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Escritor, autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Graduado em Letras/Inglês pela UNEB Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

quarta-feira, 5 de março de 2008

Reflexão sobre a Política Cultural Valenciana

Reflexão sobre a Política Cultural Valenciana

Ricardo Vidal, 29 anos, escritor. Autor do livro “Estrelas no Lago”. Estuda Letras/Inglês na UNEB-Salvador. Weblog: www.bardocelta.blogspot.com, E-mail: cve_livros@hotmail.com

Neste ano de eleições municipais, somos convidados a refletir sobre os temas básicos da vida em comunidade: educação, saúde, segurança… Neste oceano de candidatos (e deserto de propostas), gostaria de discutir contigo, amigo leitor, um tema estratégico para o nosso desenvolvimento que é, infelizmente, negligenciado em Valença: Política Cultural.

Sobre a importância da cultura creio que não precisa fazer longas explicações. Já está mais do provado que a cultura é a base da civilização. É ela que permitiu ao ser humano se elevar de meros animais irracionais para este ser pensante que cria, inventa, abstrai e simboliza. Mais do que isso, a Cultura forjou a idéia do ser humano como ser gregário que pensar além dos instintos – que a vida possui outras dimensões, como a espiritual, a ética e a estética. Sendo assim, a cultura está no cerne tanto da identidade humana como da coesão social. Consequentemente, qualquer governo deve ter uma política clara para este setor, uma vez que ele afeta uma parte importante (embora nem sempre perceptível) da vida humana.

E qual política cultural adotada em Valença nestes últimos anos? Infelizmente, o que se observou foi que as pessoas que assumiram a prefeitura nos últimos anos trataram o assunto entre o descaso, e o equívoco – com grave prejuízo para o setor.

SECRETARIA-FRANKENSTEIN: O exemplo disso pode ser observado com a atual Secretaria Municipal de Indústria, Comércio, Turismo e (ufa!)… Cultura. Herdeira da visão carlista de transformar a cultura em um mero apêndice do turismo, esta secretaria “Frankenstein” comete o equívoco de unir num mesmo órgão a gestão de políticas públicas díspares entre si. Qual é a identidade de ação teria, por exemplo, o desenvolvimento de um parque industrial e um programa de incentivo à leitura ou a recuperação do patrimônio histórico com organização do comércio atacadista? Cultura difere da indústria, comércio e turismo porque, se estas possuem como fim a geração de lucro material, aquela tem outro compromisso – que é a construção simbólica da identidade humana. Deste modo, Cultura se torna área afim com a Educação. Se em certas áreas da cultura é possível auferir lucro material – como a organização de eventos que atraiam turistas, como o “Revellion no Guaibim”; outras são naturalmente deficitárias, mas que mesmo assim precisam ser mantidas – como o funcionamento constante da Biblioteca Pública Municipal e o apoio à cultura popular. Logo, a incoerência de se manter esta secretaria “Frankenstein” resulta numa gestão precária da cultura em Valença.

Deste modo, se alguns setores ficam totalmente desamparados – como o fomento à criação intelectual e o cuidado ao patrimônio artístico e histórico da cidade (que está se deteriorando a olhos vistos – exemplo disso é o prédio do Grupo Escolar Conselheiro Zacarias); outros são conduzidos com uma visão distorcida – como o que permite o fechamento da Biblioteca Municipal durante o mês de janeiro. Que a funcionária tenha seu direito às férias isso não se discute, mas uma instituição como essa deve estar aberta ininterruptamente, uma vez que ela não se destina apenas às pesquisas escolares – ela serve também para pesquisas científicas (principalmente que Valença é carente de um Arquivo Público) e para o lazer. Seria necessário ter uma segunda bibliotecária trabalhando, para que o recesso de uma delas não implique no fechamento deste órgão municipal.

O resultado final desta série de equívocos é observar que as únicas “realizações” da prefeitura no setor são os eventos de massa, com trio elétrico tocando “sucessos” de gosto duvidoso – como arrocha. E que no final serve mais para atrair turistas e a aplicar da velha política do ‘pão e circo’ para o povo, do que para o real fomento à cultura, que acaba relegado ao quarto ou quinto plano das preocupações da Prefeitura.

ALÈM DOS EVENTOS: Como alternativa a este modelo falido, o município de Valença precisaria ou de uma secretaria exclusiva para tratar da Cultura ou que esta estivesse integrada da Secretaria de Educação. Esta união é facilmente explicável: ambas possuem a mesma tarefa de formação e preservação da identidade humana.

E para que esta Secretaria não se transforme em mera sinecura, ela precisa ter um programa e uma agenda permanente de ações. Dentre estas ações que seriam desenvolvidas nos próximos quatros anos teríamos, como sugestão: 01º) Tombamento e a recuperação de sítios históricos como as ruínas da Fábrica Todos os Santos e os prédios da Câmara Municipal, Teatro Municipal, Recreativa, dentre outros; 02º) Utilização do Teatro Municipal como espaço alternativo para eventos culturais e oficiais, com grupo teatral residente; 03º) Criação de Arquivo Público para Memória Valenciana – que poderia ser desdobrado futuramente em Fundação Cultural e Museu da Cidade; 04º) Desenvolvimento de um programa de formação de público para atividades culturais, em conjunto ou dentro da Secretaria de Educação; 05º) Programa Anual de Incentivo à Cultura, em que a prefeitura – com parceria com os setores privados – financiaria a execução de obras de artes escolhidas em concurso público; 06º) Apoio à cultura popular local – como artesãos e grupos folclóricos; 07º) Realização de uma Bienal de Letras e Artes de Valença, similar à Festa Literária Internacional de Parati, que não só promoveria o intercâmbio dos nossos artistas locais com seus colegas de outros lugares como divulgaria a produção cultural valenciana.

Embora algumas destas atividades propostas não tenham lucro material imediato, elas são importantes para a formação do Patrimônio Simbólico do município, fortalecendo não só o sentimento de cidadania como ajudando no desenvolvimento e o crescimento ordenado da cidade a médio e longo prazo. Enfim, nossa cidade precisa de um outro modelo de gestão de política cultural, que não seja apenas de mero promotor de eventos turístico.

Em suma, pela importância estratégica que a cultura assume na vida das pessoas, as últimas gestões municipais de Valença (especialmente a atual) mostraram que não tiveram uma política consistente para o setor – em parte, devido ao modelo equivocado de unir cultura com turismo, comércio e indústria numa mesma secretaria. Uma alternativa a isso seria uma mudança no organograma da administração municipal e na execução de um programa amplo de atividades mais amplo, que além dos eventos para turistas, também inclua estímulo à criação cultural e gestão do patrimônio histórico e artístico – como ocorreu em Cairu, com o tombamento do Convento.

Aos amigos leitores (principalmente aqueles que desejam ser candidatos para a eleição de 2008), fica aqui este convite a reflexão sobre um tema esquecido, mas importante para uma Valença cidadã e melhor.

Salvador, 16 de fevereiro de 2008. 23h19

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