Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

terça-feira, 10 de junho de 2008

Sincronicidade

Sincronicidade

Salvador; 19 de maio de 2008 (01h35/06h28 AM).

— Você viu o que seu primo Sigmund mandou pelo e-mail? – perguntou Jacques enquanto seu irmão Carl estava entretido no computador, vendo um site sobre bandeiras e ouvindo as músicas da “Blues Brothers Band”.

— Não… — respondera absorto, quase mecanicamente. Carl ainda estava anestesiado com o concurso público que prestara na seamana posterior e apenas passava os olhos nas páginas do site para relaxar seu espírito.

— Entre logo! É uma surpresa que você vai gostar. Ele mandou uma cópia para mim e adorei. Entre logo no seu e-mail, pois não quero estragar a surpresa.

Carl abriu o seu e-mail. Demorou quase dois minutos baixando o e-mail do primo para descobrir a grande “surpresa”: um vídeo do conjunto “The Animals” cantando “House of the Rising Sun”. Jacques estava no lado do irmão. Quatro minutos e meio e Carl voltou a sua infância, quando seu pai colocava o velho LP mono na vitrola e ficava cantando com a voz de barítono desafinado. Seria por isso que ele passou a gostar de blues e jazz? Não, seu pai gostava de rock’n’roll. Mas o “velho” sabia reconhecer música de valor, tanto que ouvia junto com o filho os primeiros CDs de Thelonius Monk e B.B. King que Carl comprava com sua mesada.

— Sabe, Carl, eu não imaginava que a letra desta música fosse tão triste assim.

— Pois eu já sabia disso. Sabia que esta música, que nós ouvíamos como uma pérola do rock, na verdade é um tema clássico do blues, que existe especulações se esta casa teria existido mesmo em Nova Orléans e que o tema dela evocava as classes pobres. Mas eu pensei que você soubesse disso, Jacques. Você não é formando em Letras com Inglês? — terminou Carl a frase com um leve sorriso de ironia para provocar o irmão.

— Há, Há! Era para rir? — retrucou Jacques se fingido de ofendido — Você sabe que meu interesse é neurolingüística e estruturalismo, não tradução. Depois, há momentos que apenas ouvimos e deixamos muitas coisas passarem (principalmente quando é uma música em inglês!). Só mais tarde descobrimos o conteúdo simbólico da obra. Aliás, no caso desta música, é um tema interessante, primeiro, porque não se sabe se a Casa do Sol Nascente era um eufemismo para prostíbulo, prisão ou casas–senhoriais da “Dixieland”, segundo, se o eu poético é feminino ou masculino (o que no caso da mulher, a sua procura por seu amante levou à prostituição ou à cadeia) e terceiro, mostra a decadência moral, principalmente do nascente proletariado, que via na bebedeira, a prostituição e jogo de cartas, como PÔQUER – e Jacques enfatizou bem esta palavra – como causa da degradação moral dentre eles.

— Ok! Ok! Não precisa vim com filosofia, já entendi, já entendi! Sim, gostei de ver o clipe, mas deixe-me voltar às músicas que estava ouvindo. Desculpe-me o jeito ranzinza, mas você sabe a semana terrível que passei. — respondeu Carl aceitando a resposta do irmão, mas sem vontade de continuar aquele xadrez mental que ás vezes os dois se entregavam para ver quem era mais perspicaz.

Jacques deixou seu irmão voltar aos sites de vexicologia. Quando ficava vendo os desenhos de bandeiras era porque passava por alguma tempestade íntima e aquilo servia como válvula de escape.

Carl chegara à terceira década de existência com sua vida posta de cabeça para baixo. Sentia-se um inútil concluindo o curso de Ciências Contábeis naquela idade, desempregado, sem namorada e ainda morando de favor com a família do irmão caçula. E na época dos estágios finais para conclusão do curso coincidiu a chegada de concurso público para Empresa Gráfica da Bahia, para trabalhar como diagramador. E ainda havia o prêmio para criação da nova logomarca no Banco Industrial… Nos mês do seu aniversário ele estava correndo em três frentes de atuação. O resultado foi que, no dia do seu aniversário e passou no hospital, sedado com cloridrato de amitriptilina, devido a um ataque depressivo. E por mais que a família demonstrasse apoio ao seu desejo de independência, Carl tinha suas idiossincrasias que eram insuportáveis e de uma certa forma o prejudicavam: não se dava bem em empregos muito burocráticos ou que lhe exigissem pouco do seu intelecto. Também não era um caçador de mega-salários. Queria um emprego onde antes de tudo ele pudesse sentir satisfação e remunerassem razoavelmente bem. Foi por isso que acabou aceitando fazer este concurso para diagramador. Assim se livrava da mesada e dos bicos que fazia para sustentar sua faculdade (que ele não tinha a menor vontade de fazer, era apenas uma satisfação que dava para família).

Por isso que no primeiro final de semana posterior às provas do concurso e da entrega de seus trabalhos para concorrer ao prêmio, Carl entrou naquele velho site sobre bandeiras, “Flags of the World”. Ele ficava vendo como evoluiu a bandeira portuguesa através dos séculos ou as várias bandeiras que representou a França e suas províncias. Na verdade procurava entrever naquela profusão de cores, símbolos e desenhos algum portal de fuga para outra dimensão. Procurava nos estandartes medievais uma vida que houve vivido antes, um senhorio nos Algarves, um ducado nos Bálcãs, um comando militar em uma tropa francesa em alguma guarnição da África Ocidental. Para não se entregar totalmente aos devaneios, aproveitava para treinar em línguas estrangeiras, ampliar os conhecimentos de geografia, história, política e cultura e desenvolver parte dos seus conhecimentos em desenho.

Apesar de Carl se sentir ainda mentalmente exausto, entrou pela madrugada na internet. Jacques, com pena dele, deixou uma merenda reforçada para o irmão antes de dormir, pois sabia que nestes casos ele perdia completamente o apetite.

Carl gostava daquele silêncio da madrugada. Gostava da cumplicidade das trevas. Também era o momento que poderia ver fotos de nus femininos e complementar assim seus conhecimentos em artes.

“Por que é difícil para as pessoas entenderem que um homem pode gostar de ver fotos de nus ou de sexo (mesmo amadoras) apenas por deleite intelectual? Gostava de ver as formas do corpo feminino com o mesmo prazer que ver a composição de um brasão heráldico, sentir os limites entre o erotismo e a pornografia, notar as sutilezas das montagens em Photoshop com as atrizes e cantoras, perceber quais são os padrões usados na pornografia, depreender o que leva esse jogo de exibicionismo cinza, mulheres em poses ginecológicas que esconde o rosto com tarjas negras, possíveis candidatas à musa da vez. Mundo doido, mundo hipócrita, mundo recalcado. Meu irmão pensa que isso é apenas carência afetiva, falta de namorada, excesso de timidez de minha parte para encontrar com uma mulher de verdade. Bobagem! Até parece que ele não sabe que eu não gosto de desenhar. Não tenho interesse em pintura ou instalações modernas, mas em desenho. Desenho… Se bem que poderia chover um pouco aqui na minha horta… Um afago humano, um beijo, um coração acelerado… Acho que nas escolas falta esta disciplina de Educação Sentimental, assim…” Foi com pensamento ao léu que abriu um jogo de strip-poker que ele mantinha discretíssimo no computador, para evitar confusão com a cunhada protestante e puritana, da IURD.

Carl se divertia com aquele jogo, embora sempre perdesse todo o “dinheiro” em dez ou doze rodadas. Das vinte figuras do jogo, só conseguiu ver a quarta, no máximo. E a modelo até que era bonitinha! Só que havia algo (ou azar, ou distração, ou apenas tédiojogo) que no final ele perdia tudo e pronto! Como a aposta não era real e não teria o risco dele ficar endividado, isso deixava Carl mais tranqüilo. “Bem, como é apenas um jogo, posso ficar mais um pouquinho de tempo antes de dormir”. Jogou pela primeira vez, o mesmo método de sempre: pequenas apostas, analisando o jogo e contando com a sorte. Novamente, eliminado antes da décima jogada. Voltou para o site de bandeiras.

“Preciso passar neste concurso. Preciso de emprego para começar a tocar meu barco o mais rápido. Preciso de dinheiro para comprar CDs de músicas, meus DVDs.” Era nisso quando pensava quando resolveu voltar ao jogo. Antes, colocou a música “House of the Rising Sun” como fundo musical bem baixinho e comeu mais um pouco do lanche deixado pelo meu irmão.

— Sabe de uma coisa, hoje vou fazer diferente! Apesar de ser apenas um jogo tolo de computador… Depois, não corro o perigo de me endividar mesmo…

Em vez de começar com apostas pequenas, foi logo apostando mil créditos (metade do valor inicial). A primeira mãe veio boa, um par de ases. Devolver três cartas e eis que no jogo final aparecem mais dois reis! Ganhara dois mil créditos! Mas Carl não levou a sério e jogo os três mil créditos, distraidamente. Mas tela apareceu uma trinca de seis. “Que bom”, pensou Carl, “ganho assim seis mil créditos”. Devolveu as outras duas cartas e, para sua surpresa, apareceu mais um seis. Uma quadra e o cêntuplo do valor! “poxa, é a primeira vez que tive sorte e ganho tanto assim neste jogo! E ainda pude ver a última foto da modelo. Não é uma pose ginecológica, antes uma foto de relativa qualidade”. Carl continuou mais duas rodas, sem ganhar ou perder (uma vez que sempre aparecia um par de cartas) Na quinta vez, para testar sua sorte no jogo, dos 300 mil que tinha no jogo, aposto 90 mil créditos (o jogo no computador na máximo computava de mil em mil). Para sua segunda surpresa, outra trinca, de sete. Carl respirou fundo! Dois milhões e setecentos mil créditos? Já estava bom até demais! “Se bem que poderia dar um ‘full hand’ ou novamente uma quadra e melhorar minha mão”. E foi no exato momento que ele ouvia Eric Burdon cantar “It’s been the ruin of many a poor boy and God, I know, I’m one” que as cartas baixavam com a trinca de sete e um par de valetes. Full Hand! 9.750.000 créditos no total! Carl olhou para aquela cifra, admirado. A música repetia, se misturando aos seus pensamentos.

“My father was a gamblin’ man down in New Orleans”.

“Eu sou um jogador agora. O melhor jogador deste jogo”.

“The only thing a gambler needs is a suitcase and trunk”.

“Eu bem que gostaria agora era de uma mala cheia de dinheiro, uma mulher e toda liberdade para poder desenhar. E um sobrado no Bonfim, lá na península de Itapagipe.”

“I have done send yours lives in sin and misery”

“Se eu não tivesse perdido tempo ouvindo os conselhos dos outros teria terminado mais cedo esta faculdade. Ou teria feito outra faculdade e trabalhado em algo que realmente eu goste, sem se preocupar.”

“I’m going back to New Orleans to wear that ball and chain.”

“Meus Deus, como nós ficamos preso a coisas pequenas! Por que não podemos ser feliz e ter as condições razoáveis para viver? Por que é tão difícil conciliar um bom salário com a sensação de está fazendo algo de que se gosta? Arre! Maldito Capitalismo! Por que não vivemos numa sociedade socialista: a cada um segundo suas necessidades! E pronto! Nada de Contabilidade, Auditoria, Chefes idiotas e estúpidos atrapalhando.”

“It’s been the ruin of many a poor boy”

“O que eu faria com nove milhões de reais? Claro que aplicaria quase tudo em bons investimentos. Poupança. Fundo de renda fixa. Ações da Petrobrás e Banco do Brasil. Ouro. Mas também quero curtir um pouco. Uma viagem para Itália de dois meses. Duas semanas em Compostella comendo tapas e tomando Viño Verde… As coleções completas de vinis de B.B. King, Charlie Parker… Uma mansão em Punta del Leste”

“And God I know, I’m one”

“Mas isso é apenas jogo tolo de computador e o Sol já aparece na janela. Já esta na hora de fechar o computador e ir dormir um pouco. Como hoje é domingo, meu irmão não se importará de me deixar dormir até mais tarde. E rezar que eu seja aprovado logo no concurso da Empresa Gráfica da Bahia e ganhe o prêmio do Banco Industrial.”

Desta vez Carl fechou o jogo com a conta cheia. Desligou o computador. Ante de tomar a dose de clonazepan, ainda ouviu mais uma vez “House of the Rising Sun”. Só então se deu conta das coincidências daquela noite. A letra. O jogo. A espera pelo emprego. A sensação de tempo perdido. A formatura. Teria isso algum significado? Realmente ele sua vida iria mudar daqui para frente? E tendo certeza que isso seria apenas uma mera ironia do destino, Carl entrou no mundo dos sonhos pelos braços do remédio.

……………………………………………

No final do ano, Carl estava formando e trabalhando como diagramador, feliz com o emprego. O salário era na medida certa das suas ambições. Dera entrada no financiamento de um apartamento e se mudará no Ano-Novo. Na sala de estar, estaria o prêmio ganho do Banco Industrial e pensava se escrever num curso livre de desenho, na universidade onde ele estudara… E finalmente ele estava namorando uma colega de trabalho, que também apreciava ver fotos de nus artísticos!

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