Sua Majestade, O Bardo

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Valença, Bahia, Brazil
Escritor e Professor de Literaturas Anglófonas. Autor do livro "Estrelas no Lago" (Salvador: Cia Valença Editorial, 2004) e coautor de "4 Ases e 1 Coringa" (Valença: Prisma, 2014). Licenciado em Letras/Inglês pela UNEB-Campus Salvador. Falando de mim em outra forma: "Aspetti, signorina, le diro con due parole chi son, Chi son, e che faccio, come vivo, vuole? Chi son? chi son? son un poeta. Che cosa faccio? scrivo. e come vivo? vivo."

domingo, 8 de junho de 2008

Uma Fabula bem Brasileira

UMA FÁBULA BEM BRASILEIRA

Salvador, 03 de novembro de 2005 (01h30)

Era uma vez…

Ou duas, talvez…

Eram dois amigos de infância: A Anta e o Mico-Leão Dourado.
Quando filhotes, todo dia a Anta caminhava para a Escola da Mata, e encontrava com o Mico-Leão descansando no alto do Jequitibá, curtindo os raios de sol que ainda banhava a Mata Atlântica (já faz muito tempo esta parte da estória, pois ainda havia esta floresta no Brasil).

— Deixe de ser prego e vá para a Escola, Mico-Leão Dourado. Se continuar a vida assim, logo, logo acabará extinto — admoestava sempre a Anta quando encontrava com o amigo se espreguiçando na copa das árvores. Mas o Mico-Leão nem ligava. Por que ele deveria se dar ao trabalho de ir para escola, se a mata lhe dava comida e abrigo, tudo que ele precisava? E a Anta seguia sua trilha até a escola.

Só eu nada do Mico-Leão Dourado ouvir estes conselhos. Sua vida era ficar no alto de Jequitibá. De vez em quando, quando aparecia algum bípede estranho, com ares de naturalista europeu, ele fazia alguma macaquice de Macuinaíma para ganhar alguma coisa. Noutras ocasiões, ia jogar sinuca com o Urubu-Rei em algum boteco da mata.

A Anta, um animal maior que o Mico-Leão, era mais forte e mais disciplinado. Fazia suas tarefas escolares (embora nunca raciocinasse para que lhe valia decorar tantas regras sem sentidos). Acreditava na Ética do Trabalho Árduo e na Fé Absoluta de que o mundo era assim porque foi criado assim desde o início dos tempos. Não era muito de farra e reprovava sempre o comportamento do seu amigo Mico-Leão Dourado, com seu jeito sempre tranqüilo de cuidar da vida. A Anta esperava mudar o amigo, sempre aconselhando ele a ir a escola e ser mais uma engrenagem no mundo social da selva.

Mas o Mico era bicho teimoso, e o monólogo da Anta era sempre este: Mico-Leão, Mico-Leão, vá para escola se não quiser ser extinto. Só os animais úteis é que sobrevivem nesta floresta.

Mas o tempo passou. A Anta não entrou da Universidade (que se destinava apenas aos predadores). Em lugar disso, foi fazer um curso técnico–profissionalizante lá para os lados do Sertão. Antes de partir, não deixou de dar seu conselho ao seu amigo Mico-Leão:

— Rapaz, tu já está adulto e ainda continua nesta vida de Macaco-Prego? O mundo está mudando, logo o Progresso estará chegando por estas bandas e o que será de você, se não estiver preparado para seguir as novas tendências do futuro? Veja que eu já estou indo para o sertão garantir a minha sobrevivência neste novo mundo que se aproxima.

A Anta partiu. Ficou algum tempo no sertão, onde aprendeu a ser um burocrata padrão. Mas tarde, já funcionário de carreira, conseguiu a transferência para a Mata Atlântica.

Encontrou a Mata mudada. Na verdade, quase não encontrou mais selva – o mato foi morto pela Civilização. Virou uma Área de Proteção Ambiental, um recanto escondido dentre as árvores de concretos e as torres de fumaça das indústrias. Não encontrou mais o seu amigo Mico-Leão Dourado – com certeza ele acabou extinto como Trilobitas, Megatérios, Tigres Dente-de-sabre, Acendedores de Lampiões e Guerrilhas de Esquerdas. Também, não tinha tempo para lamentá-lo, pois sua vida era só a burocracia e a família (tornara-se um animal respeitável). Cotidiano. Não se tornou um animal superior, mas fingia sua vida não era de todo ruim. Sonhava com os filhos na Universidade, embora reconhecesse se difícil que uma Anta se tornar um predador do porte da Suçuarana, do Jacaré ou da Jaguatirica. De vez em quando ia para o Regato, comer um tira-gosto de fruta e ver as fêmeas provocantes com biquínis. Claro que ia sozinho apreciar estas belezas, sem a Senhora Dona Esposa – que ficava em casa cuidando das antinhas. Também não aparecia na hora que a Onça-Pintada, sua chefe na repartição, ia beber água. Já não bastava a perseguição que Onça lhe movia no trabalho? Pelo menos queria um pouco de sossego no seu momento de lazer. Por isso evitava sempre se encontrar com sua chefa fora do horário e ambiente de trabalho…

De vez enquanto a Anta se perguntava por que não era ela a chefe de repartição. Logo ela, que sempre fora mais inteligente e amigável que Onça… Só que no momento seguinte ela se conformava. Há uma ordem na cadeia alimentar que deveria ser seguida, mesmo quando beneficia a incompetência. Era assim na Lei da Mata e da Burocracia – cada macaco no seu galho.

Se a fábula terminasse aqui, não teria sentido nem graça. Por isso que prossigo na historia:

Um dia…

Sempre tem um dia que o mundo fica diferente ou a história caminha para o clímax. Pois neste dia, estava a Anta descansando no regato, contando as horas para sua aposentadoria, quando apareceu no Regato um bicho estranho. Não era bicho-grilo da faculdade de comunicação, pois trajava terno Giorgio Armani, óculos escuros Pierre Cardin, relógio suíço no pulso e um celular japonês de última geração no bolso. O bípede bem aprumado deixou TODAS as fêmeas em cio, com a esperança de levá-lo pra cama e faturar algum dinheiro.
Este bípede caminhou em direção da Anta e o cumprimentou efusivamente. Só depois de algum tempo que reconhecer o seu velho amigo Mico-Leão Dourado

— Rapaz, eu pensei que você já estivesse extinto! Pelo visto, parece que você seguiu meus conselhos, para aparecer assim, bem vestido. Formou em qual escola?

— Nenhuma!

Ante a cara atônica da Anta, o mico contou sua história:

Rapaz, depois que você partiu para o sertão, a Mata mudou. Apareceu um tal de Bicho-Homem que modificou tudo por aqui. Era um derrubar de árvore que nem te conto. Vendo que a maré não estava pra peixe, fui conversar com o Papagaio, dono do Grupo Folha da Mata Comunicação. Era meu amigo de farra e fruta de longo tempo (inclusive arrumava algumas Cacatuas e Babuínas para nossas festas privês nos motéis e moitas da mata). Sugeri que ele fizesse uma matéria sobre a extinção de espécies, no qual eu era o personagem principal. Como a série de notícias fez sucesso, o Papagaio aumentou seu lucro e eu virei celebridade. Fiquei amigo da Professora Coruja, PhD em Meio Ambiente, e ao Curió Gogó de Ouro, maior compositor da floresta. Fiz algumas músicas em parceria com o Curió e fundei uma ONG em conjunto com Dra. Coruja – ela ficava com as pesquisas e os relatórios, eu com o marketing e grana. As músicas estouraram nas paradas mundiais de sucesso e as pesquisas valeram a Dra. Coruja um Prêmio Nobel. Passei a viajar para o exterior acompanhando os dois – divulgando ora as músicas, ora a minha ONG, mas sempre arrecadando dinheiro e prestígio. De vez em quando, mandava um furo de notícia para o amigo Papagaio. No exterior fiz amizade com o Sr. Esquilo, dono dos maiores bancos florestais da Europa e da América do Norte. Como eu o ajudei com algumas negociatas aqui ma América do Sul, comprando algumas empresas estatais a preço de banana, ele me apresentou a o rei Leão. Bem, sendo amigo do rei e de um banqueiro, eu não deixei de aproveitar. Conseguia alguns patrocínios para o Curió e a Professora Coruja, porém conseguia sempre que o Papagaio publicasse as notícias que interessasse para a popularidade do rei Leão (em troca do aumento da publicidade institucional do governo). Também facilitava que o Senhor Esquilo conseguisse algumas benesses do Estado, um contrato aqui, uma isenção lá. E informalmente eu agia com um embaixador para os interesses particulares do Leão. Bem, fui formando uma rede de amizades e favores tão sólida que no final das contas eu não precisava trabalhar duro e vivia como um barão da República. Viajei pelo mundo ora patrocinado pelo Erário Público, ora por empresários que precisassem de um favor especial. Tive todas fêmeas que eu quisesse para satisfazer o meu cio. Comi do bom e do melhor nos melhore e mais caros restaurantes do mundo. E por detrás do pano participei e lucrei nas maiores negociatas que ocorreu no mundo animal. Foi assim que vivi estes últimos vinte e cinco anos esta vida simples.

Intrigado com o que acabara de ouvir, a Anta perguntou ao seu amigo o que ele fazia então ali, naquele pedaço de mata esquecido por Deus.

— Vim aqui por dois motivos. Um, estava com saudades de rever o torrão natal. Queria rever os amigos, o que restou de minha terra, sentir um pouco deste ar que respirei na minha infância. Nasci aqui nestas Matas do Brasil, e além do jeitinho, aprendi também a ter Saudades. Gosto de ver os Jequitibás, os Jacarandás, o Pau-Ferro, o Pau-Brasil. Um ser não pode perder os laços que ligam a sua terra. E depois, eu queria mesmo falar contigo – já que você trabalha na burocracia daqui da Mata, poderia dar uma adiantada em um processo meu? Preciso de um carimbo num formulário para dar entrada no protocolo e garantir meu novo passaporte diplomático. Não se preocupe que eu sei lembrar bem dos amigos e posso garantir desde já uma promoção para sua carreira e uma vaga pro seu filho na Universidade dos Predadores.

MORAL da Fábula: Moral? Perguntem para Nietzsche e depois me contem…

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