Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor, autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Graduado em Letras/Inglês pela UNEB Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

terça-feira, 31 de março de 2015

Aboio

Aboio

Baía de Todos os Santos (FB Ana Nery); 16 de julho de 2012

Eira boi! Vou trazendo minha boiada!
E pelo aboio dos meus versos
Vou conduzindo o rebanho pela estrada! Ooiiá!

É o aboio dos meus cantos
Que pelos estranhos encantos
Ou pelos danosos desencantos
Vou cantando para meu rebanho,
Que segue essas verdes veredas,
Atento para não perder a poesia
Que rege encantando os meus dias. Ooiiá!

Na verônica de outros vates,
Aprendi a fazer minhas canções
E colhendo versos nos chapadões,
Ouvindo dos vaqueiros ancestrais
Os aboios e toadas primordiais
Para levar longe a minha manada! Ooiiá!

Lágrimas e mandacarus
Caminham como fantasmas;
E cavalos de fogos cruzam
A senda de minhas palavras,
Para fazer este meu aboio!
Desse meu sertão sem fim,
Desse mundo sem porteira,
Caminho dentre canções,
Para na cidade trigueira,
Que na beira do mar verdeja,
Para então tocar minha viola,
Minha vida e minhas mágoas. Ooiiá!

Eira boi! Vou trazendo minha boiada!
E pelo aboio dos meus versos
Vou conduzindo o rebanho pela estrada! Ooiiá!

domingo, 29 de março de 2015

Soneto para Elly

Soneto para Elly
(para Elieci Pereira)

Valença; 29 de março de 2015 (18h56)

Em meio às flores e às borboletas do jardim,
Ouvindo as sinfonias de sabiás e bem-te-vis,
Sentindo a brisa marota realizar traquinagens
Enquanto atravessa suavemente as folhagens;

Vendo gnomos ignotos vigiarem secretamente
Os ensaios que os pirilampos de fogo e trovão
Realizam para as fadas faceiras e elfos fogosos
Enquanto o orvalho amadurece nos carvalhos;

Vejo que tu és a rainha de copas que seduz,
És o arcanjo meigo de anelos de puro ouro
Que faz dos logaritmos uma sonata de luz.

És o farol cândido dentre minhas dúvidas,
Matematicamente encontrando a justa razão
Trigonométrica da equação de meu coração.
P:.

Olhos de Marmore

Olhos de Mármore

Salvador; 28 de julho de 1996

Sobre as tristezas da selva de concreto, 
Meus olhos inundavam-se em rios. 
Meu tamborim pulsa choroso no peito 
Ao som de um coração metálico distante
d D
i   I
s    S
t      T
a       A
n         N
t            T
e             E
Eu, estrangeiro em uma terra estrangeira, 
Afogo-me na solidão das multidões 
Sem o fogo de teu olhar de ressaca. 
Procuro dentre beijos secos e duros 
E na solidão lunar um farol onde aportar. 
Quero teu farol, nele encontra meu descanso. 
Preciso deste bálsamo para curar a solidão 
Que me devora (embora, ASSIM não quisera) 
Implacável, como uma indomável quimera.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Soneto Beduino

Soneto Beduíno
(para o mestre Mustafá Rosemberg)

Valença; 24 de fevereiro de 2015 (05h25)

A noite de Kadr vale mais do que mil meses. 3
Nela, os anjos e o espírito descem, pela ordem
de seu Senhor, com todos Seus decretos. 4
Ela é a paz até o romper da aurora. 5
Kadr 97: 3-5 – Alcorão (tradução de Mansour Challita)

Vejo um cavalheiro que se afasta na bruma da noite
Rubái 158 – Omar Khayyam

O simum assobia entre as tamareiras d’oásis,
Suavemente colorindo de preces o Levante.
O Sol pardo cai solenemente detrás das dunas,
Enquanto uma noite de paz cobre o horizonte.

O beduíno, banhado a face pelo luar argênteo,
Descortina com seus olhos afiados a imensidão.
De êxtase, fé e alegria sente queimar seu sangue.
Então monta seu corcel para singrar os ventos.

Branco albornoz dança sob a lua do Ramadã,
Enquanto o cavalheiro vence léguas d’estrelas,
Sentindo a poesia sublime escrita na Criação.

Sheik de si mesmo nessa cavalgada selvagem,
Ele descobre poemas em cada beijo da brisa,
Em cada grão de areia, descobre ele mistérios.

P:.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Cancao do Dique de Tororo

Canção do Dique de Tororó

Valença; 18 de fevereiro de 2015 (03h50 AM)

I
Axé, querido Dique de Tororó!
Espelho d’água, Ilha de verde
No meio da selva de concreto,
Quantos mistérios e segredos
Eu beberia em suas águas negras?
E lá os orixás residem majestosos,
Como reis e rainhas dessa cidade
De todas as deidades e santos.

Axé, querido Dique de Tororó!
Peço licença para o Senhor Exu, 
Que ele abra todos os caminhos
Dessa difícil estrada da poesia
E me permita esse meu cantar
Colhida nas notas da gaita galega.
Axé, Mestre Exu! Laroiê, Laroiê!


II
Eu fui para o Dique de Tororó,
Beber água, não achei… Achei
Uma Iemanjá morena e tropical
Que me pescou com um doce beijo 
Apimentado e por ela me enfeiticei.

A Lua foi para o Dique de Tororó,
E nas águas morena ela se banhou! 
Saiu morena e vaidosa como Oxum.
Do luar fez uma tiara de prata e encantos
E com as estrelas e pulsares ela enfeitou.

E nas margens do Dique de Tororó,
Ela passeou, entregando, qual musa,
Seus beijos para os boêmios e poetas.
Eu estava entre os eleitos naquela noite,
Elevando-me da massa ignara e obtusa.

Era noite calma no Dique do Tororó
Quando, com chama e volúpia pagãs,
Minha musa eu beijei. Era gostoso ver
Passar enlouquecida a estéril vida civil
Enquanto a musa me crismava seu ogã.

O Tempo passou no Dique de Tororó
E chegou a hora da Lua morena partir.
Subiu num cometa, rumo à imensidão.
E desde então canto pelas noites de Luar
Para ver minha musa eterna, no céu, sorrir.

Eu fui para o Dique de Tororó,
Beber água, não achei… Achei
Uma Iemanjá morena e tropical
Que me pescou com um doce beijo 
Apimentado e por ela me enfeiticei.


III
A cornamusa galega segue chorosa,
É hora de dizer adeus aos Orixás!
A escuridão se confunde com o asfalto,
E as luzes e buzinas furiosas lembram
Que já não mais tempo para poesia.
Mas as águas ancestrais de Tororó 
Continuam pulsando sua força e axé,
Como uma ilha de paz e tranquilidade
Na agitada metrópole ensandecida.

Nas Margens do Tororo

Nas Margens do Tororó

Salvador; 22 de outubro de 2001

O meu amor chorou. Suas lágrimas
Chegaram às águas negras de Tororó.
A escuridão se confundiu com o asfalto,
Os carros zuniam em exames.
Meu amor chorou. A cidade corria
Na hora melancólica do rush
Como uma manada de elefantes em fúrias.
Mas o meu amor chorou de solidão…

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Canto Peruano

Canto Peruano

Valença (Kiosk de Pelegrini); 03 de fevereiro de 2015 (10h50)

Luana, bella como una luna,
Vem como uma sereia do Pacífico
Filha divina de Manco Capac,
É o Sol inca que viaja e encanta,
Cavalgando as nuvens de flores,
Para reinar, qual sublime Coya
Que conduz as virgens no Acllahuasi
Luana, bella como una estrella,
Teus olhos negros são pérolas
Raras nascidas em Tahuantinsuyu
E teu sorriso, carrossel de diamantes,
Ilumina a noite dourada sobre Cuzco.
Os vulcões, gigantes dos Andes,
Cantam sua fúria ardente e mágica,
Enquanto a Condor voga pelos ventos
De tua cabeleira negra e macia.
Esses são os encantos peruanos,
Segredos que se revelam no Rio Una,
E que os ojos de Luana traduzem.

NOTAS
MANCO CAPAC – FUNDADOR E PRIMEIRO IMPERADOR INCA.
COYA – IMPERATRIZ, ESPOSA LEGÍTIMA E MÃE DO HERDEIRO DO IMPÉRIO INCA.
ACLLAHUASI – CASA DAS “VIRGENS DO SOL”(MOÇAS DESTINADAS AO SERVIÇO RELIGIOSO).
TAHUANTINSUYU – NOME QUE ERA CONHECIDO O IMPÉRIO INCA EM SUA LÍNGUA NATAL.
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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Fogo de Beltane

Fogo de Beltane

Valença; 1º de fevereiro de 2015 (04h19)

O bardo dança em volta da estrela cristalina,
Vendo faíscas e fogos saltitando na escuridão.
Sortilégios ele entoa na sua cornamusa ferina,
Enquanto seus versos conquistam a imensidão.

Noite de mistérios quentes como uma turmalina
Colhida nalgum templo perdido no Hindustão,
Beltane é tempo de fogueira sagrada e feminina,
Quando poesia e magia, sobre o luar, se unirão.

O bardo rouba a música de cada esfera celestial,
Desafia todos os cometas com seu cantar fremente,
Com suas estrofes faz serenar ventanias e trovões.

E o bardo dança e delira! Vibra com força marcial,
Rompendo cada fibra de suas entranhas ardentes,
Para fustigar os deuses com o mel de suas canções.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Poetisa

Poetisa
(para Rosângela, Perpetinha, Raimundinha e Macária)

Salvador, 05 de abril de 2007 - 02h51 AM

 No meio da conferência
Sobre autoria feminina,
O fã – muito afobado –
Coroou-a com o brado:
“Minha Poeta Menina!”.

A homenageada – muito corada ¬–
Dissimulou com riso sem tinta
A dúvida atroz que então surgia:
“Desconheço agora a anatomia
Ou ‘poetisa’ é palavra extinta?”

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Soneto dos Neutrinos

Soneto dos Neutrinos
(para meus amigos Guga Borges e Suzana Andrade)

Valença; 19 de janeiro de 2015 (21h01)

No coração de alguma estrela, pulsos eletromagnéticos
Rompem uma artéria quântica. E dela, um neutrino
Vagabundo atravessa a fotosfera na velocidade da luz
E começa a vogar calmo pelas curvas do espaço-tempo.

Passeia entre píons e gluínos, elétrons e gravitinos,
Dança boleros cósmicos com as demais subpartículas.
É simples energia concentrada alternando a Gravidade
E a Força Fraca como motor de sua nano-existência.

Os neutrinos não são animados pelas ilusões humanas,
Não se acham o único centro privilegiado da Criação,
Não se prendem à hipocrisia pequeno-burguesa, nem
São mesquinhos e egoístas como aristocratas decadentes.

Os neutrinos apenas prosseguem sua cavalgada espacial,
Sem pensamentos, sem sentimentos e sem sofrimentos.

P:.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Soneto Navegante

Soneto Navegante

Baia de Todos os Santos; 29 de dezembro de 2014

Mãe Iemanjá, em teu leito um barco branco
Passeia como uma pluma massageando
Teus azuis e tuas vagas. É doce encanto,
De sereias venusianas aquífero acalanto.

Nele vejo meu sonho galáctico como veleiro,
Dentre ondas de neutrinos vogando ligeiro,
A procurar na eternidade d'um porto passageiro
Para descansar este meu coração guerreiro.

Quero esquecer que na terra existem detritos
Mentais, preconceitos e galimatias rasteiras,
Maculando a Existência como triste afronte.

Pois o mar e o céu são dois gigantes infinitos,
Territórios onde quero fincar minha bandeira
E fundar meus impérios par’ além do horizonte.


P:.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Lancamento do livro 4 Ases e 1 Coringa

Lançamento do livro 4 Ases e 1 Coringa

Ocorre no próximo sábado, 13 de dezembro, às 19h, o lançamento da coletânea de poesia 4 Ases e 1 Coringa no Centro Cultural Olívia Barradas. A obra reúne quatro gerações da poesia valenciana, em que a linguagem poética percorre desde a tradição clássica dos sonetos rigorosamente bem construídos às transgressões morfossemânticas de inspiração neoconcretistas, dando ao leitor a oportunidade de conhecer mais um pouco o panorama da literatura valenciana contemporânea.
O livro reúne poemas dos “ases da poesia” Adriano Pereira, Mustafá Rosemberg, Otávio Mota e Ricardo Vidal (sendo os três últimos, membros da Academia Valenciana de Educação, Letras e Artes) e tem o prefácio escrito por Levi Vasconcelos, jornalista valenciano e "coringa" convidado para fazer a apresentação dos poemas. A arte da capa é assinada por Jamile Menezes.
Livro e o lançamento contam com o apoio cultural da Prefeitura Municipal de Valença, Câmara Municipal de Valença, SAAE, APLB Sindicato, LACLIV, COFEL, Casa Lacerda, Rio Mar Modas e Newton Gráfica e Recarga de Cartuchos.

AUTORES
Mustafá Rosemberg é médico formado pela tradicional Faculdade de Medicina da Bahia e autor dos livros de poesia Pétalas… também amei e Pelo Amor… Pela Vida! Também publica semanalmente poemas no jornal Valença Agora. Mustafá mantém vida a tradição dos sonetos construídos com milimétrica perfeição e amplo domínio da língua portuguesa, verdadeiro príncipe dos poetas do Rio Una.
Otávio Mota é artista visual, dramaturgo, escritor e coordenador do Centro de Cultura. Publicou os livros Pensar Fluidos e Apocalipse Man, além de ter encenado as peças Apocalipse Man, Ensaio para um Grito Brando, Bidi, Calu e o Rei Raul e Amares- Uma Saga de Todos os Ares. Juntamente com Mustafá Rosemberg, Otávio Mota participou das antologias Valenciando e Rio de Letras. Autor de poemas clássico, como Una que te quero Una e Arguidá, a poesia de Otávio Mota é um passeio neorromântico pelos encantos de Valença, extraindo do dendê os eflúvios cosmopolitas de sua arte.
Ricardo Vidal é escritor da nova geração, formado em Letras/Inglês pela Universidade do Estado da Bahia (campus Salvador). Publicou o livro de poesia Estrelas no Lago, além de participar de várias antologias, dentre os quais Novos Valencianos. Ensina Inglês no Colégio Estadual Hermínio Manoel de Jesus (povoado do Bonfim) e Cultura e Literatura Baiana na Faculdade Zacarias de Góes (FAZAG). Vidal traz em seus versos uma leitura crítica-cósmica do mundo, com citações aos (des)caminhos literários que percorreu até agora.

O quê? Lançamento do livro 4 Ases e 1 Coringa.
Quando? 13 de dezembro, às 19h.

Onde? Centro de Cultura Olívia Barradas, Valença.
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domingo, 30 de novembro de 2014

Cartografia Boemia

Cartografia Boêmia

Valença; 29 de novembro de 2014 (23h16)

Tenho 36 anos e hoje foi noite de artes no Centro de Cultura. Exposição mais Peça de Teatro. Depois se alimentar o espírito com catarse e mimeses, o corpo pede uma boa comida. Vou ao Estação Tatiba e, enquanto o Filé Alto não vem, vou me entretendo ouvindo música e bebendo um mojito, como se logo depois Hemingway fosse aparecer na porta e apostar comigo uma partida de braço-de-ferro.
Tenho 36 anos e minha namorada está linda no seu vestido de organdi preto. Como não amar seu sorriso e seus olhos. Sei que a noite promete e por isso vamos para o Espaço Tiago Porto, comer um gostoso crepe de camarão. O vinho tinto, nas taças de cristal, é o aperitivo que prepara a língua para os beijos que nos daremos mais tarde, debaixo do chuveiro.
Tenho 36 anos e hoje é dia de voltar a ser criança. Meus pais e meu irmão chegaram de viagem e vão passar uns dias comigo. E nada como matar a saudades seguindo os velhos hábitos: ir mais uma vez à Casa Verde, sentar na mesma mesa perto do dono e pedir a mesma pizza toscana que eu sempre gosto. O garçom irá nos servir, trazendo sempre a mostarda (que papai não dispensa) e mamãe sempre deixará um pedaço de pizza a mais para que os filhos possam comer um pouco mais.
Tenho 36 anos e houve reunião na Academia de Letras. O final de sábado foi proveitoso em debates sobre artes e a cultura da nossa cidade e, para coroar o encontro, os imortais vão à Pizzaria Nossa Senhora do Amparo, contemplar a cidade enquanto saboreamos a pizza à moda da casa: Lagosta foi feita para ser degustada no Olimpo…
Tenho 36 anos e meus amigos do Clube Boêmio querem sair para se conversar. A internet pipoca de novidades e há muito que se discutir: política, cinema, livros e filosofia. Para desembaçar as ideias e excitar a língua, voltamos aos anos 80 e pedimos Lagoa Azul (a bebida, não o filme) e Vodka com Água Tônica, enquanto tramamos revoluções e reformas ara consertar o Brasil.
Tenho 36 anos e é a hora do Angelus. O Sol descansa indolente por detrás das colinas depois de um dia proveitoso na escola. Nossa Senhora do Amparo está comendo um delicioso acarajé feito por Acácio e Pelegrini está no seu Kiosk, servindo suas alquimias geladas e atiçando boas discussões sobre política junto com hambúrgueres de camarão.
Tenho 36 anos e estou só na noite de domingo. Está tudo calmo na minha cidade e vou ao Kiosk Águas de Março, comer casquinha de siri gratinada e cuscuz de camarão. Deixo que o Rio Una leve meu poema, enquanto encerro minha ronda boêmia pela cidade.
C:.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Dos livros valencianos que Valenca ignora

Dos livros valencianos que Valença ignora

Valença; 25 de novembro de 2014 (20h08)

Eu reorganizava minha biblioteca quando me deparei com um problema maquiavelicamente agradável: a quantidade de livros de autores do Baixo Sul crescera de tal forma que não cabem mais em uma prateleira de literatura baiana. Tinha que organizar uma prateleira específica para os autores de minha terra. 
Em uma análise superficial, alguém poderia creditar o fato a atual fase alvissareira, em que os autores de nossa terra têm publicado muitos livros em um período muito curto de tempo: algo como um novo livro a cada seis meses. Só em 2015 Valença viu o lançamento de oito novos livros, cinco dos quais compõe a “Coleção do Baixo Sul”. Contudo, como me referi antes, isso é uma análise superficial, pois a outra fonte de “novas” aquisições para minha biblioteca foi o garimpo nos sebos e são desses livros que eu gostaria de falar mais amiúde. Depois de horas e horas na frente do computador, conseguir achar algumas raridades de cair o queixo. Vejamos algumas:
Do Conselheiro Zacarias (cujo bicentenário de nascimento comemora-se no ano que vem) conseguir comprar duas obras: um volume com a coleção completa de seus discursos parlamentares e o seu tratado político “Da natureza e limites do poder moderador”. Seus discursos comprovam o porquê de ter recebido comentários favoráveis de Machado de Assis e Humberto de Campos: uma verdadeira aula de como debater política em alto nível, mesmo nos ataques cáusticos aos adversários. Sua obra-prima ajuda a entender não apenas o que se passou no meio do segundo reinado, como qual era mentalidade de parte da elite brasileira da época.
Igualmente interessantes são os escritos de Fábio Luz. Como o romancista, “Elias Barrão” e “Chica Maria” (1915) mostram um autor que analisa a realidade social do Brasil do início do século XX com a pena de um poeta na prosa. Mas o que esperar do erudito crítico literário que escreve “A Paisagem no Conto, na Novela e no Romance” (1922)? Basta dizer que, no último, nosso conterrâneo cita obras indianas e polonesas com a intimidade de quem conhece profundamente a literatura do mundo. Pena que é cada vez mais difícil achar seus outros livros – como suas obras-primas “Ideólogo” e “Os Emancipados”.
Durante as manhãs que passei no Memorial da Câmara (e nisso fico grato das boas conversas que tive com Janete Vomeri) descobri a indicação de três tesouros: a fotocópia do “Esboço Histórico do Município de Valença” (1918), de Manoel de Cunha Lopes e Vasconcelos; os poemas de Elmano Amorim e a prosa de Galvão de Queiroz (o jornalista, não o marechal - apesar de homônimo). De Elmano pude adquirir a edição autografada do “Luar de Agosto” (1967). Do jornalista (Inocêncio) Galvão de Queiroz consegui comprar seus livros infantis “Os Sinais Misteriosos” e “O pinguim que veio do frio”, além das suas traduções de “As alegres noites de Mont-Martre” de Maurice Dekobra e “A Besta Humana” de Émile Zola. Sei que há mais livros e traduções de Galvão de Queiroz (como os seus livros de contos “Caíva” e “Um punhal no coração”) e espero ter um golpe de sorte de acha-los nas poeiras de algum sebo… Golpe de sorte que me levou a “A Synthese Universal”, de Dr. Aristides Galvão de Queiroz. O livro de Aristides (de quem tenho dúvidas ainda se ele é tio ou tio-avô do jornalista) é um douto comentário sobre a Razão e a Fé, resgatando o papel da religião na sociedade. Consegui a edição original de 1880, com dedicatória a S.A.I Conde D’Eu. 
Fascinantes também são os livros do médico valenciano Prof. Alício Peltier de Queiroz: “A frigidez sexual da mulher” (1961) e “O problema clínico do retro-desvio uterino” (1943); o ensaio “Em busca de uma constituição: esboço de um ensaio de política objetiva” (1972) do ex-prefeito Admar Braga Guimarães e os dois volumes que compõe “Compêndio Narrativo do Peregrino das Américas”, de Nuno Marques Pereira. Esse autor teria nascido em Cairu no meado do século XVIII e escreveu o embrião do romance e da filosofia brasileira. Atualmente a Academia Brasileira de Letras edita esse livro, como parte da coleção Afrânio Peixoto.
É com um misto de admiração e tristeza que vejo quantos livros excelentes foram produzidos por valencianos (naturais ou adotados). Admiração em ver que a produção editorial de nossa terra é muito rica e possui uma tradição que até ajuda a explicar porque vivemos esse período de supernova literária. Mas é com tristeza que, descubro o quanto a nossa história e nossa memória tem sido negligenciada aqui em Valença. Diante dessa triste constatação, fica a suspeita: quais outros autores de nossa terra estão aí, esperando o momento para serem descobertos e, quiçá, serem reeditados?

terça-feira, 18 de novembro de 2014

4 Ases da poesia valenciana lancam livro


AVISO – Lançamento Adiado

O coquetel de lançamento do livro 4 Ases e 1 Coringa, que estava marcado para o dia 20 de novembro, no Centro de Cultura Olívia Barradas, foi suspenso devido a um súbito mal estar de Mustafá Rosemberg (um dos autores do livro) e a necessidade dele realizar os exames médicos de rotina. A abertura da exposição “Arte Negada” e a “Ocupação Cultural” ocorrerá normalmente, às 19h.

Ass. Adriano Pereira, Otávio Mota e Ricardo Vidal (coautores do livro).




4 Ases da poesia valenciana lançam livro



Ocorre na próxima quinta-feira, 20 de novembro, às 19h, o lançamento do livro de poesia 4 Ases e 1 Coringa no Centro Cultural Olívia Barradas. Na ocasião, também será realizada a abertura da exposição “Arte Negada” e a “Ocupação Cultural” com o tema Consciência Negra.
O livro reúne poemas dos “ases da poesia” Adriano Pereira, Mustafá Rosemberg, Otávio Mota e Ricardo Vidal (sendo os três últimos, membros da Academia Valenciana de Educação, Letras e Artes) e tem o prefácio escrito por Levi Vasconcelos, jornalista valenciano e "coringa" convidado para fazer a apresentação dos poemas. A arte da capa é assinada por Jamile Menezes. Livro e o lançamento contaram com o apoio cultural da Prefeitura Municipal de Valença, Câmara Municipal de Valença, SAAE, APLB Sindicato, LACLIV, COFEL, Casa Lacerda, Rio Mar Modas e Newton Gráfica e Recarga de Cartuchos.
Autores - 4 Ases e 1 Coringa traz para o público a produção recente de quatro nomes que se destacam na poesia valenciana nos últimos anos. Cada autor com sua linguagem e poética próprias, mas junto, formando o caleidoscópio que caracteriza a atual cena literária valenciana.
Mustafá Rosemberg é médico e publicou os livros Pétalas… também amei e Pelo Amor… Pela Vida!, além de semanalmente publicar poemas no jornal Valença Agora. Mustafá mantém vida a tradição dos sonetos construídos com milimétrica perfeição e domínio da língua portuguesa. Otávio Mota é artista visual, dramaturgo, escritor e coordenador do Centro de Cultura. Publicou os livros Pensar Fluidos e Apocalipse Man, além de ter encenado as peças Apocalipse Man, Ensaio para um Grito Brando, Bidi, Calu e o Rei Raul e Amares- Uma Saga de Todos os Ares. Ambos participaram das antologias Valenciando e Rio de Letras.
Ricardo Vidal é escritor da nova geração, formado em Letras/Inglês pela UNEB. Publicou o livro de poesia Estrelas no Lago. Adriano Pereira é outro jovem nome que se destaca nas artes de Valença, sendo o idealizador e curador da Ocupação Cultural. Atualmente estuda História na UFRB e públicos os folhetos Terço Mariano, Dez-Graças Poéticas, Dos(z)es P(r)ensadas e Primeiras Impressões – com poesias que são jogos concretistas com palavras. Os dois participaram da antologia Novos Valencianos.
Lançamento - Junto com o lançamento do livro, também será realizada a Exposição "Arte Negada", com os artistas visuais Juliano Brito, J. Pincel, Nen Cardim, Adilson da Bahia, E. Coutinho, M. Antônio, Gugui Martinez, Elias Santos, Adriano Pereira, Otávio Mota, Yara Lúcia, Luciano Freitas e outros artistas visuais do território o Baixo Sul; Performance teatral de Charles Miller e a "Ocupação Cultural", sarau multilinguagens que reúne os diversos artistas valencianos.

O quê? Lançamento do livro 4 Ases e 1 Coringa.
Quando? 20 de novembro, às 19h.
Onde? Centro de Cultura Olívia Barradas, Valença.



domingo, 19 de outubro de 2014

Quase Escritores, 20 anos depois

Quase Escritores, 20 anos depois
(para minhas alunas e poetisas Tanile e Mayse, com o desejo de nunca parem no "quase")

Valença, 19 de outubro de 2014 (00h39)

   Estou no meu escritório ouvindo as músicas de Rose Azevedo enquanto olho para as estantes de minha biblioteca. Na prateleira que dediquei à literatura de minha terra, dentre as obras de Zacarias de Góis e Vasconcelos, Fábio Luz, Galvão de Queiroz e meus confrades e confreiras da AVELA, está um livro de capa azul e título ousado: Quase Escritores. E fico pensando quantas águas passaram por debaixo da ponte nos últimos vinte anos que separam o lançamento desse livro e o momento que escrevo essa crônica.
   O livro em questão surgiu por iniciativa de minha mestra e confreira Rosângela Góes, como parte da Literarte – festival artístico promovido pelo Educandário Paulo Freire, no já distante ano de 1994 e que, além do lançamento do livro, houve uma palestra de abertura com Araken Vaz Galvão, exposição de trabalhos de artes dos alunos e um recital que se finalizou com um coral de professores e alunos e um “pocket-show” da professora Rose Azevedo. A antologia em questão era resultado de um concurso literário interno em que os alunos podiam inscrever até dois textos. Relembro-me desses fatos porque, dentre os textos escolhidos para o livro, está minha crônica “Saudades” (texto baseado em uma redação escrita por mim quando estudei a então oitava série do 1º Grau no Colégio Social de Valença, sob a orientação de profa. Dinalva Teles). Fora o meu primeiro texto publicado em livro e por isso, eterno motivo de orgulho. 
   Mas, ao lado de minha alegria pessoal, existe uma coisa que me deixa, não sei por que, reflexivo: o título nos anunciava com uma ousadia ímpar. Quase ES-CRI-TO-RES. Aqueles “aborrescentes” e “crionças” estavam sendo alçada a condição de futuros colegas de Castro Alves, Jorge Amado e Dias Gomes que apenas davam o primeiro passo, mas poderia se esperar vôos audazes nos futuro. Quiçá, poderiam ser eles um possível foco de renovação literária para nossa cidade - acaso eles cultivassem o hábito da escrita criativa e perseverassem no desejo de editarem mais e mais textos seus. No entanto, o que aconteceu foi que praticamente esses “quase escritores” passaram ao largo da trilha de Cervantes. São hoje profissionais de saúde, professores e advogados cujas mãos deixaram de empunhar a pena de Camões e a lira de Virgílio. Alguns sequer devem ter em casa uma cópia do livro ou se lembram dos textos que publicaram. E quanto as letras valencianas, elas vieram se renovar sim - mas pelas mãos de algumas das professoras que tão entusiasticamente proclamavam a admiração pelos primeiros textos de seus jovens participantes da antologia. 
   Por isso que fico até tentando a perguntar a profa. Rosângela: Cadê esses quase escritores hoje? Por que não vemos mais textos deles publicados? Será que valeu a pena, ao final das contas, o esforço ter publicado esse livro, quando vemos que praticamente ninguém mais seguiu a carreira literária? No entanto, minha intuição me adverte que, se algum dia que lhe fizer pessoalmente essa pergunta, a resposta estará na ponta da língua, nos versos de Pessoa: “Tudo vale a pena / se a alma não é pequena”. E alguns desses resultados estão aí: Vinte anos depois, a jovem professora que realizara o pocket-show gravou seu CD: Dom – Rose Azevedo se mostrou nele uma inspirada cantora e compositora. Um dos alunos que participou da antologia se formou em Cinema pela Universidade Federal Fluminense – Alan Barros  Nogueira atualmente escreve roteiro de filmes no Rio de Janeiro. E mais outro, que participou tanto do livro como do coral de alunos e professores, esse sim realmente virou escritor – Ricardo Vidal ganhou vários prêmios literários, publicou seu próprio livro e tornou-se o jovem confrade de suas mestras dentro da Academia. 
   As sementes artísticas lançadas por professoras Rosângela, Perpetinha e Raimundinha, de alguma forma, frutificaram. E quantas mais ainda irão frutificar?

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ordens medicas

MICROCONTO - ORDENS MÉDICAS

O médico chamou os familiares mais próximos para uma conversa reservada, longe do quarto do hospital:

- Aqui está a licença médica. O paciente teve uma crise nervosa e precisa urgentemente de repouso absoluto. Recomendo a vocês que ajudem a criar um ambiente de total relaxamento, longe de qualquer fonte de irritação e stress. Caso contrário, o doente corre sério risco de agravar o quadro

Os familiares, sinceramente preocupados com a saúde do doente, seguiu a risca TODAS as recomendações do médico. Até o derradeiro minuto, fizeram de tudo para aborrecê-lo, irritá-lo, estressá-lo e infartá-lo precocemente...

(qualquer semelhança com a realidade é melhor nem comentar...)

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Vitivinicultura literaria

Vitivinicultura Literária
Tempo & Criação Literária

Senhoras e senhores, boa noite para todos.

Minha contribuição nessa távola redonda talvez não possa ter uma aplicação imediata numa oficina de criação literária, mas (creio eu) poderá dar mais clareza aos que, saindo daqui, pretendam continuar no caminho da escrita criativa. Gostaria de falar sobre o Tempo dentro do processo de criação literária, mas exatamente como ele interfere na avaliação e na escrita em direção ao texto final.
O senso comum, ainda embebido de uma herança romântica, coloca o texto literário como algo que nasce pronto sob alguma inspiração sobrenatural. É como se fosse uma espécimen de psicografia, em que um “daimon” advindo de outros éons possuísse nosso corpo e mente para escrever ou então um anjo ou orixá ditasse o poema ou o romance já pronto e acabado. Mas, o bom senso aponta para uma outra direção – o texto nasce, a priori, como um eterno devir, um rascunho em que se vislumbra alguma coisa que só será perceptível mais adiante. E para se chegar nela, o escritor precisa que a razão crítica haja sobre o texto com frieza a fim de observar como este vai amadurecendo. E para que isso aconteça, é necessário usar o fator tempo.
Pessoalmente, sempre imaginei o exercício da literatura como algo mais próximo da produção do vinho. Nos parreirais do idioma colhem as palavras e as frases para serem prensadas no tanque branco da página (ou na tela, se pensarmos nos computadores) e assim formar o mosto/texto. Depois, são deixadas fermentando e decantando sozinhas. Convém que o escritor profissional periodicamente retorne aos seus textos, burile onde for preciso, e, principalmente, acompanhe essa fermentação, a fim de ver em que situação está sua obra. Penso nisso porque os textos (pelo o que pude tirar de minha experiência), normalmente seguem três caminhos:
01) Alguns textos viram vinagres porque não resistiram a prova do tempo. Mesmo que, na hora da composição ele realmente emocione, no outro dia (ou na outra semana, ou ainda, meses e anos depois) eles já não encontre ressonância n’alma. Mostram-se por demais ingênuos ou meramente vazios, ainda que retorne a eles e os emendem. Aliás, não é bom realmente mexê-lo: praticamente seria necessário escrever um novo texto, mais apurado, substituindo esse. Não prestam para publicação e inexoravelmente o seu destino é o lixo ou o fundo esquecido de uma gaveta.
02) Outros textos ainda não envelheceram o suficientemente bem. São textos difíceis, com um forte travo do tanino e que tendem a se confundir com os textos avinagrados acima citados: não estão maduros a ponto de serem publicados. Contudo, isso não quer dizer que seja um texto para ser descartado, pois trazem algo que pertube na leitura, pois nasceu póstumo. Ele ainda guarda surpresas, é um texto indomado, o qual (talvez) até precise de duas ou três emendas, algumas correções necessários a fim de que possa sair redondo na página do livro. É um texto cuja leitura, por parte do escritor, precisa ser mais bem digerida antes de mandar servir aos leitores – digestão essa que pode ser longa o suficiente a ponto de o texto vir a lume pelas mãos de um pesquisador que, tendo acesso ao arquivo do escritor, o encontre e o publique em uma edição póstuma de obras completas ou em uma edição crítica.
03) E, last but not least, há os textos que estão prontos para serem engarrafados. Venceram a prova do tempo e a leitura ainda inebria com facilidade, não restando dúvidas ao escritor de que já se pode entregar aos seus leitores. É o que quase não precisa de aparos nas arestas e que o escritor oferece ao público.
Contudo, qualquer que seja o destino desse texto, sobre ele foi necessário sofre a ação do tempo, o que torna o ofício da escrita criativa um processo de escrever, reescrever, fundir, cortar, ler, reler, recortar, corrigir, aumentar e (auto)criticar constantemente. E se a pessoa tiver interesse em publicar suas obras, saberá que periodicamente serão feitas triagens em cima de triagens, leituras em cima de leituras.
Isso se faz necessário, pois o primeiro momento da escrita nós somos traído pela emoção. Seja porque o texto surgido em uma única rajada da pena, seja porque foi preciso muito sangue-suor-e-lágrimas para terminá-lo, a impressão que muitos tem é que o texto está perfeito. Todas as ideias estão devidamente concatenadas, a linguagem apresenta-se soberbamente como nós desejávamos, não há nenhum senão a ser corrigidos. Inconscientemente, pode ser que estamos apenas cansados demais em continuar o trabalho e precisando de uma pausa, por isso temos tendemos a achar que o resultado está bom. Mas muito dificilmente isso ocorre. Então é saudável que o escritor se distancie dele por um momento (minutos ou anos, dependendo do caso) para retornar a ele e escrever.
É nesse momento, nessa RE-visão, nesse RE-torno, nessa RE-tomada é que os defeitos e virtudes começam a vir a tona. É uma vírgula que foi engolida ou uma frase que precisa ser reescrita. Ou sentir se o texto ainda consegue bater na alma de algum modo. Esse é o processo da “fermentação literária”, o do distanciamento necessário para que o escritor possa desenvolver sua autocrítica em relação ao escrito, a fim de se perceber a sua evolução. Não basta apenas pisar e repisar nas palavras no papel para achar que o texto já está para ser engarrafado – é preciso que o tempo também aja sobre ele, que haja essa fermentação necessária para se extrair a essência de uma nova sonoridade, de uma nova sintaxe, de um novo sentido, de uma nova forma de expressão, qualquer coisa que mexa na língua e cause o famoso “estranhamento” pregado pelos formalistas russos. Como consequência dessa tese, percebe-se que a “fermentação” não servirá apenas para aparar pequenas arestas (como erros ortográficos ou para apurar as frases e os parágrafos). É através desse processo que o texto ganha sua integridade como obra de arte – que servirá de marco para a separação entre o escriba diletante e o escritor profissional candidato a figurar na história.
Ao comparar a produção do vinho com a do texto, eu percebo a importância do fator Tempo no tocante ao sucesso do escritor como artista. Bons vinhos finos, assim como bons livros, não são produtos rápidos, feitos a toque de caixa. É preciso paciência na hora de produzir. Não basta apenas a “chegada mágica da inspiração” (como imagina o senso comum alimentado pelo romantismo do século XIX) para que o poema ou prosa garanta o seu lugar como de arte. É o posterior exercício crítico de leitura e releitura que testa a permanência da fruição estética do mesmo. É na leitura “fria” (que eu comparo ao momento de “decantação” do vinho) que se podem filtrar as falhas do texto e assim emenda-lo – isso quando o texto se mostra realmente promissor e não “azedou” a ponto de virar “vinagre”. Depois, quando chegar da publicação do texto, será o mesmo fator Tempo que dirá sobre o sucesso da obra depois de pronta. Da mesma forma que muitos vinhos ainda amadurecem dentro a garrafa, os textos amadurecem depois de publicados. E só o tempo dirá quando o texto atingirá sua maturidade junto ao público, qual será a duração de seu auge, e/ou quando ele “passará do ponto” e deixará de ser relevante – mutatis mutandis, similar ao que acontece com as safras das uvas viníferas.
Aliás, Fábio Luz (escritor valenciano nascido em 1864), na introdução do seu livro A Paisagem no conto, na novela e no romance aborda questão parecida, quando diz (a citar o conceito de caducidade de Schopenhauer): “Dizem que certas bebidas se tornam mais capitosa quando velhas” (…), “assim também os bons livros devem ter um longo período de hybernação, tempo suficiente para que se faça o deposito das impurezas e imundícies com que os macularem os contemporâneos”. E continua logo depois: “É a caducidade para acquisição de forças; não é a morte”.

Em resumo, os autores dos Vedas já falavam que “O tempo é a semente do universo”. O mesmo se pode em relação à literatura – acaso nós a encaremos com a mesma seriedade de um enólogo diante da produção de um Riesling alsaciano ou de Chianti.  Meus caros amigos e amigas, diante do tempo passado na minha fala (e que espero não ter extrapolado), eu espero que essa modesta contribuição possa ajudá-los a compreender um dos aspectos do nosso ofício de escritor. Obrigado pelo tempo dedicado a ouvi-las.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Antiode sobre o Amor

Anti-ode sobre o Amor

Brasília; 30 de setembro de 2014 (03h47)

Não sei qual mal ao amor fiz,
Para dele, eu provar fel e fogo.
Sei que alimentamos utopias
E nos iludimos em construir castelos
Que serão derrubados na primeira onda.
Sei que o Amor-Ideia de Platão
É mais uma sombra na caverna
E só nos poemas a alegria é absoluta.
Mas, ainda assim prosseguimos
Em quimeras mil cultivar alhures
E sonhar com princesas e fadas.
Fingimos ignorar os espinhos da rosa
E que mesma abelha dá mel e ferroada.
Insistimos ilogicamente em fazer
Do coração a morada do amor
(criança travessa que sempre será mimada).
E nos entregamos como cordeiro ao lobo…
Deixamos o cupido entrar e fazer bagunça,
Retorcer planos e sonhos e desejos,
A ponto de nos perdermos a nós mesmos!
Ah! Tudo é paixão! Tudo é Eros, Ágape, Filos!
Tudo é um amor avassalador e louco
Que nos faz, por segundo, crer no Paraíso…
Não vemos a Tempestade no horizonte
E então, aprendermos amargamente
Que amar pode ser sinônimo de sofrer.
Que os mesmos olhos que são faróis
Também podem ser perdição e gelo.
Sol e trevas caminhando junto,
Dor e Alegria, prazer e tristeza,
E quando pensamos estar imunes
Ao fogo que arde sem ser visto,
Eis que novamente o cupido vem
Para bagunçar tudo mais uma vez…
Mas, se tanto fel o amor pode produzir,
Por que sem ele a vida é mais triste?

(É o que pergunta o meu coração)

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Livro das Sombras (Elegia)

Livro das Sombras (Elegia)

Valença; 19 de setembro de 2014 (2h41)

As fogueiras de Beltane estão apagadas
E a lua, tríplice mãe, esconde-se nas sombras.
Nada vejo mais além de trevas e tristezas
Calçando o caminho calcário do Calvário.
Não vejo jasmins orientais florescendo,
Nem a camomila forrando minha passagem.
Não vejo centauros cantando dentre as árvores,
Nem ninfas bailando lascivas dentre estrelas.
A estrada é solitária e cheia de espinhos,
E é por ela que tenho que aprender a andar,
Caso queria chegar ao meu templo interior.

Então minhas lagrimas iluminam a face minha,
E com elas eu faço meus filtros e sortilégios.
Faço minhas alquimias sentimentais e tempero
Com o vinho novo de meus versos secos
A pedra filosofal de um sol negro no orvalho.
Tento redescobrir o homúnculo que fui
E dentro da redoma, reconstruir o Golem
Que me ressuscite como um Lobisomem.

Ah, poesia triste como uma brisa no inverno,
Tu és meu Golem, minha Alquimia negra,
A panaceia universal dos corações rasgados!
É em ti que devo segurar minha alma
E subir numa escada prateada de nuvens,
Ser um arcanjo sem asas e sem pudor.
Mas a estrada continua lá, triste e espinhosa.
E é nela que devo continuar meu estradar,
Sem fé, sem sorrisos, sem consolo, sem mais nada…

Biblioteca do Bardo Celta (Leituras recomendadas)

  • Revista Iararana
  • Valenciando (antologia)
  • Valença: dos primódios a contemporaneidade (Edgard Oliveira)
  • A Sombra da Guerra (Augusto César Moutinho)
  • Coração na Boca (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)
  • Pelo Amor... Pela Vida! (Mustafá Rosemberg de Souza)
  • Veredas do Amor (Ângelo Paraíso Martins)
  • Tinharé (Oscar Pinheiro)
  • Da Natureza e Limites do Poder Moderador (Conselheiro Zacarias de Gois e Vasconcelos)
  • Outras Moradas (Antologia)
  • Lunaris (Carlos Ribeiro)
  • Códigos do Silêncio (José Inácio V. de Melo)
  • Decifração de Abismos (José Inácio V. de Melo)
  • Microafetos (Wladimir Cazé)
  • Textorama (Patrick Brock)
  • Cantar de Mio Cid (Anônimo)
  • Fausto (Goëthe)
  • Sofrimentos do Jovem Werther (Goëthe)
  • Bhagavad Gita (Anônimo)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Noite na Taverna/Macário (Álvares de Azevedo)
  • A Casa do Incesto (Anaïs Nin)
  • Delta de Vênus (Anaïs Nin)
  • Uma Espiã na Casa do Amor (Anaïs Nin)
  • Henry & June (Anaïs Nin)
  • Fire (Anaïs Nin)
  • Rubáiyát (Omar Khayyam)
  • 20.000 Léguas Submarinas (Jules Verne)
  • A Volta ao Mundo em 80 Dias (Jules Verne)
  • Manifesto Comunista (Marx & Engels)
  • Assim Falou Zaratustra (Nietzsche)
  • O Anticristo (Nietzsche)