Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

domingo, 20 de setembro de 2009

Fragmentos de um diario - um escritor em crise

Se eu fosse glamurizar a vida de escritor, o que poderia dizer? Que um escritor é alguém famoso, que tira o dia para ficar pensando em algum poema ou capítulo de romance ou cena de teatro, que toda noite é sempre tomada por palestras, vernissages ou noite de autógrafos - tudo regado a um bom vinho e canapés sofisiticados... Que sempre há em seu redor um grupo de pessoas inteligentes que conduzem uma conversa rica e estimulante. Ou que pode viver uma vida sossegada, numa casa confortável e calma; onde pudesse se concentrar para produzir um livro...
Se a vida fosse realmente isso, haveria de ser um paraíso, Mas não é a verdade dos fatos. Ou eu apenas conto alguns momentos luminosos e fulgurantes. No restante do tempo... Vejamos o este meu domingo:
Começo o domigo bem, com insônia. Bastou uma sesta rápida na tardinha de sábado (para digerir TUDO que comi no rodízio de massas) e fiquei acordado desde a 20h00 de sábado. Sento no único computador em que eu trabalho em casa, na sala. De início, já me irrito vendo um vídeo rídículo de lichamento que meu pai DEVE ter copiado do e-mail para guardar no seu Pen-Drive. Meu Deus, um tipo de comportamento brutal que abonimo no ser humano e meu pai achou que "vale a pena" guardar? Lamento que a minha casa é a única cujo computador NÃO SE PODE ter logins separados de acesso. Na cozinha, minha mãe fica costurando até umas 02h00 da madrugada. Então, aquela luzinha chata e o barulhinho da máquina já avisa que ainda não chegou o momento certo para escrever. Às vezes, o periquito surta a fazer barulho. Mais uma irritação que me obriga a postergar o momento de escrever.
Fico bestando Google Earth, saltando de lugares em lugares. Simultaneamente fico baixando alguma música ou uma foto pela internet, para distrair o espírito.
Há algum tempo tenho pensando em dois romances - mas eu preciso de tempo e calma. Preciso seguir meu ritmo de escrita. Mas não dá! Lembro-me da minha monografia atrasada, da mente cansada do emprego, de providências mil que devo tomar com urgência. Queroe screver meu romance, só que alma pesa. Devo obedecer a vida civil e trabalhar na monografia.
Efetivamente só irei escrever mesmo depois que minha mãe for dormir. Mas aí, já fiquei irritado e tenho que perder um certo tempo para entrar no clima. Escrevo algumas linhas na minha monografia, só que o espírito está longe... De vez em quando penso no romance, abro alguma página na internet para relaxar as mãos. Penso no futuro, no concurso de poesia da ALER e vejo que preciso correr - já perdir a inscrição em dois concursos literários este ano e não gostaria de perder mais esse.
A cabeça está tão quente que nem percebo que o dia amanheceu. Minha mãe acorda e abre logo a maldita janela da sala. Pouco depois o periquito de estimação surtar e começar a grita alucinadamente. Pronto, já sei que daqui para frente acabou o sossego para escrever. Minha mãe liga a televisão na cozinha e a máquina de costura. Tento ficar lendo alguma coisa na Wikipedia, mas já não consigo me concentrar mais.
Mais de uma da tarde, minha mãe me chama para almoçar. Pergunta se eu quero almoçar no comida a quilo. Bem, o problema é que meu pai viajou com meu tio para um passeio de moto. E somente assim, nas últimas semanas que eu consigo usar o computador daqui de casa. Não vou e minha mãe então prepara uma farofa de dendê com camarão aferventado. "Grande" almoço... Já não há mais pique para escrever nada. Abro meu e-mail, olho meu perfil no Orkut, entro em um jogo que simula as batalhas da SegundaGuerra Mundial. Alguém acreditaria que uso os jogos bons de computador (jogo complicado, não as besterias como Freecell e Paciência) como uma ferramenta para concentrar e raciocinar melhor o que escreverei? Pois jogo não por brincadeira, para mim - é parte do trabalho.
O vizinho da frente começar a botar música eletrônica. Quer dizer, algo que ele chama de música, porque eo que eu ouço uma repetição monótona e cacónica de batida de estacas sampleadas. Se ele ouvisse para ele próprio, tudo bem. Mas o cretino, além de ter um péssimo gosto músical, ainda colocar alto, para incomodar. E como minha família teve a "brilhante" ideia de transferir o computador para sala... Começo a compreender melhor o Theordor Adorno quis dizer que a tal da regressão do gosto muscal na modernidade.
Mais tarde meu pai e meu tio chegam do passeio de moto. Interrompo o que faço para que meu pai repassem par o computador as fotos que os dois fizeram. Meu pai, como sempre, não sabe mexer direito nas máquinas e demora para colocar as fotos. A mim, só me cabe esperar. Depois de meia-hora eu volto para o computador. Meu tio e meu pai conversam alto. A janela está aberta e o vizinho, volta e mei repetir o mesmo CD de música/tortura eletrônica. O periquito na cozinha faz barulho. Meu tio repete a mesma conversa chata de a administração do PT é ruim, com bases apenas em lugares comuns e pré-conceitos. Barulho, barulho, barulho. Irritação. Quem consegue escrever alguma coisa assim? Principalmente uma monografia, que precisa de reflexão, calma e sossego???
Nisso me lembro do blog, que está desatualizado. Faz alguns meses que não escrevo um poema ou um conto. Preciso tirar o diploma com urgência. Preciso estudar mais sobe designer gráfico. Há os exames de saúde que preiso entregar logo na SESAB. O computador está lento.
Quando se dá conta, são noves hora da noite de domingo. E vizinho continua a ouvir o mesmo bate-estaca chato e alto, irritando mais que Fernanda Young. Minha mãe continua costurando na cozinha e deve levar até a madrugada. Ou seja, mesmo que eu quisesse tentar a estudar, não teria sossego para escrever monografia. Fiquei o dia todo em casa, insone. As refeições foram frugais. O dia foi barulho e irritação, tendo que dividir meu intelecto entre as necessidades da vida civil e a carreira literária.
Amanhã volto à roda-viva do trabalho. E aos meus sonhos de ser um escritor de renome, ter um agente literário que cuide de minha carreira e um sobrado na Ilha de Sark - onde eu residiria e pudesse viver a vida glamurosa de escritor que às vezes acalento...
Vou tomar um banho e ver se depois de 24 horas de acesso eu consigo realmente dormir.

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