Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Balada do Poeta Morto

Balada do Poeta Morto

Salvador, 08 de junho de 2003 (23h14/23h53)

Que cantar assim eu mais
Não sei, não posso, não devo.
Cantar como canta os deuses (vencidos)
Na nau azul da misericórdia;
Cantar com o coração desnudo
E romântico, puro como Sir Galahad
Em frente ao Sancto Graal de Cristo Nosso Senhor.

O mundo já não é mais dos poetas.
É da velocidade catatônica dos escritórios,
Do velho Futurismo reacionário de Marinetti,
É dos Gigabytes e dos Terawatts da mediocridade,
É da cifra de milhões de dólares e euros para guerras,
É do ouro luzindo falso no horizonte…

As amadas condessas da Lua já não amam
Os poetas jovens e apaixonados.
Amam os frios engenheiros e seus cálculos,
Seus castelos de pedra, cimento e números;
Os engenheiros que as traem com amantes
Enquanto as condessas mofam sozinhas no lar.
As Dulcinéias abandonaram o Burgo de Toboso
Para estudarem ciências jurídicas
E ganharem fama nos casos de divórcios
Entre a Musa e os Casanovas de subúrbios.

Meu olhar vergasta a planície cinza de Tebas:
Em que sonho eu te perdi,
Nobre ilha de Avalon?
Em que brumas eu me perdi de minha feliz pátria,
Pátria infeliz da poesia última de Ossian?
Em que escritório eu perdi
O navio para a ilha Barataria,
Último exílio de Don Quixote e Sancho Pança,
Fausto e Mefistófeles, Don Juan e Child Harold,
Ahasverus, Frankenstein, Gilgamesh e Werther?
Só sobrou a última quimera alada
A consolar-me nas profundas da noite sem luar
Com paraísos artificiais e mortais;
Eu – peregrino numa noite sem lua;
Eu – acaso da poesia, perdido nos trópicos;
Eu – filho deposto da cidadela de Tartessos desaparecida…

Em um turbilhão, ficarei odara,
Ficarei em êxtase.
Ah, se eu pudesse cantar,
Como cantei em meus dias felizes!
Quando nas margens de um riacho n’Arcádia,
As hamadríadas e a s fadas surgiam
Sensuais das moitas verdejantes,
Para coroar-me aedo junto ao Deus Pã…
Cantar como cantei, numa noite de tempestades e mistérios,
Os versos negros e ébrios
Da juventude romântica e condoreira…
Quando, do alto dos contra-fortes do Aconcágua,
Sonhei ser Napoleão sem Waterloo,
Sonhei ser Alexandre transpondo o Rio Ganges,
Sonhei ser o príncipe perfeito e sem mácula
– possuidor dos mistérios dos dragões
e dos tesouros das Minas de Ofir –
Que iria conquistar o castelo sanguíneo
Do amor de minha condessa amada.

Ah! Mas o mundo – O Mundo!
Velho invejoso a resmungar baixinho,
Não pertence aos jovens poetas!
Pertencem aos Economistas Alquimistas,
Na sua eterna ilusão de gerar ouro pelo chumbo;
E quanto mais procuram número perfeito,
Mais o ouro canta falso nas nuvens.
Pertencem aos homens robôs dos escritórios
Que servem de energia para a Matrix escondida
Que rege a reino da real ilusão.
O mundo pertence ao arauto das desgraças,
Aos magos que na caixa de cristal elétrico
Noticiam o crime nosso de cada dia
E com seus olhos infernais julgam
E condenam com azedume a imagem
Dos Cérberos selvagens forjados
Nos estaleiros deste mundo sem futuro.
E assim, cada manhã nasce mais plúmbea nas cidades sem horizontes,
E o mundo vai caminhando para sua extinção gradual,
Em passos lentos e seguros para o caos.

Não, o mundo não é mais dos poetas.
O coração das musas não é mais dos poetas
A felicidade não é mais do poeta.
O luar doirado e sangüíneo não é mais dos poetas.
E por isso, eu – que sou poeta –
Não mais vivo.
Não mais devo cantar
Não mais chorar posso…

2 comentários:

Wolf_o_Vermelho disse...

poetas adoram imaginar um passado onde já foram importantes.

mas eu também não estou na poesia pela fama, mulheres e dinheiro. não teria nem como.

Ricardo Vidal disse...

Caro Wolf_o_vermelho, a questão neste meu poema não é que o escritor deva fazer a literatura pelas mulheres, fama e dinhero. Embora a gênese deva-se ao fim de um namoro, o que eu coloco em questão são os valores que regem o mundo atual. Mais do que uma idealização de um passado, eu quero mostrar o divórcio que existe entre um mundo cujo o Sol ditatorial são o dinheiro e fama com outras atividades e valores como Beleza, que entram com colisão contra este mesmo sol. Nâo quero ser ingênuo e perdir a abolição anarquista da sociedade, apenas não aceito um conformismo com a vida e luto pelo direito de que uma outra vida é possível, que não seja atrelado ao provincianismo, ao conformismo, à mediocridade e ao cinismo. Releia o texto com mais atenção e verá que ele não se limita apenas um desabafo por falta de fama e sucesso. Releia e observe bem algumas metáforas e algumas referências culturais para entender aonde eu quero chegar...

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