Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

domingo, 28 de setembro de 2008

A Noite do Poeta

A Noite do Poeta

Valença; 01º de janeiro de 2005

“Para isso que somos feitos:
Para lembrar e sermos lembrados
Para chorar e fazer chorar
(…)
Por isso que temos braços longos para os adeuses
……………………………

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
(…)
……………… ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor”
Poema de NatalVinícius de Moraes

“Para isso que somos feitos, para amar e ser amado”. Era nisso que meditava Aurélio quando voltava da festa. “Seria este o verso do Poetinha? E se fosse, teria dito ele só para os simples mortais ou também incluíram os poetas que vivem no Olimpo?”. Lá fora, o luar era silêncio e dúvidas.

A festa chegou inesperada. Num minuto Aurélio atendia o telefonema e no outro já adentrava na Kombi bege com alguns ex-colegas em direção ao clube de praia na cidade vizinha. Sua chegada era aguardada por todos, que queriam falar com o ilustre escritor. As mocinhas (algumas nem tanto) estavam alvoroçadas a espera de um autógrafo e quem sabe dançar com ele. Dos homens, Aurélio ouviu discursos e mais discursos, enaltecendo seu brilho e talento e relembrando os já distantes anos de colégio.

Aurélio não deixou de sentir certo gosto doce de ironia naquela festa: Ele, que sempre fora apupado por não ser um desportista, que tinha gostos estranhos como música clássica, sempre o preterido da turma; agora era o homenageado. Ao contrário dos demais colegas que arrastam uma existência reumática de herdeiro de pequenos negócios domésticos, bacharéis de província ou chefes subalternos de repartições públicas; Aurélio se tornou Doutor-professor de universidade federal, escritor famoso, cronista de jornal importante, capa de revista e entrevistado na TV – em suma, a única verdadeira celebridade naquela festa. Já que estava ali, aproveitou para se divertir e esquecer sua solidão olímpica. Bebeu, dançou, contou anedotas, tirou fotos. E já que era estranha e sinceramente amado por todos naquele recinto, passou a querer bem a todos eles, seus antigos carrascos escolares e atuais vassalos.

Porém, o mais estranho nisso tudo era o fato dele está ali, naquela festa. Aurélio sempre fora avesso a esses sentimentalismos e sua estada na cidade natal naquele fim de ano devia-se somente a sua querida avó enferma. Veio incógnito, pois queria sossego. Evitou sair pelas ruas. E além de dois ou três primos, só ligou avisando de sua chegada para uma velha amiga, Margot…

“Margot! Só poderia ser dela esta idéia!” Pensou Aurélio já meio ébrio. Fora dela o telefona do convite. Margot fora uma antiga paixão, um amor de adolescência, um primeiro alumbramento de jovem face aos mistérios do bicho mulher. Fora sua voz doce que o fez largar sua noite de estudos para estar ali. E ela fora a sua acompanhante desde a van até o salão, era sua guia naquela balbúrdia e seu anjo da guarda ao lhe lembrar os nomes de rostos já esquecidos. Ela estava linda no tomara-que-caia de seda negra com brocados prateados de inspiração chinesa. Usava um discreto colar de prata com um pingente de turmalina negra, numa rima ao seu corpo moreno e levantino.

Ela estava muito animada e parecia que não queria desgrudar de seu amigo. Já se passaram muitos anos que os dois pombinhos não se encontravam. Aurélio lhe contava suas aventuras na Europa, detalhes de sua vida de solteiro “dandy” e bastidores da vida cultural. Margot contava causos de sua vida de enfermeira-chefe do hospital da cidade vizinha e suas viagens pelo Brasil. Parecia até um casal de namorados…

Pareciam. E Aurélio ainda guardava no sótão do seu peito algo do primeiro amor, algo que nunca fora concretizado e que talvez seja o motivo que o levara a se expatriar de sua cidade natal. Percebeu, contudo, que havia algo de diferente nela. O olhar de Margot não trazia mais a melancolia de uma inglesa romântica. Antes, eram dois mboitatás a luzir nos pauis de uma noite sem luar. Esposo e filhos Margot não tinha para alegria de Aurélio. Porém ela usava uma aliança no dedo, que ele preferiu ignorar para o bem de sua ilusão.

A festa já começava a chegar ao fim. A banda tocava músicas cada vez mais lentas e o salão fora tomado por casais. Aurélio, sob efeito dos Syrah e dos Cabernet Sauvignon do Vale do São Francisco sentia-se mais corajoso para seguir em frente. Aproveitou para chamar Margot, que também já estava mais acesa, e foram dançar juntinhos. “Seria agora o momento de resolver de vez sua solidão e começar o namoro?” Já na quinta dança, corpos juntinhos, compasso lento de tema de amor, Aurélio olhou ternamente no fundo dos olhos cintilantes e aproximou suavemente seu lábio ao dela. Seria agora que…

Um pigarro interrompeu definitivamente seus sonhos. Era Judith, a garota mais bela e desejada do colégio, que tantos pecados encheu os corações de seus colegas. E em lugar do disputado Aurélio, era Margot quem convidava para dançar. As duas dançaram apaixonadamente. E trocaram beijos na boca e carinhos discretamente lascivos no salão. Seus olhares quentes denunciavam o amor sincero e mútuo.

Se para todos isso já era normal para Aurélio fora uma triste surpresa que procurou disfarçar com autógrafos e fotos. “Por que ela não contara? No final das contas, passara tanto tempo longe da vida de sua cidade natal?”. Não procurou explicações. Também evitou escândalos (e como poderia?) – afinal, não haveria mal nenhum em ela se apaixonar por outra pessoa.

Aproveitou esse momento de solidão para observar as outras pessoas. Seus ex-colegas não se casaram com nenhuma beleza espetacular. Muitos já não tinham as formas de atletas de outrora nem levavam a vida de glamour que Aurélio se acostumara nos salões literários internacionais. Mas eram felizes e amavam sinceramente seu colega famoso. E seu único amor que teve em toda vida era a mais feliz das convidadas, vivendo apaixonadamente com outra mulher. Quanto a ele, só lhe restava a glória de ser solteiro e célebre.

Na volta, quando todos estavam cansados, ele pode contemplar as duas dormindo juntas no fundo da Kombi. A mão delicada de Judith estava sobre o seio formoso de Margot, como a indicar posse afetiva e efetiva e excitamento pela tórrida noite de amor que as duas poderiam ter mais tarde, no aconchego de seu lar. Aurélio, só lhe cabia meditar melancolicamente. “Seria para isso que somos feitos? Pois é, meu caro Vinícius, os poetas foram feitos para sofrer no Olimpo. Aos demais mortais foi dada apenas a dúbia esperança de viverem na ilusão de amar...”

Um comentário:

Janda disse...

Obrigada Aurélio, ops, José Ricardo! rs
Segunda vez que entro aqui e segunda vez que fico saboreando (queria mesmo dizer "deliciando") suas palavras. Aliás, ex-suas-palavras. Eu as li e tornaram-se minhas agora. rs
Em meio a tanto trabalho, tanto corre-corre da vida real, você faz reviver meu gosto pelas boas palavras, pela vontade de boas palavras molhadas.
um beijo
Janda

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