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Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

sábado, 29 de março de 2008

Fragmentos de um diário - Queridos Amigos


Salvador, 29 de março de 2008 (00h43)


A minissérie global "Queridos Amigos" chegou a fim. Terminou leve como uma pluma voando no vento, com aquele clima de catarse: Ok, o tempo passa, tudo muda, tudo que é sólido desmancha no ar, os anos rebeldes e o desbunde já são história, mas o importante é os amigos que levamos desta vida. E assim, depois que Denise Sarraceni pôs o "FIM" no ar, ficamos com aquela vontade louca de ligar para um amigo que não vemos a muito tempo e dizer como foi bom nosso passado, lembrar as loucuras que foram feitas e marcar um encontro com a turma. Turma? Por que não marcar um almoço ou um jantar de confraternização com a turma de ex-colegas? Ter este sentimento de carinho bobo que nos humaniza de vez em quando e justificam os manuais de auto-ajuda e de motivação....


Falando assim eu pareço que peguei um pouco do espírito sarcástico de Benny (Guilherme Weber). Nada disso (aliás, eu estou para uma mistura de Pedro, Tito e Ivan). Eu gostei da minissérie. Foi bom ver este acerto de contas da geração de 1960 (que eu sempre admirei), relembrar o ano de 1989 (A queda do muro de Berlim, a primeira eleição direta para presidente em quase 30 anos, a campanha de Lula, o centenário do Aborto Republicano Brasileiro, os bicentenários de da morte de Tiradentes e da Queda da Bastilha, a moda, as músicas etc...). Foi ótimo ouvir a trilha sonora - cuja música capitão foi "Nada Será como Antes" na voz de Milton Nascimento. E o que fala das atuações de Maria Luísa Mendonça, Débora Bloch, Mayana Neiva (grande revelação!), Mallu Galli, Tarcísio Filho, Denise Fraga, Guilherme Weber, Bruno Garcia, Mateus Nacthergaele, Drica Moares, Fernando Gabo Mendes, Dan Stulbach, Luis Carlos Vasconcelos, Juca de Oliveira, Araci Balabanian, Fernanda Montenegro... ufa! E o restante do elenco.


Tudo bem que alguns podem dizer: esperava mais da série. Só que deve se lembrar em conta que esta série surgiu quase por acaso, para cobrir um outro projeto que fora recusado pela TV Globo. E o resultado foi não aquela minissérie épica que a Globo faz no início do ano, quase que uma novela reduzida. Fez uma minissérie intimista, lírica, poética. Fez algo mais suave e delicado. Por isso que ficou boa. Em lugar de papeis dramáticos (como na "Casa das Sete Mulheres", "Presença de Anita" ou "Amazônia - de Galvez a Chico Mendes"), ficou esta interpretação mais branda sem ser superficial ou piegas ou caricata - na medida certa.


Eu achei que o cainho que Denise Fraga deu para sua personagem "Bia" estava certo: para quem sublimava os traumas no DOI-CODI com o budismo e a astrologia, ela tinha que parece uma quarentona riponga com aquele sorriso melancólico na maior parte do texto. Se ela tivesse explorado mais o lado de vítima que ficava o tempo todo debaixo da cama provavelmente teria ficado exagerado.


Quando ao Tito, Mateus Nachtergaele não carregou nas tintas - conheci muitos esquerdistas radicais que são assim mesmo! Durões, que politizam tudo, até mesa de bar!


Guilherme Weber deu o tom certo para Benny, como um existencialista de trejeitos yuppie nihilista - alguém que, sem perder contacto com as raízes filosóficas da década de 60, soube captar as mudanças que vinha no vento dos anos 80.


Dan Stulbach, como Léo, soube conduzir bem o fio lírico da trama. Como os anos 60 não poderiam durar para sempre e a resseca foi grande (aliás, para uma geração que pedia o impossível, a impressão imediata foi que fracassaram), era preciso que os sobreviventes desta época soubessem guardar esta memória com carinho, sem grandes análises ou cobranças.


Eu arriscaria dizer que Léo, no fundo, foi uma alegoria deste espírito da década de 60 - uma década de transgressões, revoluções e de utopias que todos acreditara serem possíveis, cujos frutos, todavia, não seriam imediatos. E por não serem imediatos os frutos, quem viveu aqueles anos não deveriam cair no outro extremo, de negação total. Deveria ainda ser guardado um pouco daquela magia e encarar esta passagem do tempo como uma obra de arte. Ou como dia professor Sérgio Guerra durante as aulas: para quem passou por aquele turbilhão e sobreviveu, hoje tem obrigação de ser otimista.


Bem, estou aqui fazendo uma dissertação sobre o último capítulo, tentando por em palavras algo que no fundo é pura emoção. Deu vontade de comprar o romance "Aos meus amigos", de Maria Adelaide Amaral para cotejar a obra, ver como foi feita a tradução inter-semiótica do romance. Comprando o livro, eu possa matar a saudade de personagem como Tito (que ainda acredita no leninismo), Ivan, Pedro (gostei do look de Bruno Garcia - parecido com o meu), Benny (o sarcasmo era perfeito) e Léo - o demiurgo desta "família".

Até a próxima nota do diário

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