Sua Majestade, O Bardo

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Escritor, autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Graduado em Letras/Inglês pela UNEB Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

UM MODELO INTERPRETATIVO DE CRITICA CULTURAL PARA O ESTUDO DA LITERATURA EROTICA DE AUTORIA FEMININA

um modelo interpretativo de crítica cultural para o estudo da literatura erótica de autoria feminina


José Ricardo da Hora Vidal [1]

1 Introdução

O objetivo desse artigo é discutir um método interpretativo de crítica cultural para os estudos dos contos eróticos de Anaïs Nin, a partir das ideias de Silviano Santiago, expressas no ensaio “Análise e Interpretação”, publicada na obra Uma Literatura nos Trópicos. O trabalho se dividirá em três momentos: 1) Discutir conceito estruturalista de análise e a sua limitação para a investigação literária. 2) Discutir a diferença entre a o modelo pós-estruturalista de interpretação expresso por Deleuze, Nietzsche e Derrida e como ele amplia o campo de pesquisa da literatura. 3) Mostrar como o modelo interpretativo pode ser aplicado à análise dos contos eróticos de autoria feminina, tendo como exemplo os textos de Anaïs Nin. Finalmente, serão feitas as considerações finais.
Para uma melhor compressão do trabalho, faz necessário conhecer Anaïs Nin, escritora de expressão anglófona do início do século XX que se notabilizou pelos seus diários e escritos eróticos. Vivendo nos loucos anos 20 e casada com Hugh Parker Guiller, manteve uma vida sentimental bem movimentada, datando desta época o affair com o casal June e Henry Miller. E, foi através do seu amante (escritor de verve erótica), que ela começou a escrever os contos eróticos que viriam a formar os volumes “Delta de Vênus” (2006) e “Pequenos Pássaros” (2007) e no poema em prosa “A Casa do Incesto” (1991).
Na gênese de seus contos, Anaïs Nin conta que os escreveu inicialmente por encomenda de um colecionador anônimo, pagando um dólar a página e exigindo apenas que nos contos fosse cortada a poesia e ficasse apenas “o sexo clínico, privado de toda a calidez do amor – a orquestração de todos os sentidos, toque, audição, visão, paladar” (NIN: 2006, p. 8)[2]. Este fato, como ela conta no prefácio de “Delta de Vênus”, levou-a a observar que não existia uma tradição de escrita erótica feminina, fazendo- a concluir que

tinha a sensação de que a caixa de Pandora continha os mistérios da sensualidade da mulher, tão diferente da sensualidade do homem e para qual a linguagem do homem era inadequada. A linguagem do sexo ainda estava para ser inventada. A linguagem dos sentimentos ainda estava para ser explorada. D H. Lawrence começou a dar uma linguagem para o instinto, tentou escapar da linguagem clínica, científica, que captura apenas o que o corpo sente. (NIN: 2006, p. 9)

Diante dessa apresentação inicial e considerando os pontos que serão discorridos ao longo do artigo, uma reflexão entre o modelo estruturalista de análise e o modelo pós-estruturalista de interpretação se faz necessário.

2 MODELO ESTRUTURALISTA DE ANÁLISE


Silviano Santiago apresenta, no referido ensaio, dois modelos a serem aplicados nos estudos literários: o modelo estruturalista da análise e o modelo pós-estruturalista da interpretação.
Ele caracteriza que a análise “pressupõe e supõe um trabalho bifásico, às vezes sucessivo, às vezes paralelo, em que, de um lado, um processo primeiro de decomposição do objeto de estudo molda-se, por outro lado, a processo de recomposição que explica ou explicita o significado do objeto” (2000: p. 200-201). Ou seja, análise parte de um processo de divisão e dissecação dicotômica do objeto para reagrupá-lo em um novo todo que explique-o. Mais adiante, Silviano Santiago considera que a análise é
antes de mais nada, um exercício de superposições de lógicas diferentes – diferentes, entendemos antes o termo: falando a mesma coisa, em níveis diferentes. As figuras representativas de uma determinada forma de organização existente casualmente no objeto de estudo devem suceder figuras de uma lógica formal capaz de englobar, em seu racionalismo, essa organização casual e de ajuntar ao objeto um simulacro (complemento e superposição, portanto) de nova ordem, que explicita melhor que a primitiva organização o verdadeiro e profundo significado do objeto (2000, p. 201, grifos do autor)

Compreende-se então que o processo de análise faz com que o objeto de pesquisa seja dividido em segmentos estanques que serão estudados segundo as faces de um prisma. Salienta-se que é o mesmo objeto, mas visto por perspectiva diferente no qual um lado ganha relevo. Como consequência, esse conjunto de perspectivas organizadas que se apresentam casualmente seriam ordenados como se obedecessem uma lógica formal sucessiva e simultânea já existente e que envolveria tanto o conjunto de qualidades como o próprio objeto em um simulacro (ou seja, uma representação de nova ordem) que explicaria melhor, mais verdadeira e profundamente o próprio objeto – tornando explícito o que estava anteriormente implícito. Por exemplo, uma análise literária do conto Marianne[3], de Anaïs Nin, implicaria em decompor a estória em seus elementos como tempo, ação, foco narrativo, personagens, etc, para depois reagrupá-los em um novo texto crítico que explicaria o conto.
Esses dois processos são o que Roland Barthes chama de découpage e agencemet. Haveria primeiro uma desmontagem do objeto de estudo em estruturas para depois ocorrer o seu rearranjo, no qual, a síntese surgida desse processo não apresenta como cópia, mas como um “simulacro”, uma “fabricação verdadeira de um mundo que se assemelha ao primeiro, não para copiá-lo, mas para o torná-lo inteligivel” (BARTHES apud SANTIAGO: 2000, p. 202). Disso, Santiago aponta que a análise é definida por três movimentos: desmontagem, arranjo e simulacro; no qual a ação estruturalista se define reconstruir o objeto de forma tal que, na reconstrução, as “regras de funcionamento (as ‘funções’)” do objeto venham à superfície. E o pesquisador processe, observando que a modelo estruturalista da análise acaba ecoando as ideias de Vladimir Propp em a Morfologia do Conto Maravilhoso, em que a estrutura dos contos seria um “jogo de constantes e variáveis”, no qual algumas partes são modificáveis (as personagens) e outras não (as ações ou funções)[4]. Sobre o simulacro, Santiago continua citando Barthes, mostrando que no simulacro da análise ocorre uma operação no objeto, no qual haveria um “acréscimo semântico (…) de valor metafísico”: o inteligível se uniria ao sensível., no qual “um complentava o outro e vice-versa” (SANTIAGO: 2000, p. 202)
A essa concepção barthesiniana da análise, é acrescentada ao que Gerard Genette tem sobre a crítica literária como bricolage – no caso, a crítica literária seria uma análise mais refinada que se estabelece como um metadiscurso. Contudo, observa-se que para o bricoleur, seu universo instrumental é fechado. No caso, o que difere o objeto do simulacro está expresso na “passagem de um conjunto instrumental dado a um conjunto a se realizar” cuja diferença está na disposição interna das partes. Ou seja, na bricolage, cada elemento da análise se estabele em um duplo estatuto: é ao mesmo tempo concreto e virtual, situado a meio caminho entre o o que é inteligível e o que é sensível – tal qual o signo é o meio do caminho entre o significante e o significado.
Tanto em relação à concepção de Barthes sobre recomposição por simulacro como a Genette sobre bricolage, Silviano Santiago considera que ambos tratam de
levantar os vários elementos significativos e constituintes do objeto "natural", dar a esses elementos um duplo estatuto (sensível e inteligível, significante e significado), po-los em movimento, analisando o mecanismo interno de funções ou o jogo relacional entre os elementos no interior do objeto (2000, p. 204)

Nesse caso, o fim da análise estruturalista é compreender o todo, que estaria cerrado artificiosamente em dicotomias formais, o que levaria uma visão bidimensional da realidade.
A essa altura, percebe-se que o modelo estruturalista da análise se apresenta como um método limitado. Ao se preocupar em conhecer o todo atráves das dicotomias fechadas em si, é levado a um conjunto fechado de resultados. Nesse ponto, a análise se restringe a dois postulados teóricos: o processo de reconstituição do objeto de estudo se reduz ou a reprodução de um exemplo único que se apresenta como matriz teórica, ou a um modelo teórico ideal estabelecido a priori e estabelecido em base “científicas” (no sentido positivista da palavra)[5]. Em ambos os casos, o conhecimento do todo não se segue a um conhecimento mais aprofundando. Em lugar de se chegar ao “porquê” do objeto, fica-se limitado a uma série sequencial de “como?” circunscrito a uma “lógica dicotômica e rígida, binária” (SANTIAGO: 2000, p. 205). Como consequência, os resultados obtidos por qualquer um dos postulados acima citados (principalmente se ligados ao estudos literários) estariam iluminados sobre por uma luz opaca. No caso, a explicação se limitaria ao “fechamento do(s) texto(s)” analisados, não se preocupando em vê-lo(s) quer na sua diferença, quer indo além do que se apresenta. Ou seja, não há a différance derridiana, que se estabele como um “momento anterior a toda a diferenciação, a toda conceituação binária, antecena portanto da metafísica ocidental” (SANTIAGO: 2000, p. 206)

3 MODELO PÓS-ESTRUTURALISTA DE INTERPRETAÇÃO


Em contraposição a esse modelo, Silviano Santiago contrapõe o modelo pós-estruturalista da interpretação. Ele considera que a análise estruturalista, baseada nos fundamentos científicos da linguística, negligenciava a intertextualidade. Concepções ainda não exploradas pelo estruturalismo começavam a ser gestadas para dar conta a estudos como o das obras completas de um autor, estudos esse que, mesmo formados por um conjunto de textos que possuem algo em comum, se exprimem de forma separada e em diálogo entre si.
Nesse ponto, três conceitos se escrevem para guiar o modelo pós-estruturalista de interpretação: diferença, transgressão e contradição.
Por diferença, entende-se como começar
a pensar a instância de articulação de um texto sobre outro(s). Não mais 

são considerados os textos isoladamente, ou como pertecentes a um único modelo do mesmo, mas como se diferenciando na repetição, como um diálogo 
entre o mesmo e o outro (2000, p. 208)


No caso, entende-se que a diferença é caminho pelo qual se faz o exercício da intertextualidade. No caso do estudo literário, os textos não se decompõe isoladamente em pedaços particulares ou reduzidos a uma fôrma padrão. Antes, são vistos em conjunto, traçando diálogos entre si e/ou com os demais campos do conhecimento. Por exemplo, o estudo dos contos que compõe o livro Delta de Vênus não seriam vistos em separado e desmontados em seus elementos, como dialogando entre si e com outros campos, como a a História (ou caso, ver como esses contos se enquadram dentro dos “Agitados Anos 20” do século XX), com a Psicanálise (principalmente se considerado que eles foram escrito no momento que a autores da época estavam descobrindo os princípios de Freud), etc.
Por trangressão, pode se entender como um processo de revaloração que se contrapõe a uma ordem estabelecida (no caso, a uma cultura dominante). Na interpretação, a trangressão se estabelece para questionar os valores que fundamentam um estudo, trazendo a tona outros que possam norteá-lo. Silviano Santiago observa como exemplo a aprorpiação de Oswald de Andrade de trechos da Carta de pero Vaz de Caminha, no qual os poemas oswaldianos se estabelecem como questionamentos aos “valores da cultura portuguesa, ocidental, branca e cristã” (SANTIAGO: 2000, p. 209). Isso também se aplicaria ao estudo dos contos eróticos de Anaïs Nin. Se a literatura erótica em si já se estabelece-se como um contraponto valorativo a dita “literatura séria e canônica” – e como tal, posto a margens nos estudos literários, a literatura erótica de autoria feminina se coloca como a margem da margem, uma vez que é escrita por uma mulher e que põe em xeque-mate os valores patriarcais que dominam a sociedade ocidental.
Já a contradição, esta se afirmaria
Pela diferença (e não por uma simples síntese), ela existe como conceito operacional, pois é ela que pode dar conta deste criar pela destruição, deste 

destruir pela criação, que mais e mais significa (estamos descobrindo um pouco tarde) o espírito moderno (2000, p. 209)


Ou seja, a contradição não se limitaria a uma mera operação dialética escrita na fórmula “tese mais antítese igual síntese”. A contradição, como meio operacional, já traz dentro do se bojo a sua afirmação e a sua negação. É o próprio meio em que se estabelece o diálogo que ocorre pelo conceito da diferença.
Silviano Santiago traz a contribuição de Deleuze e Derrida para a mudança de paradigma quanto ao modelo teórico de investigação nas ciência humanas, na medida em que ambos resgatam do limbo filosófico as categorias do discurso teórico da área. (que fora operacionalizado pelas então recentes descobertas da linguística). Embora haja diferenças, eles concordam que o discurso das ciências humanas deveriam ter um estatuto de ambiguidade. Isso significa que ultrapassar o velho modelo que circunscrevia-as a segmentos estanques e da prisão positivista de se encarar as ciências dentro do paradigma das ciências exatas, o que levaria a uma visão fechada de resultados – como acontecia com o estruturalismo.
Eles estão dentre as pessoas que começaram a fazer a releitura do estruturalismo através da releitura de outros filósofos, como Nietzsche.
Por exemplo, foi por meio do contacto do discurso nietzschiano sobre a linguagem (em paralelo a meditação sobre Freud) que serão colocados três problemas: a) O da verdade e de sua relação com linguagem (ou seja, do estatuto de validade lógica de uma sentença e de como essa validade é expressa), b) O da interpretação (ou seja, de um novo paradigma de estudo e investigação) e c) O da genealogia (ou seja, a da origem). Dentre esses problemas, o da Genealogia se inscreve com maior interesse porque era de central importância para Nietzsche (se se remeter à origem) e foi relegado a segundo plano ou mal interpretado pelos estruturalistas como um “começo”. Para tanto, a questão é colocada como sendo que “Genealogia quer dizer ao mesmo tempo valor de origem e origem dos valores. Genealogia opõe-se ao caráter absoluto dos valores com o seu caráter relativo ou utilitário” (DELEUZE apud SANTIAGO: 2000, p. 212). Nesse ponto, a Genealogia é a forma que se operacionaliza o conceito de transgressão citado anteriormente.
Como outro ponto para se entender o modelo de interpretação, Silviano Santiago comenta a redefinição de signo dentro do pensamento nietzschiano. Citando Foucault, Santiago observa que
percebemos desde o início que o signo e a linguagem não estão isentos de uma “avalização” por parte do intérprete ou do genealogista. Já no Livro do Filósofo (1872-1873), Nietzsche interpelava o “princípio de razão” que se repousava buma continuidade entre a linguagem e as coisas, num acordo pacífico e incondicional entre elas, propocionando então ao pensador a “ilusão” de que a linguagem podia ser a expressão adequada de todas as realidades (2000, p. 213)

O que essa citação coloca é que já não pode caber na investigação um único discurso ou forma discursiva que detenha o monopólio da explicação da realidade. No modelo estruturalista de análise, essa forma discursiva que age de modo imperalista reside na linguagem científica, formata dentro de padrão lógico herdado de Aristóteles e da Matemática. Na sua “exatidão”, ela traz a ilusão de que pode abarcar toda uma cosmovisão da realidade. O que a interpretação traz é a possibilidade de utilizar outras formas discursivas que também possam explicar a realidade, como no caso de se utilizar os próprios textos literários como potências téoricas que tragam cosmovisões paralelas as das ciências. Mais adiante, Silviano retoma Nietzsche para explicar que o ato de nomear é um ato de autoridade do homem – principalmente dos que dominam. “O homem impõe uma e sua interpetação e um e seu valor, quando utiliza criativamente a linguagem” (2000, p. 214).
Nesse ponto, após essas considerações, Santiago aponta os “dois princípios diretores da interpretação, segundo Michel Foucault”: 1) Ela é uma tarefa infinita. Ou seja ela não cessa em si e que nunca se completa porque não há nada de primeiro a ser interpretrado. 2) Tudo já é interpetação. Ou seja, ela se volta para si mesma, formando um movimento circular que definirá o movimento do conhecimento humano. Mais adiante, o pesquisador observa ainda que a interpretação é polissêmica, o que daria a impossibilidade de “dar conta da ‘totalidade”, o que levaria a se reconsiderar os conceito clássico de estrutura (2000, p. 215).
Assim, o modelo pós-estruturalista de interpretação se mostra melhor para uma investigação da literatura por ser mais amplo na obtenção dos resultados. Não se limitaria a um conjunto fechado de leituras rigidamente definidas. Antes, permite ampliar as possibilidades de estudos, abrindo para uma perpectiva crítico-cultural de explicação da realidade.

4 A INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS ERÓTICOS DE ANAÏS NIN


Conforme foi visto no tópico acima, o modelo pós-estruturalista de interpretação, quando aplicado à investigação literária (principalmente no que se relaciona à investigação da literatura erótica de autoria feminina), conduz a resultados mais amplos e profícuos – mormente quando contrastada com o modelo estruturalista de análise.
Pelo modelo de análise, a leitura dos contos eróticos de Anaïs Nin (como no caso de “Marianne” e  “Manuel”, presentes no livro Delta de Vênus) seria feita pela decomposição dos elementos dos contos (personagens, foco narrativo, tempo, local, etc) para depois reconstruir como estrutura de simulacros que, em última análise, reduziram-nos ao esquema de explicação fechado sobre o processo do voyeurismo feminino / exibicionismo masculino. Já na interpretação, que é por definição infinita e holística, os textos supracitados seriam investigados  pela sua diferença. Mesmo que em ambos os contos exista o resíduo da história de um homem cujo prazer se dá pelo exibição pública de sua genitália, eles seriam lidos entre si pela sua diferença – em “Marianne”, o exibicionismo ocorre na relação entre o casal Marianne e Fred, como se pode ver no seguinte trecho: “Eu estava realmente atormentada pelo desejo. Mas um homem daquele tipo está interessado apenas em que eu olhe para ele.” (NIN: 2006, p. 89)[6], enquanto em “Manuel”, o exibicionismo do personagem título é anônimo, como pode ser ver a seguir:
Manuel desenvolvera uma forma peculiar de se satisfazer que fizera sua família repudiá-lo, de modo que ele vivia como um boêmio em Montparnasse. (…) Mais cedo ou mais tarde, Manuel tinha de abrir a braguilha das calças e exibir seu membro gigantesco.

Quanto maior fosse o número de pessoas que testemunhasse a cena, melhor. Se estava entre pintores e modelos, esperava que todos estivessem um tanto babados e mais alegres, e então se despia por completo. Seu rosto ascético e sonhador, seus olhos poéticos e seu corpo de monge faziam um contraste tão grande com seu comportamento, que não havia quem não se espantasse. Se virassem o rosto, desviando os olhos, Manuel não sentia prazer. Mas se o olhassem, por um segundo que fosse, ele caía em uma espécie de transe, seu rosto ficava extático e logo ele rolava pelo chão em uma crise de orgasmo. (NIN: 2006, p. 255) [7]

E essa leitura pode ser ampliada para além das fronteiras da literatura – na medida que se pode dialogar esses contos com a psicanálise freudiana – no caso, relacionar o exibiscionismo / voyeurismo presente nos textos de Anaïs Nin com a conclusões que Freud tem em relação ao fetichismo, especialimente sobre o sentimento de castração provocado pela vista dos órgãos genitais femininos, quando se compara a reação de Fred logo quando vai morar com Marianne em que “Fred mudou-se para o estúdio. Mas, como Marianne explicou, ele não progrediu além da aceitação de suas carícias. Deitavam-se nus na cama, e Fred agia como se ela absolutamente não tivesse sexo[8]” (NIN: 2006, p. 92). Isso dialoga com com a reflexão de Freud no texto O Fetichismo, em que ele afirma que “provavelmente a nenhum indivíduo humano do sexo masculino é poupado o susto da  castração à vista de um órgão genital feminino” (FREUD: 1996, p. 157) e que isso redunda na criação de um fetiche por parte de algumas pessoas (não totdas). Dessa forma, a interpretação abre o leque de entendimento que possa ter sobre os contos eróticos de autoria feminina (como os são os de Anaïs Nin), ao permitir que multiplas leituras possam ser estabelecidas no textos: leitura biográfica, leitura psicanalítica, leitura sociológica, etc.
Nessa ampliação do campo de leituras dada pelo modelo pós-estuturalista da interpretação cabe uma compreensão melhor sobre o próprio objeto de pesquisa que é o estudo da literatura erótica de autoria feminina. A análise, que se baseia em campo fechado de resultado, pode levar também a um fechamento e hieraquização dos elementos de estudos das estruturas. Assim, no objeto “Literatura”, “a “Literatura Erótica” é vista como elemento menor, se comparada com a Literatura dita “Séria” ou “Superior” dos autores consagrados. E, ainda, corre-se o risco de reduzir dos objetos distintos (as narrativas eróticas de autora masculina e as narrativas eróticas de autoria feminina) em um único modelo ideal dado a priori ou a um único exemplo levantado como modelo teórico universal. No caso do modelo da interpretação, as hierarquias de elementos tendem a desaparecer. A relações são vistas de forma rizomática, sem um centro que defina o bom e o ruim. A Literatura Erótica será estudada pela suas diferenças, trangressões e contradições, pelas suas potencias como forma de uma crítica da cultura e do erotismo. Narrativas de autorias masculina e feminina não seriam homogeneizadas – antes, serão interpretadas pela sua différance no qual a literatura de autoria feminina é o Outro que dialoga entre si e com a literatura de autoria masculina. E, no caso da narrativa erótica feminina, ela se estabelece como uma trangressão valorativa (bem a moda nietzschiana) e questionamentos dos princípios fundamentais do patriacalismo da sociedade ocidental. Como bem diz Anaïs Nin na introdução do livro de Delta de Vênus, no momento que ela começou a escrever seus contos eróticos, observou que havia a predominância da voz masculina nesse tipo de literatura (2006, p. 13). Faltava um modelo feminino de como escrever sobre o sexo – ainda que fosse nítida a forma prática como homens e mulheres se diferenciavam no trato sobre a sexualidade, como a autora cita no prefácio: “Embora a atitude das mulheres em relação ao sexo fosse bastante diferente da dos homens, ainda não havíamos aprendido como escrever sobre isso” (NIN: 2006, p. 13)[9].

5 considerações finais


Como pode ser observado ao longo do artigo, o modelo estruturalista de análise se mostra problemático para o estudo da literatura erótica de autoria feminina, na medida que ele restringe os resultado e as leituras possíveis e enxega os textos em totalizações redutoras a partir da desmontagem em elementos menores estanques, sem maiores diálogos entre textos e campos de saberes. Como contraponto a esse modelo, opta por se trabalhar com o método interpretativo do pós-estruturalismo na medida em que ele abarca uma gama maior de leituras e resultados, além de possibilitar o diálogo do objeto de estudo com outros objetos e campos de saberes.
No caso da estudo da literatura erótica de autoria feminina (tomando como exemplo a produção literária de Anaïs Nin), o método de interpretação torna-se quase obrigatório para que se possa fazer uma leitura crítico-cultural desse fenômeno. Pela interpretação, fica mais fácil desnudar os valores patriacais que subjazem na sociedade ocidental, fazendo que o texto erótico de Anaïs Nin se torne a potência de uma teoria alternativa que rasure a sexualidade, ao mostrar a perspectiva feminina sobre o erotismo -  como ela cita no pós-escrito do prefácio:
Naquele tempo em que estávamos todos escrevendo sobre erotismo a um dólar a página, dei-me conta de que por séculos tínhamos tido um único modelo para esse gênero literário, ou seja: trabalhos escritos por homens. Eu já era então consciente da diferença entre o tratamento masculino e o feminino para com a experiência sexual. Sabia que havia grande disparidade entre a clareza de Henry Miller e as minhas ambigüidades. (…) Conforme escrevi no volume três do Diário, eu tinha a impressão de que a caixa de Pandora continha os mistérios da sensualidade feminina, tão diferente da do homem e para a qual a linguagem masculina era inadequada. (2006, p. 13) [10]

Essa perspectiva, por sua vez, é trazida para discussão na medida em que ao se discorrer sobre literatura erótica feminina a visão que se tem seja sempre aquela perpassada pelo olhar masculino.  Pensa-se, aos moldes de Przybylski (2014) – e mesmo considerando que a análise da pesquisadora é voltada para a análise das narrativas orais, periféricas, tão à margem quanto as narrativas eróticas de autoria feminina - que
cabe a nós, pesquisadores do campo dos estudos literários , apostarmos em novos narradores, que possuam uma vasta produção e não estejam necessariamente na academia. É preciso abrir o olhar para produções narrativas não-acadêmicas, mas que podem intervir no meio, tendo, assim, um olhar científico sobre as narrativas orais que, apesar de influenciadas por toda forma de progresso, persistem como uma necessidade estética entre aqueles que escutam e transmitem. (2014, p.190, grifos nossos)

Assim, e  partir de tudo que aqui estudamos, podemos concluir que a literatura erotica muitas vezes é produzida por autoras (mulheres) que, embora estejam na academia, tem seu espaço à margem. A escrita erótica feminina é, por sua vez, vista como não acadêmica, na medida em que a sociedade patriarcal considera o homem como único capaz de externar os desejos femininos. Esse olhar cientifico de que fala a autora precisa ser aplicado também às escritas eróticas femininas que, além de uma necessidade estética àqueles que escutam e transmitem, são as que mais podem legitimar esses saberes, na medida em que transimitem o que é genuino e não o que é imaginado/idealizado.

referências

ALEXADRIAN. A literatura erótica feminina. In: ALEXADRIAN, A história da literatura erótica. 2ª Ed. Tradução Ana Maria Scherer e José Laurênio de Mello. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil face. Tradução Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Pensamento, 2007.

FREUD, Sigmund. O Fetichismo (1927). In: FREUD, Sigmund. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, edição standard brasileira Vol. XXI. O Futuro de uma Ilusão, o Mal-Estar na Civilização e outros trabalhos (1927-1931). Tradução José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1996. pp. 151-160

NIN, Anaïs. A casa do incesto e outras histórias. Tradução Angela Melin. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Ventos, 1991.

__________. Manuel. In: NIN, Anaïs. A fugitiva. Tradução Haroldo Netto e Lúcia Brito. Porto Alegre: L&PM, 2012. Coleção 64 páginas.

__________. Delta de Vênus. Tradução Lúcia Brito. Porto Alegre: L&PM, 2006. Coleção L&PM Pocket.

__________. Delta of Venus. Londres/Nova York: Penguin Book, 1990.

__________. La casa dell’incesto. 6ª ed. Tradução Maria Caronia. Milão: Giangiacomo Feltrinelli Editore, 2008. Coleção Universale Economica Feltrinelli.

__________. Little Birds. Londres/Nova York: Penguin Book, 1990.

__________. Pequenos Pássaros. Tradução Haroldo Netto. Porto Alegre: L&PM, 2007. Coleção L&PM Pocket.

PROPP, Vladimir I. O conto como totalidade. In: PROPP, Vladimir I. Morfolofia do Conto Maravilhoso. Tradução Jasna Paravich Sarhan. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1984. pp. 85-106

PRZYBYLSKI, Mauren Pavão. Das materialidades da literatura: a reinvenção da vida e acervo das narrativas orias urbano-digitais. 2014.  f.209 Tese (Doutorado em Letras) – Instituto de Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

SANTIAGO, Silviano. Análise e Interpretação. In: SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: Ensaios sobre dependência cultural. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.  pp 200-217.





[1] Mestrando em Crítica Cultural pela UNEB – campus II. Especialista em Estudos Linguísticos e Literários pela UFBA. E-mail: ricardovidal@hotmail.com.br.
[2] No original em inglês “Clinical sex, deprived of all the warmth of love – the orchestration of all the senses, touch, hearing, sight, palate”, (NIN: 1990, p. ix). Fato contestado por Alexandrian, no seu livro “História da Literatura Erótica” (1994, p. 307): “estou convencido que o colecionador não existiu. Era um mito inventado por Anaïs Nin a partir de um mexerico de Henry Miller, um mito que lhe serviu de álibi para assumir sem culpabilidade seus fantasmas sexuais”.  Mais adiante no texto, Alexandrian cita Elizabeth Hardwick, afirmando que Anaïs Nin possuía “um apetite patológico para mistificação” e observam-se ou semelhanças entre uma psicanálise de grupo com as sessões de trabalho de Anaïs Nin e seus amigos na produção destas estórias eróticas a serem enviadas ao colecionador.
[3] O conto, parte do livro Delta de Vênus, é a estória da relação fetichista entre Marianne (pintora que também datilografava os textos eróticos de Anaïs Nin) e Fred (rapaz cujo fetiche era se exibir nu).
[4] Como pode ser observado da definição de PROPP (1984, p. 85) para o conto de magia: “Do ponto de vista morfológico podemos chamar de conto de magia a todo desenvolvimento narrativo que, partindo de um dano (A) ou de uma carência (a) e passando por funções intermediárias, termina com o casamento (W0) ou outras funções utilizadas como desenlance. A função final pode ser a recompensa (F), a obtenção do objeto procurado ou, de modo geral, a reparação do dano (K), o salvamento da perseguição (Rs), etc”.
[5] Como exemplo desse processo de redução, poder-se-ia considerar a obra “O Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell, quando esse descreve o monomito. Em resumo, todas as narrativas míticas seriam reduzidas a um único modelo esquemático de jornada do herói. O mesmo se pode ver em Vladimir I Propp, na obra “Morfologia do Conto Maravilhoso”.
[6] No original em inglês “I was actually tormented with desire. But a man like that, he is only interessed in my looking at him”, (NIN: 1990, p. 58)
[7] No original em inglês: “Manuel had developed a peculiar form of enjoyment that caused his family to repudiate him, and he lived like a Bohemian in Montparnasse, (…) Sooner or later Manuel had to open his pants and exhibit his rather formidable member.
The more people there were, the better. The more refined the party, the better. If he got among the painters and models, he undressed himself completely. His ascetic face, dreamy and poetic eyes and lean monklike body were so much in dissonance with his behavior that it started everyone. If they turned away from him, he had no pleasure. If they looked at him for nay time at all, then he would fall into a trance, his face would become ecstatic, and soon he would be rolling on the floor in a crisis of orgasm.” (NIN: 1990, p. 191)
[8] No original em inglês “Fred moved into the studio. But, as Marianne explained, he not progress from the acceptante of her caresses. They lay in bed, naked, frenziedly, and Fred acted as if she had no sex at all”,
(NIN: 1990, p. 61)
[9]No original em inglês: “but although women’s attitude towards sex was quitte disctint from that of men, we had not yet learned how to write about it” (NIN: 1990, p. xiii). Para esta declaração, contrastar com o juízo de ALEXANDRIAN (1994, p. 279) no seu estudo sobre a história da literatura erótica, que no seu capítulo sobre a produção feminina, observa que as mulheres produziram poucos textos eróticos por que o “erotismo das mulheres” é “muito menos cerebral que os homens”…
[10] No original em inglês: “At the time we were al writing erotica at a dollar a page, I realized that for centuries we had had only one model for this literary genre – the writing of men. I was already conscious of a difference between the masculine and feminine treatment of sexual experience. I knew that there was a great disparity between Henry Miller’s explicitness and my ambiguities. (…) As I wrote in Volume III of the Diary, I had a feeling that Pandora’s box contained the mysteries of woman’s sensuality, so different from a=man’s and for which man’s language was inadequate” (NIN: 1990, p. xiii)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

E POSSÍVEL SER HOJE UM INTELECTUAL SEM CONHECER A LITERATURA AFRICANA CONTEMPORANEA?

É POSSÍVEL SER HOJE UM INTELECTUAL SEM
CONHECER A LITERATURA AFRICANA CONTEMPORÂNEA?




Salvador, 26 de setembro de 2016 (23h49)

Ricardo Vidal
Escritor, mestrando em Crítica Cultural 
(UNEB campus II). Membro da AVELA

Conversando com uma de minhas professoras no Mestrado em Crítica Cultural, perguntei-la se seria possível passar incólume por autores como Mia Couto, Agualusa ou Pepetela. Ela me respondeu que, se quiser ser levado a sério no meio intelectual, mais cedo ou mais tarde teria que ler algo deles. Mas, na verdade, fiz isso como um comentário maroto, ao observar o nosso zeitgeist, o espírito de nossa época. Da mesma forma que a leitura de Michel Foucault, Giles Deleuze e Giorgio Agámben são indispensáveis para quem quer participar do debate universitário contemporâneo; torna-se importante a leitura da obra dos autores africanos contemporâneos. Mas o que se significa esse novo olhar atlântico?

Por um lado, essa produção literária que vem do continente negro mostra a força das letras cujos povos passaram recentemente por um processo de descolonização. Nomes como o de Leopold Sèdar Sénghor do Senegal (que foi membro da Academia Francesa e correspondente da Academia Brasileira de Letras), Paulina Chiziane de Moçambique e Ondjaki de Angola mostram que a literatura desses países já está dando os primeiros frutos, apresentando beleza e engenho que não fica a de dever às literaturas de outros países. Por isso que estão sendo traduzidos e analisados nas universidades. São textos que possuem musculatura literária e agarram o leitor, trazendo a África real dos povos africanos, com seus mistérios, cruezas e maravilhas.

Por outro lado, mostra que o polo literário mudou sua relação. Já não é mais a relação consumidora Norte-Sul, com os países europeus e da América Anglo-Saxônica vendendo seus produtos culturais para os mercados consumidores da América Latina. No caso do Brasil, a relação Sul-Sul, entre nós brasileiros e os PALOPs (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), é o início de uma relação de interação e troca cultural entre ex-colônias de Portugal. Se para os africanos, o contacto com o Brasil é uma forma de aprender com o irmão-que-deu-certo no processo de descolonização, para o Brasil é uma forma de redescobrir sua própria História e abrir o caminho para o futuro, com novos parceiros, tanto econômicos como culturais.

Esse interesse já se reflete na docência de ensino médio, em que os autores africanos contemporâneos já começam a frequentar as salas de aulas , inclusive como conditio sine qua non para entrar nos cursos superiores, através dos vestibulares e do ENEM, como “Mayombe”, de Pepetela, que recentemente foi selecionado para compor um dos maiores vestibulares do país, o da FUVEST. Da mesma forma que citações de Mia Couto aparecem nas redes sociais; ainda que de forma oblíqua, nossos alunos já estão se familiarizando com esses autores.

Assim, voltando à pergunta que deu origem ao texto, é impossível que alguém que queira se passar por um intelectual no Brasil sem que conheça esse outro literário que é a África Contemporânea. Axé!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Rapsodia Valenciana opus 49

Rapsódia Valenciana opus 49

Salvador; 29 de agosto de 2016 (22h27)

Esse cheiro de peixe
Que de mim exala
Mesmo quando uso
Chanel nº 5
Valença – Carollini Assis

Toda a Valença é, portanto, um tear,
E, em seu pano grosso de aspecto rudimentar,
Amparo, a Bordadeira, virá aplicar fibra
Têxtil – Cadu Oliveira

Cruzo a ponte
Chego no cais,
Saudade me atrai…
Caminho pela graça
Paro na praça
Urbis, Vila Operária
Valença Una – Adriano Pereira

I
Vem, minhas ninfas do Rio Una, vem!
Traga-me a poesia de suas águas
Como o sal que tempera os mariscos.
Traga os poemas que nascem nas ruas
E rasgam a aurora vermelha como esperança.

Vem, minhas ninfas do Rio Una, vem.
Vem como amante, vem como mãe
Vem como uma azul canção selvagem
Quero-te uma etérea balada cósmica
Que acorde as estrelas com sua música.

Vem, minhas ninfas do Rio Una, vem!
Quero-te cantar esse rio de águas negras
E essas colinas da Madona do Amparo
– seios que desenham o vale de Valença.
Quero-te como poesia e fogo, sonho e mar.

II
Minha cidade de Valença, o sol te banham
Durante um rubro amanhecer atlântico.
Desperta suas casas com um sorriso
De raio de sol fulgídio quase um beijo.

A rua Marquês fervilha, fervilha as pontes.
Fervilha o Jardim Novo com as sombras
De teus sobrados se desvanecendo como
Uma memória perdida em algum sótão.

Valença é o Tento cheirando a peixe e sal,
È o Novo Horizonte rasgando sua malha.
Valença é a Vila de operárias abelhas tecendo
A manhã com dendê e algodão e cantos.

Valença são seus jardins sempre reformados
E suas velhas ruas tortas. É a Bolívia e Jacaré.
É a Graça de Nossa Senhora que nos Amparai,
Amém. É Pitanga, Jambeiro e Dendezeiro.

III
Gosto de me perder em suas artérias,
Sentir o perfume de cravo e do guaraná.
Gosto de costurar a trama de suas ruas:
Ruas do Leite e do Siri sem Molho, Triana.
Quero passear na alegre Praça da Bandeira,
Descansar sossegado na Orla do Rio Una.

IV
Valença, sonho do varão Sebastião,
Tua história é um carrossel épico.
O Barão e o Conselheiro confabulando
Nos corredores do Imperial Senado!
A fábrica primaz de tecidos e urdiduras
A Recreativa hospitaleira cheia de náufragos.
Valença coberta de sangue aimoré,
De pecados e glórias, semente da paz.
Valença um grito insano no infinito!

V
Valença, meu farol no universo, termino
Esse canto grosseiro com o desejo
De seres grandes, dentre as grandes do Brasil.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Benditas Palavras Mal Ditas

Benditas Palavras Mal Ditas

Salvador, 25 de agosto de 2016 (02h15)


Carollini Assis, jornalista valenciana da TV Aratu, estreia na literatura com um livro de título provocante: “O Livro das Palavras Mal Ditas”. O leitor desavisado pode estranhar que uma novata nas belas letras traga ao público um livro com palavras mal ajambradas, sem cuidado, ditas de forma má. Puro artifício de uma escritora que entra de forma vigorosa no mundo das letras, que já pega o leitor pela goela e o faz sucumbir com um texto direto e lírico, como no poema DEUS: “Escreveu para mim / um livro / cheio de equívocos”.
Com prefácio de Orlando Senna e palavras de Gustavo Felicíssimo (editor da obra e escritor) e de Marcus Vinícius Rodrigues, o livro é composto de poemas curtos, alguns de uma leveza e sagacidade que parece um haikai, mas que acertam em cheio no ponto de deslocar os significados das palavras, tirando a crosta que o senso comum recobre-as e fazer luzi-las com significados novos. Às vezes, os títulos aparecem como verbetes de um dicionário particular, no qual as palavras aparecem de forma saborosa e sensual no texto – como no poema UNA: “Memória do rio / nas veias da cidade / lasciva”.
E já que aparece a palavra lasciva, eis que uma característica se destaca nesse livro: o erotismo. Mas não o erotismo que beira a pornografia masculinizada (e o que a pornografia se não o erotismo alheio, como diz o escritor e cineasta francês Alain Robbe-Grillet?), é o erotismo lírico e curto, da sensibilidade de mulher moderna -  ou seja, um erotismo que sabe ser direto, mas sem perder a ternura jamais. Esse erotismo se dá nos fragrantes de prazer, na bendita precisão de uma polaroide. O tema é tratado com a leveza que o tema requer, às vezes com um pouco de graça, como no poema FOME: “Colheu um dedo / no pé do meu corpo / e chupou”.
Bendito seja esse livro de palavras ditas com graça e galhardia!
Carollini Assis é natural de Valença, Bahia. É formada em jornalismo pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), especialista em roteiros para TV e Vídeo. Estão no prelo mais dois livros: “A Santa que geme nas estações” (contos eróticos) e “Produção: entre a comunidade e a televisão”, sobre produção em telejornalismo.

Livro das Palavras Mal Ditas
Editora Mondrongo
Bahia, 2016
72 páginas.
Capa e Editoração de Ulisses Góes

domingo, 31 de julho de 2016

Notas do Reino de Jambom XVI - Novo peregrinar

Há tempos que o Reino de Jambom voltou a ficar distante, perdido nas brumas. Agora, um novo peregrinar de R Vidal faz com que sua casa seja a estrada entre três novas cidades. Seu castelo está a sua espera.

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Na ficção da vida civil, Alagoinhas, Valença e Salvador. Um mestrado e nada mais

terça-feira, 21 de junho de 2016

Politicando I - Bolsonaro como reu

Há coisas que são divergências ideológicas, como desejar uma economia regulamentada pelo mercado ou um estado desenvolvimentista que vise o bem estar social. Outra coisa é saber quais são os limites mínimos da civilização. Esse foi o motivo que o nazismo, com seu programa de genocídio foi banido da arena política. Por isso, seria bom os bolsominions entenderem que seu deputado "idolatrado" MERECE ser julgado por apologia ao estupro e, provado que ele cometeu um crime (como está na cara), deve pagar. Não há nada de perseguição política. Apenas entendem que a liberdade de expressão tem por limites o bom senso e a civilização.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Soneto do Jasmim

Soneto do Jasmim

Salvador, 14 de junho de 2016 (01h45)


Um doce aroma recorda minha aurora,
Quando o jasmim a noite brinca com a brisa.
É um cheiro mágico, do tempo de outrora,
Que minha fronte afaga, queima e alisa.

Ele chega de mansinho, sem demora,
E vai alojando seu império e harmoniza.
Abre-se então uma sutil caixa de Pandora,
Pois no final uma tristeza se concretiza.

Tudo era lembrança e nada mais sobrou.
Somente resta uma vã e tola esperança
De acreditar que se vive mais uma trova.

Ah, jasmim doce que me acompanhou
Como um elfo guardião das lembranças!

Serve para avisar que o Tempo não volta.

Edelweiss

Edelweiss

Salvador, 14 de junho de 02h01 / 02h08


Venha, minha pequena flor, venha
Refletir a neve como um prisma.
Seja o encanto alpino, a musa diminuta
Que das alturas impera garbosa
E soberana na simplicidade.

Quisera eu ter halo branco de candura,
Ser esse pirata branco na montanha.
E quando uma criança se refletir nas pétalas,
O sorriso dela ecoaria suavemente
Como melodia nas montanhas.

Venha, venha, pequeno Edelweiss,
Diamante botânico perdido nas rochas,
Seja minha rainha, minha musa,
Seja a canção que sempre sonhei
E nunca cantei na minha vida.


Rosas dos 16 de Maio

Rosas dos 16 de Maio

Salvador, 14 de junho de 2016 (02h19)

Não te calaram. Nem te calariam
As patas dos cavalos e explosões.
Na altivez da juventude havia rosas,
Rosas que iriam mudar o mundo
E enfrentariam o último coronel da Ditadura.


segunda-feira, 16 de maio de 2016

15 anos essa tarde: 16 de Maio na UFBA



Hoje, 16 de maio de 2016, faz 15 anos que participei da Invasão da UFBA. O contexto? Estávamos nos anos finais da Era FHC e houve um escândalo político: alguns senadores tiveram acesso aos votos secretos no painel do Senado. Dentre eles, Toninho Malvadeza. A oposição baiana, de esquerda, estava exigindo sua cassação por quebra do decoro parlamentar. A Bahia era governado pelo carlismo e, sinceramente, não sabíamos por quanto tempo teríamos mudanças dentro do Palácio de Ondina.

Lembro-me bem, pois era (ainda) estudante de Jornalismo na FACOM-Ufba e estagiava na assessoria de imprensa do Sintsef (Sindicato dos Servidores Públicos Federais no Estado da Bahia). Era também filiado (como ainda sou) ao PT, o que me dava mais ânimo para ir a essa manifestações. 

O clima estava pegando fogo. No dia 10, houve uma manifestação. O Engraçado que tinha ido ver minha então namorada e de lá iria para o estágio. Não sei os servidores federais estavam em greve (creio que sim, devido a conjuntura neoliberal). Então vi uma manifestação no Campo Grande. Logo vi os dirigentes do Sintsef e fui escalado para fotografar a passeata. Mas essa não foi uma passeata qualquer - havia uma pequena cisão no comando. De um lado, o PC do B queria seguir o trajeto de sempre e terminar na Praça Municipal. Outro grupo queria fazer a manifestação em frente a casa de ACM, na Graça. Comunistas, Petistas, Trotskistas, Anarquistas (os antepassados no Black Blocs, com a cara escondida) discutiam em cima do Mini-Trio principal, até que os manifestantes que estavam na rua fizeram valer sua vontade e fizeram os carros de som mudarem de direção. O recado não seria dado ao prefeito-pau-mandado, mas ao próprio Cabeça Branca. Foi quando a tropa de choque trancou a passagem nos Aflitos. Depois de um momento de tensa e falsa trégua, a PM começou a lançar bombas para dispersar. Claro que a manifestação correu até a Praça da Piedade e de lá fez seu protesto. Quem pensou que isso iria amedrontar esses jovens se enganou.

A minha geração ainda foi criada ouvindo os ecos dos anos 1960, alguns se lembravam da redemocratização, carregávamos um pouco da chama do Impeachment de Collor. E o clima na cidade era que ainda precisávamos tirar um resto de entulho autoritário. Alguns, talvez trazia nos olhos uma nostalgia do passado e uma coisa no coração por não ter uma causa pelo qual lutar - não como foi a luta contra a Ditadura Militar ou o Maio de 1968 na França. Eu me sentia um pouco assim e muitos colegas de militância (no ardor do 20 e poucos) talvez pudessem está sentindo algo parecido. 

Foi por isso que no dia 16 de maio se armou "A Passeata". A organização fora "secreta" (?) e o trajeto só seria dito na hora. Lembro-me que minha turma de comunicação pegou um ônibus com demais manifestantes lá no campus de Ondina. Eu, fui a paisana como estudante e procurei fugir da turma do sindicato, porque queria está não a trabalho, mas por consciência própria. Então, na manhã, concentramo-nos na frente da Reitoria da UFBA. A jararaca começou a andar e logo no Campo Grande virou. Estávamos alegre, seguindo pelas ruas do Canela e voltamos para a UFBA. Era uma manhã ensolarada. A ideia era ir por dentro do campus do Canela e chegar no Largo da Graça. Vendo hoje, pergunto-me se fomos ingênuos ou tivemos excesso de autoconfiança para achar a PMBA não estaria lá, nos esperando - aliás, sabíamos que a UFBA, como área federal, não era juridição da PMBA e sim, da DPF. E assim foi. Durante o meio dia o Vale estava claramente dividido: de um lado do viaduto, toda a Tropa de Choque, os cavalarianos, blindados, K9. Do outros, estudantes, servidores públicos, políticos, professores. De novo a mesma tensa tranquilidade. Foi engraçado ver uma roda de capoeira no meio do viaduto, como a dizer: "paz, paz, estamos na Bahia!". Até que, no meio da tarde, manifestação avançou: havia uma liminar exigindo a retirada da PMBA do campus da UFBA e o compromisso da manifestação seguir para Barra. Quando o carro da Polícia Federal chegou, que alegria! E que cena inusitada: estudantes batendo palmas para (uma das) polícia! Alguns subiram até a Faculdade de Direito para comemorar. Foi quando a tempestade chegou de repente.

Covardemente, a PMBA começou  disparar contra os estudantes e o caos se implantou! As vidraças da faculdade foram destruídas por uma turba que procurava abrigo contra a arbitrariedade. Sangue. Fumaça. Calor. Guerra.

Mas quem esperava pegar os jovens desprevenidos se iludiu: a batalha se instalou no Vale. Claro que foi desigual: rojões, coquetéis molotovs e uma pequena barricada de fogo contra bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio e bala de borracha. Mas todos aguerridos, ninguém disposto a arredar um milímetro ao adversário.

Eu fique observando tudo dentro da Escola de Administração. Pateticamente, ainda tentei avisar ao sindicato que eu não iria ao estágio, porque estava preso na manifestação, devido à ação da repressão... Mas resisti. Conseguir ir até a faculdade de educação, peguei uma nuvem de gás lacrimogênio. E de lá tentávamos continuar a luta. Só no final da tarde, os restos de manifestantes que ainda estavam por lá se reagrupou e fez uma passeata até a Câmara Municipal de Salvador. Eu ainda consegui ir à reunião do Conselho Universitário da UFBA, no qual forçou o então reitor Heonir Rocha (tido como amigo de ACM) a tomar uma decisão. 

Cheguei em casa quase meia-noite, mãe e namorada preocupadas comigo.

O resto é História: ACM renunciou e voltou eleito para o senado. Mas não ganhou assim. Morreu vendo seu candidato derrotado pelas mesmas forças que o combateram nesse 16 de maio.

*     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *

Valeu a pena? Algumas namoradas depois, não sei o que dizer dos dias de hoje. 02 anos depois desses eventos elegemos Lula presidente e 06, Jacques Wagner assumia o governo do estado. 13 anos depois, vejo jovens abraçando alienadamente a causa direitista e o PT ser alijado do governo da república via um golpe parlamentar. Pode dar uma sensação de melancolia, uma clima de "o sonho acabou". Mas quando os jovens que lutam contra o golpe, quando vejo que a Bahia ainda é governo pelo meu partido, fico com a sensação de dever cumprido - fiz a minha parte para que o meu país pudesse ser democrático!

sábado, 16 de abril de 2016

Balada da Estudante Solitaria

Balada da Estudante Solitária

Salvador; 12 de abril de 2016

Teus óculos escondem tua beleza leonina.
Tu arrumas teus cabelos longos, enquanto
Vai ajeitando a papelada na mesa em caos.
Tuas mãos correm o lápis pelo caderno,
Mas o que salta aos olhos são seus seios
De mulher menina, ninfa fada, sereia,
Os olhares convergem para ti – rainha
Juvenil e distraída da sala de estudos.
Eu me perderia em teus lábios de beija-flor,
Procuraria o mel em mistérios.
Decoraria o Aleph dos pergaminhos
E estudaria tua formosura nas telas.
Ah, estudante solitária e distraída,
Perdida em meio às suas anotações,
Quisera eu ser seu professor e fazer
A tabuada da multiplicação das espécies.
Quisera ensinar-lhe a genética na prática,
Os poetas dos Infernos das Bibliotecas!
Entre as Galáxias do Cinturão de Órion,
Repetíramos os ritos de Gaia e Priapo.
Mas tu estás distraída e distraída
Não vês meus ávidos olhos,
Olhos sedentos de um lobo mau…

O que esperar de domingo dia 17 de abril?

Amanhã a democracia brasileira viverá sua prova de fogo. Mas, qualquer que swja o resultado, terá um gosto amargo: Primeiros, as instituições sairão apequenadas. Quem acredita no STF ou no Congresso Nacional? Dilma ganhando, teremos um governo em eterna minoria. Dilma caindo, cairemos na convulsão social, pois a resistência popular não aceitará o desgoverno de usurpadores. Fiel as minhas convicções, repito o mantra‪#‎NãoVaiTerGolpe‬! Mas o mais sensato é dizer ‪#‎Oremos‬!

terça-feira, 15 de março de 2016

Balada do Condor Baiano

Balada do Condor Baiano
(para Antônio Frederico de Castro Alves​)

Salvador; 08 de março de 2016 (23h24)

Castro Alves del Brasil, tú para quién cantaste?
Para la flor cantaste? Para el agua
cuya hermosura dice palabras a las piedras?
 (……………………………………)
-Canté para los esclavos, ellos sobre los barcos
como el racimo oscuro del árbol de la ira
viajaron, y en el puerto se desangró el navío
dejándonos el peso de una sangre robada.
(……………………………………)
-Cada rosa tenía un muerto en sus raíces.
La luz, la noche, el cielo se cubrían de llanto,
los ojos se apartaban de las manos heridas
y era mi voz la única que llenaba el silencio.
Castro Alves del Brasil – Pablo Neruda

Castro Alves (sem ser casto, mas gigante),
Para quem cantaste teus poemas?
Não foram apenas os olhos de Moema
Ou para relembrar do canto da ema.
Tua sombra se projeta bem distante.
Pequenino que mirava o horizonte,
Sabia que arte vinha de outra fonte,
Era da mesma têmpera de Anacreonte.

Dos sertões agrestes de Curralinho
Levantou voo jovem baiano condor.
Abriu as asas em máximo esplendor
De poeta audaz, altaneiro cantor.
E com seus cabelos em desalinho,
Aos colegas de farra, ele assombrava,
Às moçoilas em flor, ele encantava,
A todos os desmandos, ele denunciava.

Tua voz era o ribombar do trovão,
Refletia os sonhos da juventude.
Era voz da desgraçada negritude,
Sem perder estro, arte e virtude.
Era lava bruta de fogoso vulcão
Que acendia a chama republicana,
Sem s’esquecer dos beijos da baiana
Ou perder a doçura sul-americana.

Ah, Castro Alves, excelso poeta!
Com mão cheia poemas tu semeaste
Como sementes de firmes hastes
A vencer séculos e tempestades.
Tua aura de tribuno, boêmio e esteta
Já venceu a implacável eternidade.
E se hoje nos reunimos com saudade,
É pra celebrar suas nobres qualidades.

Evoê, Condor Castro Alves, Evoê!
Emocione como emocionou Neruda!
Emocione como quem, da pedra bruta
Tirou as mais belas flores do amarelo ipê.

terça-feira, 1 de março de 2016

Soneto da Sereia de Botero

Soneto da Sereia de Botero

Baía de Todos os Santos (F/B Maria Bethânia); 1º de março de 2016 (18h51)

A beleza dos gestos, tentação final
Beiços carnudos rubros sem nada que sobre,
Agitados quadris loucura sem igual

Mulher - Mustafá Rosemberg

Sob a luz noturna do farol escarlate,
      Surge do mar uma sereia renascentista.
            Seios ebúrneos e doces, face de ametista,
                  Que enfeitiçava a todos: marujos e vates.

                  Reclinada como deusa no velho quebra-mar,
            Cantava cavatinas, canções e delírios,
      Sua voz trazia o olor mágico dos lírios
Nascidos nas ondas de um novo cantar.

Ah, sereia, de um sonho de Botero, nascida!
            Como não desejar seus primores luxuriosos?
Como não se apaixonar por essa fofa beldade?

            Surge assim, como uma ninfa oferecida,
Para saciar do poeta os sonetos gozosos
            A serem escritos com prazer e suavidade.

P:.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Amor em Escala COMcreta

Amor em Escala COMcreta

Salvador; 27 de fevereiro de 2016 (00h57)

Elieci, me dá cafuné!
M________quero teus beijos
E_____________de rosa-mulher

D................Quero teus lábios
Á................ e uma cama na varanda!

C................Quero,
A................u
R................e
I..................r
N................o teu amor como orquídea astral
H
O................quero como poema si-deral

Quero como poema que nunca tenha escrito antes.
E que os cantores fiquem (des)concertados
        Com essas (mel)o-dias selvagens
Que só existem nas Estrelas Alfas
                           de uma galáxia muito, muito distante…


P:.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Capela no Canavial

Capela no Canavial
(para o Padre Edegard Silva Junior​)

BR 324; 10 de janeiro de 2016

No mar açucarado e verde do canavial,
(Quase escondida da estrada vizinha)
Erguia uma humilde e velha capelinha
Coberta de suavidade, musgos e cal.

Às vezes passava célere como vendaval,
Enquanto pegava um ônibus de linha.
Outras, em um carro lento eu vinha.
Mas sempre via a capelinha sem rival.

Ela surgia como um convite à oração,
Quando, banhada pelo sol do Poente,
Irradiava fortes vermelhos e devoção.

Era um farol de paz ao errante peregrino,
Pois instigava a crença e a fé mais fremente.
Essa capela[1], com sua aura e fulgor divino.
P:.




[1] Logo quando eu fui morar em Salvador (em 1996), havia uma fazenda de cana na BR 324 – creio eu pertencente a uma Usina. Nessa fazenda se via uma capela no meio no mato, em cujo lado crescia uma árvore. A imagem bucólica sempre encantava e algumas vezes tentei fotografá-la no carro. Com o passar do tempo (e, imagino eu, com falta de uso) a capela foi perdendo telhado até ser demolida. Mesmo assim, a imagem ainda ficou na memória.

Senhor dos Passos na Estrada

Senhor dos Passos na Estrada (Rapsódia)

BR 101 / BR 324; 10 de janeiro de 2016

I
O que me dirá a estrada, com suas léguas ligeiras?
Passa boi, passa boiada,
Passa ônibus de passageiro,
Passa caminhão Mercedão,
Passa Volkswagen popular, 
Passa até fantasma de carroça.

Passa flor esquecida na cerca,
Passa curral cercado de cavalos,
Passa moça triste na janela,
Passa casa de luz de vermelha,

Só não passa meus desejos…

II
Quisera eu ser apenas caminhante,
A seguir em direção ao horizonte.

Colher o orvalho nas folhagens
E a orquídea fúcsia das margens.
Quisera Ser companheiro das aves migratórias,
Como comer vento e beber léguas.
E mais tarde, deitarei sobre minhas pernas
Que continuarão andando através do luar.

Quisera aprender a deixa para trás,
Porque só o em frente importa e dá rumo à Vida.

III
Mas a vida não é só estrada.
O poema segue sua trilha e passa,
Enquanto o leitor agora para.
Despede-se com um aceno na próxima curva da página em branco…

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)