra, para vim morar no Tento e por fim, na zona rural”. Conforme se observa no seu próprio currículo lattes, depois de trabalhar no Conjunto Petroquímico Presidente Vergas e no Terminal Químico de Aratu, Edgard veio com a família para estudar Pedagogia no então recém-inaugurado campus XV da UNEB. Formou-se pedagogo e depois em Filosofia, sendo que, para o último, apresentou o trabalho “Valença: sua história (conheça-te a ti mesmo)”. Mais tarde, na FACE, fez a especialização em Gestão e Educação Ambiental, com o trabalho “A cidade de Valença e o rio Una” e o mestrado profissionalizante em Teologia e Educação Comunitária, cuja dissertação tem por título “Os Processos Inquisitoriais e a Formação Cultural do Povo brasileiro”.
Como educador, trabalhou em diversos colégios da cidade e na Faculdade de Ciências Educacionais, no Núcleo de Pesquisa, Pós-Graduação e Extensão.
Mas o seu nome entra para os anais da cultura valenciana como Historiador. Se, antes dele, os livros que versam mais claramente sobre o passado de nossa cidade são “A Sombra da Guerra”, de prof. Guto Moutinho; “Valença: Memórias de uma cidade”, do nosso confrade Araken; o “Industrial Cidade de Valença: um surto de industrialização na Bahia no século XIX”, de Waldir Freitas e a já esquecida brochura de Prof. Brasílio Machado, “Notas Geográficas da Cidade de Valença”; nosso confrade Egdard expande mais esse horizonte. Em 2006 sai sua magnum opus “Valença: dos primórdios à contemporaneidade”. Livro que já chegou à terceira edição e que se tornou uma das leituras obrigatórias de qualquer pessoa que ame Valença. Assim como o de Araken, Edgard se aprofunda sobre a história de nossa cidade, caça todas as informações disponíveis e traça um estudo amplo e completo sobre ela. Mas, na prosa de Edgard, essa história nos é transmitida de um jeito sereno e doce. E ricamente documentado em fotos e ilustrações. Ele traz informações curiosas, como o fato de já a Câmara Municipal de Valença receber ordens para o envio de mantimentos para Salvador, uma vez que a frota em que vinha a Corte Portuguesa de Don João VIº iria aportar lá, enquanto fugia de Napoleão Bonaparte. Além dessa obra, ele enriquece a historiografia valenciana com os trabalhos “CVI - 160 anos de uma profunda relação social com o povo de Valença”, “A História da Igreja Nossa Senhora do Amparo” (em coautoria com nosso confrade Francisco Neto) e, finalmente, “Serapuí: sua história, belezas e lendas”.
Sua preocupação com a história e cultura de Valença não se limitou a livros. Também se traduziu em ações. Nos últimos anos, estava articulando com o Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia um documentário sobre os afundamentos dos navios Itagiba e Arará, atacado pelo infame submarino alemão U-507. Da mesma forma (juntamente com os confrades Mustafá e Galvão) que auxiliou Marcelo Monteiro com informações cruciais para que esse escrevesse o “U-507, o submarino que afundou o Brasil na Segundo Guerra Mundial”. E, igualmente, foi um dos artífices para que esse ano pudesse vir a lume a coleção “Literatura do Baixo Sul”.
No caso da coleção, ela mostra claramente sua faceta generosa: generosa em dividir o conhecimento, generosa em ajudar no progresso intelectual da cidade, generosa em conversar com jovens.
Pessoalmente, lembro-me da minha primeira conversa que tive com ele, durante uma das primeiras edições da “Ocupação Cultural”. Ele comentou, com certo entusiasmo e clara empatia, sobre alguns dos meus artigos que havia escrito anteriormente sobre a História Valenciana. Mais tarde, no seu autógrafo a minha edição do “Valença: dos primórdios para contemporaneidade”, deixou-me transparecer um sutil desejo de que os estudos sobre o e a cultura valenciana não se limitassem apenas a ele, mas que outras pessoas também se interessem em estuda-la com afinco e tragam mais coisas novas para que todos possam ter acesso.
Nosso confrade Edgard faleceu, infelizmente. Perdemos a chances de vermos mais outros livros importantes que desvendem a nossa história. Mas, quando eu vejo antes dele partir para o desconhecido, outros livros que se voltam sobre a história de nossa região foram publicados (a exemplo do de Francisco Neto e o de Márcio Viera), creio que ele sentiu que as sementes lançadas começaram a brotar. E, se depender de nossa Academia, ele ainda irá frutificar mais e mais.
No mais, só nos resta saudade de nosso confrade, agora, mais do nunca, um verdadeiro Imortal. Evoé, Edgard, Evoé!

domingo, 25 de maio de 2014

Canção do Farol Mudo

Canção do Farol Mudo

Valença; 24 de maio de 2014 (03h59)

Sobre um sol ruivo na imensidão,
Meu farol se calou.
Cansou da indiferença das ondas
E teimosia das Naus.
Nos novos códigos de seu silêncio,
Resolveu-se se rebelar:
Será um falo iracundo no horizonte,
Zombando da vida,
Enquanto sorrir ternamente para as estrelas…


Canção do Ninho de Amor

Canção do Ninho de Amor

Valença; 21 de maio de 2014 (21h23)

Sou um ninho de amor, cheio de estrelas,
O sonho cósmico que fecunda as mentes.
Deixo correr meu estro:
Serei um sátiro em meio às ninfas
E em uma cama sobre as galáxias
Repetirei os ritos flambados da Criação.

Sou um ninho de amor entre cometas,
Alcova ctônica onde descubro os mistérios.
Corro meus poemas altaneiros
Como uma lança turquesa lançada no infinito
E explodo minhas paixões e delírios
Através dos oceanos de orquídeas selvagens.

Sou um ninho de amor,
E Eros é o deus de minha alma,
Que transforma em alquimia
Todos os sonhos e desejos e estrelas…
Pois o poeta nutre-se do amor das esferas.


Balada Amarga

Balada Amarga

Valença; 24 de maio de 2014 (03h48)

Hoje o meu estro mergulhou em um oceano de amargura
E passou descrê na Humanidade. Sim, virei descrente…
Não há como olhar as estrelas sem ficar com vergonha de nós:
Vergonha de nossos pensamentos,
Vergonha de nossa mesquinhez,
Vergonha de nosso sorriso impróprio,
Vergonha de nosso choro contido,
Vergonha ter termos vergonha…
Penso, se acaso pudéssemos cavalgar um poema
E dar um giro nesse carrossel de cometas
Que são nossos sonhos, veríamos o verdadeiro tamanho
Que é a nossa humanidade…
Ah, como penso na riqueza dos exoplanetas
E no silêncio quântico da matéria escura!
Como penso na arte como a décima dimensão da matéria!
Como penso na filosofia como a quinta-essência do Tempo!
E tudo que ser humano possui é a sua pequenez.
E é gozado ver a contradição: Pegamos nossos foguetes
Para construir um universo de paz e ambições nobres
No qual espelhamos as nossas falhas…

Sim, musa, meu estro está ácido como a atmosfera de Vênus
E meus olhos amargos censuram a cretinice da ex-amada.
Sei que também tenho meus momentos de vilania,
Sei que também sou humano, demasiadamente humano nos meus erros…
E não me vanglorio quando rasgo a seda da realidade
E confesso que minhas quimeras moram no infinito.
E de lá do infinito ergo castelos de cristais e poeira,
Zarpo numa espaçonave de chocolate
E marinheiro de minhas dores, cravo minha bandeiras
Nos territórios perdidos da palavra ignota.
Sim, musa estelar com voz de uirapuru
E cabelo negro de uma Cleópatra hollywoodiana,
Sei que minha canção é um delta sideral do Okavango,
Bebeu nas fontes de Bandeira e Morais,
É filho bastardo de Nietzsche e das flores,
E que em nada há de ser sublime ou divina na sua pequenez.
Sei que a província é amada por ser meu exílio,
Meu eterno refúgio das sombras onde lanço minha nau.
Mas eu quero ser um Napoleão das páginas em branco.
Vestir a roupa de Átila e cruzar esse território de dragões,
Devastando as consciências tranquilas e as hipocrisias.
Quero ser o cataclismos do “coxinhas” cegos
A desafinar o coro dos conformados.
E com sabre de minha lira, farei cair em si
E desesperar e descabelar e descentrar
Tanta vida esnobe e vazia na Teia Mundial.

Mas não há como ser uma Poliana jogando o jogo do contente,
Quando todos os dias uma Sheherazade carnívora
Vomita sua virulência farisaica no ventilador.
Não, quando o rebanho insiste em nos levar para direita,
Por o Grande Irmão assim o quer por capricho.
Então minha crítica procura o cosmo para refúgio,
Na esperança de que um buraco-negro

Possa levar-me a um novo Big Bang…

domingo, 18 de maio de 2014

Canção a Moda Tatiba

Canção a Moda Tatiba
(para meus amigos Taciano e Isamara)

Valença; 17 de abril de 2014

Quero todos os temperos dessa vida
Misturado com centauros e estrelas,
Para que eu possa comer num banquete.
Quero todos os vinhos sentimentais
Derramados no cristal do olhar,
Para acompanhar meu petit gateau.
Quero todos os sabores e sonhos,
Todos os aromas e auroras,
Todos os pratos e poemas,
Reunidos numa única estação poesia.

              Quero degustar, dentre galáxias,
              As fadas verdes e o alecrim dourado
              Que nascem além do luar vermelho.
              Quero as papilas encantadas
              Com as novas alquimias tatibas.

Quero temperar com música a mocidade
E no meio da boa boemia, rasgar
O horizonte como um carrossel de delícias.
Quero fecundar o paladar com surpresas,
E no jambalaya, embriagarei o olhar.
Quero mojitos como cometas cubanos
Preenchendo o céu de veludo flambado,
Salpicado de pérolas e sorrisos.
Ah! Mágica Estação de delícias!
É com essas especiarias singulares
Que seguirei a vida como menestrel dos sabores…


Soneto a Moda Tatiba

Soneto a Moda Tatiba
(para meus amigos Taciano e Isamara)

Valença; 17 de abril de 2014

Com alho eu tempero o mistério
Que fará do prato uma sinfonia.
E com o curry, entro em sintonia
Para que o guisado fique feérico.

O molho, no fogo, acerta o ponto. Pronto!
Baila magistralmente o camarão na panela,
Dourando o abacaxi com sonhos de canela.
O segredo do jambalaya? Esse não conto…

A noite ganha novos aromas e sabores,
Quando chegam os namorats enamorados.
E o filé alto (que delícia!) convida ao pecado,

Os vinhos formam um caleidoscópio de olores
E o mojito lunar completa essa doce alquimia

De tempero e arte dessa singular Estação Poesia.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Ode Patetica

Ode Patética

Ricardo Vidal
Salvador, 11 de setembro de 2003 
Meu coração é uma bandeira desfraldada
Em cima do infinito,
Que brada um grito aflito
Ao senhor dos céus, das terras e dos abismos.

É uma quimera suja solta no espaço-tempo,
A voar lenta e louca,
Com sua voz rude e rouca,
Pelas planícies sublimes de meus paroxismos.

É uma pantera a devorar tebanas esfinges,
Que se encontram perdidas
E jazendo esquecidas
Dentre os cometas arcanos da negra Alvorada.

Seja o que for, meu coração: tu, somente tu, 
Semente ou quimera,
Estandarte ou pantera,
Irás me acompanhar insigne até o misterioso Nada… 

sábado, 19 de abril de 2014

Rondó Marinho

Rondó Marinho

Vera Cruz, 15 de janeiro de 2014

Vamos ver o mar nesta manhã clara, ardente,
Veja com que carinho a praia quer beijar.
Elegante se forma em onda sorridente
Opulento, pomposo, na areia debruçar.
Noivado no Mar – Mustafá Rosemberg

O sorriso da sereia amanhece nas ondas,
Conduzindo o meu saveiro pela selvagem baía.
Sereias de pele de coral e olhos felinos,
Seus encantos são o farol negro onde deito meu cansaço,
São as pérolas raras que colho no sol nascente
Desse horizonte azul e morno tão puro.
Meu saveiro pescou no oceano mágico
De teus lábios um coração de raro coral
E, como um búzio de guerra de Krishna,
Anuncio nele, aos quatros ventos, o seu império.
Sereia, ao negro toque do agogô ancestral,
Quero navegar entre teus orgasmos felinos
E como meu tridente eu te levarei ao infinito.


Lições de Abril: revolução portuguesa e ditadura brasileira

Lições de Abril: revolução portuguesa e ditadura brasileira

Valença; 19 de abril de 2014 (00h56)

Duas datas em abril marcam profundamente a história política recente do Brasil e de Portugal, e que, nesse ano de 2014, leva a muitas reflexões sobre a importância de se construir uma democracia social e forte. Nessa sexta, dia 25, os portugueses comemoram os 40 anos da Revolução dos Cravos. E no primeiro de abril passados, os brasileiros relembraram os 50 anos do golpe que derrubou o governo constitucional de João Goulart e implantou a Ditadura Militar.
Em ambas as datas, a participação dos militares foi determinante para decidir o futuro político da nação. Mas, se no Brasil, a ação dos generais e almirantes levou a uma ditadura longeva e sanguinária; em Portugal aconteceu o inverso: o Movimento das Forças Armadas (MFA), formados majoritariamente por capitães, abriu o caminho para que o sol da democracia plural e republicana volta-se a nascer nas terras lusitanas.
Dez anos separam os dois fatos ocorridos. Em 1964, o crescente apoio popular para as reformas de base proposta por Jango, para o avanço necessário de nossas instituições democráticas encontrou forte resistência dos setores conservadores da sociedade brasileira. Assim, contando com suporte financeiro dos Estados Unidos, esses setores conspiraram com a nata do generalato e do almirantado brasileiro para a derrubada do presidente. Em 31 de março ocorreu a movimentação das tropas e no dia seguinte o Congresso Nacional declarou vaga a presidência da república (diga-se de passagem, de forma ilegal, haja vista que o presidente ainda se encontrava em território nacional). E, curiosamente, no dia da mentira, os golpistas declaram vitoriosa a (pseudo) Revolução “Redentora”. O resultado foram 25 anos de regime de exceção, com arrocho salarial, suspenção dos direitos humanos mais elementares, torturas, mortes e exílio de patriotas.
Já em 1974, os portugueses encontravam-se em um momento de crise. As torturas e a perseguição política, isolamento internacional, estagnação econômica e a guerra colonial na África levavam ao enfraquecimento do Estado Novo salazarista (regime fascista surgido em 1933, sucedendo a Ditatura Nacional surgida em 1926). Em resposta a essa situações, capitães reunidos no MFA deslocaram suas tropas durante a madrugada de 25 de abril para ocupar os pontos estratégicos de Lisboa. E durante todo dia, quando a população soube do levante, também aderiu à causa dos militares. Como sinal do caráter pacífico da revolução, passou-se a distribuir cravos vermelhos para os soldados, que os levavam dentro dos canos das espingardas. O governo ditatorial praticamente caiu sem resistência (exceto uma escaramuça por parte da política, os demais setores da burocracia ditatorial aceitaram apáticos à mudança de chefia da nação) e nos dois anos seguintes (conhecido como “Período Revolucionário em Curso”), Portugal viveu um rico período de liberdade e reorganização do Estado, com respeito a pluralidade ideológica. Houve a adoção de políticas sociais e democráticas avançadas, que culminaram, dentre outras coisas, no processo de independência em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Dois anos depois, com a entrega da Constituição de 1976, os militares discretamente saíram da cena política, retornando à condição constitucional de servidores públicos no setor da defesa da república.
Diante desses dois fatos históricos, salta aos olhos o contraste na atuação das duas Forças Armadas. A doutrinação autoritária que os generais brasileiros conduziram o Brasil para três décadas perdidas em avanços sociais, com o sucateamento da educação, a falta de liberdade da ação sindical e a instalação de clima de terrorismo de Estado, que resultou em torturas e mortes de patriotas brasileiros que não concordaram com o regime de exceção. E sequelas desse período ainda hoje nós sentirmos, não apenas com a dificuldade da instalação das Comissões da Verdade (cuja apuração dos crimes cometidos pelo Estado visa à necessária pacificação histórica da nossa sociedade). A falta de educação política, aliados ao fisiologismo, à corrupção, ao personalismo ainda gracejam como câncer no nosso cenário político, são os frutos que ainda colhemos devido à Ditadura Militar.
Em contrapartida, os militares portugueses perceberam que seu papel profissional de servir na defesa do Estado implicava, em última análise, na defesa das liberdades e do bem estar do povo. Destituiu uma ditadura, quando era necessária, sem se apossar do poder para gerar outra quimera. No chamado Período Revolucionário em Curso, tiveram a sabedoria de permitir que a pluralidade ideológica voltasse a aflorar no seio da sociedade portuguesa, permitindo que tanto conservadores de diversos matizes, democrata-cristãos, liberais, socialistas e comunistas de todas as tendências pudessem participar no processo da elaboração de uma nova norma constitucional. E, evitando cair na tentação de monopolizar o poder, souberam sair de cena com serenidade, voltando a cumprir sua função primária de defesa.
Essa é a grande lição que o Abril de 2014 deixa: A democracia com justiça social ainda é o melhor regime que uma sociedade pode viver e, como valor perene, deve ser preservado. Conquistas como a entrada de Portugal na União Europeia e as atuais políticas sociais implantadas no Brasil só foram possível durante os períodos em que Democracia floresceu nos dois países. E mesmo que escândalos e crises possam ocorrer, devemos lutar para não ocorra novas intervenções militares na vida política nacional. Tanto no Brasil como em Portugal, o mais se precisa é de cravos vermelhos florindo em abundância, para adornar e fortalecer a Democracia.

Ricardo Vidal
Escritor e Professor, especialista em Estudos Literários pela UFBA. Membro da Academia Valenciana de Educação, Letras e Artes.

terça-feira, 11 de março de 2014

Odalisca Celeste

Odalisca Celeste

Valença; 11 de março de 2014 (04h04)

Quero, no meio de um serralho nas Arábias,
Ser teu sheik beduíno a vogar pelos oásis,
Cavalgar dentre as dunas de tua pele macia
E beijar minha odalisca de tez de tâmara.

Dentre sedas e mistérios, incensos e djins,
Quero deitar minha cabeça em teus seios
E entoar uma canção para os teus sorrisos
Nascerem como uma explosão de estrelas.

E com o luar doce a azul dentre as palmeiras,
Decifrarei os arabescos dos teus anelos pretos,
Poema que teus beijos acendem no horizonte.

Pérola circassiana a resplandecer nas galáxias,
Quero teus orgasmos felinos para que possa
Escrever teu nome nos pilares eternos d’aurora.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Soneto Nordestino de Sete Cabecas

Soneto Nordestino de Sete Cabeças

Valença; 21 de setembro de 2014 (00h41)

Pérola de cabelos de Avôhai dançando nas nuvens
E com olhos misteriosos de um frevo-mulher,
Perco-me nos labirintos dos seus anelos e miragens,
Carregados de um sertão de avatares e mistérios.

Procuro nas curvas de tua feminilidade um sonho
Doce, como eternas ondas de sorriso matutino,
Passando para além de um horizonte tristonho
E fundando carinhos verdes, de sol cristalino.

Nessa peleja com o dono do céu eu faço essa canção
Torta, mas de sincero afeto admirado de um poeta,
Armo a hipérbole de meus versos com riscos no chão.

A beira-mar eu galopo nesse martelo sincopado,
Ramalhando meus elogios como o Touro de Creta,
Para dizer-te que és a musa maior a acender meu fado.

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)